os tractores toda a tarde na mesma volta, no ar um cheiro doce a uvas esmagadas, nos rostos o sorriso aberto agradecendo o sol, que ajudará na graduação. vejo-os chegar, sorrio-lhes à passagem. sozinha, permito que as lágrimas me aflorem os olhos. sinto a dor do costume queimar-me o estômago, tento apaziguá-la, ficando quieta por alguns momentos. quando a julgo adormecida quanto baste, meto a primeira e arranco, fugindo. não esperava encontrar a memória do meu avô num cruzamento.
se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria
20.9.15
19.9.15
...
Então tu saltas e arrastas contigo toda a terra.
Convidas-me para o teu corpo
no gesto sem mágoa de um ombro que se expõe.
Tens anos de combustão solar,
e moves-te assim:
tocando simultaneamente o resgate e o perigo.
...
Não digas sorte, diz privilégio.
Não peças perdão, pede chuva.
Não recues, assombra-te.
Então tu saltas e arrastas contigo toda a terra.
Convidas-me para o teu corpo
no gesto sem mágoa de um ombro que se expõe.
Tens anos de combustão solar,
e moves-te assim:
tocando simultaneamente o resgate e o perigo.
...
Não digas sorte, diz privilégio.
Não peças perdão, pede chuva.
Não recues, assombra-te.
18.9.15
16.9.15
15.9.15
ouve-se o ruído das rodas do landau no cascalho, Konrád chegou. as velas azuis já ardem em cima da mesa. Henrik, trajando um preto sacerdotal, desceu do quarto, apoiando-se na sua bengala de cabeça de marfim. passaram quarenta e um anos, Krisztina vagueia pelas sombras da velha casa. vou atrás dela.
[as velas ardem até ao fim]
14.9.15
12.9.15
melancolicamente enjoativa em olhos inflamados de vermelho e pés que parecem colados ao chão, lá pelas três da manhã, vem-lhe o ímpeto de uma morte interestelar, como o arco de fogo que ninguém vê mas ele descobriu. aquele homem, que lhe corre nas veias. soubesse ela escalpelizar-se com a tesoura da costura, que guarda na segunda gaveta da cómoda, e começaria por procurá-lo debaixo da pele fina dos seios. ou, da faca afiada, cheirando a basílico, um bisturi que lhe chegasse ao centro magmático, revolteando entre bolsas e tripas fumegantes, como toros de couve numa sopa a ferver, a compaixão cómica de uma tragédia romântica fora de prazo, e encontrasse a boca que a ignora. porque não há admiração na realidade, tudo seria normal, o sangue na cama de lavado pingando o soalho cinzento escuro e um corpo esventrado, seriam lidos em todas as folhas da investigação e jornais de especialidade como uma libertação post mortem.
11.9.15
Carlos Courau, cronópio infatigável, segundo as palavras de Julio, disse-me que aguardasse na pequena sala de espera da estação, apinhada de jovens recrutas, que jogavam à sueca, enquanto gritavam impropérios e soltavam gargalhadas sonoras. Ao meu lado, envoltos em longas capas negras, alguns padres da Ordem de Santo Agostinho mantinham-se imersos em livros vermelhos de medicina conventual. Senti-me tentada a espreitar-lhes por cima do ombro, curiosa pela leitura, mas retraí-me no último segundo. Naquela sala, eu era a única mulher.
Após um quarto de hora, quando as pulgas já se começavam a alojar atrás das orelhas, Carlos regressou, sorrindo. Trazia na mão dois bilhetes para Paris; de lá, da Gare Montparnasse, partiríamos para o mundo (para Carlos, Paris será sempre o centro do mundo), talvez parássemos na Córsega, - Carlos tinha prometido um pacotinho de canistrellis à tia -, depois zarpávamos para a Sicília, onde Carlos queria rever a Fata Morgana, em dia de feição, soalheiro. Disse-mo em tom de confidência, quase sussurrado, que supus tratar-se de algum amor antigo. Só depois rumaríamos ao destino por mim tão ansiado, a pouco mais de 60 quilómetros de Atenas, o terrível Cabo Sunião. Estas foram as condições impostas por Carlos, para me acompanhar ao promontório de Egeu. Aceitei-as, sem vacilar.
Da minha vontade, falarei noutra noite. Por agora, tento, a custo, arrastar o saco de viagem, autêntica pele de cabra transmontana, teimosa como mula, atrás de Carlos. Embora carregando um saco bem maior do que o meu, parece flutuar por entre as árvores humanas que à noite nascem na estação de Santa Apolónia.
8.9.15
Despedida
Avísame cuando dejes de quererme. Cuando ya no te inunden mis recuerdos, cuando se te haya escapado el olor de mi nuca y no me puedas ver corriendo por el jardín. Avisa cuando nuestras canciones solo sean música, cuando el color azul no sean mis ojos y el delantal repose desnudo en el colgador. Me bastará con que una noche, mientras nos lavamos los dientes, me preguntes ¿perdona, te conozco de algo?
7.9.15
6.9.15
5.9.15
7 de agosto [de 1960]
Alejandra Pizarnik
Cuando era más chica, despertaba llorando y era feliz por la noche. Ahora es lo contrario. A las seis de la tarde —hora fatal para las solitarias— muero y remuero. Me transformo en una bestia encerrada, impotente en su enorme fuerza inútil. ¿Es esto la adultez?, pregunto. ¿Ser una persona grande es odiar la niebla y la oscuridad? La vida es demasiado larga, creo, siento. No es larga cuando hay muchas cosas que hacer. Pero cuando no se hace nada o se espera todo, que es lo mismo, entonces la vida es larga. Pero yo me veo forzada a pensar en la vida. Desde hace muchos años, desde que me di cuenta que sufría demasiado tuve que pensar en mi vida. Y entonces pensé en mi vida:
--Tienes que salir de esta situación.
--No sé cómo.
--Tú crees que estás sufriendo para algo, para alguien. Aún no sabes que no hay a quién demostrar que se sufre.
--Pero yo debo sufrir. Es como si debiera vengarme.
(...)
Alejandra Pizarnik
4.9.15
3.9.15
1.9.15
31.8.15
27.8.15
26.8.15
24.8.15
23.8.15
El amor es un orgasmo entre dos lágrimas
La lágrima es un lago rodeado de estertores
El estertor es un volcán de viento
El viento es la forma en las esquinas
La esquina de la boca es un misterio
La boca es un espacio antes de que el pecho
El pecho es otro abismo entre dos sangres
La sangre es el motor que alimenta el acto
El acto es una danza contra el tiempo
El tiempo es el espacio que las medidas no prenumerados
(...)
***
O amor é um orgasmo entre duas lágrimas
A lágrima é um lago rodeado de estertores
O estertor é um vulcão de vento
O vento é o caminho dos cantos
O canto é um mistério da boca
A boca é um abismo antes do peito
O peito é outro abismo entre dois sangues
O sangue é o motor que nutre o ato
O ato é uma dança contra o tempo
O tempo é o que mede espaços até então não numerados
(...)
[trad. Thiago de Mello]
La lágrima es un lago rodeado de estertores
El estertor es un volcán de viento
El viento es la forma en las esquinas
La esquina de la boca es un misterio
La boca es un espacio antes de que el pecho
El pecho es otro abismo entre dos sangres
La sangre es el motor que alimenta el acto
El acto es una danza contra el tiempo
El tiempo es el espacio que las medidas no prenumerados
(...)
***
O amor é um orgasmo entre duas lágrimas
A lágrima é um lago rodeado de estertores
O estertor é um vulcão de vento
O vento é o caminho dos cantos
O canto é um mistério da boca
A boca é um abismo antes do peito
O peito é outro abismo entre dois sangues
O sangue é o motor que nutre o ato
O ato é uma dança contra o tempo
O tempo é o que mede espaços até então não numerados
(...)
[trad. Thiago de Mello]
22.8.15
21.8.15
20.8.15
19.8.15
18.8.15
17.8.15
16.8.15
15.8.15
14.8.15
não procuro maiorias, grupos, tendências, cadeiras de encosto, nem encosto de cadeiras, lugares-comuns ou massivamente incomuns. o sabor da possibilidade de um pensamento individual - um ciclo completo da ideia, pelo menos - é intenso e maduro, como gosto. o contrário seria fingir-me na realidade dos outros, tantas vezes construída com propósitos antagónicos aos meus, e isso - o tempo ensina - de nada me serve. prefiro /des/construir o vazio /? existirá o vazio?/ a aplaudir o oco, em frente à plateia.
13.8.15
[final do prólogo do autor/dedicatória]
O que foi, torna a ser. O que é, perde existência.
O palpável é nada. O nada assume essência.
[Fausto, traduzido por António Feliciano de Castilho]
..../?/....
O que possuo dilui‑se na distância,
E o que fugira ganha forma e substância.
[Fausto, traduzido por João Barrento]
O que foi, torna a ser. O que é, perde existência.
O palpável é nada. O nada assume essência.
[Fausto, traduzido por António Feliciano de Castilho]
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O que possuo dilui‑se na distância,
E o que fugira ganha forma e substância.
[Fausto, traduzido por João Barrento]
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