24.3.15

Unknown

é Deus que nos olha em cheio: dentro
regresso no dia em que o teu corpo abandona este mundo. continuas comigo.

8.3.15

gosto que as mulheres sangrem, manchem
a roupa interior, sujem
a borda dos dedos o interior das
frases e dos favores -
gosto que as mulheres sangrem SOBRE TUDO quanto lhes estende a mão
a faca acesa que as atravessa
o rio que escorrega o lume que tomba o corpo
SOBRE TUDO quanto as faz morrer
gosto que as mulheres morram


Mafalda Gomes




“One of the first signs of the beginning of understanding is the wish to die. This life appears unbearable, another unattainable. One is no longer ashamed of wanting to die; one asks to be moved from the old cell, which one hates, to a new one, which one willl only in time come to hate. In this there is also a residue of belief that during the move the master will chance to come along the corridor, look at the prisoner and say: "This man is not to be locked up again, He is to come with me.” 

Franz Kafka, Blue Octavo Notebooks





 Iconography from the album The Blue Notebooks


5.3.15

como pedaços de sílex, aguçadas pela ausência petrificadora, as palavras continuavam a golpear-lhe o peito.

4.3.15

fala

Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.

Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.

Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.

Não há piedade nos signos
e nem o amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.

(Toda palavra é crueldade.)



\\\


destruição

A coisa contra a coisa:
a inútil crueldade
da análise. O cruel
saber que despedaça
o ser sabido.

A vida contra a coisa:
a violentação
da forma, recriando-a
em sínteses humanas
sábias e inúteis.

A vida contra a vida:
a estéril crueldade
da luz que se consome
desintegrando a essência

inutilmente.



Orides Fontela, Transposição, 1969


1.3.15

e a morte passa de boca em boca com a leve saliva

as cordas que cortam finamente a pele, em rodopios inesperados, gritando o que não queremos ouvir, que o amor nos destrói, na sua consumação autofágica. enquanto isso, na mais pura das danças, Bernstein, nu, faz amor com a música.

21.2.15

[quando se apagam palavras, estará o autor em demanda inglória pela perfeição. quando se apagam textos, está o autor, pária jamais literária, em fuga da sua total imperfeição.]

20.2.15

vagas de dor concêntricas, magma em ebulição, agulhas que tocam o nervo central.

19.2.15

como si uno fuera un fragmento de luz
que cansado
quisiera esconderse de todo

16.2.15

Povo Que Cais Descalço



10.2.15

o que me darias
se te pedisse a paz
e soubesses de como a quero construída
com as matérias vivas da liberdade?



LA SOLEDAD se desnuda en tus ojos,
muchacha interminale, extensa en la amargura;
quizá un muerto fugitivo te anida
y te cruza la sangre y, en la sangre, anochece.

9.2.15

Viagem de Inverno

8.2.15

In a world without melancholy, nightingales would start burping.
Christian Schloe

7.2.15

Kafka, the hunger artist, morreu de fome.
um índice, conspícuo sextante, para os olhos de mareante que em mim viesses navegar. páginas tacteadas como leme axial, palavras navegadas à bolina, parágrafos galgados em sofreguidão. velas tão delicadas como asas azuis de Lepidópteros, que o vento, água salgada em voo picado, teima em rasgar.


...

queria-me livro, para, em noites como esta, me poder queimar.

6.2.15

Bridgette Guerzon Mills




























bilhete postal: no teu silêncio, ouço a verdade.

3.2.15

apagou o parágrafo inteiro, quando percebeu que podia resumir tudo numa pequena frase: corre porque deseja ficar quieta. 
matar palavras tem sido o seu passatempo.
Victoria Crowe

2.2.15

ao contrário da dor forte de Camilo, a sua não é imprevista. empesta-lhe a camada subcutânea, com ramificação tentacular quase amarela aos órgãos maiores, moles e tristonhos, e sempre que a voz se lhe dirige, transpira-a, num processo gasoso de destruição.

Adriana Munoz

31.1.15

Querida Carol:

Todo esto tiene algo de "sueño", lo sé, pero sé que ciertos sueños tienen tendencia a realizarse si se los empuja un poco.

30.1.15

Will Davidson

29.1.15


In a sentimental mood


Jose Luis Lopez Moral

Estremece-se às vezes desde o chão, escreveu-lhe no braço.

28.1.15

É seu este livro, Maria Kodoma. Precisarei dizer-lhe que esta inscrição compreende os crepúsculos, os cervos de Nara, a noite solitária e as populosas manhãs, as ilhas partilhadas, os mares, os desertos e os jardins, e o que o esquecimento perde e o que a memória transforma, a alta voz do almuadem, a morte de Hawkwood, os livros e as gravuras?

Inscrição in Os Conjurados

27.1.15

               un peu
je t'aime   beaucoup
               à la folie

almoçou o melhor café do mundo.

Louise Bourgeois





























Não mais, não mais dele o infecundo abismo, 
Que mudo sorve o que mal somos,

26.1.15

23.1.15

em segundos, o coração contorce-se no aperto desmedido da maldita mão alheia. nós, que já quase ousávamos acreditar, recolhemos, feridos, à tristeza que nos acolhe, cama fria onde fingimos morrer.
Adara Sánchez Anguiano























22.1.15

Ibn Sina foi peremptório, Atlas será obrigada ao sossego (imobilizador) durante vinte e um dias, limitando a sua energia a uma dúzia de passos, devidamente contados. até lá, a sua sorte com Hela já terá sido lançada. Ulrica sabe que nem todas as moedas de ouro do mundo terão força para lutar contra o poder malévolo de Hela, mas confia na ciência e no bom coração de Ibn Sina. enquanto espera, acalma o seu, rezando.
Sónia Silva


a função do amor é fabricar desconhecimento 

21.1.15

na brutalidade com que a voz se atira contra as paredes
abrindo fendas  
em toda a extensão das veias e dos tendões



Quem escreve quer morrer, quer renascer 

num ébrio barco de calma confiança. 

Quem escreve quer dormir em ombros matinais 

e na boca das coisas ser lágrima animal 

ou o sorriso da árvore. Quem escreve 

quer ser terra sobre terra, solidão 

adorada, resplandecente, odor de morte 

e o rumor do sol, a sede da serpente, 

o sopro sobre o muro, as pedras sem caminho, 

o negro meio-dia sobre os olhos. 
a faca nunca cortará o fogo.


18.1.15

Adara Sánchez Anguiano

Always where you are
My touch to love you looks into your eyes

17.1.15

enquanto Atlas repousa junto à lareira da sua longa cicatriz, futuro ainda sob reserva, Ulrica ouve a chuva bater nas vidraças. Abenjacan voltou há pouco, de Borges nada.

16.1.15

Nobuyoshi Araki

15.1.15

Atlas, a cadela, escolhida por Odin para proteger Ulrica, foi atingida pela fúria de Hela. Ulrica amaldiçoa o destino, cinza opaca que lhe cobre a vida. amanhã mesmo, irá ao templo e suplicará a Iduna uma maçã sagrada, fatiada a sabre e envolvida num poema de vitória e superação. amanhã, o dia em que Borges estaria tão perto, será afinal para tentar salvar Atlas, a fiel companheira. 
Alex Cornell

14.1.15

primeiro destroem em seu interesse,
de seguida fazem-nos o favor,
enquanto nos limitam às necessidades mais básicas,
imundice humana.
depois sorriem,
abrem a braguilha 
enterram-se na esperança vaga que ainda pulsa,
à força,
rasgam-nos,
violam-nos até ao âmago
a razão de existir.

somos a sua trupe infinita.













12.1.15

olhamo‑nos,
dizemo‑nos algo sombrio,
amamo‑nos como papoila e memória,
dormimos como vinho nas conchas,
como o mar no jorro‑sangue da Lua.
Agora o silêncio
torce-se em meus nervos

Penelope Gotlieb



11.1.15

No fim da história eles ficam juntos. É isso que está escrito bem no topo da página, no começo do texto. Que ficam juntos. Ainda que, e isso vem logo em seguida, ainda na verdade este ficar junto signifique que tenham que ficar muito sozinhos. Antes e rotineiramente. E ainda tem mais, é preciso dizer. Juntos são infelizes.

[continua aqui]

10.1.15

  Com a precaução de quem tem flores fechadas no peito passeei de noite 
pela casa. Um fantasma forçou uma porta atrás de mim. Gemendo como um 
animal estrangulado acordei-te. 

     Enterro o meu terror como um alfange na terra. Porque é preciso ter 
medo bastante para correr bastante toda a casa celebrar bastantes missas negras 
atravessar bastante todas as ruas com demónios privados nas esquinas. 

     Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da ideia que me 
impus da morte. 
    És tu tão único como a noite é um astro.