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| Andreas Athan |
se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria
1.5.15
27.4.15
26.4.15
Diário de Alina Reyes - 20 de Janeiro
[este conto, Distante, lembra-me o filme de Krzysztof Kieślowski, La double vie de Véronique, de 1991.]
[...] não gostam de mim, da distante. É a parte de que não gostam, e como não me há-de dilacerar por dentro sentir que me batem ou que a neve me entra nos sapatos quando Luis María dança comigo e a sua mão na cintura me vai possuindo como um calor ao meio-dia, um sabor a laranjas perfumadas ou tacuaras esmagadas, e batem-lhe e é impossível resistir, e então tenho de dizer a Luis María que não estou bem, que é a humidade, humidade no meio dessa neve que não sinto, que não sinto e me está a entrar nos sapatos.
in Bestiário (1951)
[este conto, Distante, lembra-me o filme de Krzysztof Kieślowski, La double vie de Véronique, de 1991.]
25.4.15
24.4.15
15.4.15
13.4.15
12.4.15
10.4.15
Abenjacan regressou com notícias de Borges, um curto bilhete sujo de terra, escrito entre moribundos e cadáveres. o inimigo conseguiu atravessar o rio negro e caminha rapidamente para leste, é necessário detê-lo. a pedido do general Isidro Vidal, Borges lidera o seu exército de mil homens cansados de volta ao campo de batalha. Ulrica teme, invocará Odin.
8.4.15
5.4.15
Ulrica acredita que todas as árvores são mágicas. só assim pode entender que delas nasçam os livros e deles a magia de poder ser árvore ela também. quando Borges lhe ofereceu a rara poetisa egípcia, Ulrica ganhou raízes mais profundas, ramos mais fortes e folhas mais verdes. do sangue, gerou seiva, do vento, fez lamento, e botânica ficou.
2.4.15
Talvez sejas a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
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| catia chien |
1.4.15
Lecciones de la metamorfosis
por Silvina Ocampo,
esposa de Adolfo Bioy Casares
Nube que miras en lo alto del cielo
mi condición humana y modificas
las formas de tu cuerpo y de tus caras:
si alguna vez he visto deshacerse
tu cuerpo de caballo o de sirena,
tus ojos y tu pelo cruel de Erinia,
tus vírgenes perdidas con un ángel
entre las sombra de una playa inmensa,
el velero que se hunde en la tormenta
o un frágil ciervo entre las rosas de oro
de un antiguo poniente indescifrable;
si alguna vez he visto desmembrarse
un reino donde no gobierna nadie,
un templo en que quedaron misa rodillas
prosternadas al pie de un muro blanco,
tan blanco que hasta el sol pierde su faz,
sabrás que sos mi lecho cuando duermo,
que tus lecciones de metamorfosis
he querido seguir hasta la muerte
entregándote toda mi esperanza.
por Silvina Ocampo,
esposa de Adolfo Bioy Casares
Nube que miras en lo alto del cielo
mi condición humana y modificas
las formas de tu cuerpo y de tus caras:
si alguna vez he visto deshacerse
tu cuerpo de caballo o de sirena,
tus ojos y tu pelo cruel de Erinia,
tus vírgenes perdidas con un ángel
entre las sombra de una playa inmensa,
el velero que se hunde en la tormenta
o un frágil ciervo entre las rosas de oro
de un antiguo poniente indescifrable;
si alguna vez he visto desmembrarse
un reino donde no gobierna nadie,
un templo en que quedaron misa rodillas
prosternadas al pie de un muro blanco,
tan blanco que hasta el sol pierde su faz,
sabrás que sos mi lecho cuando duermo,
que tus lecciones de metamorfosis
he querido seguir hasta la muerte
entregándote toda mi esperanza.
Leu a Invenção de Morel e acreditou que lia sobre si.
Sonhei com Faustine. O sonho era muito triste, muito emocionante. Despediamo-nos; vinham buscá-la de barco. Depois voltávamos a estar sós, despediamo-nos com amor. Chorei durante o sonho e despertei com um desespero inconsolável, porque Faustine não estava ali, e com lágrimas de consolação porque nos tínhamos querido ambos sem disfarces.
31.3.15
Se espera que la lluvia pase. Se espera que los vientos lleguen. Se espera. Se dice. Por amor al silencio se dicen miserables palabras. Un decir forzoso, forzado, un decir sin salida posible, por amor al silencio, por amor al lenguaje de los cuerpos. Yo hablaba. En mí el lenguaje es siempre un pretexto para el silencio. Es mi manera de expresar mi fatiga inexpresable.
30.3.15
29.3.15
Coimbra, 18 de Outubro de 1952 - (...) Ninguém tenha ilusões: as possibilidades de renovação dum homem são poucas. A vontade não basta para substituir valores habituais por valores eventuais. E cada voto de mudança é uma abstracção mental sem raízes no exequível. Passa-se a vida a repetir a mesma banalidade.
28.3.15
importa-lhe de igual forma o sol lá fora, como a voz ao lado. há dias, uma amiga partiu para Oriente, levando na bagagem um atestado de pequenez, que a invalidava em terras lusas, passado por gente que agora chegou, gente gigante, detentora dos grandes títulos. a Oriente, parecem apreciar a mulher, quase corcunda, que lhes apareceu. poucas horas depois, mais alguém pequeno que parte, desta vez, em busca de um pôr-do-sol no mediterrâneo que lhe dê sentido à vida a mais de metade. ambas partem escondidas, com vergonha de si próprias, escorraçadas das raízes pelos novos deuses. nas partidas, ninguém lhes dirá adeus.
27.3.15
25.3.15
«Em poesia vale mais sentir um estremecimento a propósito de uma gota de água que cai em terra e comunicar esse estremecimento do que expor o melhor programa de entreajuda social. Essa gota de água provocará no leitor mais espiritualidade do que os maiores estímulos à elevação de sentimentos e mais humanidade do que todas as estrofes humanitárias. É isso a transfiguração poética. O poeta mostra a sua humanidade por vias próprias que, frequentemente, são inumanidade (aparente e momentânea, esta). Mesmo antisocial ou a-social, ele pode ser social.»
24.3.15
La Poesía es un atentado celeste
Yo estoy ausente pero en el fondo de esta ausencia
Hay la espera de mí mismo
Y esta espera es otro modo de presencia
La espera de mi retorno
Yo estoy en otros objetos
Ando en viaje dando un poco de mi vida
A ciertos árboles y a ciertas piedras
Que me han esperado muchos años
Se cansaron de esperarme y se sentaron
Yo no estoy y estoy
Estoy ausente y estoy presente en estado de espera
Ellos querrían mi lenguaje para expresarse
Y yo querría el de ellos para expresarlos
He aquí el equívoco el atroz equívoco
Angustioso lamentable
Me voy adentrando en estas plantas
Voy dejando mis ropas
Se me van cayendo las carnes
Y mi esqueleto se va revistiendo de cortezas
Me estoy haciendo árbol Cuántas cosas me he ido convirtiendo en
[otras cosas...
Es doloroso y lleno de ternura
Podría dar un grito pero se espantaría la transubstanciación
Hay que guardar silencio Esperar en silencio
De Últimos poemas, 1948
Yo estoy ausente pero en el fondo de esta ausencia
Hay la espera de mí mismo
Y esta espera es otro modo de presencia
La espera de mi retorno
Yo estoy en otros objetos
Ando en viaje dando un poco de mi vida
A ciertos árboles y a ciertas piedras
Que me han esperado muchos años
Se cansaron de esperarme y se sentaron
Yo no estoy y estoy
Estoy ausente y estoy presente en estado de espera
Ellos querrían mi lenguaje para expresarse
Y yo querría el de ellos para expresarlos
He aquí el equívoco el atroz equívoco
Angustioso lamentable
Me voy adentrando en estas plantas
Voy dejando mis ropas
Se me van cayendo las carnes
Y mi esqueleto se va revistiendo de cortezas
Me estoy haciendo árbol Cuántas cosas me he ido convirtiendo en
[otras cosas...
Es doloroso y lleno de ternura
Podría dar un grito pero se espantaría la transubstanciación
Hay que guardar silencio Esperar en silencio
De Últimos poemas, 1948
8.3.15
gosto que as mulheres sangrem, manchem
a roupa interior, sujem
a borda dos dedos o interior das
frases e dos favores -
gosto que as mulheres sangrem SOBRE TUDO quanto lhes estende a mão
a faca acesa que as atravessa
o rio que escorrega o lume que tomba o corpo
SOBRE TUDO quanto as faz morrer
gosto que as mulheres morram
a roupa interior, sujem
a borda dos dedos o interior das
frases e dos favores -
gosto que as mulheres sangrem SOBRE TUDO quanto lhes estende a mão
a faca acesa que as atravessa
o rio que escorrega o lume que tomba o corpo
SOBRE TUDO quanto as faz morrer
gosto que as mulheres morram
Mafalda Gomes
“One of the first signs of the beginning of understanding is the wish to die. This life appears unbearable, another unattainable. One is no longer ashamed of wanting to die; one asks to be moved from the old cell, which one hates, to a new one, which one willl only in time come to hate. In this there is also a residue of belief that during the move the master will chance to come along the corridor, look at the prisoner and say: "This man is not to be locked up again, He is to come with me.”
Franz Kafka, Blue Octavo Notebooks
Iconography from the album The Blue Notebooks
5.3.15
4.3.15
fala
Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.
Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.
Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem o amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade.)
\\\
destruição
A coisa contra a coisa:
a inútil crueldade
da análise. O cruel
saber que despedaça
o ser sabido.
A vida contra a coisa:
a violentação
da forma, recriando-a
em sínteses humanas
sábias e inúteis.
A vida contra a vida:
a estéril crueldade
da luz que se consome
desintegrando a essência
inutilmente.
Orides Fontela, Transposição, 1969
Tudo
será difícil de dizer:
a palavra real
nunca é suave.
Tudo será duro:
luz impiedosa
excessiva vivência
consciência demais do ser.
Tudo será
capaz de ferir. Será
agressivamente real.
Tão real que nos despedaça.
Não há piedade nos signos
e nem o amor: o ser
é excessivamente lúcido
e a palavra é densa e nos fere.
(Toda palavra é crueldade.)
\\\
destruição
A coisa contra a coisa:
a inútil crueldade
da análise. O cruel
saber que despedaça
o ser sabido.
A vida contra a coisa:
a violentação
da forma, recriando-a
em sínteses humanas
sábias e inúteis.
A vida contra a vida:
a estéril crueldade
da luz que se consome
desintegrando a essência
inutilmente.
Orides Fontela, Transposição, 1969
1.3.15
e a morte passa de boca em boca com a leve saliva
as cordas que cortam finamente a pele, em rodopios inesperados, gritando o que não queremos ouvir, que o amor nos destrói, na sua consumação autofágica. enquanto isso, na mais pura das danças, Bernstein, nu, faz amor com a música.
21.2.15
16.2.15
10.2.15
9.2.15
8.2.15
7.2.15
um índice, conspícuo sextante, para os olhos de mareante que em mim viesses navegar. páginas tacteadas como leme axial, palavras navegadas à bolina, parágrafos galgados em sofreguidão. velas tão delicadas como asas azuis de Lepidópteros, que o vento, água salgada em voo picado, teima em rasgar.
...
queria-me livro, para, em noites como esta, me poder queimar.
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