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| Leslie Ann O'Dell |
se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria
23.6.15
20.6.15
8.6.15
o general Isidro Vidal conseguiu derrotar o inimigo em todas as frentes. os tempos são agora de paz e abundância. as aldeias fronteiriças dizimadas começam, aos poucos, a ser reconstruídas e habitadas por deslocados e desertores de guerra. o comércio retomou as rotas habituais e os impostos voltaram a ser cobrados. da guerra ficam as feridas das perdas humanas, mulheres sem maridos, filhos, irmãos e pais, mas orgulhosas da sua linhagem guerreira.
por um bilhete da prima, Ulrica soube que Borges foi um dos capitães condecorados por bravura e valentia e da guerra herdou um mancar na perna direita, bala dirigida ao general. soube também que regressou a casa, não à casa que Ulrica julgou ser a sua, mas ao doce lar, onde uma esposa extremosa e dois filhos pequenos o aguardavam. tudo isto lhe contou a prima, julgando informá-la apenas de meras curiosidades sobre tão garboso capitão, um herói.
Ulrica caiu de cama por mais de duas semanas, com tão rude golpe. quis morrer, deu-se por vencida. entendia agora o intransponível labirinto de Borges, a sua fuga sem fim. levantou-se finalmente no dia em que se deu o eclipse solar, movida pela curiosidade. Abenjacan, que nunca abandonou a cabeceira da cama, saiu nesse mesmo dia para caçar. Atlas, ainda e para sempre coxa, seguiu-o. mais tarde, Ulrica, montando Salomão, que entretanto engordara e caminhava sem pressas, juntou-se-lhes na clareira perto do templo. nesse entardecer o equilíbrio reestabeleceu-se. os quatro estavam ligados pelo laço mais forte de Odin, o laço do afecto.
de Borges, hão-de restar apenas as memórias, um dia.
7.6.15
They learn to clutch the knife
Blade to borrowed rib
To empty the cup and be content
With utterly nothing
*
Elas aprendem a agarrar a lâmina
Da faca na costela emprestada
A esvaziar o cálice e contentar-se
Com nada de nada.
(tradução de Ricardo Domeneck)
revista modo de usar & co.
Blade to borrowed rib
To empty the cup and be content
With utterly nothing
*
Elas aprendem a agarrar a lâmina
Da faca na costela emprestada
A esvaziar o cálice e contentar-se
Com nada de nada.
(tradução de Ricardo Domeneck)
revista modo de usar & co.
6.6.15
Apaixonei-me por um livreiro
que me dá livros e me tira a roupa,
que me guia pelo esqueleto do livro
mostrando a importância do tamanho
das palavras escritas
sobre o papel opaco e pesado
entre os dedos que se molham
antes de virar páginas.
Mas.
Num dos dedos já secos
abriu-se a fenda invisível de um corte de papel,
esse sítio onde ainda me mantém.
O pó cobre agora
os espaços vazios das estantes,
dentes arrancados de uma boca torta
e as roupas ainda mornas
jazem sobre o colchão
onde uma mancha esbranquiçada
é mutante quando vista
aos olhos dos amantes:
do meu lado da cama é vírgula,
do dele,
ponto final.
[enfermaria 6]
que me dá livros e me tira a roupa,
que me guia pelo esqueleto do livro
mostrando a importância do tamanho
das palavras escritas
sobre o papel opaco e pesado
entre os dedos que se molham
antes de virar páginas.
Mas.
Num dos dedos já secos
abriu-se a fenda invisível de um corte de papel,
esse sítio onde ainda me mantém.
O pó cobre agora
os espaços vazios das estantes,
dentes arrancados de uma boca torta
e as roupas ainda mornas
jazem sobre o colchão
onde uma mancha esbranquiçada
é mutante quando vista
aos olhos dos amantes:
do meu lado da cama é vírgula,
do dele,
ponto final.
[enfermaria 6]
5.6.15
3.6.15
malditas as noites que maltratam os dias. asfixiam-me, para me deixar sorver um pouco de ar junto à madrugada. recomposta, recebo então o cansaço, pesado como placas de chumbo, metal maciço, pedra tumular, dores no peito. acordo, mais um dia, já cansada, doente da fadiga que se desincorpora da alma, essa vil, estupidamente fraca, e obsoleta alma. não quero morrer bocejando.
2.6.15
26.5.15
25.5.15
[gostava de ter sido eu a escrevê-lo.]
Não quero ruído, nem gargalhadas, nem conversas lúbricas, nem convites para jantar em restaurantes onde se servem carnes maduras. Não quero amar e não quero ser amada. Isso não. Quero apenas a vulgaridade, mas a vulgaridade silenciosa, invisível, a que jamais se confessa, a vulgaridade das casas de banho-públicas, dos quartos de hotel e dos carros parados à beira-rio. E, como no poema, não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício e cair verticalmente no vício.
24.5.15
22.5.15
18.5.15
16.5.15
houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei
a encher umas quantas páginas do caderno
aconteceu também por vezes que o papel pareceu
estremecer,
mas o mundo não: nunca senti que o mundo estremecesse
sob as minhas palavras escritas,
[mas eu senti, hh, eu senti o meu mundo estremecer, quando as tuas palavras se escreveram em mim]
a encher umas quantas páginas do caderno
aconteceu também por vezes que o papel pareceu
estremecer,
mas o mundo não: nunca senti que o mundo estremecesse
sob as minhas palavras escritas,
[mas eu senti, hh, eu senti o meu mundo estremecer, quando as tuas palavras se escreveram em mim]
12.5.15
_____________ a primeira imagem do Diário não é, para mim, o repouso na vida quotidiana, mas uma constelação de imagens, caminhando todas as constelações umas sobre as outras. Qualquer aprendiz imagético, quando sobe ao meu quarto e atravessa o meu escritório, tem o sentimento de que «um belo lixo de imagens se criou aqui». Se for menos inocente dirá: «que belo luxo de imagens». Eu diria: aqui está a raiz de qualquer livro.
Numerosas Linhas
11.5.15
Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia
quotidiana.
a invenção do amor
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia
quotidiana.
a invenção do amor
10.5.15
9.5.15
6.5.15
se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer doer doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas
se ao menos esta dor sangrasse
[daqui]
que se esfrega na parede de pedra
para doer doer doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas
se ao menos esta dor sangrasse
[daqui]
3.5.15
2.5.15
Y escribo:
del atropello mortal quedó en el suelo
una agenda, un bolígrafo negro
y unas gotas de sangre.
[naufragios y brujería]
del atropello mortal quedó en el suelo
una agenda, un bolígrafo negro
y unas gotas de sangre.
[naufragios y brujería]
1.5.15
27.4.15
26.4.15
Diário de Alina Reyes - 20 de Janeiro
[este conto, Distante, lembra-me o filme de Krzysztof Kieślowski, La double vie de Véronique, de 1991.]
[...] não gostam de mim, da distante. É a parte de que não gostam, e como não me há-de dilacerar por dentro sentir que me batem ou que a neve me entra nos sapatos quando Luis María dança comigo e a sua mão na cintura me vai possuindo como um calor ao meio-dia, um sabor a laranjas perfumadas ou tacuaras esmagadas, e batem-lhe e é impossível resistir, e então tenho de dizer a Luis María que não estou bem, que é a humidade, humidade no meio dessa neve que não sinto, que não sinto e me está a entrar nos sapatos.
in Bestiário (1951)
[este conto, Distante, lembra-me o filme de Krzysztof Kieślowski, La double vie de Véronique, de 1991.]
25.4.15
24.4.15
15.4.15
13.4.15
12.4.15
10.4.15
Abenjacan regressou com notícias de Borges, um curto bilhete sujo de terra, escrito entre moribundos e cadáveres. o inimigo conseguiu atravessar o rio negro e caminha rapidamente para leste, é necessário detê-lo. a pedido do general Isidro Vidal, Borges lidera o seu exército de mil homens cansados de volta ao campo de batalha. Ulrica teme, invocará Odin.
8.4.15
5.4.15
Ulrica acredita que todas as árvores são mágicas. só assim pode entender que delas nasçam os livros e deles a magia de poder ser árvore ela também. quando Borges lhe ofereceu a rara poetisa egípcia, Ulrica ganhou raízes mais profundas, ramos mais fortes e folhas mais verdes. do sangue, gerou seiva, do vento, fez lamento, e botânica ficou.
2.4.15
Talvez sejas a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
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| catia chien |
1.4.15
Lecciones de la metamorfosis
por Silvina Ocampo,
esposa de Adolfo Bioy Casares
Nube que miras en lo alto del cielo
mi condición humana y modificas
las formas de tu cuerpo y de tus caras:
si alguna vez he visto deshacerse
tu cuerpo de caballo o de sirena,
tus ojos y tu pelo cruel de Erinia,
tus vírgenes perdidas con un ángel
entre las sombra de una playa inmensa,
el velero que se hunde en la tormenta
o un frágil ciervo entre las rosas de oro
de un antiguo poniente indescifrable;
si alguna vez he visto desmembrarse
un reino donde no gobierna nadie,
un templo en que quedaron misa rodillas
prosternadas al pie de un muro blanco,
tan blanco que hasta el sol pierde su faz,
sabrás que sos mi lecho cuando duermo,
que tus lecciones de metamorfosis
he querido seguir hasta la muerte
entregándote toda mi esperanza.
por Silvina Ocampo,
esposa de Adolfo Bioy Casares
Nube que miras en lo alto del cielo
mi condición humana y modificas
las formas de tu cuerpo y de tus caras:
si alguna vez he visto deshacerse
tu cuerpo de caballo o de sirena,
tus ojos y tu pelo cruel de Erinia,
tus vírgenes perdidas con un ángel
entre las sombra de una playa inmensa,
el velero que se hunde en la tormenta
o un frágil ciervo entre las rosas de oro
de un antiguo poniente indescifrable;
si alguna vez he visto desmembrarse
un reino donde no gobierna nadie,
un templo en que quedaron misa rodillas
prosternadas al pie de un muro blanco,
tan blanco que hasta el sol pierde su faz,
sabrás que sos mi lecho cuando duermo,
que tus lecciones de metamorfosis
he querido seguir hasta la muerte
entregándote toda mi esperanza.
Leu a Invenção de Morel e acreditou que lia sobre si.
Sonhei com Faustine. O sonho era muito triste, muito emocionante. Despediamo-nos; vinham buscá-la de barco. Depois voltávamos a estar sós, despediamo-nos com amor. Chorei durante o sonho e despertei com um desespero inconsolável, porque Faustine não estava ali, e com lágrimas de consolação porque nos tínhamos querido ambos sem disfarces.
31.3.15
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