Mostrar mensagens com a etiqueta Herberto Helder. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Herberto Helder. Mostrar todas as mensagens

23.3.16


se eu tivesse dois ou três dentes de ouro

mordia-te o corpo todo se eu tivesse

mel e fósforo para tocá-lo

tocava-te no sexo

se eu cantasse num murmúrio quente cheio de êrros

chamava-te junto ao ouvido

se tivesse o teu nome escrito pelas unhas fora

pedia que me deixasses entrar mudo e selado

na alma e na memória

se me dissesses: beija-me onde queiras

onde quereria eu beijar-te

senão nas pálpebras e nos dedos e nos cabelos

se perguntasses: e onde vamos viver?

eu respondia: onde não sei o quê cheio de ar revôlto

mas se por exemplo eu tivesse um diamante

e o diamante desabrochasse

e esse diamante eu mesmo o pusesse

no meio do mundo

e o deixasse crescer até ser uma árvore

e se dormias debaixo dela eu despia-te

peça a peça a roupa quieta até

as minhas mãos serem tão íntimas que dormias

e acordavas nas minhas mãos

e eu tocava-te então na boca do corpo

por onde estremecias toda

e eu tocava a tua fundura que não acabava nunca

extremo a extremo a tua delicadeza extrema

e punha nela o selo

e punha o sêlo da minha boca e tu acordavas toda

e ficavas tocada toda todo o tempo

lá no cabo do mundo onde morávamos durante um momento


[Letra Aberta]
...
e não precisas de nada para te salvares do mundo:

apenas saltar o abismo
como uma criança que salta à corda de ar

[Letra Aberta]

24.2.16

A paixão é voraz, o silêncio
Alimenta-se
Fixamente de mel envenenado. E eu escrevo-te 
Toda
No cometa que te envolve as ancas como um beijo.

...

A doçura mata.
A luz salta às golfadas.
A terra é alta.

Tu és pó nó de sangue que me sufoca.

...


(a carta da paixão)


Matthieu Soudet

26.1.16

...

Imagino a delicadeza. A subtileza.
O toque quase aéreo, quase
aereamente brutal.
Ser tocado pelas vozes como ser ferido
pelos dedos, pelos rudes cravos
da planície.
Ser acordado, acordado.
Porque cantar é um subterrâneo.
Depois é um pátio.
Imagino que as vozes são escadas.
Vozes para atingir o canto.
O canto é o meu corpo purificado.

Porque o meu corpo tem uma sua morte
tocada incendiariamente.
A morte - diz o canto - é o amor enorme.
É enorme estar cego.
Canta o meu grande corpo cego.
Reluzir ao alto pelo silêncio dentro.
O silêncio canta alojado na morte.
Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar.

10.1.16

Passa no mundo a estranha ventania. Os mortos 
empurram os vivos. 
É o tumulto, 
o peso do espanto, as forças 
monstruosas e cegas. A pedra espera ainda 
dar flor, o som 
tem um peso, há almas embrionárias 
- Tudo isto se fez pelo lado de dentro 
tudo isto cresceu pelo lado de dentro.

29.12.15

Leslie Ann O’Dell





























Tocamo-nos todos como as árvores de uma floresta

no interior da terra. Somos

um reflexo dos mortos, o mundo

não é real. Para poder com isto e não morrer de espanto

— as palavras, palavras.



                                      A lua de coral sobe

no silêncio, por trás

da montanha em osso. É o silêncio.

O silêncio e o que se cria no silêncio.

E o que remexe no silêncio.

                                            É uma voz.

A morte.

24.12.15

Kylli Sparre




























Em cada mulher existe uma morte silenciosa. 

30.11.15

surgiu-me isto, enquanto limpava o gatil, repleto de fezes nauseabundas, pequenos rastilhos castanhos empilhados. no passado, enfastiavam-me as pessoas que, licenciadas - a torto ou a direito -, passavam a exigir o tratamento de dr. / dr.ª [*****]. continuam a dar-me uma certa pena, mas, como dizem, a idade não traz apenas cabelos brancos, felizmente, apazigua-nos certas irritações. o que agora me mói a paciência, quando não tenho mais nada em que pensar, são aqueles seres, politicamente correctos, que vão anuindo à conversa, que sim, senhor, que isso dos doutores é ridículo, é mesmo de quem tem problemas de auto-estima, e nos entretantos, deixam-se chamar por sr. doutor nos cafés, têm cartões bancários a condizer, nunca corrigem a telefonista e - eles próprios - afirmam que nos documentos é capaz de ser melhor acrescentar o maldito "apêndice", não vá alguém julgar que não acabámos o curso...
como vos disse, foi enquanto limpava merda de gato, muita merda de vários gatos, e de vários dias, colada ao chão como pastilha elástica, tão entranhada, que tive de me servir da escova e da lixívia várias vezes, para vos ser mais exacta, que esta questão me voltou à ideia. aos outros, que assumem abertamente a necessidade de se endoutorarem com uma licenciatura, tenho agora menos asco, rio-me apenas. destes, fujo a sete pés, estou cansada de esfregar.



*****
e não,
não um dr. mas mil drs. de um só reino,
e não se tem paciência para mandar tantas vezes à merda,
oh afastem de mim o reino,
afastem-nos a eles todos,
atirem-lhes aos focinhos o que puderem dela,
sim até se acabar a mirífica montanha,

HH

15.10.15

Tem-se medo do poder
da nudez,
A finura da carne: uma unhada
no coração:

Isaim Lozano

3.8.15

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
— no amor mais terrível do que a vida.
É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda a carne.

26.5.15

[queria oferecer-lhe as horas que havia roubado ao tempo. depois percebeu-lhe a liberdade, observando o horizonte, e decidiu deixar a morte avançar.]

um dia destes tenho o dia inteiro para morrer,
espero que não me doa,

24.5.15

Unknown





























Da dor sei o amor.

16.5.15

houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei
                 a encher umas quantas páginas do caderno
aconteceu também por vezes que o papel pareceu 
                                                       estremecer,
mas o mundo não: nunca senti que o mundo estremecesse
                                              sob as minhas palavras escritas,

[mas eu senti, hh, eu senti o meu mundo estremecer, quando as tuas palavras se escreveram em mim]

13.4.15

Pinta a terra no meu
corpo



25.3.15

a mim, nunca me morrerás, contigo comi poesia, senti-a no sexo, fiz dela corpo e grito, desde o chão estremeci. secretamente, gosto que poucos te leiam.

24.3.15

Unknown

é Deus que nos olha em cheio: dentro
regresso no dia em que o teu corpo abandona este mundo. continuas comigo.

29.1.15

Estremece-se às vezes desde o chão, escreveu-lhe no braço.