21.1.15

Quem escreve quer morrer, quer renascer 

num ébrio barco de calma confiança. 

Quem escreve quer dormir em ombros matinais 

e na boca das coisas ser lágrima animal 

ou o sorriso da árvore. Quem escreve 

quer ser terra sobre terra, solidão 

adorada, resplandecente, odor de morte 

e o rumor do sol, a sede da serpente, 

o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho, 

o negro meio-dia sobre os olhos. 
a faca nunca cortará o fogo.


18.1.15

Adara Sánchez Anguiano

Always where you are
My touch to love you looks into your eyes

17.1.15

enquanto Atlas repousa junto à lareira da sua longa cicatriz, futuro ainda sob reserva, Ulrica ouve a chuva bater nas vidraças. Abenjacan voltou há pouco, de Borges nada.

16.1.15

Nobuyoshi Araki

15.1.15

Atlas, a cadela, escolhida por Odin para proteger Ulrica, foi atingida pela fúria de Hela. Ulrica amaldiçoa o destino, cinza opaca que lhe cobre a vida. amanhã mesmo, irá ao templo e suplicará a Iduna uma maçã sagrada, fatiada a sabre e envolvida num poema de vitória e superação. amanhã, o dia em que Borges estaria tão perto, será afinal para tentar salvar Atlas, a fiel companheira. 
Alex Cornell

14.1.15

primeiro destroem em seu interesse,
de seguida fazem-nos o favor,
enquanto nos limitam às necessidades mais básicas,
imundice humana.
depois sorriem,
abrem a braguilha 
enterram-se na esperança vaga que ainda pulsa,
à força,
rasgam-nos,
violam-nos até ao âmago
a razão de existir.

somos a sua trupe infinita.













12.1.15

olhamo‑nos,
dizemo‑nos algo sombrio,
amamo‑nos como papoila e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no jorro‑sangue da Lua.
Agora o silêncio
torce-se em meus nervos

Penelope Gotlieb



11.1.15

No fim da história eles ficam juntos. É isso que está escrito bem no topo da página, no começo do texto. Que ficam juntos. Ainda que, e isso vem logo em seguida, ainda na verdade este ficar junto signifique que tenham que ficar muito sozinhos. Antes e rotineiramente. E ainda tem mais, é preciso dizer. Juntos são infelizes.

[continua aqui]

10.1.15

  Com a precaução de quem tem flores fechadas no peito passeei de noite 
pela casa. Um fantasma forçou uma porta atrás de mim. Gemendo como um 
animal estrangulado acordei-te. 

     Enterro o meu terror como um alfange na terra. Porque é preciso ter 
medo bastante para correr bastante toda a casa celebrar bastantes missas negras 
atravessar bastante todas as ruas com demónios privados nas esquinas. 

     Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da ideia que me 
impus da morte. 
    És tu tão único como a noite é um astro. 
Deito-me cedo contigo o meu sono é leve para a liberdade   acordas-
-me só de pensares nela. As casas e os bichos apoiam-se em ti. Não fujas não 
te mexas: vou fixar-te para sempre nessa posição. 

 Qual de nós os dois "quero-Te" gritou? 

8.1.15

Little Bird 

dias negros.
o único muro intransponível é o que colocamos à nossa volta.

7.1.15

Carnal knowledge. It’s what lovers trust each other with. Knowledge of each other, not of the flesh but through the flesh, knowledge of self, the real him, the real her, in extremis, the mask slipped from the face. Every other version of oneself is on offer to the public. We share our vivacity, grief, sulks, anger, joy… we hand it out to anybody who happens to be standing around, to friends and family with a momentary sense of indecency perhaps, to strangers without hesitation. Our lovers share us with the passing trade. But in pairs we insist that we give ourselves to each other. What selves? What’s left? What else is there that hasn’t been dealt out like a deck of cards? Carnal knowledge. Personal, final, uncompromised. Knowing, being known. 

6.1.15

Não existir 

Se o digo acendo os filamentos 
desta nocturna lâmpada 

5.1.15

3.1.15

blue with a little red.




























2.1.15

pulsão de morte


Zdzislaw Beksinski

é urgente matar os corvos de Odin, vazando o coração, forçando-o a secar.

Evelyn Bencicova

1.1.15

e as criaturas do ar e da terra vieram e ordenaram o silêncio. Ulrica, a última valquíria da casa de Odin, cumpriu.

Dino Valls
























Dormi contigo toda a noite 
junto ao mar, na ilha. 
voltaremos a nascer com os mesmos corações ou estaremos condenados a nunca mais nos encontrarmos?

31.12.14

do alto da janela, pouco mais vê do que um nevoeiro denso, que, aqui e ali, parece ser habitado por sombras negras que deslizam rente ao chão. com a navalha, herança do avô Alberto, vai cravando na tábua de castanheiro, as resoluções para o novo ano.

30.12.14

Vamos onde nos levarem
as ligeiras tremuras
que nos inclinam.

Aquilo a que vamos chamando o futuro.

29.12.14

não há frio mais frio do que o frio da ausência.
daqui

28.12.14

os sonhos que tive, tive-os
já ninguém mos tira
não deram em nada, é certo, mas
esse era o seu destino mais provável
eram lindos, se são
ainda hoje pasma-se-me o corpo de dó
perante tanta aflição

ainda hoje ainda agora ainda já

25.12.14

No es que crea, no creo, si inclinado 
sobre mis manos te sentí divino, 
y me embriagué. Comprendo que este vino 
no es para mí, mas juega y rueda el dado. 

Yo soy esa mujer que vive alerta, 
tú el tremendo varón que se despierta 
en un torrente que se ensancha en río, 

y más se encrespa mientras corre y poda. 
Ah, me resisto, más me tiene toda, 
tú, que nunca serás del todo mío.
Sandra Kantanen

Somos a grande ilha do silêncio de deus 

23.12.14

sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.
Ulrica decidiu passar as festas natalícias longe de tudo e de todos, numa hospedaria de paradeiro incerto. nos estábulos quentes e de manjedoura forrada, Salomão agradece. no seu quarto, de janela voltada a sul, vista para o regato que corre, afastado da lareira que crepita, Abenjacan mantém a vigia. sabe que o coração de Ulrica sangra em segredo. nada voltará a ser igual.

22.12.14

Entre mi amor y yo han de levantarse 
trescientas noches como trescientas paredes 
y el mar será una magia entre nosotros. 

17.12.14

Movement. True movement (without sequences or steps) is only found in the real world. Movement within a visual composition is only a representation of movement.

[Visual Grammar]
Gaea Woods

15.12.14

É agora - na pura ausência das coisas
e a madrugada por abrir. Um palco
a lua. Eu observada de fora da
janela.
deitou-se sob o trapézio de Orion, o caçador, escondendo o rosto dorido. o vento raivoso do mar ali tão perto, tinha-lhe esbofeteado a face sem rodeios, durante todo o dia. disfarçava as lágrimas, cerrando os dentes, ainda que não houvesse ninguém por perto que lhe pudesse ver o pranto. apenas Salomão, o seu melhor amigo, e Abenjacan,  que do alto do castanheiro, vigiava o acampamento.

14.12.14

lembrou-se da mulher que um dia pariu alguns pedaços de vidro das costas das mãos. a mulher não chorou, - nunca chorava -, mas ela guardou o dia na memória. sempre que parte um copo, o maior medo não é o do golpe, mas que o vidro se lhe escape dentro da carne e se aninhe dentro de si.
mulheres como nós, nasceram para olhar os pinhais nos montes, à luz da lua. nasceram para viver o negro, sofrer, amarradas a uma força maior. não tenhas medo, os lobos uivam aos céus, não te farão mal. a terra é a tua casa. a dor a tua condição.
pus a mão na boca para
amordaçar a dor, mas
era tão mais forte que
mesmo a mão gritou.

13.12.14

acendeu a fogueira a custo, os pequenos ramos que conseguiu apanhar estavam molhados e as mãos tremiam-lhe de frio. Salomão, ali perto, fuçava os silvados em busca de amoras maduras. andava presa no labirinto de Borges há quase dois anos, não se lembrava ao certo, porque amor como aquele não guarda hora de começo nem fim, transcende o calendário romano. nos últimos tempos, juntamente com o passo arrastado de Salomão, sentia que o labirinto se estreitava a jeito, para que lhe fosse mais difícil decifrar os caminhos. Borges fugia-lhe, ainda que às vezes lhe soprasse os mesmos beijos de outrora.

12.12.14

Ulrica passou a manhã perdida na vastidão do deserto, as areias geladas fustigando-lhe as mãos atentas às rédeas de Salomão. Abenjacan, o falcão, voou por duas vezes, levando na pata direita parte do coração inquieto de Ulrica, mas os ventos do norte obrigaram-no a retornar, sem alcançar a entrega. de Borges, hoje, nem sinal.

11.12.14

o corpo arde-lhe agora, numa indecência transfigurada. inspira e expira de forma dolente, olhos semicerrados, imaginado-se num coito iminente. Borges diz-lhe, numa pequena mensagem telegrafada, que se pudesse a trespassaria com a sua espada. tarde demais. rangem-lhe os dentes, no momento em que sobe para o assento da velha berlinda, que, pelas armas reais pintadas, acredita ter sido de D. Maria I, a rainha. é com ela que corre o mundo, procurando Borges, o seu amor, no seu labirinto de silêncios e maresias enroladas em luz. hoje, rejeitada mais uma vez pelo infortúnio do destino, decide virar-lhe as costas. o desejo desliza-lhe pelas costas, em gotas salgadas, o sexo, túmido, apressa-lhe as chicotadas na garupa do pobre Salomão.