26.7.15

Olivia Bee















21.7.15

dói-lhe a alma pelo corpo todo.
Neil Craver

vagueou toda a madrugada por caminhos tortuosos.

19.7.15

Yung Cheng Lin

18.7.15

4:25h, a noite é branca demais.

15.7.15

Unknown



















É tédio? É depressão? Talvez loucura?

14.7.15

diluo-me com os objectos, tudo
me toca mas nada dá por mim, tão
imóvel que me ignora a dor, não 
há como acordar um corpo mudo. 

13.7.15

Mamografia de mármore

Deliciam-me as palavras
dos relatórios médicos, os nomes cheios
de saber oculto e míticos lugares
como a região sacro-lombar ou o tendão de Aquiles.


Numa mamografia de rastreio,
a incidência crânio-caudal seria
um bom título para uma tese teológica.


Alguns poetas falam disso. Pneumotórax
de Manuel Bandeira ou Electrocardiograma
de Nemésio, para não referir os vermelhos de hemoptise
de Pessanha ou as engomadeiras tísicas
de Cesário.


Mas nenhum(a) falou (ou fala)
de mamografia de rastreio. Versos dignos
só os de mamilo róseo desde o tempo
de Safo ou de Penélope. E, de Afrodite
enquanto deusa, só restaram óleos e
mamografias de mármore.

10.7.15

nenhum suicídio é uma morte grandiosa, e só uma morte grandiosa, espectacular, me convém hoje. mas parece-me que não morrerei nunca, isto é a pior morte que se tem, não se morrer nunca e estar sempre a morrer. fumo um cigarro, escuto atentamente o silêncio, passou o último eléctrico, apago a luz.

8.7.15

[obrigada, lebre]

Harux e Harix decidiram nunca mais se levantar da cama. Amam-se loucamente e não podem afastar-se um do outro mais do que sessenta ou setenta centímetros. Logo o melhor é ficar na cama, longe dos apelos do mundo. No entanto, o telefone está na mesa-de-cabeceira, e às vezes toca e interrompe os seus abraços: são os familiares que querem saber se tudo está bem. Mas essas chamadas são cada vez mais raras e lacónicas. Os amantes apenas se levantam para ir à casa de banho, e nem sempre, a cama está desarrumada, os lençóis gastos, mas eles não dão conta, cada um mais imerso na onda azul dos olhos do outro. Os seus membros misticamente entrelaçados.

Na primeira semana alimentaram-se de bolachinhas, de que se tinham abastecido abundantemente. Como as bolachas acabaram, agora comem-se um ao outro.

Anestesiados pelo desejo, arrancam grandes pedaços de carne com os dentes, entre dois beijos devoram o nariz ou o dedo mindinho, bebem o sangue um do outro; depois saciados fazem novamente amor como podem, e adormecem para recomeçar quando acordam. Perderam a conta dos dias e das horas. Não são bonitos de ver, isso é verdade, ensanguentados, esquartejados, pegajosos. Mas o seu amor está para além de todas as convenções.
Benjamin Heath

7.7.15

Descrição de um estado físico

uma sensação de queimadura ácida nos membros, músculos retorcidos e em carne viva, 
o sentimento de ser de vidro e quebrável, um medo, uma retracção perante o movimento e o barulho. Uma desordem inconsciente do andar, dos gestos, dos movimentos. Uma vontade perpetuamente tensa para os gestos mais simples,
a renuncia ao gesto simples,
uma fadiga arrasante e central, uma espécie de fadiga absorvente. Os movimentos por refazer, uma espécie de fadiga de morte, a fadiga do espírito pela aplicação da mais simples tensão muscular, o gesto de pegar, de se agarrar inconscientemente a qualquer coisa, a sustentar por uma vontade aplicada.

Uma fadiga do princípio do mundo, a sensação do seu corpo como um fardo, um sentimento de fragilidade incrível, que se torna numa dor despedaçante, um estado de entorpecimento doloroso, uma espécie de entorpecimento localizado na pele, 
que não impede nenhum movimento mas altera a sensação interna de um membro, 
e confere à simples posição vertical o valor de prémio de um esforço vitorioso.

Localizado provavelmente na pele, mas sentido como supressão radical de um membro, e não apresentado já ao cérebro senão imagens de membros filiformes e algodoados, imagens de membros longínquos e fora do seu lugar. Uma espécie de ruptura interna da correspondência de todos os nervos.

Uma vertigem em movimento, uma espécie de assombro oblíquo que acompanha todo o esforço, uma coagulação de calor que condensa toda a extensão do crânio, ou se desfaz em pedaços, placas de calor que se deslocam.

Uma exacerbação dolorosa do crânio, uma cortante pressão dos nervos, a nuca obstinada em sofrer, as têmporas que se cristalizam ou se petrificam, uma cabeça espezinhada por cavalos.


[cada palavra trespassa, rasga, expele.]

4.7.15

No movimento da borboleta o movimento é que se move,


Celeste Ortiz

1.7.15

E vinha vindo a Noite por entre os pinheiros, e vinha descalça com pés de surdina por môr do barulho, de braços estendidos p'ra não topar com os troncos; e vinha vindo a noite céguinha como a lanterna que lhe pendia da cinta. E vinha a sonhar. As sombras ao vê-la esconderam os punhaes nos peitos vazios. 

24.6.15

Leslie Ann O'Dell

Andávamos sem nos procurarmos, mas sabendo que andávamos para nos encontrarmos.

23.6.15


Ilya Kisaradov

20.6.15

felizmente acorda já derrotada, não teria forças para lutar.

8.6.15

o general Isidro Vidal conseguiu derrotar o inimigo em todas as frentes. os tempos são agora de paz e abundância. as aldeias fronteiriças dizimadas começam, aos poucos, a ser reconstruídas e habitadas por deslocados e desertores de guerra. o comércio retomou as rotas habituais e os impostos voltaram a ser cobrados. da guerra ficam as feridas das perdas humanas, mulheres sem maridos, filhos, irmãos e pais, mas orgulhosas da sua linhagem guerreira. 
por um bilhete da prima, Ulrica soube que Borges foi um dos capitães condecorados por bravura e valentia e da guerra herdou um mancar na perna direita, bala dirigida ao general. soube também que regressou a casa, não à casa que Ulrica julgou ser a sua, mas ao doce lar, onde uma esposa extremosa e dois filhos pequenos o aguardavam. tudo isto lhe contou a prima, julgando informá-la apenas de meras curiosidades sobre tão garboso capitão, um herói.
Ulrica caiu de cama por mais de duas semanas, com tão rude golpe. quis morrer, deu-se por vencida. entendia agora o intransponível labirinto de Borges, a sua fuga sem fim. levantou-se finalmente no dia em que se deu o eclipse solar, movida pela curiosidade. Abenjacan, que nunca abandonou a cabeceira da cama, saiu nesse mesmo dia para caçar. Atlas, ainda e para sempre coxa, seguiu-o. mais tarde, Ulrica, montando Salomão, que entretanto engordara e caminhava sem pressas, juntou-se-lhes na clareira perto do templo. nesse entardecer o equilíbrio reestabeleceu-se. os quatro estavam ligados pelo laço mais forte de Odin, o laço do afecto.
de Borges, hão-de restar apenas as memórias, um dia.

7.6.15

They learn to clutch the knife
Blade to borrowed rib
To empty the cup and be content

With utterly nothing

*

Elas aprendem a agarrar a lâmina
Da faca na costela emprestada
A esvaziar o cálice e contentar-se

Com nada de nada.

(tradução de Ricardo Domeneck)

revista modo de usar & co.

6.6.15

Apaixonei-me por um livreiro 
que me dá livros e me tira a roupa, 
que me guia pelo esqueleto do livro  
mostrando a importância do tamanho  
das palavras escritas 
sobre o papel opaco e pesado 
entre os dedos que se molham  
antes de virar páginas. 

Mas. 

Num dos dedos já secos 
abriu-se a fenda invisível de um corte de papel, 
esse sítio onde ainda me mantém. 
O pó cobre agora  
os espaços vazios das estantes, 
dentes arrancados de uma boca torta 
e as roupas ainda mornas  
jazem sobre o colchão 
onde uma mancha esbranquiçada 
é mutante quando vista  
aos olhos dos amantes: 
do meu lado da cama é vírgula, 
do dele, 
ponto final. 


[enfermaria 6]

Cam Damage

5.6.15

A nudez é o mais perto que se há-de chegar do espírito. 

[enfermaria 6]

3.6.15

malditas as noites que maltratam os dias. asfixiam-me, para me deixar sorver um pouco de ar junto à madrugada. recomposta, recebo então o cansaço, pesado como placas de chumbo, metal maciço, pedra tumular, dores no peito. acordo, mais um dia, já cansada, doente da fadiga que se desincorpora da alma, essa vil, estupidamente fraca, e obsoleta alma. não quero morrer bocejando.

2.6.15

Alison Amick

Gostaria de editar-me a mim mesma, sem obstáculos. Gostaria
que não me deixassem apagar de tristeza, de um vago
sentimento de inutilidade por escrever sobre uma língua que
arde sobre si mesma que se devora a si mesma: 

26.5.15

Yiorgos Mavropoulos

[queria oferecer-lhe as horas que havia roubado ao tempo. depois percebeu-lhe a liberdade, observando o horizonte, e decidiu deixar a morte avançar.]

um dia destes tenho o dia inteiro para morrer,
espero que não me doa,
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

25.5.15

Arber Sefa

[gostava de ter sido eu a escrevê-lo.]

Não quero ruído, nem gargalhadas, nem conversas lúbricas, nem convites para jantar em restaurantes onde se servem carnes maduras. Não quero amar e não quero ser amada. Isso não. Quero apenas a vulgaridade, mas a vulgaridade silenciosa, invisível, a que jamais se confessa, a vulgaridade das casas de banho-públicas, dos quartos de hotel e dos carros parados à beira-rio. E, como no poema, não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício e cair verticalmente no vício.

la muerte se muere de risa pero la vida
se muere de llanto pero la muerte pero la vida
pero nada nada nada

24.5.15

Unknown





























Da dor sei o amor.

22.5.15

But now I think there is no unreturn’d love—the pay is certain, one way or another;
(I loved a certain person ardently, and my love was not return’d;   
Yet out of that, I have written these songs.)

19.5.15

Sometimes with one I love, I fill myself with rage, for fear I effuse unreturn’d love;

18.5.15

Unknown

16.5.15

houve momentos em que fui apanhado neste jogo e cheguei
                 a encher umas quantas páginas do caderno
aconteceu também por vezes que o papel pareceu 
                                                       estremecer,
mas o mundo não: nunca senti que o mundo estremecesse
                                              sob as minhas palavras escritas,

[mas eu senti, hh, eu senti o meu mundo estremecer, quando as tuas palavras se escreveram em mim]

12.5.15

_____________ a primeira imagem do Diário não é, para mim, o repouso na vida quotidiana, mas uma constelação de imagens, caminhando todas as constelações umas sobre as outras. Qualquer aprendiz imagético, quando sobe ao meu quarto e atravessa o meu escritório, tem o sentimento de que «um belo lixo de imagens se criou aqui». Se for menos inocente dirá: «que belo luxo de imagens». Eu diria: aqui está a raiz de qualquer livro.
Numerosas Linhas

11.5.15

Nesa Paripovic

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com carácter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia 
quotidiana.

a invenção do amor

10.5.15

Lucy Zharikova

9.5.15

imerecedores, párias, fungos amarelos: estruturas hifais sorvendo hospedeiros vivos, encostos que se arrastam pelo passeio.

6.5.15

se a dor fosse só a carne do dedo 
que se esfrega na parede de pedra 
para doer doer doer visível 
doer penalizante 
doer com lágrimas 

se ao menos esta dor sangrasse 


[daqui]

3.5.15

damos à luz. filhos, palavras, sopros de amor, gestos, ondas, sal e mel. um acto de entrega, para que a sombra não nos devore cedo demais.

2.5.15

Y escribo:
del atropello mortal quedó en el suelo
una agenda, un bolígrafo negro
y unas gotas de sangre.

[naufragios y brujería]

1.5.15

a madrugada traz-me o navio da saudade.

Andreas Athan

27.4.15

tengo la seguridad de que tenemos el mismo tipo de sangre podrida
                            -somos la cal que asesina todo-
el viento envenenado que se pega a la piel de las manzanas
Nicolas Laborie

26.4.15

Diário de Alina Reyes - 20 de Janeiro


[...] não gostam de mim, da distante. É a parte de que não gostam, e como não me há-de dilacerar por dentro sentir que me batem ou que a neve me entra nos sapatos quando Luis María dança comigo e a sua mão na cintura me vai possuindo como um calor ao meio-dia, um sabor a laranjas perfumadas ou tacuaras esmagadas, e batem-lhe e é impossível resistir, e então tenho de dizer a Luis María que não estou bem, que é a humidade, humidade no meio dessa neve que não sinto, que não sinto e me está a entrar nos sapatos.

in Bestiário (1951)


[este conto, Distante, lembra-me o filme de Krzysztof Kieślowski, La double vie de Véronique, de 1991.]