enquanto vou recolhendo as fardas secas do estendal, lembro a história de cada uma delas. são as mais antigas que mais me emocionam. de um tecido barato e reles, foram compradas numa dessas lojas de origem espanhola numa altura em que eu tinha pouco dinheiro, pouquíssimo, se quisermos ser mais apurados. não que a situação se tenha invertido o suficiente que desejo para a minha estabilidade financeira, mas, dentro das lojas de fast fashion, consegui subir um degrauzinho na qualidade. eu sabia que matar Vendredi me iria debilitar as posses económicas, as quais desde sempre defini como a base de sustentação da minha independência. mas, contrariamente aos que me julgam uma capitalista sanguinária, o dinheiro nunca foi o objectivo, antes a ferramenta. a farda velha, que ainda uso, sem que por isso me sinta constrangida, lembra-me do quanto lutei para chegar aqui de pé. felizmente, nunca me assustou não ter croissants, que adoro, o único receio é deixar de ter pão. enquanto isso, sobrevivo de cabeça mais limpa.
se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria
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1.11.18
31.12.17
2017
foi o ano em que matei Vendredi, uma rapariga feia de bom coração, frustrada, refém, como milhares, a um sistema podre, em constantes remoinhos de esterco. a morte de Vendredi, um tiro no escuro profundo, um salto longo fora da caixa onde se deixou empacotar por amor à arte, foi - e será sempre - um dos acontecimentos maiores da minha vida. não se mata alguém sem sentir a lâmina da navalha cravada ao que foi e ao que podia ter sido, mas principalmente ao que será. carrego um cadáver ainda, que não sei esconder.
foi também o ano em que perdi Sr. Gato, o Velho, que tentei manter vivo até à exaustão das suas forças - e como era forte o meu Gato. foi ele que pediu para o deixar partir, recusando toda a boa vontade, e eu chorei e cedi. depois, arrastei-me até onde repousa Malaquias, o grande cão preto, e cavei, debaixo de chuva, a pequena cova onde entreguei o seu corpo à terra. tombei então como uma criança e solucei em total abandono.
com a morte de Vendredi e do Sr. Gato, foi-se também uma boa parte de mim. não deixei de saber andar, mas piso ainda as ervas altas e os arbustos, de onde terei de fazer novos caminhos. estranhamente, ou não, é do Sr. Gato que mais me lembro, confesso que às vezes ainda o ouço miar. jamais voltei ao local onde conheci Vendredi.
1.11.17
será, espero, a última carta dirigida à Dr.ª Vendredi -- os Senhores Doutores mantêm o formalismo até com os defuntos; não me admiro: ninguém muda, no que à conduta diz respeito. pedem à pobre que se manifeste, desconhecendo do poiso de onde se empoleiram que a pobre morreu sem dar cavaco a ninguém. por respeito à amizade que nos uniu durante tantos anos, repletos de sonhos, planos, enganos e desenganos à paulada, decidi hoje - dia dos mortos - entregar a alma de Vendredi à paz que a pobre merece e responder aos Senhores Doutores:
Caríssimos,
Ilustres Senhores Doutores,
Ilustres Senhores Doutores,
Incapaz de alcançar a vossa magnificência, de entender a vossa sabedoria e, sobretudo, de servir às vossas necessidades e imitar a vossa postura, a Dr.ª Vendredi suicidou-se.
29.4.17
8.12.16
Melissa Honey é séria candidata ao lugar abandonado por Vendredi. não fosse aquela cicatriz profunda que me faz temer pela sua longevidade e catalogava-lhe já as propriedades. talvez Melissa Honey não seja a minha salvação, - porque há pessoas que nasceram para não serem salvas -, mas, por agora, espero apenas que se esforce na sua principal tarefa de me manter à superfície de mim.
23.9.16
paz à alma de Vendredi, cujo corpo apodrece no balanço suave das águas baixas da ribeira.
era desta forma, tranquilamente, zombando a putrefacção da pobre, que gostaria de ter iniciado o presente relato. mas não posso. não devo. Vendredi merece um final épico, talvez caída no poço de um elevador, no bairro do pica-pau, ou trucidada por um comboio da linha do cacém. ou, porque não, atacada pela navalha de algum agarrado, quando lhe resiste ao assalto à luz do dia. tudo se há-de passar na musgueira.
ou talvez Vendredi mereça uma morte mais nobre, coisa para um palacete em sintra, às mãos de um velho conde em ruina, quiçá, envenenada pela cozinheira ciumenta, nada e criada em Malveira da Serra, há sessenta e um anos. ou por um dos filhos bastardos do velho.
ou talvez nada e de Vendredi nem mais uma palavra.
12.8.16
encontro Vendredi, sozinha, agarrada aos papéis que mais ninguém quer. encolhida sobre o teclado, cabelo apanhado em carrapito, preso com o lápis nº 2. parece uma criança enfezada, a quem tem faltado o sol de agosto, faz demasiado tempo. aquele abandono, o rosto fechado, o ar de coitadinha, toda ela me dá raiva. decido sentar-me ao seu lado e importunar-lhe o fecho das contas, rebaixá-la ao chão de madeira. estás de reserva?, pergunto, em tons de gozo, mas ela não muda de jeitos. finge que não me vê. é isso que tu és, Vendredi, a mulher que fica de reserva? estala os dedos, um a um, lentamente, mas continua calada, de olhar fixo no ecrã. mais um pouco e fá-la-ia chorar, quem sabe, magoar-se com o bico da lapiseira, pequenas picadas de sangue, que depois levaria à boca, provando da sua humilhação. Vendredi, minha pobre idiota, tenho pena de ti.
10.8.16
desta vez mandaram um verdadeiro pintas, desses do músculo esculpido na manga da camisola, com tatuagem a combinar. o homem do costume estará de férias, resta o jovem pavão, de andar trabalhado, dirigindo-se, devagar, à sala das máquinas. Joaninha, a estagiária, desliza sem modos na cadeira, imaginou-se montada naquela sela, confidenciou-me mais tarde, D. Alzira, que se diz sequinha desde que a força da juventude se foi, coça as mamas em desalinho, e Marquinhos, o boy de serviço, descarado, suspira alto, desmembrava-o inteiro!
para o crime do "encravamento", suspeito agora das três personagens.
chega-me ainda vermelha, conheço-lhe de cor a timidez das bochechas. não resiste à partilha, que só comigo faz. o rapaz, um jovem de tão longe, acabou de lhe dizer, em português envergonhado, que ela era uma das melhores mulheres do mundo que ele já tinha encontrado. e tantos obrigados e ela a rir, dos nervos, que nunca sabe como lidar com momentos assim, ora essa, ora essa, mas que exagero. até lhe pediu uma fotografia... ai jesus, que seja, mas só uma, e juntos, que ela sozinha, era arrojo em demasia.
meto-me com ela, olha lá, isso não será para o moço ter companhia à noite, ou material para os serviços secretos?... não me responde, mas o sorriso desaparece-lhe de cara, pensando bem, é o mais certo.
8.8.16
hei-de matar a Vendredi, dar-lhe o eterno descanso que a pobre, há muito, merece. há-de ser uma morte meticulosa, de punhal sabiamente empunhado, que nem um ai soltará, ante o suspiro final.
mas por agora, é deixá-la assumir o que lhe foi imposto e pedir a todos os deuses que se aguente de pé nos próximos tempos.
carece de mim, a pequena, e não será agora que lhe hei-de faltar.
mas por agora, é deixá-la assumir o que lhe foi imposto e pedir a todos os deuses que se aguente de pé nos próximos tempos.
carece de mim, a pequena, e não será agora que lhe hei-de faltar.
29.7.16
cola-se a raiva às pernas suadas, às cuecas, ao vestido; o cheiro intenso do sexo, os pés descalços, pousados no chão sujo de madeira. cola-se a raiva ao teclado do telefone, as palavras que lhe pediram que dissesse, como se da boca dela não custassem a sair. cola-se a raiva aos olhos.
no último dia útil de julho, Vendredi dispensa colaboradores.
/sim, hoje é o dia da Vendredi.../
/sim, hoje é o dia da Vendredi.../
23.6.16
17.6.16
Vendredi é mulher que esconde a alma e a cona no mesmo lugar. postiça, sem gosto, sem sal, discreta por inerência, só desperta tesão aos aleijados da vida. há o trolha punheteiro, acimentando o chão do acesso, que, de cada vez que ela passa, grunhe que lhe esfodaçava as bordas todas; o segurança que faz as noites de sexta-feira, negro como um tição, de carnes a bandear; e o sr. engenheiro, de precoce ejaculação, que a cumprimenta sempre com um beijinho, queixando-se da humidade da mão.
sinto, de igual maneira, tanto de pena, quanto de repulsa, pela Vendredi que hoje se apresenta. sem cor, mal humorada, azeda como a mulher que sempre perde, continuamente angustiada. não gosto do seu comportamento amador, às vezes grosseiro, aquele jeito nervoso que irrita. ela sabe-o e evita olhar-me, concentrando-se no ecrã do computador. não houvesse gente à vista e já a teria encostado à parede, esbofeteando-lhe o rosto imbecil, até que as lágrimas lhe rebentassem em catadupa. de quatro, no chão, mãos postas na gaveta do arquivo, o corpo despido até joelhos - seria vergastada como uma garota mimada, aquilo que sempre foi. a pele ardendo em vermelho-escuro, a dor aguda escoando-lhe pela boca. gozo, imaginando o festim.
cinzento-neutro-nada, Vendredi não se revolta, é mansa como um triste cão capado.
8.6.16
e foi naquela milésima de segundo, sobrepondo-se a todo o fastio, que lhe chega a irritação. ligue-me até às 15h, depois vou para a piscina!
com certeza, Sr. Palerma, mas é que nem ouse duvidar. - dito isto, amarrotou o post-it amarelo e atirou-o ao lixo. não é ao favor pedido feito ordem que Vendredi se recusa, mas não será um bardamerdas /em situação irregular/ a lembrar-lhe que há vida da boa, para lá destas grossas paredes.
4.6.16
Tolerância à intolerância, é isso que estes anémonas me pedem! Encéfalos de cimento!, gritou, crispada, Vendredi. dói-me a cabeça, dói-me no fundo das costelas, é sábado, tenho espinhos para engolir, não preciso agora da Vendredi aos berros, imaginando-se em algum palanque das nações unidas.
peço-lhe que se sente, que se acalme, que a vida é curta e de nada lhe vale a arrelia. sente-se picada com a minha condescendência melanina, gira o torso de rompante, estende-me os papeis que traz na mão e sai porta fora. reconheço de imediato os documentos, observo as fotografias... chador, chador, hijab, hijab, hijab, descoberta, hijab, hijab, descoberta, chador, hijab. percebo então onde Vendredi quer chegar, sei cada palavra que lhe atormenta aquela alma enjeitada. não falará da situação com mais ninguém, Esta gente confunde bom-senso com discriminação, mas só para o que lhes convém! o que Vendredi não sabe, nem pode saber, é que eu decidi - em acordo unilateral, com maioria garantida - ignorar a realidade do mundo, desviando-me do seu eixo gravitacional, deixando a coisa acontecer.
3.6.16
vejo-a sozinha no gabinete e não resisto a entrar. apetece-me importuná-la, magoá-la, fazê-la chorar. absorta nos pagamentos, faz de conta que não me vê. primeiro paga a edp, depois a água que ainda está na validade - a factura mais antiga terá de ser paga in loco na tesouraria -, e por fim, aquilo lá da boa vontade. Vendredi parece-me cansada, não tem medrado que se veja, uma mulher sem luz. sento-me numa cadeira um pouco afastada, quero meter-me com ela, mas posso aguardar.
não sendo bonita, também não é feia, talvez com alguma dedicação e dinheiro, se pudesse fazer dela uma lambe-papeis exemplar, dessas dos óculos de massa preta e os tailleur chanel, como convém. noto-lhe as pernas cerradas, aposto que está à rasca para ir à casa de banho. não contenho a gargalhada. nem um músculo se lhe contrai, finge que não existo. vai mijar, mulher de deus!, grito-lhe eu, sem mais paciência, pareces uma aleijadinha! e é então que se vira para mim, - os olhos a faiscar, lembrando bestas encurraladas - e cospe com raiva, vai-te foder!
não se lhe pode levar a mal pela franqueza. e o ar dramático assentou-lhe lindamente.
pus-me no ir.
25.5.16
Vendredi telefona-me do gabinete, para saber se venho na sexta-feira. ela, já se sabe, por lá estará, a postos, para arrumar, de vez! - afirma, peremptória, o ambiente de trabalho e pôr a papelada toda em dia. dos emails, tratará em casa, amanhã, que não os pode deixar acumular, ou perde o fio à meada. e vida própria, Vendredi, p'ra quando?, brinco eu. ri-se, tristinha, um riso meio apagado, antes de responder, sabe... a vida de uma pessoa não é o que lhe acontece, mas aquilo de que se recorda e a maneira como o recorda.... ...ando a ler García Marquez, deixa-se dizer.
digo-lhe que sim, que também concordo, e debitamos mais uma ou duas frases, as dos votos habituais, até que a chamada se desliga. as palavras ainda me ecoam na cabeça. será, Vendredi? ouço-me perguntar, no vazio da sala. lembro-me então que me esqueci de lhe dizer, sexta-feira, Vendredi, também eu cá estarei!
se tudo correr bem e as palavras de Vendredi forem oráculo, recordando, feliz, o dia anterior.
se tudo correr bem e as palavras de Vendredi forem oráculo, recordando, feliz, o dia anterior.
13.5.16
27.4.16
Vendredi viu as coisas lá das pessoas famosas dos blogs, enquanto uma das colegas mastigava fastidiosamente a sandes do almoço e chupava o sumol de laranja pela palhinha. Vendredi, que não é web-designer, e também não é decoradora de interiores, muito menos uma pessoa famosa dos blogs, mas apenas e tão só uma secretária fraquinha, esforça-se para entender as tontarias que essas pessoas famosas dos blogs fazem, quando querem muito, mesmo, mesmo muito, publicitar lagartixa por jacaré. observa, deleitada, as florzinhas coloridas, a posição dos monitores, a incidência da luz solar, e, sim senhoras, muito bem pensado, ao mais ínfimo detalhe. vê-se que a coisa só pode correr bem.
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