Quem escreve quer morrer, quer renascer
num ébrio barco de calma confiança.
Quem escreve quer dormir em ombros matinais
e na boca das coisas ser lágrima animal
ou o sorriso da árvore. Quem escreve
quer ser terra sobre terra, solidão
adorada, resplandecente, odor de morte
e o rumor do sol, a sede da serpente,
o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho,
o negro meio-dia sobre os olhos.
se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria
21.1.15
18.1.15
17.1.15
16.1.15
15.1.15
Atlas, a cadela, escolhida por Odin para proteger Ulrica, foi atingida pela fúria de Hela. Ulrica amaldiçoa o destino, cinza opaca que lhe cobre a vida. amanhã mesmo, irá ao templo e suplicará a Iduna uma maçã sagrada, fatiada a sabre e envolvida num poema de vitória e superação. amanhã, o dia em que Borges estaria tão perto, será afinal para tentar salvar Atlas, a fiel companheira.
14.1.15
primeiro destroem em seu interesse,
de seguida fazem-nos o favor,
enquanto nos limitam às necessidades mais básicas,
imundice humana.
depois sorriem,
abrem a braguilha
enterram-se na esperança vaga que ainda pulsa,
à força,
rasgam-nos,
violam-nos até ao âmago
a razão de existir.
somos a sua trupe infinita.
12.1.15
11.1.15
No fim da história eles ficam juntos. É isso que está escrito bem no topo da página, no começo do texto. Que ficam juntos. Ainda que, e isso vem logo em seguida, ainda na verdade este ficar junto signifique que tenham que ficar muito sozinhos. Antes e rotineiramente. E ainda tem mais, é preciso dizer. Juntos são infelizes.
[continua aqui]
[continua aqui]
10.1.15
Com a precaução de quem tem flores fechadas no peito passeei de noite
pela casa. Um fantasma forçou uma porta atrás de mim. Gemendo como um
animal estrangulado acordei-te.
Enterro o meu terror como um alfange na terra. Porque é preciso ter
medo bastante para correr bastante toda a casa celebrar bastantes missas negras
atravessar bastante todas as ruas com demónios privados nas esquinas.
Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da ideia que me
impus da morte.
És tu tão único como a noite é um astro.
pela casa. Um fantasma forçou uma porta atrás de mim. Gemendo como um
animal estrangulado acordei-te.
Enterro o meu terror como um alfange na terra. Porque é preciso ter
medo bastante para correr bastante toda a casa celebrar bastantes missas negras
atravessar bastante todas as ruas com demónios privados nas esquinas.
Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da ideia que me
impus da morte.
És tu tão único como a noite é um astro.
8.1.15
7.1.15
Carnal knowledge. It’s what lovers trust each other with. Knowledge of each other, not of the flesh but through the flesh, knowledge of self, the real him, the real her, in extremis, the mask slipped from the face. Every other version of oneself is on offer to the public. We share our vivacity, grief, sulks, anger, joy… we hand it out to anybody who happens to be standing around, to friends and family with a momentary sense of indecency perhaps, to strangers without hesitation. Our lovers share us with the passing trade. But in pairs we insist that we give ourselves to each other. What selves? What’s left? What else is there that hasn’t been dealt out like a deck of cards? Carnal knowledge. Personal, final, uncompromised. Knowing, being known.
6.1.15
5.1.15
3.1.15
1.1.15
31.12.14
30.12.14
29.12.14
28.12.14
25.12.14
No es que crea, no creo, si inclinado
sobre mis manos te sentí divino,
y me embriagué. Comprendo que este vino
no es para mí, mas juega y rueda el dado.
Yo soy esa mujer que vive alerta,
tú el tremendo varón que se despierta
en un torrente que se ensancha en río,
y más se encrespa mientras corre y poda.
Ah, me resisto, más me tiene toda,
tú, que nunca serás del todo mío.
sobre mis manos te sentí divino,
y me embriagué. Comprendo que este vino
no es para mí, mas juega y rueda el dado.
Yo soy esa mujer que vive alerta,
tú el tremendo varón que se despierta
en un torrente que se ensancha en río,
y más se encrespa mientras corre y poda.
Ah, me resisto, más me tiene toda,
tú, que nunca serás del todo mío.
23.12.14
Ulrica decidiu passar as festas natalícias longe de tudo e de todos, numa hospedaria de paradeiro incerto. nos estábulos quentes e de manjedoura forrada, Salomão agradece. no seu quarto, de janela voltada a sul, vista para o regato que corre, afastado da lareira que crepita, Abenjacan mantém a vigia. sabe que o coração de Ulrica sangra em segredo. nada voltará a ser igual.
22.12.14
21.12.14
19.12.14
17.12.14
16.12.14
15.12.14
deitou-se sob o trapézio de Orion, o caçador, escondendo o rosto dorido. o vento raivoso do mar ali tão perto, tinha-lhe esbofeteado a face sem rodeios, durante todo o dia. disfarçava as lágrimas, cerrando os dentes, ainda que não houvesse ninguém por perto que lhe pudesse ver o pranto. apenas Salomão, o seu melhor amigo, e Abenjacan, que do alto do castanheiro, vigiava o acampamento.
14.12.14
13.12.14
acendeu a fogueira a custo, os pequenos ramos que conseguiu apanhar estavam molhados e as mãos tremiam-lhe de frio. Salomão, ali perto, fuçava os silvados em busca de amoras maduras. andava presa no labirinto de Borges há quase dois anos, não se lembrava ao certo, porque amor como aquele não guarda hora de começo nem fim, transcende o calendário romano. nos últimos tempos, juntamente com o passo arrastado de Salomão, sentia que o labirinto se estreitava a jeito, para que lhe fosse mais difícil decifrar os caminhos. Borges fugia-lhe, ainda que às vezes lhe soprasse os mesmos beijos de outrora.
12.12.14
Ulrica passou a manhã perdida na vastidão do deserto, as areias geladas fustigando-lhe as mãos atentas às rédeas de Salomão. Abenjacan, o falcão, voou por duas vezes, levando na pata direita parte do coração inquieto de Ulrica, mas os ventos do norte obrigaram-no a retornar, sem alcançar a entrega. de Borges, hoje, nem sinal.
11.12.14
o corpo arde-lhe agora, numa indecência transfigurada. inspira e expira de forma dolente, olhos semicerrados, imaginado-se num coito iminente. Borges diz-lhe, numa pequena mensagem telegrafada, que se pudesse a trespassaria com a sua espada. tarde demais. rangem-lhe os dentes, no momento em que sobe para o assento da velha berlinda, que, pelas armas reais pintadas, acredita ter sido de D. Maria I, a rainha. é com ela que corre o mundo, procurando Borges, o seu amor, no seu labirinto de silêncios e maresias enroladas em luz. hoje, rejeitada mais uma vez pelo infortúnio do destino, decide virar-lhe as costas. o desejo desliza-lhe pelas costas, em gotas salgadas, o sexo, túmido, apressa-lhe as chicotadas na garupa do pobre Salomão.
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