não acredito que sempre que um desconhecido nos observa demoradamente, em detrimento do Expresso, esquecido na mesa, ao lado de uma garrafa de água sem gás, a coisa tenha que ver com atracção. observando a minha fraca figura, reflectida no espelho em frente ao balcão, branca como uma boneca de cera, mais insossa do que a manteiga da torrada, aposto a nota de dez euros que me sobrou na carteira, como muitas vezes - como esta agora - tudo não passa de simples curiosidade.
se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria
31.1.16
30.1.16
tenho dois homens à minha espera, na mesinha de cabeceira. o pateta do Peter Kien, acabado de casar com a desprezível governanta - e negar-lhe a noite de núpcias, depois de quase sofrer um choque anafilático, ao vê-la, sequiosa de cama, atirar-lhe os livros ao chão; e Chance, o tolo do jardineiro - jeitoso - analfabeto, ainda deitado, a repousar do acidente, na casa da tiazorra EE...
chega de mundo, por hoje.
ao segundo acordar do dia, jorra-me a luz, tão clara, onde descubro um rosa suave, em botão, como o sexo molhado de uma mulher, nas primeiras flores de um pessegueiro. um cão ladra, compondo a manhã. o sonho cheira-me ainda nas mãos e na boca o sabor é de maresia. naveguei na via láctea dos prazeres, espiral que me rouba a vida, para depois ma devolver.
agora, já desperta, sem ponto de fuga onde me possa extinguir, as palavras devoradas, no prato nem uma migalha que me engane o vazio dos dedos, chega a tristeza, naturalmente, e inunda-me, dentro da luz. se tiver sorte, a apatia salvar-me-á.
há, nestas últimas madrugadas, pássaros que chilreiam a primavera que há-de vir. uma orquestra belíssima que se compõe. o frio seca-me os lábios, enquanto avanço na noite, a esvaecer-se por entre os primeiros bocejos da manhã - aperto o casaco e componho a gola de lã, Taeko e Yukiko seguem-me, felizes. não me nasceu ainda a força para avançar no dia, apenas o núcleo que clama atenção vagueia comigo.
28.1.16
são memórias encadeadas - veio o homem baixote, de tacão dançarino, e no seu ar de desdém à minha figura, lembrei-me daquela vez em que um outro, urso fedorento, à resposta negativa, pediu para falar com O meu chefe. não havendo pila superior para lhe acalmar o beicinho e tendo de se aguentar com o "pipi diz que não", foi cuspir perdigotos para outra freguesia. intolerável!, bufava a jovem colega, devias fazer alguma coisa! não podemos aceitar estes comportamentos machistas! não lhe levei a mal a admoestação, visivelmente bem intencionada. achei até normal, naquela idade, confundir acção com reacção e barulho com atitude. também eu já fui adolescente.
em cima da hora do almoço, a sopa de couve-lombarda à espera, vem-me o Paquistão, dividido em dois, azucrinar a cabeça, que a coisa assim é complicada, saber o que se pode fazer. hoje, azeda de limão verde, impaciento a voz e repito três vezes: atenção, a data é apertada. Paquistão, o de bigode, acena que sim, mas insiste na lengalenga. suspiro, quase me apetece chorar, com pena do tempo que deixo passar, assim, a tentar aproximar o Paquistão dividido em milhares, enquanto a minha aldeia cada vez fica mais longe. o Paquistão mais novo, aliviado por não ter de se expressar - e eu aliviada por não ter de tentar adivinhar -, sorri. tem um dente partido e um sorriso bonito. quando finalmente lhes aperto as mãos, sinto-lhes a convicção de quem sabe que tem de continuar a perguntar. eu, apática ocidental, regresso à inércia da cadeira. estou cansada de responder.
é a repetição enjoativa dos dias.
27.1.16
à atenção do ortopedista, Dr. Reboredo,
Diz Ferreira Gullar (socorro-me sempre dos poetas, quando entro na peleia) que,
sim, este osso
a mais dura parte de mim
dura mais do que tudo o que ouço
e penso
mais do que tudo o que invento
e minto
este osso
dito perônio
é, sim,
a parte mais mineral
e obscura
de mim
a mais dura parte de mim
dura mais do que tudo o que ouço
e penso
mais do que tudo o que invento
e minto
este osso
dito perônio
é, sim,
a parte mais mineral
e obscura
de mim
assim sendo, peço-lhe que avise o seu quase-paciente/cliente que as forças estão em movimento, ele que não se atreva a trocar o hebdomadário pelas catacumbas do palácio nacional de mafra! ou pior, pelas dos Prazeres...
26.1.16
...
Imagino a delicadeza. A subtileza.
O toque quase aéreo, quase
aereamente brutal.
Ser tocado pelas vozes como ser ferido
pelos dedos, pelos rudes cravos
da planície.
Ser acordado, acordado.
Porque cantar é um subterrâneo.
Depois é um pátio.
Imagino que as vozes são escadas.
Vozes para atingir o canto.
O canto é o meu corpo purificado.
Porque o meu corpo tem uma sua morte
tocada incendiariamente.
A morte - diz o canto - é o amor enorme.
É enorme estar cego.
Canta o meu grande corpo cego.
Reluzir ao alto pelo silêncio dentro.
O silêncio canta alojado na morte.
Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar.
Imagino a delicadeza. A subtileza.
O toque quase aéreo, quase
aereamente brutal.
Ser tocado pelas vozes como ser ferido
pelos dedos, pelos rudes cravos
da planície.
Ser acordado, acordado.
Porque cantar é um subterrâneo.
Depois é um pátio.
Imagino que as vozes são escadas.
Vozes para atingir o canto.
O canto é o meu corpo purificado.
Porque o meu corpo tem uma sua morte
tocada incendiariamente.
A morte - diz o canto - é o amor enorme.
É enorme estar cego.
Canta o meu grande corpo cego.
Reluzir ao alto pelo silêncio dentro.
O silêncio canta alojado na morte.
Deito-me, levanto-me, penso que é enorme cantar.
suas Excelências, as pessoas importantes, decidiram que estava na altura de aumentar o ranking de caridade e coisas do tipo. vai daí, Ó Maria, bote-se ao caminho e vá lá ver comé aquilo dos refugiados. Diga c'a gente também quer ajudar!
veio a Maria assistir ao processo, interiorizar-se da condição humana subjacente à coisa de se ser refugiado, e foi logo de manhãzinha, ainda nem ao café a tinha levado, que o rapaz apareceu e lhe sorriu, E que rapaz!, Benza o Deus, Benza o Alá. que felicidade, Maria derrete, sob a camada fina de fond de teint e pó de bronze. Quero tanto ajudar..., suspira Maria, no seu little inglês, mas o rapaz, que traz nos olhos tanto de gratidão como de timidez, não entende o bailado de sedução das mulheres finas do secretariado, mal termina de assinar o verso da folha, agradece - pasma-se Maria, que o pobre já sabe a palavra em português: Você já viu?! - e sai, para não mais voltar.
vai ser um longo dia, com a Maria sempre a suspirar.
25.1.16
24.1.16
Conheci uma vez um americano basculante, que agora me parece replicado pelo mundo. Empunhava uma bandeira tão alto e de punho tão cerrado, que julgava elevar-se ele também, na sua luta pelo Índio dizimado. Era um americano menor, um ser arrogante e mesquinho, um pobre enjeitado, a quem tive de acompanhar os passos durante algum tempo. Lembro-me de assistir, incrédula, às suas evangelizações musculadas. Quem não se vergasse à razão da causa, vergar-se-ia ao poder do pau nas costas. Pelo Índio, ameaçado de extinção, caçado e exposto como troféu, deslocado como bicho para as reservas, aniquilado nas suas crenças espirituais, também a mim e a tantos outros, a luta parecia válida, e o americano, um merdas estilizado pelos papers da universidade e com a espinha dorsal de um polvo, sabia disso.
23.1.16
de lata e garfinho na mão, abro a porta dos fundos e avanço para o gatil. acabei de expulsar uma pobre aranha da cozinha - quiçá Milu, bem maiorzinha e disfarçada de preto -, e só na volta me hei-de rir, ao olhar as sapatilhas que calço, porque as irmãs voltaram a comer-me as botas, tal como no ano passado. foi a cereja no topo do bolo daquele maldito dia. por agora, agarro-me à luz da lua, enorme, que me hipnotiza, e vou conversando com os gatos. nenhum deles me parece incomodado com as perguntas que lhes faço, mas Sr. Gato, cujas goelas se desenvolveram, quando o pobre ficou mouco, refila alto a demora. nada como um bando de ex-vadios e abandonados para me trazer de volta à terra.
É esta condenação, lava ardente, suco, sémen, semente, esta inconstância só minha. Sonho uma morte violenta, a quente, bala na têmpora, carro despistado, cara desfeita, em contra-mão. Sonho com o vidro que me há-de perfurar a pele macia, quente, fêmea pronta em cio, cadela em ladeira esquecida, macho alfa de alcateia, sonho-me liberta de mim.
20.1.16
diz-me que está no desemprego, que a velha morreu. reconheço-lhe na descrição do evento a ironia do costume, sob a qual esconde a fragilidade que mulheres como ela não podem mostrar. por defeito, por medo também, tem tendência para atacar a felicidade. já quis ser assim, mas definiu a natureza que a minha sensibilidade fosse doença e a bruteza, em mim, parecesse cinismo.
não sei o que faria ela, perante o desconsolo que ao fim da tarde me tomou. eu sei que me recolherei à toca, quieta e calada, esperando que ao menos a terra me aceite.
não sei o que faria ela, perante o desconsolo que ao fim da tarde me tomou. eu sei que me recolherei à toca, quieta e calada, esperando que ao menos a terra me aceite.
18.1.16
17.1.16
há vinte anos, lembro-me de olhar tantas vezes pela janela da casa dos meus pais e ver aquele céu azulado a cobrir o horizonte. desse azul, que não se esquece, nascia um violeta macio que me suavizava a ansiedade, a ansiedade de sair, ser independente e viver. há vinte anos, o horizonte parecia-me um obstáculo a transpor, um muro, uma cerca que não me deixava ver o mundo. hoje - domingo, dia dezassete de Janeiro de dois mil e dezasseis - olho o horizonte, que entretanto se alargou, o azul em vários tons, o violeta ausente, e sinto um abraço que me acolhe. não sei o que virá amanhã, mas sei que não sou imortal, e hoje, de olhos postos naquele mesmo ponto, mantenho-me tranquila. olhando para trás, sei que fui abençoada.
16.1.16
Tortugas y cronopios
Ahora pasa que las tortugas son grandes admiradoras de la velocidad, como es natural. Las esperanzas lo saben, y no se preocupan. Los famas lo saben, y se burlan. Los cronopios lo saben, y cada vez que encuentran una tortuga, sacan la caja de tizas de colores y sobre la redonda pizarra de la tortuga dibujan una golondrina.
Julio Cortázar, Historias de cronopios y de famas
[Tartarugas e cronópios
Agora acontece que as tartarugas são grandes admiradoras da velocidade, como é natural. As esperanças sabem disso e não se preocupam. Os famas sabem e troçam. Os cronópios sabem e cada vez que encontram uma tartaruga, puxam do giz de cor e na redonda ardósia da tartaruga desenham uma andorinha.]
Julio Cortázar, Historias de cronopios y de famas
[Tartarugas e cronópios
Agora acontece que as tartarugas são grandes admiradoras da velocidade, como é natural. As esperanças sabem disso e não se preocupam. Os famas sabem e troçam. Os cronópios sabem e cada vez que encontram uma tartaruga, puxam do giz de cor e na redonda ardósia da tartaruga desenham uma andorinha.]
15.1.16
Vendredi saltita de cadeira em cadeira, alheia aos olhares reprovadores das mais velhas. Parece impossível!, cochicham as fulanas, bufando sopros impacientes. Vendredi observa a inclinação da luz, ao tombar no horizonte, procura o Este e o Oeste, roda o monitor e rodopia a cadeira, enquanto regula altura e temperatura e a espessura do assento, verifica o lote do café, o ph do garrafão, a espessura do papel. Depois observa a marca das esferográficas, só usa bic cristal. Questiona tudo o que considera vital para o bom funcionamento da sua performance extraordinária. Mais do que dignificar, Vendredi pretende glorificar a tão nobre profissão de lamber papeis. (Mas só na segunda-feira.)
em pequenos, deviam dizer-nos, vai e morre feliz. e a partir daí, o peso de carregar a preciosidade da vida seria uma nuance. a culpa de não merecer tamanho milagre, de não estar à altura do expectável, daria lugar a uma raiva purificadora, dirigida à divindade que nos obriga a morrer, todos os dias. afinal, o que é a vida, senão a morte em movimento?
14.1.16
doem-me as mamas, é a forma mais simples que tenho de lhe dizer o que se passa. se lhe ofereço sinceridade no relato, não me torça o nariz, nem me responda com chamadas de atenção, que não é bonito uma moça dizer mamas, devendo optar pelo singelo peito, mas peito é o da galinha, assado no forno com batatinhas, daqui a pouco, percebe? o que me dói são as mamas, e ai de quem me tocar nelas, arranco-lhe os olhos com a colher de chá! ainda há dias, no aperto da lagarta subterrânea, levei uma cotovelada bem no centro da polpa da laranja direita e até as lágrimas se me afloraram à vista, um uivo mental excruciante. todos os meses é isto, dores nas mamas, hormonas em ebulição, fluidos num sobe e desce, o corpo bastardo, sedento de morte e de sexo, e como se não bastasse, agora esta porra de dor, incansável, ataca-me os neurónios também, uma dor monstruosa, comum e transversal a todas as mulheres com mamas no escalão das minhas, aquilo dói mesmo, dizem elas, numa voz de terror, e são estas três palavrinhas que me encolhem, encolhem, encolhem e me aumentam a dor nas mamas, mesmo a dor que ainda lá não está. quase me engasgo em tanta dor, de tão inchada que é. dizem-me que não é uma dor fatal, como aquela das paixões, é só uma dor de mamas que deixa outros traumas na memória. mas a bem da verdade, antes esses, às cicatrizes que nos mutilam o corpo.
13.1.16
12.1.16
11.1.16
segredos de Niflheim: estancar o sangue da boca com um bochecho de aguardente.
[ora vê lá no armário das bebidas, tenho a certeza que ainda lá há uma garrafa de aguardente, se não a encontrares, abre a da tequila, é a mesma coisa e ninguém bebe aquilo.]
por quem sois, gentis nativos de Niflheim, não me desagrada o sabor adocicado do metal, mas se a alternativa é cuspir fogo pelos olhos, venha de lá essa garrafa, que bem preciso de anestesiar a alma.
10.1.16
ao ver esta Pear with Insects, de Justus Juncker vem me à memória algo de que realmente me arrependo: não ter comprado aquela garrafa de aguardente de pêra, na sexta-feira.
9.1.16
nos Insólitos do Courrier deste mês, um pequeno artigo fala do projecto Teatro SOLO, onde as peças são concebidas para serem interpretadas diante de um único espectador. pergunto-me se isto que aqui fazemos nos blogs, não é quase a mesma coisa.
em silêncio, observa o velho casarão, a hera continua a trepar pelas paredes da cozinha, virada a nascente, as framboeseiras, plantadas debaixo da janela do quarto que ardeu, alastraram às janelas circundantes, o deodara, trazido pelo homem que morreu jovem, acompanha a altura da casa onde ela é mais alta e faz sombra ao espírito do seu plantador. um tapete de erva alta cobre o chão lateral, por baixo dele, o sangue do galo que atacou, durante as fundações. mais abaixo, a laje sobre a qual colocavam o ringue de papel com dois escorpiões. a excitação e o medo, assistindo à luta - até à morte. hoje, abandonada numa decadência romântica, quem morre é a casa.
Much as he would like to
Concentrate completely
On the precious Object,
Love has not the power:
Goethe put it neatly;
No one cares to watch the
Loveliest sunset after
Quarter of an hour.
So I pass the time, dear,
Till I see you, writing
Down whatever nonsense
Comes into my head;
---
Por muito que se gostasse
De ter apenas cuidados
Com o Objecto Amado,
Não tem amor tal demora;
Disse-o Goethe claramente:
Não há ninguém que contemple
O mais belo dos ocasos
Após um quarto de hora.
Portanto, amor, passo o tempo,
Até te ver, a escrever
Todo e qualquer disparate
Que à cabeça me vem;
[Outro Tempo, W. H. Auden, Relógio D'Água - tradução de Margarida Vale de Gato]
Concentrate completely
On the precious Object,
Love has not the power:
Goethe put it neatly;
No one cares to watch the
Loveliest sunset after
Quarter of an hour.
So I pass the time, dear,
Till I see you, writing
Down whatever nonsense
Comes into my head;
---
Por muito que se gostasse
De ter apenas cuidados
Com o Objecto Amado,
Não tem amor tal demora;
Disse-o Goethe claramente:
Não há ninguém que contemple
O mais belo dos ocasos
Após um quarto de hora.
Portanto, amor, passo o tempo,
Até te ver, a escrever
Todo e qualquer disparate
Que à cabeça me vem;
[Outro Tempo, W. H. Auden, Relógio D'Água - tradução de Margarida Vale de Gato]
7.1.16
6.1.16
observo-o de longe. imagino-lhe a tesoura pequena nas mãos, desbastando os talões supérfluos, que apenas roubam força à videira. pela curteza da vara segura no engado, percebo que o homem prefere a qualidade das uvas, em detrimento dos cestos cheios. não se escusa à morosa arte de seleccionar, cortar e atar com delicadeza, mas firme, em tempos de inverno chuvoso. como um escritor, penso, limpando as suas linhas, decepando, para criar.
o meu avô dizia que o carácter de um vinhateiro se podia observar pela poda que escolhia fazer. acredito piamente na metáfora.
5.1.16
eu bem que queria, caro leitor, garanto-lhe que queria, sempre foi essa a ideia, fazer aqui o relato isento da aventura de fim de ano e respectivo resgate da vaca MuMu. mas já devia saber, que, com isto dos blogs, não há verdade que sobreviva a tanta pantominice. que importa agora dizer que foi a agente Miss Smilenska que roubou o dirigível ao conde Ferdinand von Zeppelin e galgou implacáveis correntes de ar poluído, executando piruetas altamente mortais, para nos salvar das dentuças dos tubarões? já nenhuma de nós acreditava no milagre, embora a Teresa insistisse que tinha aprendido a rezar na era da técnica e a era da técnica haveria de nos salvar. pois técnica foi o que não faltou nos comandos daquele balão-salsicha, pelas mãos da maravilhosa Miss Smilenska.
a todos os intervenientes, o meu agradecimento. a vossa fértil imaginação - pois que ninguém acredite em tamanhas patacoadas! - há-de fazer perdurar, pelas várias gerações vindouras, o famoso caso de MuMu, a vaca sagrada...
Nem que eu viva cem anos, o teu corpo sairá do meu corpo
e dos meus músculos, do meu desejo violento,
e deste amor e deste amor que eu te não sei dizer e me faz
andar tão triste.
[in vagão J]
e dos meus músculos, do meu desejo violento,
e deste amor e deste amor que eu te não sei dizer e me faz
andar tão triste.
[in vagão J]
a pequena casa de madeira na encosta, entre o verde, as chamas já a dançarem em vórtice. noto a curiosidade de quem olha. alguns sorriem. não tenho tempo para entender por que o fazem, o fogo alastra-se à copa das árvores circundantes, impiedoso. a imagem não faz sentido, é um dia de luz clara. a serra toda arde, tomada por labaredas altas. uma velha fotografia arde também, exalando os mesmos ruídos da madeira que chia, estertorante. os que riam, gritam, atarantados. parecem-me meros figurantes, planos na dimensão. o rio, largo, é tomado pelo fogo incandescente e a água feita lava. a lambra, liquida, escorre na minha direcção. assisto, em sonho, à minha própria morte.
3.1.16
2.1.16
talvez seja verdade o que dizem alguns, procuramos a eterna adoração, a sensação de sermos únicos, especiais, os mais importantes na vida de alguém. que nos custe a admitir tamanho egoísmo, atravessado por laivos de narciso, por certo que sim, afinal, quem assume de bom grado o que sempre lhe mandaram esconder?
recentemente, vi-o, deitado ao lado do velho Sr. Gato, lambendo-lhe o pêlo com terna afeição. não me espantou a postura, tão-pouco é da sua exclusividade, de igual modo, há pessoas assim, que debaixo da sua casca grossa, sempre rugosa ao trato, guardam o coração mais nobre. há pouco, e por isso me lembrei de aqui grafar estas palavras, porque as quero, muito, como futuras memórias, banais, do que de mais sincero tenho na vida, o cuidar; dizia, há pouco, ao abrir a porta, no tapete castanho, um pequeno rato do campo, com as vísceras vazadas. pode parecer repugnante, será, admito, mas há no gesto, mesmo que apenas instinto animal, algo que me inflama: saber que Ramirez, o espanhol, o gato mais esquivo que conheço, me oferenda com o que de mais importante há na sua natureza, o seu alimento.
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