15.1.16

em pequenos, deviam dizer-nos, vai e morre feliz. e a partir daí, o peso de carregar a preciosidade da vida seria uma nuance. a culpa de não merecer tamanho milagre, de não estar à altura do expectável, daria lugar a uma raiva purificadora, dirigida à divindade que nos obriga a morrer, todos os dias. afinal, o que é a vida, senão a morte em movimento?

mãe preocupada

[vale ouro.]

14.1.16

doem-me as mamas, é a forma mais simples que tenho de lhe dizer o que se passa. se lhe ofereço sinceridade no relato, não me torça o nariz, nem me responda com chamadas de atenção, que não é bonito uma moça dizer mamas, devendo optar pelo singelo peito, mas peito é o da galinha, assado no forno com batatinhas, daqui a pouco, percebe? o que me dói são as mamas, e ai de quem me tocar nelas, arranco-lhe os olhos com a colher de chá! ainda há dias, no aperto da lagarta subterrânea, levei uma cotovelada bem no centro da polpa da laranja direita e até as lágrimas se me afloraram à vista, um uivo mental excruciante. todos os meses é isto, dores nas mamas, hormonas em ebulição, fluidos num sobe e desce, o corpo bastardo, sedento de morte e de sexo, e como se não bastasse, agora esta porra de dor, incansável, ataca-me os neurónios também, uma dor monstruosa, comum e transversal a todas as mulheres com mamas no escalão das minhas, aquilo dói mesmo, dizem elas, numa voz de terror, e são estas três palavrinhas que me encolhem, encolhem, encolhem e me aumentam a dor nas mamas, mesmo a dor que ainda lá não está. quase me engasgo em tanta dor, de tão inchada que é. dizem-me que não é uma dor fatal, como aquela das paixões, é uma dor de mamas que deixa outros traumas na memória. mas a bem da verdade, antes esses, às cicatrizes que nos mutilam o corpo.

13.1.16

estou tão cansada. 
como é pesada esta máscara em que me transformei. 
e depois há noites, de tão brancas e pesadas, em que me queria feto pequenino na barriga da minha mãe. como pode o mundo ser um lugar tão estranho? 

12.1.16

dias há em que me queria uma besta impetuosa, dessas que vivem em labirintos de mármore breccia oniciata, trincando pequenos corpos de músculos atrofiados.

dias há em que me vendo por um punhado tão mísero, que cada estocada me dói até na alma.

11.1.16

Jenny Woods

segredos de Niflheim: estancar o sangue da boca com um bochecho de aguardente.

[ora vê lá no armário das bebidas, tenho a certeza que ainda lá há uma garrafa de aguardente, se não a encontrares, abre a da tequila, é a mesma coisa e ninguém bebe aquilo.]

por quem sois, gentis nativos de Niflheim, não me desagrada o sabor adocicado do metal, mas se a alternativa é cuspir fogo pelos olhos, venha de lá essa garrafa, que bem preciso de anestesiar a alma.

10.1.16

ao ver esta Pear with Insects, de Justus Juncker vem me à memória algo de que realmente me arrependo: não ter comprado aquela garrafa de aguardente de pêra, na sexta-feira.
Passa no mundo a estranha ventania. Os mortos 
empurram os vivos. 
É o tumulto, 
o peso do espanto, as forças 
monstruosas e cegas. A pedra espera ainda 
dar flor, o som 
tem um peso, há almas embrionárias 
- Tudo isto se fez pelo lado de dentro 
tudo isto cresceu pelo lado de dentro.

9.1.16

nos Insólitos do Courrier deste mês, um pequeno artigo fala do projecto Teatro SOLO, onde as peças são concebidas para serem interpretadas diante de um único espectador. pergunto-me se isto que aqui fazemos nos blogs, não é quase a mesma coisa.
dizem-lhe, orgulhosos, que alcançou um lugar. não os desilude, contando-lhes da sensação de se sentir cada vez mais subterrada.
em silêncio, observa o velho casarão, a hera continua a trepar pelas paredes da cozinha, virada a nascente, as framboeseiras, plantadas debaixo da janela do quarto que ardeu, alastraram às janelas circundantes, o deodara, trazido pelo homem que morreu jovem, acompanha a altura da casa onde ela é mais alta e faz sombra ao espírito do seu plantador. um tapete de erva alta cobre o chão lateral, por baixo dele, o sangue do galo que atacou, durante as fundações. mais abaixo, a laje sobre a qual colocavam o ringue de papel com dois escorpiões. a excitação e o medo, assistindo à luta - até à morte. hoje, abandonada numa decadência romântica, quem morre é a casa. 
Much as he would like to
Concentrate completely
On the precious Object,
          Love has not the power:
Goethe put it neatly;
No one cares to watch the
Loveliest sunset after
          Quarter of an hour.

So I pass the time, dear,
Till I see you, writing
Down whatever nonsense
          Comes into my head;

---

Por muito que se gostasse
De ter apenas cuidados
Com o Objecto Amado,
           Não tem amor tal demora;
Disse-o Goethe claramente:
Não há ninguém que contemple
O mais belo dos ocasos
           Após um quarto de hora.

Portanto, amor, passo o tempo,
Até te ver, a escrever
Todo e qualquer disparate
          Que à cabeça me vem;


[Outro Tempo, W. H. Auden, Relógio D'Água - tradução de Margarida Vale de Gato]

8.1.16

que tristeza é ter frio. ter tudo e ter frio, habitar este corpo vazio como outro qualquer.

7.1.16

antes o golpe, à palavra escrita. 

6.1.16

observo-o de longe. imagino-lhe a tesoura pequena nas mãos, desbastando os talões supérfluos, que apenas roubam força à videira. pela curteza da vara segura no engado, percebo que o homem prefere a qualidade das uvas, em detrimento dos cestos cheios. não se escusa à morosa arte de seleccionar, cortar e atar com delicadeza, mas firme, em tempos de inverno chuvoso. como um escritor, penso, limpando as suas linhas, decepando, para criar.
o meu avô dizia que o carácter de um vinhateiro se podia observar pela poda que escolhia fazer. acredito piamente na metáfora.
Que dois amantes se reconheçam prometidos desde antes
dos deuses é exacto, é verdadeiro como a própria evidência.

[in Estrela Polar]

5.1.16

Um elo mais forte do que o ódio, o amor, unia-a ao cosmos,
transmitia à terra o sangue que recebera de há milénios,
do primeiro homem que surgira sobre a face do mundo
e olhara o Sol e a noite…

[in Cântico Final]
eu bem que queria, caro leitor, garanto-lhe que queria, sempre foi essa a ideia, fazer aqui o relato isento da aventura de fim de ano e respectivo resgate da vaca MuMu. mas já devia saber, que, com isto dos blogs, não há verdade que sobreviva a tanta pantominice. que importa agora dizer que foi a agente Miss Smilenska que roubou o dirigível ao conde Ferdinand von Zeppelin e galgou implacáveis correntes de ar poluído, executando piruetas altamente mortais, para nos salvar das dentuças dos tubarões? já nenhuma de nós acreditava no milagre, embora a Teresa insistisse que tinha aprendido a rezar na era da técnica e a era da técnica haveria de nos salvar. pois técnica foi o que não faltou nos comandos daquele balão-salsicha, pelas mãos da maravilhosa Miss Smilenska.

a todos os intervenientes, o meu agradecimento. a vossa fértil imaginação - pois que ninguém acredite em tamanhas patacoadas! - há-de fazer perdurar, pelas várias gerações vindouras, o famoso caso de MuMu, a vaca sagrada... 
Nem que eu viva cem anos, o teu corpo sairá do meu corpo
e dos meus músculos, do meu desejo violento,
e deste amor e deste amor que eu te não sei dizer e me faz
andar tão triste.

[in vagão J]
Bianca Serena Truzzi

a pequena casa de madeira na encosta, entre o verde, as chamas já a dançarem em vórtice. noto a curiosidade de quem olha. alguns sorriem. não tenho tempo para entender por que o fazem, o fogo alastra-se à copa das árvores circundantes, impiedoso. a imagem não faz sentido, é um dia de luz clara. a serra toda arde, tomada por labaredas altas. uma velha fotografia arde também, exalando os mesmos ruídos da madeira que chia, estertorante. os que riam, gritam, atarantados. parecem-me meros figurantes, planos na dimensão. o rio, largo, é tomado pelo fogo incandescente e a água feita lava. a lambra, liquida, escorre na minha direcção. assisto, em sonho, à minha própria morte.

3.1.16

SOMBRA DE LOS DÍAS A VENIR

Mañana
me vestirán con cenizas el alba,
me llenarán la boca de flores.
Aprenderé a dormir
en la memoria de un muro,
en la respiración
de un animal que sueña.

2.1.16

talvez seja verdade o que dizem alguns, procuramos a eterna adoração, a sensação de sermos únicos, especiais, os mais importantes na vida de alguém. que nos custe a admitir tamanho egoísmo, atravessado por laivos de narciso, por certo que sim, afinal, quem assume de bom grado o que sempre lhe mandaram esconder?
recentemente, vi-o, deitado ao lado do velho Sr. Gato, lambendo-lhe o pêlo com terna afeição. não me espantou a postura, tão-pouco é da sua exclusividade, de igual modo, há pessoas assim, que debaixo da sua casca grossa, sempre rugosa ao trato, guardam o coração mais nobre. há pouco, e por isso me lembrei de aqui grafar estas palavras, porque as quero, muito, como futuras memórias, banais, do que de mais sincero tenho na vida, o cuidar; dizia, há pouco, ao abrir a porta, no tapete castanho, um pequeno rato do campo, com as vísceras vazadas. pode parecer repugnante, será, admito, mas há no gesto, mesmo que apenas instinto animal, algo que me inflama: saber que Ramirez, o espanhol, o gato mais esquivo que conheço, me oferenda com o que de mais importante há na sua natureza, o seu alimento.
as temporadas de downton abbey, cerveja japonesa e ursinhos haribo. assim tem sido o meu começo de ano. auspicioso, disse ela... nunca mais deixo que me leiam a sina, a menos que prove ser cigana encartada. 
ouvem-se os zunzuns, Cuca, a Pirata, lançou o boato, trata as minhas ilustres convivas como um grupo de rebeldes indigentes. afirma que violámos a convenção de Genebra, atacando em altura de tréguas de fim-de-ano, quando foi ela, e a sua trupe de pernetas, que ousou o sacrilégio de roubar, sim! roubar a vaca sagrada no período santo do natal. 

não poderei permitir semelhante chorrilho de acusações, que já levaram a nossa bela ana a desertar, preferindo a companhia do lado inimigo, sob protecção do primo do Príncipe deposto da Roménia. um ultraje! logo que termine de narrar a história, tal como aconteceu, e não o conto de fadas que a Susana afirma, irei desafiar a Pirata para um duelo de pistolas! espero que a brava capitã não tema em recolher esta luva.

recordo-lhe, caro leitor, que tínhamos acampado na enseada e planeávamos o ataque surpresa. intrépidas guerreiras, não era o medo que nos atrasava os movimentos, mas antes a dúvida daquela última meia légua. ninguém queria mergulhar na água gélida do oceano, como faz aquela gente em carcavelos e na nazaré, tão pouco estragar as mises e os coques de salão. ciente do sacrifício, pedi voluntárias. ergueu-se a ana, a Teresa e, claro está, a Susana. bravas, como três mosqueteiras. as restantes convivas encolheram os ombros, assobiaram um velho êxito de Marco Paulo e deixaram-se ficar junto das fogueiras, assando marshmallows. diziam que alguém tinha de ficar de vigia à locomotiva, propriedade do estado, não queriam ter problemas. respeitei a sua cobardia e fui vestir o biquini-traje de bond girl, juntamente com as outras.

desde que metemos o primeiro pé na água, até que chegámos ao convés do inimigo, o perigo foi companheiro. lutámos contra lulas gigantes, importadas do Japão, e não será difícil ao leitor imaginar um jacto de tinta lançado por uma besta com quase meia tonelada. vimo-nos negras, mas conseguimos despistá-las com umas rodelas de batata-doce da Susana. na altura, regozijei-me, mas agora, no conforto e segurança desta tenda de campanha, pergunto-me se a razão de tal farnel não seria uma crítica às porções gourmet servidas no grande jantar...

lembro-me que, enquanto éramos torturadas por caravelas portuguesas (bicho traidor!), se podia ouvir La Bohème, pela voz de Charles Aznavour e um coro hediondo de piratas embriagados. ao meu lado, enquanto aplicavam golpes marciais cirúrgicos nas alforrecas, as três magníficas trauteavam também. eu própria me deixei embalar pela cadência. até ouvir a ana gritar:
Tubarão! 

1.1.16

como combinado, logo que o último gato miou a nota final, avançámos, munidas de Robert Welch a estrear, forquilhas e armas de fogo, compradas no ebay. Susana, intitulando-se, [contra a minha vontade], como a fiel depositária de MuMu, a vaca sagrada, liderava o bando, de mosquete em punho. uma verdadeira amazona. inseparável, reco-reco, o porco selvagem, "salvo" da agreste natureza, num qualquer parque natural do interior, roncava guinchos de incentivo. logo atrás, montando um puro-sangue lusitano, ana mantinha a ordem entre as convivas mais encharcadas pelas licorosas. Teresa tinha desviado uma locomotiva no apeadeiro e protegia a retaguarda, lançando apitos cronometrados.
caros leitores, asseguro-vos, a partida não foi fácil. por muito que se insista que treze centímetros de salto e cunha é demasiado para quem quer ir guerrear, as senhoras mantiveram-se irredutíveis. acabaram por ir sentadas no vagão, entretidas com o jogo da raspadinha.
chegadas à enseada combinada, avistámos o navio pirata, a não mais de meia légua. um fogo de artifício chinês empestava de amoníaco o ar fresco da noite, em cores todas trocadas. decidimos acampar as tropas e estudar melhor o local. a nosso favor, tínhamos o efeito surpresa, mas não podíamos correr riscos, no resgate da MuMu. sabíamos, de fonte segura, mas incontactável, que Cuca, a pirata poeta, era ajudada pela máfia russa, na pessoa-blogger mais influente do mundo virtual, Palmier Encoberto,  pelo Cigano maltês, primo directo do Príncipe deposto da Roménia e por Carla, Chef da maior quadrilha de açúcar e refinados do norte.

31.12.15

acrescento, para os comensais mais cautelosos, que a entrega de queijos nacionais acabou de ser feita, em balão de ar quente, como manda a etiqueta dos pastores mongóis. os ovos são de baleia, é certo, mas também temos ovas de bacalhau e de esturjão, as primeiras, grelhadas em pau-preto transgénico e regadas em azeite virgem - produção caseira, as outras, em latinhas do czar, acompanham com várias colherinhas de prata, do faqueiro da madrinha. temos ainda o fruto carnal, polpa doce de mulher, também conhecido por dióspiro, mantido a temperaturas abaixo do razoável, em Niflheim, e transportado por duzentos e quarenta cavalos a trote. e para finalizar, chá fino de cidreira e erva-doce para a digestão e uma mão-cheia de pinhões-resoluções.
haverá serviço de massagens caninas, Taeko e Yukiko encarregar-se-ão de vos amassar as pernas. depois da meia-noite, um bando de ex-gatos vadios, miará à luz de três quartos da lua, uma serenata de ano novo, com peças da família Strauss.

já na madrugada alta, todos os convidados receberão um magnifico exemplar Robert Welch, totalmente forjada em aço inoxidável alemão, lâminas afiadas no padrão das espadas japonesas, dando precisão ao corte e garantindo qualidade para o mínimo de esforço. excelentes para amadores. de seguida, partimos em busca da vaca sagrada, roubada e mantida num famoso barco pirata...

espero ter esclarecido. a todos, um excelente 2016!
o pão acabou de cozer e repousa em panos de linho da avó. já temos os ovos de baleia, que serão recheados com finíssimas rodelas de échalote caramelizada e ervas aromáticas, colhidas esta madrugada na região da bretanha. o espumante está a gelar há três dias, sob a aurora boreal do norte. as framboesas da sobremesa são mantidas na pequena estufa real, e só serão colhidas perto da hora do jantar. le chocolat noire arrefece em approximately ambient temperature, nas taças de porcelana da dinastia ming, oferecidas pelo pequeno oriental.
após tão magnífico repasto, haverá poemas murmurados, de todas as formas, línguas e feitios, acompanhados ao som de realejo e concertina, e voos de passarola com vista privilegiada para o fogo de lágrimas artificiais.

estão todos convidados.
Sobre o dito está o não dito,                                                                           
e o  por dizer.* 

e assim se mantém a esperança, na espera das palavras que virão.
que continue a preciosa viagem pela beira do precipício. há que não ter medo; nenhum.


[*Maria Gabriela Llansol, O Azul Imperfeito Livro de Horas V]

30.12.15

2016:
para vós, o que quiserdes.
para mim, manter-me silenciosamente em saudável hikikomori. não sentir por dentro o sofrimento alheio. que o corpo não adoeça e o coração não pare numa hora má. que o acaso me ofereça os lapsos temporais que puder. que, de olhos fechados, encontre sempre o que procuro. que não me falte a possibilidade para me manter [livros incluídos] e manter a bicharada que vive sob o mesmo tecto. não ver nenhum animal na estrada, vivo ou morto. que a minha mãe continue feliz.
alguém espera uma resposta em Daca, enquanto leio Tarfia Faizullah
estou cansada de um mundo assim.

My sister died. He raped me. They beat me. I fell
to the floor. I didn’t. I knew children,
their smallness. Her corpse. My fingernails.
The softness of my belly, how it could
double over. It was puckered, like children,
ugly when they cry. My sister died
and was revived. Her brain burst
into blood. Father was driving. He fell
asleep. They beat me. I didn’t flinch. I did.
It was the only dance I knew.
It was the kathak. My ankles sang
with 100 bells. The stranger
raped me on the fitted sheet.
I didn’t scream. I did not know
better. I knew better. I did not
live. My father said, I will go to jail
tonight because I will kill you. I said,
She died. It was the kathakali. Only men
were allowed to dance it. I threw
a chair at my mother. I ran from her.
The kitchen. The flyswatter was
a whip. The flyswatter was a flyswatter.
I was thrown into a fire ant bed. I wanted to be
a man. It was summer in Texas and dry.
I burned. It was a snake dance.
He said, Now I’ve seen a Muslim girl
naked. I held him to my chest. I held her
because I didn’t know it would be
the last time. I threw no
punches. I threw a glass box into a wall.
Somebody is always singing. Songs
were not allowed. Mother said,
Dance and the bells will sing with you.
I slithered. Glass beneath my feet. I
locked the door. I did not
die. I shaved my head. Until the horns
I knew were there were visible.
Until the doorknob went silent.

29.12.15

Leslie Ann O’Dell





























Tocamo-nos todos como as árvores de uma floresta

no interior da terra. Somos

um reflexo dos mortos, o mundo

não é real. Para poder com isto e não morrer de espanto

— as palavras, palavras.



                                      A lua de coral sobe

no silêncio, por trás

da montanha em osso. É o silêncio.

O silêncio e o que se cria no silêncio.

E o que remexe no silêncio.

                                            É uma voz.

A morte.
está frio, Nepal, o que fazes tu aqui tão cedo?
esperava por ti, Olhos Tristes.
não tenho mais nada para te dar, Nepal. agora já não está nas minhas mãos.
podias interceder...
não posso e nunca o faria, Nepal. se me conhecesses, saberias disso. não intercedo por ninguém, deixo que o rio siga as suas correntes naturais.
que bonito, Olhos Tristes, fazes poesia com a desgraça dos outros. sabes muito bem que as correntes são humanas, compradas. finges é que não vês. finges-te cega.
faço o que posso, para me manter lúcida. as acções são de quem as pratica.
é a isso que te agarras, quando vais dormir?
não, Nepal. nunca levo o trabalho para casa, muito menos durmo com ele. 
não tens consciência. és egoísta. uma activista de sofá. há muitos por aqui.
pensa o que quiseres, Nepal. estás a dar-me mais importância do que aquela que tenho, acredita.
alguma vez te faltou alguma coisa, Olhos Tristes? pão na mesa? roupa quente? combustível? dinheiro para os medicamentos?
Nepal, não posso fazer mais nada. 
és cobarde. egoísta e cobarde.
lamento.
lamentas nada. assim que eu virar costas, o assunto morreu.
esperando que do outro lado do mundo uma borboleta bata as suas asas, disse um dia. depois descobri, pela ausência, a morte do animal.
será ténue o meu rasto no caminho.

27.12.15

troveja. 
de um lado, um monstro de arrogância intelectual, esfomeado, pisca-me o olho. do outro, o misantropo olha-me de soslaio. 
não me entregues,
                                 tristíssima meia-noite,
ao impuro meio-dia branco


//no me entregues,
tristísima medianoche,
al impuro mediodía blanco//

26.12.15

um dia não haverá ninguém. mortos, velhos e novos, breve sonho, eterna poeira.

25.12.15

Não olhes.
O mundo está prestes a rebentar.

Não olhes.
O mundo está prestes a despejar a sua luz
E a lançar-nos no abismo das suas trevas,
Aquele lugar negro, gordo e sem ar
Onde nós iremos matar ou morrer ou dançar ou chorar
Ou gritar ou gemer ou chiar que nem ratos
A ver se conseguimos de novo um posto de partida.

Harold Pinter, Várias Vozes, Quasi Edições
Niflheim acordou gelada. era de esperar que numa noite de tanto filho regressado a casa, tantos sacos de plástico partilhados e tanto amor familiar, a temperatura subisse para valores suportáveis, mas o manto branco de geada que cobriu o vale inteiro não engana. consigo a preciosa água quente para o banho, mas despir o pijama, polar, é um sacrifício que me faz mirrar até a alma. o sacrifício seguinte, será obrigar-me a sair da banheira, quando a água começar a arrefecer. em situações normais, qualquer ser humano de bom senso teria um aquecedor na casa de banho, onde aqueceria o ar e as toalhas, mas em Niflheim dizem-me que esse luxo é uma parvoíce e que aquilo não é um spa, mais vale despachar o assunto com rapidez. suspiro, começo a desconfiar que escolhi a casa errada, outros nativos teriam sido mais condescendentes.
tudo parece uma provação, como se a vida decidisse separar os fortes dos fracos, fazer a sua própria selecção natural, com base na resistência ao frio de cada um. eu, espécime com defeito crónico e falta de camada adiposa que me cubra a alma, pergunto-me durante quanto mais tempo conseguirei sobreviver... 

24.12.15

Corto Gatês, o solitário, sempre demonstrou uma profunda aversão por Tulicreme, um dos gatos vizinhos com quem partilha os hectares de terreno campestre. vejo-os, de longe, agachados no meio da erva alta, imóveis durante vários minutos e fico sem perceber se é caçada conjunta - o que muito me admiraria -, se é porrada iminente. Tulicreme, afoito, mantém a cabeça mais erguida. suponho que queira mostrar ao velho Corto que os tempos são de mudança ou talvez procure apenas brincadeira. mas Corto é mânfio de gema, nado e criado nas varandas de Lisboa, bravo nas suas incursões. não tendo nada a ganhar, e vendo-me, parada, ao lado do espanhol, vira costas ao Tulicreme, com a indiferença de um velho snob inglês, e sobe a ladeira. 
Kylli Sparre




























Em cada mulher existe uma morte silenciosa. 

23.12.15

juntar o que resta da família, essa teia de ligações doentias, tristes exibições de poder, tentativas falhadas de autoridade, e fingir que está tudo bem, que a noite é feliz, é apenas uma noite, aquela noite, repetimos. e fingimos. fingimos que não sabemos dos rancores, dos ódios de estimação, dos preconceitos, dos defeitos e dos feitios, das gabarolices tacanhas, dos paternalismos bacocos. estamos ali, esperando o tempo passar, fingindo que somos cegos e surdos, e felizes, esperançosos de que ninguém se lembre de escamotear a nossa vida à volta da mesa de jantar.

22.12.15

dou graças pela água quente - e tudo o que aqueça, nesta altura, por terras de Niflheim - e pela migraspirina.
obrigada, senhor.

21.12.15

Repara. Há um rio correndo entre as falanges dos dedos. Navegá-lo-ás solitário, porque solitárias são as navegações humanas, todas, como inavegáveis são os rios, todos os rios da terra, anteriores ao mar. Onde tu vês a foz é a nascente que vês. Que os rios, como tudo o que é fluido e movente, nascem ao contrário.

in Rodomel Rododendro, Albano Martins
[mais um poeta esquecido, neste país de poetas]

20.12.15

Elena by Vitaly Vasilieva

Que grande és Tu, meu Deus! Tu és tão grande
que és só Ideia; escassa é a realidade,
se o mais que pode ela se expande

para abranger-te. Por ti sofro, é verdade,
pois se existisses, Deus não existente,
também eu existiria veramente.
adiei o assunto, enquanto pude, mas hoje teve de ser. um a um, após engenhosas tentativas, enganei todos os felinos, escondendo a miraculosa pílula dentro dos pedacinhos esponjosos de carne de galinha com salmão. todos, menos Ramirez, o espanhol. comme d'habitude, Ramirez não se deixa enganar facilmente e desafia a minha paciência durante vários minutos, comendo todos os pedaços de carne, excepto aquele. neste jogo, onde a força e a obediência são meros conceitos abstractos, filosofia para cães, a paciência e a calma são preponderantes. Ramirez será vencido pela minha persistência, sei-o, pelo menos enquanto a lata não acabar. Corto Gatês, o dócil, faz da minha aflição a sua brincadeira e tenta comer o pedaço vencedor, o mesmo que Ramirez declina. Imagino a sobredosagem, acompanhada de uma valente diarreia e peço-lhe que saia dali. Ramirez, atento, ao perceber que Corto Gatês lhe ronda o pedacinho de carne, esquece a teimosia e atira-se a ele, cheio de vontade. abençoada inveja, não posso deixar de me rir. Corto Gatês cerca-me as pernas, encostando a cabeça, e deixa-me um miado baixinho, Não tens de quê, Mammina...
tens tiques de obsessiva-compulsiva, disse-me há uns anos o Tiago, um amigo que tem tanto de génio, como de tresloucado-depravado. toda a manhã tenho observado o laranjal, lavrado atabalhoadamente, sem qualquer figura geométrica que o defina. onde antes existia um quadrado perfeito, há agora um caos de erva e rasgos. ora o quadrado, e as palavras não são minhas, mas de Dolors Collellmir Morales, "é o símbolo da terra, mostra firmeza e fundamento, portanto, simboliza estabilidade", e eu vivi o ano inteiro de olhos postos naquela estabilidade carregada de citrinos, tal e qual um laranjal do éden. 
estou aqui vai-não-vai para calçar as botas de borracha e pôr-me a caminho, para ir pedir ao homem que monte novamente o velho tractor vermelho e desenhe no chão a forma que nunca lhe deveria ter apagado. há pouco, de nariz colado na janela e ganas pela alteração da minha paisagem, lembrei do diagnóstico do Tiago. terei?