24.12.15

Kylli Sparre




























Em cada mulher existe uma morte silenciosa. 

23.12.15

juntar o que resta da família, essa teia de ligações doentias, tristes exibições de poder, tentativas falhadas de autoridade, e fingir que está tudo bem, que a noite é feliz, é apenas uma noite, aquela noite, repetimos. e fingimos. fingimos que não sabemos dos rancores, dos ódios de estimação, dos preconceitos, dos defeitos e dos feitios, das gabarolices tacanhas, dos paternalismos bacocos. estamos ali, esperando o tempo passar, fingindo que somos cegos e surdos, e felizes, esperançosos de que ninguém se lembre de escamotear a nossa vida à volta da mesa de jantar.

22.12.15

dou graças pela água quente - e tudo o que aqueça, nesta altura, por terras de Niflheim - e pela migraspirina.
obrigada, senhor.

21.12.15

Repara. Há um rio correndo entre as falanges dos dedos. Navegá-lo-ás solitário, porque solitárias são as navegações humanas, todas, como inavegáveis são os rios, todos os rios da terra, anteriores ao mar. Onde tu vês a foz é a nascente que vês. Que os rios, como tudo o que é fluido e movente, nascem ao contrário.

in Rodomel Rododendro, Albano Martins
[mais um poeta esquecido, neste país de poetas]

20.12.15

Elena by Vitaly Vasilieva

Que grande és Tu, meu Deus! Tu és tão grande
que és só Ideia; escassa é a realidade,
se o mais que pode ela se expande

para abranger-te. Por ti sofro, é verdade,
pois se existisses, Deus não existente,
também eu existiria veramente.
adiei o assunto, enquanto pude, mas hoje teve de ser. um a um, após engenhosas tentativas, enganei todos os felinos, escondendo a miraculosa pílula dentro dos pedacinhos esponjosos de carne de galinha com salmão. todos, menos Ramirez, o espanhol. comme d'habitude, Ramirez não se deixa enganar facilmente e desafia a minha paciência durante vários minutos, comendo todos os pedaços de carne, excepto aquele. neste jogo, onde a força e a obediência são meros conceitos abstractos, filosofia para cães, a paciência e a calma são preponderantes. Ramirez será vencido pela minha persistência, sei-o, pelo menos enquanto a lata não acabar. Corto Gatês, o dócil, faz da minha aflição a sua brincadeira e tenta comer o pedaço vencedor, o mesmo que Ramirez declina. Imagino a sobredosagem, acompanhada de uma valente diarreia e peço-lhe que saia dali. Ramirez, atento, ao perceber que Corto Gatês lhe ronda o pedacinho de carne, esquece a teimosia e atira-se a ele, cheio de vontade. abençoada inveja, não posso deixar de me rir. Corto Gatês cerca-me as pernas, encostando a cabeça, e deixa-me um miado baixinho, Não tens de quê, Mammina...
tens tiques de obsessiva-compulsiva, disse-me há uns anos o Tiago, um amigo que tem tanto de génio, como de tresloucado-depravado. toda a manhã tenho observado o laranjal, lavrado atabalhoadamente, sem qualquer figura geométrica que o defina. onde antes existia um quadrado perfeito, há agora um caos de erva e rasgos. ora o quadrado, e as palavras não são minhas, mas de Dolors Collellmir Morales, "é o símbolo da terra, mostra firmeza e fundamento, portanto, simboliza estabilidade", e eu vivi o ano inteiro de olhos postos naquela estabilidade carregada de citrinos, tal e qual um laranjal do éden. 
estou aqui vai-não-vai para calçar as botas de borracha e pôr-me a caminho, para ir pedir ao homem que monte novamente o velho tractor vermelho e desenhe no chão a forma que nunca lhe deveria ter apagado. há pouco, de nariz colado na janela e ganas pela alteração da minha paisagem, lembrei do diagnóstico do Tiago. terei?

19.12.15

Lila decidiu partir antes das grandes chuvas de novembro. seguiu o trilho dos caçadores da aldeia, primeiro, abeirando o rio profundo, ao longo dos canaviais-sapeiros, depois subindo o vale do norte, até à montanha de Gerda. Lila caminhava em direcção ao grande oceano, onde Micá, seu tio, lhe iria ensinar a encantar as baleias-azuis. nascida depois das primeiras neves, Lila herdara o dom da família materna e desde criança que encantava borboletas de silfos, nos planaltos da aldeia. o tio Micá, numa carta do verão anterior, havia-lhe dito que bastava assobiar um pouco mais alto, porque as baleias eram borboletas antigas, que njord, muito irritado, durante uma terrível tempestade, atirou às águas revoltas do mar. a maioria ficou presa nos remoinhos e morreu, as restantes cantam a sua dor até hoje, mas apenas os encantadores e os golfinhos as conseguem ouvir. é muito triste e faz doer o peito, escreveu o tio Micá. 
Lila, que em breve completará os dezassete invernos, decidiu que aquele era o tempo de partir em busca das baleias-azuis. beijou a vó Bé, que a aconselhou a levar as botas de casco de alce-irlandês, para caminhar veloz e segura, e a procurar o tio Micá no clã dos baleeiros, muitos passos para lá da grande montanha, na vila costeira de Akureyri. Lila gostava do aconchego da vó Bé, que continuava a preparar-lhe as panquecas com muito açúcar em pó e geleia de framboesa, mas sabia que no seu destino brilhava a estrela do viajante, a mesma que muitas luas antes tinha guiado a vó Bé e a mãe Li nos seus próprios caminhos.

16.12.15

amanhã tirarei o curso de sonhador especializado

14.12.15

para ti, mefistófeles,

o final orgásmico, ao som de Mahler, pela batuta de Bernstein. a orgia perfeita.


será o diabo, esse sádico fornicador, que ainda ontem escoiceava as minhas janelas, o bafejador desta aragem nocturna?
a brisa do inferno tomando os corpos pecadores, obrigando-os à volúpia da nudez.
é dezembro, ninguém o esperava.
ah!, fosse eu heroína de um romance antigo e golpearia delicadamente os pulsos com a faquinha da correspondência, amolada de véspera, na pedra mármore da cozinha. seria encontrada numa cama de dossel, entravada entre as bonecas de porcelana e os lençóis de bordado inglês, espilrados de sangue, e eu lívida, de braço tombado ao chão, acenando o meu adeus. 

não há sublimação na banalidade dos dias tristes.

13.12.15


ia jurar que era o Pina, ainda há pouco, a passar na rua, cabisbaixo. o grande Pina, que pressagiou o fim da poesia, porque o mundo precisava era de observadores de pássaros encartados, mas não podia ser, seria?! ó menina, guarde-me lá o éclair e a meia de leite, se faz favor, que eu venho já, vou só ali à rua, correr atrás de um homem que me pareceu o grande poeta, é uma ternura que vem de longe, não lhe sei explicar. hei-de lhe dar um beijo e se me sobrar a coragem, dizer-lhe que, ao senhor míope, não sei, mas a mim, o poeta ensinou-me a sonhar. não, demasiado teatral,  de um folclore palavroso que nunca seria capaz, o mais certo é gaguejar. o Pina merece melhor abordagem (imagine-se que é mesmo o Pina, vivo!). talvez me deixe ficar por aqui, escondida entre cacarejares de gente fina, que se define, tal como redefine, pela enésima vez, a enorme lista de compras do natal, sorvendo espuma light com poeira de cacau...

11.12.15

Amy Judd























Passa uma borboleta por diante de mim 
E pela primeira vez no Universo eu reparo 
Que as borboletas não têm cor nem movimento, 
Assim como as flores não têm perfume nem cor. 
A cor é que tem cor nas asas da borboleta, 
No movimento da borboleta o movimento é que se move, 
O perfume é que tem perfume no perfume da flor. 
A borboleta é apenas borboleta 
E a flor é apenas flor. 

[Fernando Pessoa, disfarçado de Alberto Caeiro, o Guardador de Rebanhos]
passo ligeiro, que nem o cheiro dos eucaliptos se entranha nas narinas, bem disse que não, mas deu-me pena deixar o país das montanhas à minha espera. o almoço, prato trocado na cozinha, não volta para trás, o gelo no sumo de laranja é pescado com uma colher, nada de grave, que estou com pressa, a conta, sem papelinho algum, soma feita de cabeça, é paga sem consternação. é a segunda tentativa, não haverá terceira, tomo nota mental, mas a preocupação agora é não deixar que o Nepal me neve à porta. caminho apressada, a relva tão verde traz-me o sorriso, há cães felizes por todo o lado. talvez fosse justo fazer esperar o Nepal, afinal a confusão foi dele, todo trocado, a tentar trocar-me a mim também. o pensamento, nuvem negra de um mau karma de sexta-feira, desvanece-se rapidamente. apresso o passo, esperando não parar a digestão dos cinquenta gramas de carne seca e maionese de alecrim.
agora, enquanto espero o atrasado Nepal e rio do conceito mundial de urgência, agradeço aos céus que a bondosa Anasuya tenha decidido reencarnar em mim.
[vamos ver até quando...]

9.12.15

«dobrá-los, é a antecâmera do vandalismo, o regresso à barbárie, coisa de descendentes de hunos.» 

J. E. de Andrada, essa personagem com cheiro a colónia Bois du Portugal, ousou, enquanto lapidava o património emocional do pauvre J., atentar contra as minhas mais intimas cerimónias de leitura. Não que a obscura criatura, bolor de arquivo-morto da biblioteca nacional, o soubesse, pois tais criaturas apenas travam conhecimentos consigo mesmas e uma meia-dúzia de lacaios, pobres coitados ou oportunistas. Circulam sempre no mesmo pântano social, vulgarmente designado por elite portuguesa, onde a velha nobreza, bafienta, e tantas vezes bastarda, se espoja junto da gorda burguesia, dignitária dos mais altos pousos e aventais.

Ora J. E. de Andrada, num desses colóquios unipessoais, de que os intelectuais, outrora exilados em terras de Sua Majestade, tanto apreciam, achincalhando, como é de seu costume, o pauvre J. ,

- que, se estivesse na novela das nove, já teria fugido, casado, copulado três filhos, largado, arrependido, voltado, amado, desaparecido, talvez assassinado (ah! o horror de não saber!), reaparecido, em coma, etc, etc, etc... com a doce Orchidée, ao invés de fustigar as falanges, como se fosse um miúdo no recreio -,

             decidiu condenar alguns dos mais belos hábitos de leitura das gentes, que, ao contrário dessa anta, múmia disfarçada em tecidos de lã de alpaca, lêem um livro com a mesma vontade com que tomam um corpo amado, contemplando, cheirando, tacteando o papel sob o dedo húmido, dobrando o canto da folha como quem desliza sobre a pérola mais perfeita do mundo, ou forjando, a jactos de tinta, a certeza da lembrança eterna.

Experimentasse o Magnificente Professor Doutor J. E. de Andrada passar os dedos pelas folhas pálidas da sua bela Orchidée e dobrar-lhe os cantos de quando em vez, e não lhe sobejaria tempo para o parlapatório, declamando ignóbeis infâmias sobre o que, claramente, desconhece.

8.12.15


encontro-o rodeado pelo grupo. no chão, um pintassilgo-verde fêmea, morto. pelo tamanho, percebo que se trata de um exemplar adulto. uma pobre mãe. não consigo disfarçar o meu desagrado. Corto Gatês, logo que me vê, abandona a roda e vem esfrega-se nas minhas pernas. Ramirez, o espanhol, olha-me desconfiado, é o gato mais desconfiado que conheço, abocanha a presa pelo pescoço e abandona o espaço. nunca me dá satisfações, foi sempre assim, desde o dia em que nos encontrámos, preterido por uma irmã mais meiguinha. aperfilhei-o, portanto, sabendo de que se tratava do menos afectuoso ao contacto humano. nunca me arrependi. Corto Gatês insiste nas turras, Mammina, não sejas severa, o Ramirez não tem culpa, está na sua natureza. 
o homem continua na sua demanda, sentado do velho tractor vermelho. o campo, antes verde, surge agora numa mescla de fios castanhos entrelaçados de amarelo, como cabelo de uma mulher mais velha. acompanhando o homem, o mesmo grupo de garças-boieiras aproveita o revirar da terra, rica em bicharada invertebrada. de vez em quando, o homem pára, coça a cabeça, enquanto segura a boina, desce da máquina e vai ver o estado da charrua. no quintal, mais acima, a mulher, que, no entra e sai de casa, o mantém debaixo de olho, pára também. 
querido Piccolino, que permanecerás encarcerado nas masmorras do castelo do teu senhor para sempre,

perguntas tu, a dado momento em que acompanhas o teu príncipe na guerra e o vês participar de uma orgia com duas cortesãs, juntamente com o amante da princesa, Dom Ricardo, se não será «o amor um belo poema sem qualquer conteúdo, pelo menos sem nada definido, mas que agrada ouvir quando é recitado com perfeição e fervor?»*

deixa-me contar-te de como é o amor, esse senhor vil e impiedoso, a quem um dia, também eu, ingenuamente, servi. 

o verdadeiro amor, Piccolino, sente-se na alma. é certo que começa por atingir o coração, obrigando-o a bombear o sangue a uma velocidade que antes só o medo conseguia, mas a doença alastra-se rapidamente ao corpo inteiro, infiltrando-se nos ossos, especialmente nos do peito, contamina o sangue com várias impurezas, para finalmente se fixar, até à sua morte, que pode durar uma vida inteira, na alma do pobre amante. é como um bicho, uma pequena larva, soprada por mefistófeles para dentro dos nossos olhos, que, saciada de pus, decide eclodir nas nossas entranhas, para depois as apodrecer no seu muco bilioso. o amor consome-nos. ardiloso patife, beija-nos as pálpebras, para que não vejamos a lâmina que nos trespassa a carne fraca...

....


de que te ris, Piccolino? zombas de mim?... acaso não serás tu conhecedor da verdadeira razão desses ferros que te agrilhoam, meu pequeno guerreiro? negarás tu, a mim também, que te conheço por dentro, de muito antes do início do livro, debaixo dessa pele engelhada de velho de mil anos, negar-me-ás, Piccolino, de que não foste vítima dessa mesma doença de que te falava? tu, meu querido anão, debaixo de toda a raiva que cuspiste, um ódio visceral que fez de ti homem inteiro, tu amaste loucamente a princesa. ainda amas, mesmo depois da sua morte. então, de que te ris? de mim, ou de ti?


....




[*O Anão, Pär Lagerkvist]

7.12.15

Cupio dissolvi

«Mas o que ela mais queria era estar morta. Percebia agora como é que há gente capaz de se matar, mas no que ela pensava não era em morrer de morte, era numa outra espécie de morrer, sem corpo para enterrar, só o espírito esquecido de tudo, que a porta nunca mais se abrisse para ninguém, que o tempo detivesse pasmado a olhar para ela indefinidamente imóvel sobre a cama, sentindo a sua dor como uma coisa muito longe e sem medo de mudanças, que o relógio calaria o tic-tac, que as moscas ficariam paradas e silenciosas, que não precisaria sequer de respirar, que não haveria mais quem tivesse merecido o seu amor nem quem a tivesse amado, que tudo fosse quieto e escuro como será o coração das pedras ou a coberta do céu onde não há estrelas.»

Daniel de Sá, Ilha Grande Fechada
cheiro a ervas altas, molhadas, cortadas pela minha própria mão.
cheiro a sangue e a mel.

6.12.15

Corto Gatês, muito prazer!, miou ele, quando me viu arregalar os olhos ao buraco na orelha esquerda. chumbo perdido, só pode ter sido. afago-lhe o pêlo escuro, em busca de outras mazelas, enquanto amaldiçoo mentalmente a besta que o terá atingido, mas Corto Gâtes, como agora se auto-intitula, dá duas voltas na minha perna direita, como se nada se tivesse passado e ronrona, Tenho assuntos a tratar, Mammina. Podes despachar a latinha?...

Amelie Petit Moreau

quando o mar se elevou da terra e se fez céu, a montanha permaneceu. onde antes se escondiam monstros disformes de águas profundas, sibilam sereias feitas de vento, catando vida que lhes sirva de companhia. assim será, até que o mar retorne ao lugar que lhe pertence. mas o mar, agora céu estrelado, não voltará, apaixonou-se pela lua, menina mimada, que às vezes desaparece. em seu lugar, mandou construir espelhos salgados. abandonada, a montanha chora um frio branco que mata. o lobo, primeiro amante da lua, continua a uivar-lhe a cada madrugada, implorando-lhe que reconsidere.

5.12.15

tangerinas, inspiro-lhes o cheiro lentamente e recordo-me da minha mãe.
a minha mãe tem uma voz meiga, suave, que embala e protege, tem um olhar doce, de onde roubei o meu, um sorriso tímido e um coração de ouro. ensinou-me o mais importante da vida, muitas antes de eu saber juntar as letras no papel. soube cuidar de mim, nos meus pequenos descuidos, enquanto outras sovavam os filhos. recolheu um desses filhos durante uma semana, antes de o devolver à mãe raivosa, sob promessa de mudança. a dita nunca mudou, mas acalmou a força da vergasta. depois desse episódio, comentado pela vizinhança inteira, e o primeiro de que me lembro com pormenor, a minha mãe passou a ser porto de abrigo da criançada local. mais tarde, quando entrei na puberdade, eram as raparigas, colegas de carteiras, algumas mais velhas, que a idolatravam como a mãe desejada.
...
agora, que revivo na minha cabeça estes episódios, mais uma vez, concluo que o segredo foi sempre o mesmo, acima de tudo era/é uma boa pessoa (como há muitas, felizmente, que bem sei que a bondade não é exclusiva dos que amamos) que trata/va sempre as crianças como seres pensantes, escutando-as, e não como animais a adestrar. não acata/va faltas de respeito, mas sempre educou por amor. parece simples, não sei, talvez seja.
...
a minha mãe foi o presente que a vida me ofereceu, quando se decidiu a congeminar a fusão de um minúsculo e teimoso espermatozóide com um óvulo quase fora de prazo e me pariu numa noite chuvosa de primavera. e por isso, à vida, e à mãe, lhes estou tão grata.

[a ti, minha querida mãe, hoje, um quilo de tangerinas.]
aquele homem, que agora lavra, conduzindo o tractor vermelho pelos campos, imagino-o outrora, jovem, calcando a pega da charrua, rasgando a terra escura de dezembro, atrás do seu cavalo castanho, imparáveis, em simbiose de força e suores. a terra, húmus, ventre de mulher fecunda, clama a semente, que virá depois do ferro. à noite, em casa, essa mesma terra descalçada das botas e varrida do soalho de madeira pobre para a rua. uma mulher, também ela jovem, de cabelo apanhado e faces rosadas, estendendo-lhe uma toalha e um par de meias lavado. na mesa, à luz do petromax, uma malga de sopa quente, um pão centeio, uma faca e um copo de vinho. 

4.12.15




ouve, é a voz de um anjo.
Kindra Nikole























flor y cronopio

Un cronopio encuentra una flor solitaria en medio de los campos. Primero la va a arrancar, pero piensa que es una crueldad inútil y se pone de rodillas a su lado y juega alegremente con la flor, a saber: le acaricia los pétalos, la sopla para que baile, zumba como una abeja, huele su perfume, y finalmente se acuesta debajo de la flor y se duerme envuelto en una gran paz. 

La flor piensa: «Es como una flor.» 


Historias de cronopios y de famas, Julio Cortázar 

2.12.15

 Amanda Charchian

1.12.15

no outro lado da noite
o amor é possível

- leva-me -

leva-me entre as doces substâncias
que morrem a cada dia na tua memória


daqui: lugares mal situados

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en la otra orilla de la noche 
el amor es posible 

-llévame-

llévame entre las dulces sustancias
que mueren cada día en tu memoria

30.11.15

surgiu-me isto, enquanto limpava o gatil, repleto de fezes nauseabundas, pequenos rastilhos castanhos empilhados. no passado, enfastiavam-me as pessoas que, licenciadas - a torto ou a direito -, passavam a exigir o tratamento de dr. / dr.ª [*****]. continuam a dar-me uma certa pena, mas, como dizem, a idade não traz apenas cabelos brancos, felizmente, apazigua-nos certas irritações. o que agora me mói a paciência, quando não tenho mais nada em que pensar, são aqueles seres, politicamente correctos, que vão anuindo à conversa, que sim, senhor, que isso dos doutores é ridículo, é mesmo de quem tem problemas de auto-estima, e nos entretantos, deixam-se chamar por sr. doutor nos cafés, têm cartões bancários a condizer, nunca corrigem a telefonista e - eles próprios - afirmam que nos documentos é capaz de ser melhor acrescentar o maldito "apêndice", não vá alguém julgar que não acabámos o curso...
como vos disse, foi enquanto limpava merda de gato, muita merda de vários gatos, e de vários dias, colada ao chão como pastilha elástica, tão entranhada, que tive de me servir da escova e da lixívia várias vezes, para vos ser mais exacta, que esta questão me voltou à ideia. aos outros, que assumem abertamente a necessidade de se endoutorarem com uma licenciatura, tenho agora menos asco, rio-me apenas. destes, fujo a sete pés, estou cansada de esfregar.



*****
e não,
não um dr. mas mil drs. de um só reino,
e não se tem paciência para mandar tantas vezes à merda,
oh afastem de mim o reino,
afastem-nos a eles todos,
atirem-lhes aos focinhos o que puderem dela,
sim até se acabar a mirífica montanha,

HH
admitiu que o isolamento em que procurava a paz podia ser tão perigoso como um abismo.

História da Bela Fria, Teresa Veiga
(contos, 1992)

29.11.15

Flor, novembro de 2015
Ela era, disse, uma pessoa que tinha a arte de passar por cima das pequenas e grandes ofensas, uma mulher cheia de sensatez e de coragem, muito apegada às coisas da terra, deixando as nuvens para os tristes e os céus para os santos.

História da Bela Fria, Teresa Veiga
(contos, 1992)

28.11.15

da pequena coruja, que afinal é um mocho-galego, não sei. não a/o vejo há semanas. mas hoje, junto ao rio, ora na copa da árvore, ora rente ao chão, um açor majestoso. temi pelas minhas toupeiras.

27.11.15

25.11.15

(...)
sim à ternura no centro da clareira
tremendo como uma lâmpada sem sombra,
sim a ti, tempestade que iluminas
um país de ausência,
sim a ti, quase monótona, quase nula
mas que és como o vento insubornável,
sim a ti, que és nada e atravessas tudo
e és o sangue secreto do poema.

24.11.15

tocando violino, um anjo/vela/recordação que nunca ardeu e faz companhia às negras esguias da Guiné, um candelabro de nove braços, onde velas vermelhas ardem em contraste com o corpo alto prateado, e agora uma poinsétia, replantada e virada a sul, como vem no almanaque. 
eis o natal. 
[mais do que isto, é tortura]
em Niflheim, dizem-me, a temperatura dentro das casas nunca pode fazer muita diferença da temperatura exterior, apenas a necessária para manter os corpos vivos. explicam-me que é importante habituar o corpo ao que irá encontrar na rua, para que o choque seja menor. acho uma tolice, daquelas bem tolas. se assim fosse, os ingleses dormiam debaixo do chuveiro, respondo-lhes, dentro do meu pijama polar. encolhem os ombros, desinteressados do argumento. zombam da minha roupa, em cima do aquecedor.
olho pela janela, a medo. nevou?! não, rapariga. é geada.

23.11.15

-- e tu, Flor, por onde andas?

-- por Niflheim, (sem saber muito bem como), a fugir dos anões, evitando o dragão e a morrer de frio.

22.11.15

Laura Makabresku

21.11.15

mil homens, bestas de cascos afiados, relinchando trovões, penetrando-me, rasgando orifícios, pântanos de sangue e de fezes, urinando-me as feridas abertas da cara. mil homens cuspindo-me o nojo, derramando sémen nos meus olhos abertos, até não haver mais círculos de fogo. mil homens enjaulando-me, nua, numa praça qualquer. oferecendo a minha boca ao público animal, que zurra, na antecipação, vendendo a minha cona a todos os mercadores, velhos senis que masturbam membros defeituosos. mil homens silvando a mesma tira de couro nas minhas costas, nas minhas mãos, nas minhas mamas, noite após noite, até adormecer.
mil homens despedaçando o meu corpo, queimando o meu centro, acalmando a minha dor. 

15.11.15

Nada tiene que ver el dolor con el dolor
nada tiene que ver la desesperación con la desesperación
Las palabras que usamos para designar esas cosas están viciadas
No hay nombres en la zona muda
(VOLTAR À) TONA

«Como faz o sangue, volto ao coração, à tona, para ter ar. A minha vida tem sido arrumar coisas dentro do peito. Desfazes-me as palavras e as notas do piano e, com os dedos, constróis os meus pulmões para que eu possa respirar. E assim as minhas melodias morrem contra o teu corpo, como pétalas secas. Empurro tudo para dentro do coração, como se desse comida a uma criança, colher atrás de colher. Lembro-me de teres posto os meus pés em cimento e de me teres atirado a alma para o fundo do mar. Descobri: que era mesmo no fundo que estava a superfície, era mesmo no fundo que era possível respirar. Quando não estás - como se fosse possível não estares - caminho com as pernas arruinadas, por dentro e por fora, e tento chegar a casa, andando à volta das costelas, à espera que apareças, a apontar o teu coração ao meu, para me matares com um abraço.»

(Cartas de Gould, Recolha da CIA) in Mar - Enciclopédia da Estória Universal, de Afonso Cruz, p. 170

14.11.15

lembro-me que lia(mos) Le Rouge et le Noir, eu ainda era virgem e ele era muçulmano. lembro-me que a mulher que eu conhecia moderna e amiga, me levantou o dedo, tremendo dos lábios, e gritou qualquer coisa como, Promete-me que não o voltas a ver! Tu não sabes o que eles fazem com as mulheres! Promete! e eu prometi, assustada, confusa. o meu coração nem sequer estava preso, apenas a doçura curiosa de lermos o mesmo livro em bancos de jardim tão próximos. sei que a mulher me tentava proteger a todo o custo, o medo é uma arma poderosa e a realidade pode ser, por vezes, uma mancha cinzenta pesada. existe, magoa, marca.
anos mais tarde, a mesma, apaixonou-se por um muçulmano e viveu com ele durante dois anos. 

13.11.15

a chacina que hoje ocorre em Paris, acabará por vitimar também aqueles que - igualmente inocentes - esperam para entrar na europa prometida.
Pretinha, a gata, olha-me com a curiosidade do costume. já se vai habituando a mim, mas a cautela da rua, afasta-a da minha tentativa de chegar mais perto. sei que tem comida e água, um sítio para se abrigar. tranquila, fecho o carro e despeço-me dela com algumas palavras meigas.
entendo bem a Pretinha. para que haveria ela de amolecer o instinto, se a vida já lhe ensinou que há sempre um pontapé escondido? podemos não evitar a pancada, mas não seremos apanhadas de surpresa.