esventrar a dor, se pudesse pedir. depois adormecer. acordar pedra, seixo do rio.
All stars in the sky are for you
All songs in the world are for you
Everybody is for you
Everything's specially for you
All the Universe is just for you
se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria
17.8.15
16.8.15
15.8.15
14.8.15
não procuro maiorias, grupos, tendências, cadeiras de encosto, nem encosto de cadeiras, lugares-comuns ou massivamente incomuns. o sabor da possibilidade de um pensamento individual - um ciclo completo da ideia, pelo menos - é intenso e maduro, como gosto. o contrário seria fingir-me na realidade dos outros, tantas vezes construída com propósitos antagónicos aos meus, e isso - o tempo ensina - de nada me serve. prefiro /des/construir o vazio /? existirá o vazio?/ a aplaudir o oco, em frente à plateia.
13.8.15
[final do prólogo do autor/dedicatória]
O que foi, torna a ser. O que é, perde existência.
O palpável é nada. O nada assume essência.
[Fausto, traduzido por António Feliciano de Castilho]
..../?/....
O que possuo dilui‑se na distância,
E o que fugira ganha forma e substância.
[Fausto, traduzido por João Barrento]
O que foi, torna a ser. O que é, perde existência.
O palpável é nada. O nada assume essência.
[Fausto, traduzido por António Feliciano de Castilho]
..../?/....
O que possuo dilui‑se na distância,
E o que fugira ganha forma e substância.
[Fausto, traduzido por João Barrento]
11.8.15
Se existisses, serias tu,
talvez um pouco menos exacta,
mas a mesma existência, o mesmo nome, a mesma morada.
Atrás de ti haveria
as mesmas palmeiras, e eu estaria
sentado a teu lado como numa fotografia.
Entretanto dobrar-se-ia o mundo
(o teu mundo: o teu destino, a tua idade)
entre ser e possibilidade,
e eu permaneceria acordado
e em prosa, habitando-te como uma casa
ou uma memória.
talvez um pouco menos exacta,
mas a mesma existência, o mesmo nome, a mesma morada.
Atrás de ti haveria
as mesmas palmeiras, e eu estaria
sentado a teu lado como numa fotografia.
Entretanto dobrar-se-ia o mundo
(o teu mundo: o teu destino, a tua idade)
entre ser e possibilidade,
e eu permaneceria acordado
e em prosa, habitando-te como uma casa
ou uma memória.
[Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança]
houve um tempo em que enganava o desespero do corpo, mantendo-o adormecido. de tanto dormir, longe da claridade que queima, a dor foi-se anestesiando. é o que tento agora, embalar o corpo, para que durma, mas o corpo, cansado de mim, já não se deixa enganar. a tristeza que lhe roubo ao anoitecer, devolve-ma em madrugadas brancas de facas afiadas. algures, perdi a habilidade com as palavras, perdi a vontade. todos os gritos são mudos.
10.8.15
venho aqui deixar paus, pedras, regatos verdes de agriões e pequenas rãs, poças de água, pinheiros velhos, silvados e amoras, restolhos rentes que já foram mar, uma serra onde pertenço. velhas fotografias. pele, flores, brisas, beijos. tesouros que guardo nas memórias que /des/construo. fugi de mim e agora não sei/.../ húmus. árvores. cavernas. morcegos. escuridão. uivos. lamentos.
não voltarei à alcateia. já não existe/o/.
9.8.15
8.8.15
7.8.15
6.8.15
5.8.15
3.8.15
2.8.15
1.8.15
28.7.15
26.7.15
Viverei até à hora derradeira a tua morte.
Aos goles, lentos goles. Como se fosse
cada vez um veneno novo.
Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso.
O remorso de todo o perdido em nossa vida,
coisas de antes e depois, coisas de nunca,
palavras mudas para sempre, um gesto
que sem remédio jamais teve destino,
o olhar que procura e nunca tem resposta.
Aos goles, lentos goles. Como se fosse
cada vez um veneno novo.
Não é tanto a saudade que dói, mas o remorso.
O remorso de todo o perdido em nossa vida,
coisas de antes e depois, coisas de nunca,
palavras mudas para sempre, um gesto
que sem remédio jamais teve destino,
o olhar que procura e nunca tem resposta.
21.7.15
19.7.15
18.7.15
15.7.15
14.7.15
13.7.15
Mamografia de mármore
Deliciam-me as palavras
dos relatórios médicos, os nomes cheios
de saber oculto e míticos lugares
como a região sacro-lombar ou o tendão de Aquiles.
Numa mamografia de rastreio,
a incidência crânio-caudal seria
um bom título para uma tese teológica.
Alguns poetas falam disso. Pneumotórax
de Manuel Bandeira ou Electrocardiograma
de Nemésio, para não referir os vermelhos de hemoptise
de Pessanha ou as engomadeiras tísicas
de Cesário.
Mas nenhum(a) falou (ou fala)
de mamografia de rastreio. Versos dignos
só os de mamilo róseo desde o tempo
de Safo ou de Penélope. E, de Afrodite
enquanto deusa, só restaram óleos e
mamografias de mármore.
Deliciam-me as palavras
dos relatórios médicos, os nomes cheios
de saber oculto e míticos lugares
como a região sacro-lombar ou o tendão de Aquiles.
Numa mamografia de rastreio,
a incidência crânio-caudal seria
um bom título para uma tese teológica.
Alguns poetas falam disso. Pneumotórax
de Manuel Bandeira ou Electrocardiograma
de Nemésio, para não referir os vermelhos de hemoptise
de Pessanha ou as engomadeiras tísicas
de Cesário.
Mas nenhum(a) falou (ou fala)
de mamografia de rastreio. Versos dignos
só os de mamilo róseo desde o tempo
de Safo ou de Penélope. E, de Afrodite
enquanto deusa, só restaram óleos e
mamografias de mármore.
10.7.15
8.7.15
[obrigada, lebre]
Harux e Harix decidiram nunca mais se levantar da cama. Amam-se loucamente e não podem afastar-se um do outro mais do que sessenta ou setenta centímetros. Logo o melhor é ficar na cama, longe dos apelos do mundo. No entanto, o telefone está na mesa-de-cabeceira, e às vezes toca e interrompe os seus abraços: são os familiares que querem saber se tudo está bem. Mas essas chamadas são cada vez mais raras e lacónicas. Os amantes apenas se levantam para ir à casa de banho, e nem sempre, a cama está desarrumada, os lençóis gastos, mas eles não dão conta, cada um mais imerso na onda azul dos olhos do outro. Os seus membros misticamente entrelaçados.
Na primeira semana alimentaram-se de bolachinhas, de que se tinham abastecido abundantemente. Como as bolachas acabaram, agora comem-se um ao outro.
Anestesiados pelo desejo, arrancam grandes pedaços de carne com os dentes, entre dois beijos devoram o nariz ou o dedo mindinho, bebem o sangue um do outro; depois saciados fazem novamente amor como podem, e adormecem para recomeçar quando acordam. Perderam a conta dos dias e das horas. Não são bonitos de ver, isso é verdade, ensanguentados, esquartejados, pegajosos. Mas o seu amor está para além de todas as convenções.
7.7.15
Descrição de um estado físico
uma sensação de queimadura ácida nos membros, músculos retorcidos e em carne viva,
o sentimento de ser de vidro e quebrável, um medo, uma retracção perante o movimento e o barulho. Uma desordem inconsciente do andar, dos gestos, dos movimentos. Uma vontade perpetuamente tensa para os gestos mais simples,
a renuncia ao gesto simples,
uma fadiga arrasante e central, uma espécie de fadiga absorvente. Os movimentos por refazer, uma espécie de fadiga de morte, a fadiga do espírito pela aplicação da mais simples tensão muscular, o gesto de pegar, de se agarrar inconscientemente a qualquer coisa, a sustentar por uma vontade aplicada.
Uma fadiga do princípio do mundo, a sensação do seu corpo como um fardo, um sentimento de fragilidade incrível, que se torna numa dor despedaçante, um estado de entorpecimento doloroso, uma espécie de entorpecimento localizado na pele,
que não impede nenhum movimento mas altera a sensação interna de um membro,
e confere à simples posição vertical o valor de prémio de um esforço vitorioso.
Localizado provavelmente na pele, mas sentido como supressão radical de um membro, e não apresentado já ao cérebro senão imagens de membros filiformes e algodoados, imagens de membros longínquos e fora do seu lugar. Uma espécie de ruptura interna da correspondência de todos os nervos.
Uma vertigem em movimento, uma espécie de assombro oblíquo que acompanha todo o esforço, uma coagulação de calor que condensa toda a extensão do crânio, ou se desfaz em pedaços, placas de calor que se deslocam.
Uma exacerbação dolorosa do crânio, uma cortante pressão dos nervos, a nuca obstinada em sofrer, as têmporas que se cristalizam ou se petrificam, uma cabeça espezinhada por cavalos.
[cada palavra trespassa, rasga, expele.]
uma sensação de queimadura ácida nos membros, músculos retorcidos e em carne viva,
o sentimento de ser de vidro e quebrável, um medo, uma retracção perante o movimento e o barulho. Uma desordem inconsciente do andar, dos gestos, dos movimentos. Uma vontade perpetuamente tensa para os gestos mais simples,
a renuncia ao gesto simples,
uma fadiga arrasante e central, uma espécie de fadiga absorvente. Os movimentos por refazer, uma espécie de fadiga de morte, a fadiga do espírito pela aplicação da mais simples tensão muscular, o gesto de pegar, de se agarrar inconscientemente a qualquer coisa, a sustentar por uma vontade aplicada.
Uma fadiga do princípio do mundo, a sensação do seu corpo como um fardo, um sentimento de fragilidade incrível, que se torna numa dor despedaçante, um estado de entorpecimento doloroso, uma espécie de entorpecimento localizado na pele,
que não impede nenhum movimento mas altera a sensação interna de um membro,
e confere à simples posição vertical o valor de prémio de um esforço vitorioso.
Localizado provavelmente na pele, mas sentido como supressão radical de um membro, e não apresentado já ao cérebro senão imagens de membros filiformes e algodoados, imagens de membros longínquos e fora do seu lugar. Uma espécie de ruptura interna da correspondência de todos os nervos.
Uma vertigem em movimento, uma espécie de assombro oblíquo que acompanha todo o esforço, uma coagulação de calor que condensa toda a extensão do crânio, ou se desfaz em pedaços, placas de calor que se deslocam.
Uma exacerbação dolorosa do crânio, uma cortante pressão dos nervos, a nuca obstinada em sofrer, as têmporas que se cristalizam ou se petrificam, uma cabeça espezinhada por cavalos.
[cada palavra trespassa, rasga, expele.]
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