encantadora rata, a Josefina de Kafka, de sorriso insolente, pretensiosa, inflamada de raiva pela falta de reconhecimento, como qualquer artista que se preze, no limbo entre o mero assobio ou algo maior (assim é a arte, dizem)....
«É nessas escassas pausas entre batalhas que o povo sonha, é como se os membros de cada qual se soltassem, como se a ansiedade tivesse por uma vez direito a distender-se e esticar-se à vontade na cama grande e quente do povo. E nesse sonho ouve-se aqui e ali o som do assobio da Josefina; ela chama-lhe pérola, nós chamamos-lhe chumbo; mas de qualquer das formas, ele encontra aqui o seu lugar como em nenhum outro sítio, aqui encontra a música o momento que por ela esperava, e isto é raro acontecer. Há nisto qualquer coisa da nossa pobre e tão breve infância, de uma felicidade perdida que nunca poderá voltar a ser encontrada, mas há também qualquer coisa da vida activa, do dia a dia, da sua pequena, incompreensível e apesar disso subsistente e irreprimível alegria. E tudo isto é dito com sinceridade, sem grandes sons, antes com leveza, sussurrado, uma confidência por vezes um pouco rouca. Claro que é um assobio. Como poderia ser outra coisa? O assobio é a língua do nosso povo, só que há quem assobie a vida inteira sem o saber, enquanto que aqui o assobio está livre dos constrangimentos da vida quotidiana e pode também libertar-nos a nós por um breve momento. Assim sendo, é óbvio que não queríamos perder este espectáculo.»
/Josefina, a Cantora ou o Povo dos Ratos, de Kafka/
acompanhei a novela de Josefina ora no
Artista de bolso, ora no
Bestiário (confesso a minha predilecção por bestiários). na rua ou em casa, a rata de Kafka, a mesma que os três magníficos (Borges, Bioy e Ocampo) já tinham escolhido para figurar na sua
Antologia da Literatura Fantástica, acompanhou-me durante alguns dias na minha insossa vida de rato. no fim, foi-se a Josefina, ficou-me/nos, felizmente, (o) Kafka, que pouco tempo depois morreu de tuberculose laríngea |talvez daí
um artista da fome...|
__ o que ela ambiciona é então apenas o reconhecimento público da sua arte, um reconhecimento unânime, que perdure pelo tempo, que ultrapasse tudo o que até agora se conhece.