17.8.15

esventrar a dor, se pudesse pedir. depois adormecer. acordar pedra, seixo do rio.




All stars in the sky are for you
All songs in the world are for you
Everybody is for you
Everything's specially for you
All the Universe is just for you

16.8.15

Ainda que chorar seja inútil, creio que, contudo, é necessário chorar. Porque o desespero é tangível. A recordação do desespero permanece. Às vezes mata.
hoje festejo o primeiro dia de outono. maravilhoso.
a neblina que esconde o cume do vale não disfarça o eco dos tiros. abriu a maldita época de caça.

15.8.15

Unknown

Não sei de prazer maior, em toda a minha vida, que poder dormir. O apagamento integral da vida e da alma, o afastamento completo de tudo quanto é seres e gente, a noite sem memória nem ilusão, o não ter passado nem futuro.


Jeremy Mann

14.8.15

não procuro maiorias, grupos, tendências, cadeiras de encosto, nem encosto de cadeiras, lugares-comuns ou massivamente incomuns. o sabor da possibilidade de um pensamento individual - um ciclo completo da ideia, pelo menos - é intenso e maduro, como gosto. o contrário seria fingir-me na realidade dos outros, tantas vezes construída com propósitos antagónicos aos meus, e isso - o tempo ensina - de nada me serve. prefiro /des/construir o vazio /? existirá o vazio?/ a aplaudir o oco, em frente à plateia. 
Georgia O’Keeffe– Hands with Thimble

13.8.15

Uma criança (...).
"Tenho um grande medo de ser a sua mãe", disse a mim própria. Senti-me invadida por grande ansiedade porque quem amamenta não imagina a quimera que traz no seio.

(28 de Junho de 1984 - Herbais)
[final do prólogo do autor/dedicatória]

O que foi, torna a ser. O que é, perde existência.
O palpável é nada. O nada assume essência.

[Fausto, traduzido por António Feliciano de Castilho]


..../?/....

O que possuo dilui‑se na distância,
E o que fugira ganha forma e substância.

[Fausto, traduzido por João Barrento]

12.8.15

comprei todos os seus Diários. amo-o, como amo outras folhas de papel.
Sonho um barco em naufrágio, e um mar tão fundo que a descida do abismo é lentidão sem fim.

11.8.15

sob um sol que me incomoda os olhos, depois o corpo, não sei quantas passadas dou, a direito, antes e depois da sopa triturada, que comi com tamanho gosto. ao longe, vejo a tarde, sei-a de cor, mas à memória vens-me tu, à boca, o teu sexo, quase lhe sinto o sabor.

Unknown















O teu pénis
é o rouxinol
que canta
e adeja
nas minhas mãos
em mim
e que posso beijar
Se existisses, serias tu,
talvez um pouco menos exacta,
mas a mesma existência, o mesmo nome, a mesma morada.

Atrás de ti haveria
as mesmas palmeiras, e eu estaria
sentado a teu lado como numa fotografia.

Entretanto dobrar-se-ia o mundo
(o teu mundo: o teu destino, a tua idade)
entre ser e possibilidade,

e eu permaneceria acordado
e em prosa, habitando-te como uma casa
ou uma memória.

[Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança]

houve um tempo em que enganava o desespero do corpo, mantendo-o adormecido. de tanto dormir, longe da claridade que queima, a dor foi-se anestesiando. é o que tento agora, embalar o corpo, para que durma, mas o corpo, cansado de mim, já não se deixa enganar. a tristeza que lhe roubo ao anoitecer, devolve-ma em madrugadas brancas de facas afiadas. algures, perdi a habilidade com as palavras, perdi a vontade. todos os gritos são mudos. 

10.8.15

- Meu pai, que nos ardem os pinhais.

Unknown

venho aqui deixar paus, pedras, regatos verdes de agriões e pequenas rãs, poças de água, pinheiros velhos, silvados e amoras, restolhos rentes que já foram mar, uma serra onde pertenço. velhas fotografias. pele, flores, brisas, beijos. tesouros que guardo nas memórias que /des/construo. fugi de mim e agora não sei/.../ húmus. árvores. cavernas. morcegos. escuridão. uivos. lamentos.
não voltarei à alcateia. já não existe/o/.
Sónia Silva











































Deixa a madrugada aumentar a ferrugem dos teus sonhos.

O Juízo Original - André Breton & Paul Éluard

8.8.15

Trees resigned to dying - Natalia Drepina




























Para descobrir a nudez daquela que amas, olha as suas mãos. O seu rosto baixou.

O Juízo Original - André Breton & Paul Éluard

7.8.15

Nós nunca nos realizamos.
Somos dois abismos - um poço fitando o céu.
“(o) fading do outro, quando se produz, angustia-me, porque parece não ter causa nem termo. Eis uma triste miragem, o outro afasta-se, dirige-se ao infinito e eu canso-me tentando alcançá-lo”

6.8.15

Ser parte de uma árvore,
como os pássaros o são.
Achar uma voz sem boca,
ou mesmo encontrar
uma boca que fale azul.

5.8.15

as árvores também sangram

Will Benedict

4.8.15

Finalmente a verdade Que tu mais não és que uma citação 
De um livro que não escreveste 

3.8.15

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
— no amor mais terrível do que a vida.
É pôr a boca na fenda, e de um sorvo só aspirar toda a carne.

2.8.15

são como um vestido, cabe nelas, mas não foram desenhadas para as suas medidas. ajeita-as, disfarça-lhes a largura com um cinto dourado. 

1.8.15

Escrevo-te com o fogo e a água. Escrevo-te 
no sossego feliz das folhas e das sombras.
Escrevo-te quando o saber é sabor, quando tudo é surpresa.
there's a bluebird in my heart 


metamorphosis by Slava Triptih

28.7.15

Unknown

















lá, onde o seu abraço a salvou.
Esta vista de mar, solitariamente,
dói-me. Apenas dois mares,
dois sóis, duas luas
me dariam riso e bálsamo.
A arte da natureza pede
o amor em dois olhares
Wojciech Plewinski

26.7.15

Viverei até à hora derradeira a tua morte.
Aos goles, lentos goles. Como se fosse
cada vez um veneno novo.
Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso.
O remorso de todo o perdido em nossa vida,
coisas de antes e depois, coisas de nunca,
palavras mudas para sempre, um gesto
que sem remédio jamais teve destino,
o olhar que procura e nunca tem resposta.
Olivia Bee















21.7.15

dói-lhe a alma pelo corpo todo.
Neil Craver

vagueou toda a madrugada por caminhos tortuosos.

19.7.15

Yung Cheng Lin

18.7.15

4:25h, a noite é branca demais.

15.7.15

Unknown



















É tédio? É depressão? Talvez loucura?

14.7.15

diluo-me com os objectos, tudo
me toca mas nada dá por mim, tão
imóvel que me ignora a dor, não 
há como acordar um corpo mudo. 

13.7.15

Mamografia de mármore

Deliciam-me as palavras
dos relatórios médicos, os nomes cheios
de saber oculto e míticos lugares
como a região sacro-lombar ou o tendão de Aquiles.


Numa mamografia de rastreio,
a incidência crânio-caudal seria
um bom título para uma tese teológica.


Alguns poetas falam disso. Pneumotórax
de Manuel Bandeira ou Electrocardiograma
de Nemésio, para não referir os vermelhos de hemoptise
de Pessanha ou as engomadeiras tísicas
de Cesário.


Mas nenhum(a) falou (ou fala)
de mamografia de rastreio. Versos dignos
só os de mamilo róseo desde o tempo
de Safo ou de Penélope. E, de Afrodite
enquanto deusa, só restaram óleos e
mamografias de mármore.

10.7.15

nenhum suicídio é uma morte grandiosa, e só uma morte grandiosa, espectacular, me convém hoje. mas parece-me que não morrerei nunca, isto é a pior morte que se tem, não se morrer nunca e estar sempre a morrer. fumo um cigarro, escuto atentamente o silêncio, passou o último eléctrico, apago a luz.

8.7.15

[obrigada, lebre]

Harux e Harix decidiram nunca mais se levantar da cama. Amam-se loucamente e não podem afastar-se um do outro mais do que sessenta ou setenta centímetros. Logo o melhor é ficar na cama, longe dos apelos do mundo. No entanto, o telefone está na mesa-de-cabeceira, e às vezes toca e interrompe os seus abraços: são os familiares que querem saber se tudo está bem. Mas essas chamadas são cada vez mais raras e lacónicas. Os amantes apenas se levantam para ir à casa de banho, e nem sempre, a cama está desarrumada, os lençóis gastos, mas eles não dão conta, cada um mais imerso na onda azul dos olhos do outro. Os seus membros misticamente entrelaçados.

Na primeira semana alimentaram-se de bolachinhas, de que se tinham abastecido abundantemente. Como as bolachas acabaram, agora comem-se um ao outro.

Anestesiados pelo desejo, arrancam grandes pedaços de carne com os dentes, entre dois beijos devoram o nariz ou o dedo mindinho, bebem o sangue um do outro; depois saciados fazem novamente amor como podem, e adormecem para recomeçar quando acordam. Perderam a conta dos dias e das horas. Não são bonitos de ver, isso é verdade, ensanguentados, esquartejados, pegajosos. Mas o seu amor está para além de todas as convenções.
Benjamin Heath

7.7.15

Descrição de um estado físico

uma sensação de queimadura ácida nos membros, músculos retorcidos e em carne viva, 
o sentimento de ser de vidro e quebrável, um medo, uma retracção perante o movimento e o barulho. Uma desordem inconsciente do andar, dos gestos, dos movimentos. Uma vontade perpetuamente tensa para os gestos mais simples,
a renuncia ao gesto simples,
uma fadiga arrasante e central, uma espécie de fadiga absorvente. Os movimentos por refazer, uma espécie de fadiga de morte, a fadiga do espírito pela aplicação da mais simples tensão muscular, o gesto de pegar, de se agarrar inconscientemente a qualquer coisa, a sustentar por uma vontade aplicada.

Uma fadiga do princípio do mundo, a sensação do seu corpo como um fardo, um sentimento de fragilidade incrível, que se torna numa dor despedaçante, um estado de entorpecimento doloroso, uma espécie de entorpecimento localizado na pele, 
que não impede nenhum movimento mas altera a sensação interna de um membro, 
e confere à simples posição vertical o valor de prémio de um esforço vitorioso.

Localizado provavelmente na pele, mas sentido como supressão radical de um membro, e não apresentado já ao cérebro senão imagens de membros filiformes e algodoados, imagens de membros longínquos e fora do seu lugar. Uma espécie de ruptura interna da correspondência de todos os nervos.

Uma vertigem em movimento, uma espécie de assombro oblíquo que acompanha todo o esforço, uma coagulação de calor que condensa toda a extensão do crânio, ou se desfaz em pedaços, placas de calor que se deslocam.

Uma exacerbação dolorosa do crânio, uma cortante pressão dos nervos, a nuca obstinada em sofrer, as têmporas que se cristalizam ou se petrificam, uma cabeça espezinhada por cavalos.


[cada palavra trespassa, rasga, expele.]

4.7.15

No movimento da borboleta o movimento é que se move,


Celeste Ortiz