8.8.20

Spaghetti western

o corpo ficou horas na rua, tapado com um lençol usado de flanela. as velhas, encavalitadas nos banquinhos de madeira, toda a tarde perscrutaram o horizonte. estranhamente, as moscas que antes devoravam a paciência, desapareceram. vieram lobos do asfalto de longe, trouxeram o barulho, mas não pararam. o cowboy trotou altivo e fingiu não ver. que patética figura. a verdadeira cega teve mede e escondeu-se, soube pelo odor o que para os outros ainda não era perceptível. eu chorei muito, solucei. passadas tantas horas ainda me dói a cabeça. mas, como de costume, mostrei que sou forte, quando a pancada me acerta, não caio. sou o farol de esperança da povoação. ninguém sabe que finjo. nem o coveiro percebeu. quase tombei dentro do buraco, ao empurrar o corpo. teria sido uma queda merecida, mas não havia espaço, nem tempo.
talvez ainda apareça a polícia, a pedir detalhes e causas da morte, se conhecíamos a vítima, qual a ligação, as tretas do costume. não têm dinheiro nem para encher o tanque do jipe, nunca avançariam para uma investigação. se vierem, será apenas para preencher papelada e mostrar serviço. as diligências necessárias para justificar a quantidade mágica de papel que se gasta no posto. o tio garantiu-me que só com mandado de busca podem entrar na propriedade, mas que venham, não me aflige, o corpo já descansa profundamente.