Entre mi amor y yo han de levantarse
trescientas noches como trescientas paredes
y el mar será una magia entre nosotros.
se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria
22.12.14
21.12.14
19.12.14
17.12.14
16.12.14
15.12.14
deitou-se sob o trapézio de Orion, o caçador, escondendo o rosto dorido. o vento raivoso do mar ali tão perto, tinha-lhe esbofeteado a face sem rodeios, durante todo o dia. disfarçava as lágrimas, cerrando os dentes, ainda que não houvesse ninguém por perto que lhe pudesse ver o pranto. apenas Salomão, o seu melhor amigo, e Abenjacan, que do alto do castanheiro, vigiava o acampamento.
14.12.14
13.12.14
acendeu a fogueira a custo, os pequenos ramos que conseguiu apanhar estavam molhados e as mãos tremiam-lhe de frio. Salomão, ali perto, fuçava os silvados em busca de amoras maduras. andava presa no labirinto de Borges há quase dois anos, não se lembrava ao certo, porque amor como aquele não guarda hora de começo nem fim, transcende o calendário romano. nos últimos tempos, juntamente com o passo arrastado de Salomão, sentia que o labirinto se estreitava a jeito, para que lhe fosse mais difícil decifrar os caminhos. Borges fugia-lhe, ainda que às vezes lhe soprasse os mesmos beijos de outrora.
12.12.14
Ulrica passou a manhã perdida na vastidão do deserto, as areias geladas fustigando-lhe as mãos atentas às rédeas de Salomão. Abenjacan, o falcão, voou por duas vezes, levando na pata direita parte do coração inquieto de Ulrica, mas os ventos do norte obrigaram-no a retornar, sem alcançar a entrega. de Borges, hoje, nem sinal.
11.12.14
o corpo arde-lhe agora, numa indecência transfigurada. inspira e expira de forma dolente, olhos semicerrados, imaginado-se num coito iminente. Borges diz-lhe, numa pequena mensagem telegrafada, que se pudesse a trespassaria com a sua espada. tarde demais. rangem-lhe os dentes, no momento em que sobe para o assento da velha berlinda, que, pelas armas reais pintadas, acredita ter sido de D. Maria I, a rainha. é com ela que corre o mundo, procurando Borges, o seu amor, no seu labirinto de silêncios e maresias enroladas em luz. hoje, rejeitada mais uma vez pelo infortúnio do destino, decide virar-lhe as costas. o desejo desliza-lhe pelas costas, em gotas salgadas, o sexo, túmido, apressa-lhe as chicotadas na garupa do pobre Salomão.
7.12.14
6.12.14
5.12.14
3.12.14
FIVE O'CLOCK TEAR
Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos pousados no deserto dos joelhos
com seus olhos voando devagar sobre a mesa
para pousar no talher
Coisa mais triste o seu vaivém macio
p'ra não amachucar uma invisível flora
que cresce na penumbra
dos velhos corredores desta casa onde mora
Que triste o seu entrar de novo nesta sala
que triste a sua chávena
e o gesto de pegá-la
E que triste e que triste a cadeira amarela
de onde se ergue um sossego um sossego infinito
que é apenas de vê-la
e por isso esquisito
E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
o álbum a mesinha as manchas dos retratos
E que infinitamente triste triste
o selo do silêncio
do silêncio colado ao papel das paredes
da sala digo cela
em que comigo a vedes
Mas que infinitamente ainda mais triste triste
a chávena pousada
e o olhar confortando uma flor já esquecida
do sol
do ar
lá de fora
(da vida)
numa jarra parada
Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos pousados no deserto dos joelhos
com seus olhos voando devagar sobre a mesa
para pousar no talher
Coisa mais triste o seu vaivém macio
p'ra não amachucar uma invisível flora
que cresce na penumbra
dos velhos corredores desta casa onde mora
Que triste o seu entrar de novo nesta sala
que triste a sua chávena
e o gesto de pegá-la
E que triste e que triste a cadeira amarela
de onde se ergue um sossego um sossego infinito
que é apenas de vê-la
e por isso esquisito
E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
o álbum a mesinha as manchas dos retratos
E que infinitamente triste triste
o selo do silêncio
do silêncio colado ao papel das paredes
da sala digo cela
em que comigo a vedes
Mas que infinitamente ainda mais triste triste
a chávena pousada
e o olhar confortando uma flor já esquecida
do sol
do ar
lá de fora
(da vida)
numa jarra parada
2.12.14
30.11.14
27.11.14
CÓLERA
Comigo, a cólera não surge de repente. Por rápido que seja o seu nascimento, ela é precedida por uma grande felicidade, sempre, que se manifesta fremente.
É soprada de repente, e a cólera começa a ruminar.
Tudo em mim assume o seu posto de combate, e os meus músculos, que querem intervir, até doem.
Mas não há qualquer inimigo. Se houvesse, ficaria aliviado. Mas os inimigos que tenho não são corpos em quem bater, pois o corpo falta-lhes totalmente.
Todavia, passado certo tempo, a minha cólera cede... por cansaço talvez, pois a cólera é um equilíbrio muito difícil de manter... Há também a inegável satisfação de ter trabalhado, e ainda a ilusão de que os inimigos fugiram, renunciando ao combate.
26.11.14
falou-me com duas pedras na mão
eu atirei-lhas de volta
por pouco não lhe rachei a cabeça
parti o vidro duma montra
ficou parecida com uma teia de aranha
chovesse, então, era uma maravilha
veio um polícia e levou-me
bem lhe expliquei a situação
visivelmente não compreendeu
que uma metáfora por vezes
tem consequências pouco legais
multou-me e aconselhou-me
a não reincidir
coisa que fiz logo de seguida
eu atirei-lhas de volta
por pouco não lhe rachei a cabeça
parti o vidro duma montra
ficou parecida com uma teia de aranha
chovesse, então, era uma maravilha
veio um polícia e levou-me
bem lhe expliquei a situação
visivelmente não compreendeu
que uma metáfora por vezes
tem consequências pouco legais
multou-me e aconselhou-me
a não reincidir
coisa que fiz logo de seguida
23.11.14
20.11.14
19.11.14
17.11.14
16.11.14
já penélope não sou
nem ulisses regressa
mudo de nome noite
a noite ao sabor da saliva
dos meus amantes
de dia troco lençóis
coso bainhas
descanso os olhos
dantes tecia para
enganar a corte que
me servia de prisão
agora chamo-me eu
não tenho estado civil e
na cela que me tem cativa
tornei-me finalmente livre
nem ulisses regressa
mudo de nome noite
a noite ao sabor da saliva
dos meus amantes
de dia troco lençóis
coso bainhas
descanso os olhos
dantes tecia para
enganar a corte que
me servia de prisão
agora chamo-me eu
não tenho estado civil e
na cela que me tem cativa
tornei-me finalmente livre
14.11.14
13.11.14
12.11.14
11.11.14
assalta-me a ideia de que a vida é um acto em momento/movimento e eu já não faço parte dela. olho-me ao espelho e só vejo solidão, cinza disperso, boca disforme, vozes murmúrio que ficaram presas à memória. percorro mais uma vez a casa que foi nossa, a cama onde nos deitámos, não estás, a chuva recomeça.
Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.
Vão-se as minhas perguntas aos depósitos do nada.
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