Mostrar mensagens com a etiqueta a morte. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta a morte. Mostrar todas as mensagens

29.10.18

Sophia continua de cara fechada, justificando-se com a constipação que lhe ataca especialmente o nariz. sei que não será apenas isso, mas aceito a fuga. gosto de Sophia talvez como se gosta de uma irmã mais nova, falta-me às vezes a paciência para o seu mau-humor, mas continuo presente, por vontade, na sua vida escassa de contacto social. durante muito tempo, revia-me em Sophia, no seu comportamento destrutivo, na sua busca desesperada por afecto. a falta de um pai transformou-nos em mulheres amargas. a diferença entre nós, sei-o agora, é que aos mortos tudo se perdoa mais depressa.

25.2.18

não posso culpar Paul por me ter levado a Anna Blume, ambas procuramos William.

2.1.18

na segunda noite do novo ano, depois de uma longa insónia, sonhei com a guerra nuclear e o fim do mundo. a explosão gigante a cegar-me os olhos, lá ao fundo, no horizonte, eu a fugir com as cadelas, entre centenas de pessoas, por um carreiro íngreme, em precipício, nas montanhas. o medo de deixar cair os animais e a pressa de chegar a algum lugar seguro - não sei para onde caminhava - misturavam-se no meu sonho. antes de acordar, lembro apenas a onda de luz que nos cobriu a todos.
acordei sem grande alívio, taciturna, lendo no sonho uma visão - pensamento que me atormenta há dias -, se a matemática da morte se mantiver na minha vida, este será o ano em que perderei alguém muito próximo.

26.11.17

Há noites em que ainda acordo com o som da madeira do armário a crepitar, a roupa em labaredas, os livros da biblioteca. Estou dentro de um mar de chamas, enfeitiçada, o fogo circundando-me, e não consigo gritar. 

25.11.17

Quando finalmente deixou o corpo afundar-se na água quente, os braços já não lhe doíam do peso da terra cavada à força.

5.11.17

regresso a casa, mãos dadas com Gógol, e encontro Velho, o gato, pela primeira vez desde que nos conhecemos, recusando-se a comer, prostrado, urinando-se na cama. neste círculo natural da vida, sei que mais tarde hei-de acreditar de que lhe dei uma boa segunda vida e a melhor velhice que pude, mas por agora, que assisto à decadência do corpo magro do meu querido gato, fico à mercê desta sombra pesada que me nasce por dentro, envolta na mortalha da morte.  

19.10.17

não chores em frente ao teu pai, minha filha.

lembrei-me delas hoje, quando vi a rapariga lavada em lágrimas, sozinha no corredor, tentando esconder-se entre o branco das paredes e o cinzento do chão. a dor de uma morte anunciada.

31.5.17

escolheu a tua casa para morrer, agoira a velha em voz baixa, toda vestida de preto, enquanto embrulho a coruja das torres numa toalha branca. de madrugada, a ave, um exemplar adulto magnífico, de penugem suave, embateu violentamente numa das portas de vidro do quarto. estava condenada, penso -- quero acreditar. taeko ter-lhe-á dado, talvez, o golpe final, mas não vejo sangue. abro mais os olhos, o pequeno diabo aloja-se nas pálpebras, aproveitando a cadência lenta da estrada secundária, que parece nunca mais ter fim. coruja, agora eu, se embater, quem me recolherá o corpo à mortalha?

20.5.17

do meu irmão morto, nunca mais tive notícias. não voltei ao subterrâneo das almas penadas, onde as mais tristes, deambulantes em claustros aquosos, me convenciam de que ele tinha desaparecido para sempre. eu enterrava os pés na lama fria, a palha cheia de merda, aqui e além, a fingir-se melhor caminho, e continuava a gritar pelo seu nome, enquanto elas corriam assustadas, tropeçando umas nas outras. por fim, fui expulsa do purgatório e devolvida à elipse terrena. perdi-o para sempre, quando ensurdeci.

“porque no fim se calam
as asas das borboletas, o irmão e as
          andorinhas
e é a minha vez de falar”


8.4.17

vi-o descer, sete palmos abaixo da terra, no dia em que não chorei. hoje, enquanto comia as folhas de alface, tão tristes, senti-lhe o riso de escárnio junto à orelha. agora paga-se para comer erva?, perguntou-me meu pai morto.

que queres que te diga, se não sei olhar a vida de outra maneira? falta-me a doçura de quem sonha com o amanhã. um navio encalhado no rio nunca trará os peixes do mar.

3.3.17

a frase, como muitas outras, apareceu-me sem avisar: todos os dias tristes, são dias de chuva; mas não, hoje não vi nenhum caixão descer à terra escura, sete palmos abaixo, onde, antes do pó, somos larvas gordas e brancas rapando a carne dos próprios ossos. hoje vejo apenas um lugar vazio, mas ninguém morreu. 

6.1.17

vejo-os, desde ontem, curvados, podando as vides e lembrei-me do meu avô. mas a memória foi cruel e trouxe-me não o homem soberbo, mas o velho magro, sofrendo durante semanas na cama do hospital. fecunda nessa imagem, veio a do meu pai, em igual sofrimento, morrendo num outro hospital. e finalmente, como que num trio divino, a dúvida quanto ao sofrimento do meu irmão. terá sofrido? terá tido tempo para ter medo? e eu, terei medo da minha morte, se a vir a chegar?

19.12.16

num final de tarde de dezembro, o frio da montanha galopando no vazio dos raios de sol, a mãe manda-os ajoelhar de frente para a campa de mármore. nenhum se atreve a falar. sem saber porquê, sobe um pouco a saia de fazenda e pousa os joelhos nus rente à pedra irregular. devagar, esfrega-os, procurando as pequenas arestas aguçadas, para que a pele se rasgue. a dor, fina, ataca-lhe o corpo, obrigando-a a trincar os lábios por dentro. as lágrimas mantêm-se no limbo dos olhos grandes. está sozinha, os outros nada vêem, rezam alto um pai-nosso. 

5.11.16

“Como não tive filhos, o que de mais importante me aconteceu na vida foram os meus mortos, e com isto refiro-me à morte dos meus entes queridos.”

Rosa Montero, A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te





|fico aqui, sentada nesta puta desta cadeira, dura e feia, relendo as palavras que nunca escrevi, mas sinto como minhas. às vezes, acontece-nos assim.|

1.11.16

rezei pelos meus mortos no velho pomar, trincando uma maçã amarela. no final, atirei o caroço à terra e guardei novamente as memórias.

22.10.16

Durante quinze, vinte, mais minutos, esqueço o que vejo. Concentro-me só no quadro onde vão sendo anotados números, o giz a raspar a ardósia e a manchar-se de vermelho. Altura: 1.64m. Peso: 80 Kg. Cérebro: 1250 gramas. Coração: 400. Pulmão esquerdo: 730. Pulmão direito: 650. Fígado: 500. Pâncreas: 100. Baço: 140.

Penso só que nunca saberei quais são os meus valores. Que não vou querer que ninguém os conheça por mim. Vou ser cremado. Melhor, incinerado. Isto, se não morrer de morte violenta e não me trouxerem à força para uma sala destas. À força. Sorrio. Antes de o assistente fazer uma incisão na parte de trás da cabeça, de orelha a orelha, e de levantar a pele como uma máscara e de a poisar sobre ele, o rosto deste homem era a imagem da impassibilidade. Parecia morto não de há dois dias, mas há anos, há séculos, desde sempre. Parecia já ter nascido assim: morto.

(...)


Até pegar a sério no bisturi, vivi durante um ano a exaltação da carne. Construi teses sobre a macroscopia da alma e a microscopia da textura dos tecidos. Passei a comer bifes mal passados. Comprei um coelho no mercado só para o dissecar no lavatório da casa de banho e depois me habituar ao cheiro da sua decomposição. Colei na parte interior das portas do guarda-fatos as imagens mais macabras dos manuais de Tanatologia. Passeei com as namoradas no cemitério e fui discursando sobre a paz dos mortos. Fui um perfeito idiota aterrorizado com a chegada do meu confronto com a morte.

Com o tempo, deixei-me disso. A carne tornou-se banal. A minha e a dos corpos. E nessa banalidade habituei-me a distinguir com as pinças da ciência as marcas do desvio, da anormalidade, da falha. Hoje, olho para os meus mortos como mortos. É só. E olho o meu corpo como um caminho que se estreita até eles. Cada vez mais. Devagarinho. Ao ritmo do relógio que, em cima da cama, me embala os sonhos. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. A vida a esvair-se em compassos binários.

Se me disserem que um dos meus mortos já teve uma vida antes, eu respondo que só me interessa aquela que ainda encontro quando o abro. Uma vida que não dura mais de três horas de cortes e sangue. Com poucas personagens e desfecho rápido. Morreu. Mataram-no.

É verdade que com cada corpo que me passa pelas mãos tenho uma conversa diferente. Não há duas histórias iguais. Tal como não existem duas ramificações sanguíneas semelhantes. Ou dois cérebros. Ou dois corações. Ou dois sexos. Mas a uni-los descubro sempre a fina membrana que separa a fragilidade dos corpos da brutalidade dos sentimentos. Morremos todos de excesso ou de falta de amor. E morremos sozinhos, de regresso à nossa odiosa singularidade.

Morremos todos do coração, acreditem.


/Este é o meu corpo, Filipa Melo/

11.6.16

uma morte simples, talvez caída numa vereda de musgo, batendo com a cabeça na pedra fresca. humificando à sobra das árvores avós, como era de sua vontade. 
a casa haveria de ficar arrumada, a cama feita, com lençóis lavados. os livros seriam oferecidos a quem provasse ser louco de bom coração. D. Maria trataria da bicharada até que o último se fosse. amor, se o teve, iria consigo, dentro do peito.
sem missas, nem almas veladas. sem penas, piedades ou cortejo fúnebre pela aldeia. tão simples como uma brisa ligeira.

31.5.16

no momento em que o caixão desceu à terra, os homens nivelando as duas cordas, o barulho seco dos torrões batendo na madeira, a mulher sentiu a derradeira punhalada e gritou. tanto, que as falsas carpideiras emudeceram e a seguraram à vida pelos braços.

30.5.16

a mãe disse-me que escolhesse o que quisesse, o resto seria encaixotado e entregue na igreja, e eu procurei uma t-shirt que ainda guardasse o teu cheiro. fiquei com aquela preta, dos iron maiden, já com uns buraquinhos, que estava para lavar.
a mãe foi tão corajosa.
depois desse dia, nunca mais me esqueci, nem te voltei a chamar da cozinha.

3.4.16





Onde estás, meu pai?

No coração da terra, nos troncos das árvores, no zângão que zumbe e na nuvem que passa. Da minha carne, milhões de animais rastejam pela floresta. Em breve serão húmus, erva ou caruma, um pequeno musaranho ou uma libelinha do rio, grito de ave em esplendor. Pó, cinza, lôdo, lama, névoa e tempestade. O raio e o trovão. Sou a pedra quieta, o instante em que tremes, o jeito da tua mão. Olha dentro de ti.

Estás morto.