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| Yung Cheng Lin |
se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria
19.7.15
18.7.15
15.7.15
14.7.15
13.7.15
Mamografia de mármore
Deliciam-me as palavras
dos relatórios médicos, os nomes cheios
de saber oculto e míticos lugares
como a região sacro-lombar ou o tendão de Aquiles.
Numa mamografia de rastreio,
a incidência crânio-caudal seria
um bom título para uma tese teológica.
Alguns poetas falam disso. Pneumotórax
de Manuel Bandeira ou Electrocardiograma
de Nemésio, para não referir os vermelhos de hemoptise
de Pessanha ou as engomadeiras tísicas
de Cesário.
Mas nenhum(a) falou (ou fala)
de mamografia de rastreio. Versos dignos
só os de mamilo róseo desde o tempo
de Safo ou de Penélope. E, de Afrodite
enquanto deusa, só restaram óleos e
mamografias de mármore.
Deliciam-me as palavras
dos relatórios médicos, os nomes cheios
de saber oculto e míticos lugares
como a região sacro-lombar ou o tendão de Aquiles.
Numa mamografia de rastreio,
a incidência crânio-caudal seria
um bom título para uma tese teológica.
Alguns poetas falam disso. Pneumotórax
de Manuel Bandeira ou Electrocardiograma
de Nemésio, para não referir os vermelhos de hemoptise
de Pessanha ou as engomadeiras tísicas
de Cesário.
Mas nenhum(a) falou (ou fala)
de mamografia de rastreio. Versos dignos
só os de mamilo róseo desde o tempo
de Safo ou de Penélope. E, de Afrodite
enquanto deusa, só restaram óleos e
mamografias de mármore.
10.7.15
8.7.15
[obrigada, lebre]
Harux e Harix decidiram nunca mais se levantar da cama. Amam-se loucamente e não podem afastar-se um do outro mais do que sessenta ou setenta centímetros. Logo o melhor é ficar na cama, longe dos apelos do mundo. No entanto, o telefone está na mesa-de-cabeceira, e às vezes toca e interrompe os seus abraços: são os familiares que querem saber se tudo está bem. Mas essas chamadas são cada vez mais raras e lacónicas. Os amantes apenas se levantam para ir à casa de banho, e nem sempre, a cama está desarrumada, os lençóis gastos, mas eles não dão conta, cada um mais imerso na onda azul dos olhos do outro. Os seus membros misticamente entrelaçados.
Na primeira semana alimentaram-se de bolachinhas, de que se tinham abastecido abundantemente. Como as bolachas acabaram, agora comem-se um ao outro.
Anestesiados pelo desejo, arrancam grandes pedaços de carne com os dentes, entre dois beijos devoram o nariz ou o dedo mindinho, bebem o sangue um do outro; depois saciados fazem novamente amor como podem, e adormecem para recomeçar quando acordam. Perderam a conta dos dias e das horas. Não são bonitos de ver, isso é verdade, ensanguentados, esquartejados, pegajosos. Mas o seu amor está para além de todas as convenções.
7.7.15
Descrição de um estado físico
uma sensação de queimadura ácida nos membros, músculos retorcidos e em carne viva,
o sentimento de ser de vidro e quebrável, um medo, uma retracção perante o movimento e o barulho. Uma desordem inconsciente do andar, dos gestos, dos movimentos. Uma vontade perpetuamente tensa para os gestos mais simples,
a renuncia ao gesto simples,
uma fadiga arrasante e central, uma espécie de fadiga absorvente. Os movimentos por refazer, uma espécie de fadiga de morte, a fadiga do espírito pela aplicação da mais simples tensão muscular, o gesto de pegar, de se agarrar inconscientemente a qualquer coisa, a sustentar por uma vontade aplicada.
Uma fadiga do princípio do mundo, a sensação do seu corpo como um fardo, um sentimento de fragilidade incrível, que se torna numa dor despedaçante, um estado de entorpecimento doloroso, uma espécie de entorpecimento localizado na pele,
que não impede nenhum movimento mas altera a sensação interna de um membro,
e confere à simples posição vertical o valor de prémio de um esforço vitorioso.
Localizado provavelmente na pele, mas sentido como supressão radical de um membro, e não apresentado já ao cérebro senão imagens de membros filiformes e algodoados, imagens de membros longínquos e fora do seu lugar. Uma espécie de ruptura interna da correspondência de todos os nervos.
Uma vertigem em movimento, uma espécie de assombro oblíquo que acompanha todo o esforço, uma coagulação de calor que condensa toda a extensão do crânio, ou se desfaz em pedaços, placas de calor que se deslocam.
Uma exacerbação dolorosa do crânio, uma cortante pressão dos nervos, a nuca obstinada em sofrer, as têmporas que se cristalizam ou se petrificam, uma cabeça espezinhada por cavalos.
[cada palavra trespassa, rasga, expele.]
uma sensação de queimadura ácida nos membros, músculos retorcidos e em carne viva,
o sentimento de ser de vidro e quebrável, um medo, uma retracção perante o movimento e o barulho. Uma desordem inconsciente do andar, dos gestos, dos movimentos. Uma vontade perpetuamente tensa para os gestos mais simples,
a renuncia ao gesto simples,
uma fadiga arrasante e central, uma espécie de fadiga absorvente. Os movimentos por refazer, uma espécie de fadiga de morte, a fadiga do espírito pela aplicação da mais simples tensão muscular, o gesto de pegar, de se agarrar inconscientemente a qualquer coisa, a sustentar por uma vontade aplicada.
Uma fadiga do princípio do mundo, a sensação do seu corpo como um fardo, um sentimento de fragilidade incrível, que se torna numa dor despedaçante, um estado de entorpecimento doloroso, uma espécie de entorpecimento localizado na pele,
que não impede nenhum movimento mas altera a sensação interna de um membro,
e confere à simples posição vertical o valor de prémio de um esforço vitorioso.
Localizado provavelmente na pele, mas sentido como supressão radical de um membro, e não apresentado já ao cérebro senão imagens de membros filiformes e algodoados, imagens de membros longínquos e fora do seu lugar. Uma espécie de ruptura interna da correspondência de todos os nervos.
Uma vertigem em movimento, uma espécie de assombro oblíquo que acompanha todo o esforço, uma coagulação de calor que condensa toda a extensão do crânio, ou se desfaz em pedaços, placas de calor que se deslocam.
Uma exacerbação dolorosa do crânio, uma cortante pressão dos nervos, a nuca obstinada em sofrer, as têmporas que se cristalizam ou se petrificam, uma cabeça espezinhada por cavalos.
[cada palavra trespassa, rasga, expele.]
1.7.15
E vinha vindo a Noite por entre os pinheiros, e vinha descalça com pés de surdina por môr do barulho, de braços estendidos p'ra não topar com os troncos; e vinha vindo a noite céguinha como a lanterna que lhe pendia da cinta. E vinha a sonhar. As sombras ao vê-la esconderam os punhaes nos peitos vazios.
23.6.15
20.6.15
8.6.15
o general Isidro Vidal conseguiu derrotar o inimigo em todas as frentes. os tempos são agora de paz e abundância. as aldeias fronteiriças dizimadas começam, aos poucos, a ser reconstruídas e habitadas por deslocados e desertores de guerra. o comércio retomou as rotas habituais e os impostos voltaram a ser cobrados. da guerra ficam as feridas das perdas humanas, mulheres sem maridos, filhos, irmãos e pais, mas orgulhosas da sua linhagem guerreira.
por um bilhete da prima, Ulrica soube que Borges foi um dos capitães condecorados por bravura e valentia e da guerra herdou um mancar na perna direita, bala dirigida ao general. soube também que regressou a casa, não à casa que Ulrica julgou ser a sua, mas ao doce lar, onde uma esposa extremosa e dois filhos pequenos o aguardavam. tudo isto lhe contou a prima, julgando informá-la apenas de meras curiosidades sobre tão garboso capitão, um herói.
Ulrica caiu de cama por mais de duas semanas, com tão rude golpe. quis morrer, deu-se por vencida. entendia agora o intransponível labirinto de Borges, a sua fuga sem fim. levantou-se finalmente no dia em que se deu o eclipse solar, movida pela curiosidade. Abenjacan, que nunca abandonou a cabeceira da cama, saiu nesse mesmo dia para caçar. Atlas, ainda e para sempre coxa, seguiu-o. mais tarde, Ulrica, montando Salomão, que entretanto engordara e caminhava sem pressas, juntou-se-lhes na clareira perto do templo. nesse entardecer o equilíbrio reestabeleceu-se. os quatro estavam ligados pelo laço mais forte de Odin, o laço do afecto.
de Borges, hão-de restar apenas as memórias, um dia.
7.6.15
They learn to clutch the knife
Blade to borrowed rib
To empty the cup and be content
With utterly nothing
*
Elas aprendem a agarrar a lâmina
Da faca na costela emprestada
A esvaziar o cálice e contentar-se
Com nada de nada.
(tradução de Ricardo Domeneck)
revista modo de usar & co.
Blade to borrowed rib
To empty the cup and be content
With utterly nothing
*
Elas aprendem a agarrar a lâmina
Da faca na costela emprestada
A esvaziar o cálice e contentar-se
Com nada de nada.
(tradução de Ricardo Domeneck)
revista modo de usar & co.
6.6.15
Apaixonei-me por um livreiro
que me dá livros e me tira a roupa,
que me guia pelo esqueleto do livro
mostrando a importância do tamanho
das palavras escritas
sobre o papel opaco e pesado
entre os dedos que se molham
antes de virar páginas.
Mas.
Num dos dedos já secos
abriu-se a fenda invisível de um corte de papel,
esse sítio onde ainda me mantém.
O pó cobre agora
os espaços vazios das estantes,
dentes arrancados de uma boca torta
e as roupas ainda mornas
jazem sobre o colchão
onde uma mancha esbranquiçada
é mutante quando vista
aos olhos dos amantes:
do meu lado da cama é vírgula,
do dele,
ponto final.
[enfermaria 6]
que me dá livros e me tira a roupa,
que me guia pelo esqueleto do livro
mostrando a importância do tamanho
das palavras escritas
sobre o papel opaco e pesado
entre os dedos que se molham
antes de virar páginas.
Mas.
Num dos dedos já secos
abriu-se a fenda invisível de um corte de papel,
esse sítio onde ainda me mantém.
O pó cobre agora
os espaços vazios das estantes,
dentes arrancados de uma boca torta
e as roupas ainda mornas
jazem sobre o colchão
onde uma mancha esbranquiçada
é mutante quando vista
aos olhos dos amantes:
do meu lado da cama é vírgula,
do dele,
ponto final.
[enfermaria 6]
5.6.15
3.6.15
malditas as noites que maltratam os dias. asfixiam-me, para me deixar sorver um pouco de ar junto à madrugada. recomposta, recebo então o cansaço, pesado como placas de chumbo, metal maciço, pedra tumular, dores no peito. acordo, mais um dia, já cansada, doente da fadiga que se desincorpora da alma, essa vil, estupidamente fraca, e obsoleta alma. não quero morrer bocejando.
2.6.15
26.5.15
25.5.15
[gostava de ter sido eu a escrevê-lo.]
Não quero ruído, nem gargalhadas, nem conversas lúbricas, nem convites para jantar em restaurantes onde se servem carnes maduras. Não quero amar e não quero ser amada. Isso não. Quero apenas a vulgaridade, mas a vulgaridade silenciosa, invisível, a que jamais se confessa, a vulgaridade das casas de banho-públicas, dos quartos de hotel e dos carros parados à beira-rio. E, como no poema, não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício e cair verticalmente no vício.
24.5.15
22.5.15
18.5.15
16.5.15
houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei
a encher umas quantas páginas do caderno
aconteceu também por vezes que o papel pareceu
estremecer,
mas o mundo não: nunca senti que o mundo estremecesse
sob as minhas palavras escritas,
[mas eu senti, hh, eu senti o meu mundo estremecer, quando as tuas palavras se escreveram em mim]
a encher umas quantas páginas do caderno
aconteceu também por vezes que o papel pareceu
estremecer,
mas o mundo não: nunca senti que o mundo estremecesse
sob as minhas palavras escritas,
[mas eu senti, hh, eu senti o meu mundo estremecer, quando as tuas palavras se escreveram em mim]
12.5.15
_____________ a primeira imagem do Diário não é, para mim, o repouso na vida quotidiana, mas uma constelação de imagens, caminhando todas as constelações umas sobre as outras. Qualquer aprendiz imagético, quando sobe ao meu quarto e atravessa o meu escritório, tem o sentimento de que «um belo lixo de imagens se criou aqui». Se for menos inocente dirá: «que belo luxo de imagens». Eu diria: aqui está a raiz de qualquer livro.
Numerosas Linhas
11.5.15
Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia
quotidiana.
a invenção do amor
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia
quotidiana.
a invenção do amor
10.5.15
9.5.15
6.5.15
se a dor fosse só a carne do dedo
que se esfrega na parede de pedra
para doer doer doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas
se ao menos esta dor sangrasse
[daqui]
que se esfrega na parede de pedra
para doer doer doer visível
doer penalizante
doer com lágrimas
se ao menos esta dor sangrasse
[daqui]
3.5.15
2.5.15
Y escribo:
del atropello mortal quedó en el suelo
una agenda, un bolígrafo negro
y unas gotas de sangre.
[naufragios y brujería]
del atropello mortal quedó en el suelo
una agenda, un bolígrafo negro
y unas gotas de sangre.
[naufragios y brujería]
1.5.15
27.4.15
26.4.15
Diário de Alina Reyes - 20 de Janeiro
[este conto, Distante, lembra-me o filme de Krzysztof Kieślowski, La double vie de Véronique, de 1991.]
[...] não gostam de mim, da distante. É a parte de que não gostam, e como não me há-de dilacerar por dentro sentir que me batem ou que a neve me entra nos sapatos quando Luis María dança comigo e a sua mão na cintura me vai possuindo como um calor ao meio-dia, um sabor a laranjas perfumadas ou tacuaras esmagadas, e batem-lhe e é impossível resistir, e então tenho de dizer a Luis María que não estou bem, que é a humidade, humidade no meio dessa neve que não sinto, que não sinto e me está a entrar nos sapatos.
in Bestiário (1951)
[este conto, Distante, lembra-me o filme de Krzysztof Kieślowski, La double vie de Véronique, de 1991.]
25.4.15
24.4.15
15.4.15
13.4.15
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