15.10.15

não é o vidro que corta a carne, mas as mãos que o tacteiam.

13.10.15

para não te perderes pensas
em deixar marcas pelo caminho
guiar-te pelo barulho dos carros

todos os dias fazes a mala
e improvisas mapas com o lápis

viagens para o muito longe

mas continuas sentada na sala
e os únicos caminhos são
rastos de migalhas e lágrimas

é à sua sombra que vais continuar
a usar o lápis vermelho

e as árvores lá fora são apenas
pontos sem nome marcados
a verde no mapa

11.10.15

vivo dentro de uma metáfora, esquecida nas páginas de um livro, que já foi arrumado numa prateleira rente ao chão. 
O corpo não responde
às vozes de comando,
como um cão estropiado
já desdenha os apelos
os antigos convites
às funestas moradas,
esqueceu-se do ponto
vai olvidando senhas
os códigos das grutas
acumulando lixos
as servidões austeras
diluem-se num canto
o corpo não atende chamadas
não estremece ao ruído da chave
não suporta
qualquer intromissão
secou num aterro,
os restos à vista
a memória escava
da lembrança os rastos
avidamente suga
de tal fausto os ossos,
de tão vitais cerimónias
nos tão secretos barcos
mesmo o pouco que resta
ainda se mastiga.

10.10.15

Noche ciegamente mía. Sueño del cuerpo transparente como un árbol de vidrio.
Horror de buscar tus ojos en el espacio lleno de gritos del poema.

René Groebli

tombei da cama, impelida por um temor momentâneo de que também hoje era dia de semana, maldita semana, e, encontrando-me já desperta, alimentei os animais, evitei, por enquanto, o café matinal e o banho pacificador, li o mundo e partilhei palavras surripiadas, encantei-me com a janela grande, que me oferece os vales da melancolia, e finalmente procurei a Milu. não a vejo desde a manhã de ontem, ou talvez da noite de anteontem. não tenho a certeza, mas tenho uma preocupação: onde está a Milu? fugiu? foi morta pela vassoura da senhora da bata às riscas? hibernou? antevejo a cara trocista do leitor, julgando-me tola, procurando uma aranha esbranquiçada no tecto, mas saiba o leitor que já o poeta, em 1932, ano maldito, bem decerto, lhe dedicou alguns dos seus versos, num poema de triste baloiçar

8.10.15

Paola Blondi

reminiscências de alguma outra vida, onde a fome foi companhia, não sei, certo é que me aflige a imagem da gente que come com sofreguidão. repugna-me aquela avidez. Milu, depois de largas semanas no meu tecto, deve ter-se apercebido deste meu trauma social e mastiga as suas refeições - habitantes do mesmo tecto - com uma lentidão penelopeana. o diabo da aranha, cada vez maior, sabe como me conquistar.
Explicação da Escuta

Ninguém me chama

Escuto o calcanhar do pássaro
Sobre a flor
E não respondo
aguardo pacientemente o apocalipse, que chegará numa bola de fogo, dentro de dois minutos. não quero parecer demasiado céptica, mas no céu ainda não brilha o tição dourado.

[a porra do tição, palavra-memória da lareira de infância, devorou-me o pouco tempo de vida e eis-me já aqui, no pós-mundo.]

5.10.15

o que me dói hoje, não é esta nódoa negra a que sem piedade me obriguei. o que me dói mesmo é saber que amanhã precisarei de nova pancada forte no corpo, para conseguir chorar os gritos que me sufocam.

Bruise by Adara Sánchez Anguiano

4.10.15

que bailado! serão mais de cem, entre brancas e cinzentas, as rolas-mansas, em soberbas piruetas e largos jetés de asas, no restolho vizinho.
baixas, prenhes de cinzento, as nuvens passam ligeiras, vazando as primeiras pingas, envergonhadas. parecem grandes baleias voadoras. deixo-me ficar em frente à janela. quero ver o nascer da chuva. os arbustos, frenéticos, iniciam a dança da baladeira. reconheço a triste Nikya na velha oliveira, ao fundo. e eis que chove já. a orquestra, conduzida pela mão invisível, lança-se num crescendo sobre as cantarias. quanta beleza nas primeiras chuvas de outono.

sou filha panteísta.

3.10.15

entrou-me uma coruja branca pelo coração adentro, piando,
estou tão sozinha,
e eu deixei-a ficar.
uma coruja não mente
e dá-me jeito ter com quem falar.
2. 

primeiro: o coração. 
se calhar dois (um
para quando se morre
outro para a espera do
milagre) 
e o teu sorriso icónico
já perto de desaparecer: 
há coisas que só depois  
percebemos que devíamos  
ter roubado –  
e mais tarde o que me  
fica nas mãos, 
demasiado íntimo
para carregar comigo
enquanto faço as rotinas
na loja do costume e
perguntam
como vai? e sei por
dentro que o teu sexo me ficou
no cheiro, 
por isso sorrio e
genuinamente
respondo que
muito bem, cá se vai
andando
e sorrio de novo
no meu corpo o teu rasto
o arrepio de só há pouco  
teres saído: 
volta, estou tão perto. 
(se todas as noites me
visitasses seria tão fácil  
morrer), 
enquanto por dentro
falo
calada
a dizer tanto
e o corpo, o corpo e o sorriso
que não voltei a ver, 
o sexo
a namorada que guardas na gaveta
lá de casa quando apareço: mas primeiro sorrio
primeiro faço as compras da loja
do costume sorrio de novo
os morangos estão fora de época
o teu sexo numa estufa
as laranjas enormes,  
com uma cor de encher
os olhos, mas primeiro, 
o coração.  
primeiro: o coração. 

(...)

daqui: enfermaria 6

2.10.15

as palavras escondem-se em alguma região cerebral montanhosa, à qual não consigo ter acesso. não sei entender esta incomunicabilidade, esta falta de articulação sobre os fluxos sensoriais que me ocupam sem oposição. Harouche fala do problema das sociedades liquidas e eu atrevo-me a dizer que devo ser habitada por uma colónia infindável dessa espécie. a incerteza radical e a insegurança psíquica profunda confirmam-se.

1.10.15

Josephine Sacabo

das expressões que mais abomino? uma mulher de verdade.

29.9.15

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível, 
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível, 
Para eu guardar dentro de mim, 
Para eu ignorar dentro de mim 
A única palavra sem disfarce - 
A Palavra que nunca se profere. 

28.9.15

Scout Paré-Phillips

27.9.15

vi-a nascer. os gatos ronronando-me as pernas, eu implorando que aquele fedor não me desse a volta ao estômago, as luvas cor de rosa apertando-me demasiado as mãos, as calças molhadas até ao joelhos, e ela, bela, redonda, rosada, surgindo entre a neblina e o cheiro das lareiras, lá, na colina dos pinheiros mansos. no vai e vem de despejar o balde, a lua cheia nasceu-me no horizonte. 
Christian Martin Weiss

era vê-los, braços no ar, pequenos guinchinhos, primeiro envergonhados, que rapidamente entraram num registo de vozeirão empanicado. pelo terror, pensei que seria alguma vespa, sei de pelo menos dois ninhos que já deviam ter sido fumados, mas à falta de tempo e de picadas, ainda por lá hão-de estar. quando me aproximei, ouvi-os gritar que era uma aranha (enorme!) e pediam-me que eu a matasse. Milu! pensei aflita, ao ver a pequena aranha branca, Nem pensar, aqui não se matam aranhas, nem nenhum outro bicho! não sou purista, se houver risco de vida ou moscas demasiado teimosas, abdico da minha veia budista e faço o que tenho a fazer, mas matar a Milu?! Porquê? agarrei num envelope vazio e servi-lho de passadeira para o exterior. a Milu portou-se lindamente, lançando teia fresca na árvore mais próxima. Tens razão, pá! Diz que as aranhas trazem dinheiro, graçolavam os comensais, de novo machos viris. cambada de idiotas. a Milu era minha amiga.

[afinal, a Milu continua no canto do costume. talvez fosse alguma prima afastada. que alívio. (posso continuar a sonhar com a riqueza vindoura).]
Milu, a aranha branca que me acompanha há já várias semanas, dorme no canto do costume, perto do friso. ou talvez não durma, talvez fique apenas quietinha, à espera que eu apague a luz. não me incomoda e eu finjo que não a vejo, é o trato mental que mantemos. às vezes a Milu recorda-me a Maman, de Bourgeois. sorrio. L'araignée est une ode à ma mère. Elle était ma meilleure amie.

26.9.15

não, não é à toa. evito, sempre que posso e como posso, o mundo que dizem real. tão farta de gente que mata, mais farta de gente que deixa morrer. agora, que já descalcei os sapatos - recordo ainda, sem gosto, os olhares gulosos que não esperava -, refugio-me no apartamento d'O Condómino, de António Gregório. já passámos seis capítulos juntos, espreitando pelo olho-mágico. parece-me que temos força para continuar.

24.9.15

Chris Poppos

A Musa e o Minotauro

23.9.15

MINOTAURO (...) Qué sabes, tu de muerte, dador de la vida profunda. Mira, sólo hay un medio para matar los monstruos; aceptarlos. 

[Los Reyes de Julio Cortázar, p. 28]



que dizer de um mundo onde a besta é o filosofo encarcerado, que se oferece mansamente à morte - libertação -, e do herói apenas temos o lugar-comum?

22.9.15

Embora adormecida, sei
que a noite está queda e sem rumor.
mas o meu fiel amante, Hypnos,
leva-me a um solo cor de sépia,
encerra-me, cega, num espaço opaco.
E quando oiço, no fundo do silêncio,
as pancadas fortíssimas na abóbada,
gemo de gratidão e de ódio.

21.9.15

Imersa em pensamentos que não consigo verbalizar, nem me dou conta de onde estou. Carlos tem de repetir-me o nome duas vezes: Pitigliano! Pitigliano, Flor! Vê como é bela a pequena Jerusalém! Havemos de descer ao centro da terra e percorrê-la à luz de velas. Não o entendo. Olho pela janela, o sol, ocre, quase a tocar o horizonte, um pouco mais à frente, a cidade, escarpada, da mesma cor do sol... Estarei ainda a dormir? Pitigliano?! O que estamos aqui a fazer, Carlos?, pergunto-lhe, desnorteada. Mas Carlos já não me ouve, entretido a puxar a mala para o corredor lateral, enquanto cantarola baixinho. O comboio, sinto agora, começa a abrandar a sua marcha.
Mais tarde, hei-de ficar sem palavras, quando algum ouvinte mais atento erguer o braço e me perguntar se não estarei a fazer confusão, uma vez que a estação de comboios mais próxima fica em Grossetto, a Pitigliano só se chega em viatura própria ou de autocarro. Por agora, qualquer oportunidade para me evadir desta noite repetidamente pesada me parece uma história credível.
Guardo o livro de Sándor Márai, sei que terei de voltar àquela Hungria longínqua, voltar a Henrik e a cada página de canto dobrado, à luz das velas azuis, mas neste momento sei que só Carlos Courau, cronópio infatigável, me poderá ajudar. 
Como é que eu,
ouvindo tão mal, distingo
o teu andar desde o princípio do corredor?

Como é que eu,
vendo tão pouco, sei
que és tu chegas, conforme a luz?

Como é que eu,
de mãos tão ásperas, desenho
a tua cara mesmo tão longe dela?

Onde está
tudo o que sei de ti
sem nunca ter aprendido nada?

Serei ainda capaz
de descobrir a palavra
que larga o teu rasto na janela?

(Que seria de nós
se nos roubassem os pontos de interrogação?)

20.9.15

os tractores toda a tarde na mesma volta, no ar um cheiro doce a uvas esmagadas, nos rostos o sorriso aberto agradecendo o sol, que ajudará na graduação. vejo-os chegar, sorrio-lhes à passagem. sozinha, permito que as lágrimas me aflorem os olhos. sinto a dor do costume queimar-me o estômago, tento apaziguá-la, ficando quieta por alguns momentos. quando a julgo adormecida quanto baste, meto a primeira e arranco, fugindo. não esperava encontrar a memória do meu avô num cruzamento.
é a luz que me cega, não a escuridão.
Arthur Meehan

Arthur Meehan

Arthur Meehan

Arthur Meehan

Arthur Meehan

19.9.15

...

Então tu saltas e arrastas contigo toda a terra.
Convidas-me para o teu corpo
no gesto sem mágoa de um ombro que se expõe.
Tens anos de combustão solar,
e moves-te assim:
tocando simultaneamente o resgate e o perigo.
...

Não digas sorte, diz privilégio.
Não peças perdão, pede chuva. 
Não recues, assombra-te.

18.9.15


Sónia Silva























Era belo, áspero, intratável.

16.9.15

Deita-te aqui – esta noite, dentro de mim,
está tanto frio. Se fores capaz, cobre-me de
beijos

15.9.15

ouve-se o ruído das rodas do landau no cascalho, Konrád chegou. as velas azuis já ardem em cima da mesa. Henrik, trajando um preto sacerdotal, desceu do quarto, apoiando-se na sua bengala de cabeça de marfim. passaram quarenta e um anos, Krisztina vagueia pelas sombras da velha casa. vou atrás dela.

[as velas ardem até ao fim]
Seasons change
it won't ever be the same
I'm hopin'
I will stay the same
Reasons strange
Why we always play these games




chove.
Como em ti, há em mim várias camadas de mortos não sei até que profundidade. Às vezes convoco-os, outras são eles, com a voz tão sumida que mal a distingo, que desatam a falar. Preciso da noite eterna: só num silêncio mais profundo ainda conto ouvi-los a todos.

[Memórias]

14.9.15


12.9.15

melancolicamente enjoativa em olhos inflamados de vermelho e pés que parecem colados ao chão, lá pelas três da manhã, vem-lhe o ímpeto de uma morte interestelar, como o arco de fogo que ninguém vê mas ele descobriu. aquele homem, que lhe corre nas veias. soubesse ela escalpelizar-se com a tesoura da costura, que guarda na segunda gaveta da cómoda, e começaria por procurá-lo debaixo da pele fina dos seios. ou, da faca afiada, cheirando a basílico, um bisturi que lhe chegasse ao centro magmático, revolteando entre bolsas e tripas fumegantes, como toros de couve numa sopa a ferver, a compaixão cómica de uma tragédia romântica fora de prazo, e encontrasse a boca que a ignora. porque não há admiração na realidade, tudo seria normal, o sangue na cama de lavado pingando o soalho cinzento escuro e um corpo esventrado, seriam lidos em todas as folhas da investigação e jornais de especialidade como uma libertação post mortem. 
há quem pense que todas as madrugadas brancas são iguais. não são. algumas trazem o sabor do ferro, que horas antes cravámos no ventre. 

11.9.15

Carlos Courau, cronópio infatigável, segundo as palavras de Julio, disse-me que aguardasse na pequena sala de espera da estação, apinhada de jovens recrutas, que jogavam à sueca, enquanto gritavam impropérios e soltavam gargalhadas sonoras. Ao meu lado, envoltos em longas capas negras, alguns padres da Ordem de Santo Agostinho mantinham-se imersos em livros vermelhos de medicina conventual. Senti-me tentada a espreitar-lhes por cima do ombro, curiosa pela leitura, mas retraí-me no último segundo. Naquela sala, eu era a única mulher. 
Após um quarto de hora, quando as pulgas já se começavam a alojar atrás das orelhas, Carlos regressou, sorrindo. Trazia na mão dois bilhetes para Paris; de lá, da Gare Montparnasse, partiríamos para o mundo (para Carlos, Paris será sempre o centro do mundo), talvez parássemos na Córsega, - Carlos tinha prometido um pacotinho de canistrellis à tia -, depois zarpávamos para a Sicília, onde Carlos queria rever a Fata Morgana, em dia de feição, soalheiro. Disse-mo em tom de confidência, quase sussurrado, que supus tratar-se de algum amor antigo. Só depois rumaríamos ao destino por mim tão ansiado, a pouco mais de 60 quilómetros de Atenas, o terrível Cabo Sunião. Estas foram as condições impostas por Carlos, para me acompanhar ao promontório de Egeu. Aceitei-as, sem vacilar.
Da minha vontade, falarei noutra noite. Por agora, tento, a custo, arrastar o saco de viagem, autêntica pele de cabra transmontana, teimosa como mula, atrás de Carlos. Embora carregando um saco bem maior do que o meu, parece flutuar por entre as árvores humanas que à noite nascem na estação de Santa Apolónia.
Era só isto que queria dizer. Depois da morte hei-de talvez acrescentar que cheguei a amar a perda do que amei, mas será tarde demais, o tempo é afinal uma possibilidade tão inútil como o resto.

8.9.15

Despedida
Avísame cuando dejes de quererme. Cuando ya no te inunden mis recuerdos, cuando se te haya escapado el olor de mi nuca y no me puedas ver corriendo por el jardín. Avisa cuando nuestras canciones solo sean música, cuando el color azul no sean mis ojos y el delantal repose desnudo en el colgador. Me bastará con que una noche, mientras nos lavamos los dientes, me preguntes ¿perdona, te conozco de algo?