20.11.16

há baleias voadoras urinando chuva miudinha, por estes lados. já não sorrio à sua passagem, pois sei que em breve chegará mais uma leva de caracóis e lesmas gigantes e a minha agonia nunca terá fim.
Sr. Gato convalesce na despensa aquecida, com ala própria, preparada para o efeito: wc privativo e cozinha equipada com tigelas de água e comida. não havendo ainda resultados das análises, é dar mimo, comida e calor. no deita levanta que foi a noite, Taeko e Yukiko, ursas ciumentas, passaram de minhas sombras a carraças das minhas pernas. culpa minha, que trago as bichas mais mimadas que bloggers famosas em dias de inaugurações. milu, a minha querida milu, que ainda ontem - em versão gigante - enxotei com a vassoura, aguarda por mim no canto do costume, no tecto do submarino. assim sendo, resta-me ir buscar a caneca do café, quem sabe fazer umas torradinhas - que o pão está duro e preciso de desenjoar das papas - e submergir-me no dia santo, que se avizinha curto. se a edp não me falhar e o Sr. Gato melhorar mais um bocadinho, diria que será um bom domingo.
/atlas/

A unos trescientos o cuatrocientos metros de la Pirámide me incliné, tomé un puñado de arena, lo dejé caer silenciosamente un poco más lejos y dije en voz baja: Estoy modificando el Sahara. El hecho era mínimo, pero las no ingeniosas palabras eran exactas y pensé que había sido necesaria toda mi vida para que yo pudiera decirlas.

Jorge Luis Borges

19.11.16

talvez noutra vida o acaso troque os papéis da cena e me calhe a mim ser o rato silvestre |são tão fofinhos|, Ramirez, o espanhol, fará de flor coração de margarina, a caridosa, e ao roedor caberá, finalmente, o papel de gato sádico e psicopata.
Rosácea



Rosácea, a roseira anã, presenteia-me com um pequeno botão, no dia em que - espero - Sr. Gato, o velhinho, regressará a casa, para viver mais um par de anos comigo. espero, mas receio. 

18.11.16

no seu voo atarracado, Mokambo, o mocho-galego, alcançou o pilar de madeira, enquanto eu observava Marlon Brando, escondido no meio de um tufo de erva verde-belo. Taeko encontrava-se a pouco mais de dez metros, mas deixou-se ficar deitada. suspiro de alívio, de tigela nas mãos - dieta de papas com cheiro a maçã, em busca dos quilos perdidos -, e pondero o banho no submarino. talvez - finalmente - tenha aprendido que os felinos são senhorios destas terras, de igual modo como suas majestades, as duas gordas. Mokambo, por quem me apaixonei faz tanto tempo, abre-me ainda mais os olhos |como são bonitos| e deixa-se ficar no seu poiso. felizmente, para bicho de estimação, não me exige (ainda) tigela cheia, nem manta polar.
o vale, vestido de outono, enche-me a vista. perto, uma vizinha, em posição de lótus, procura o seu nirvana. estranhamente, de olhos fechados. 

17.11.16





sei que fiquei presa num canto da sala, invisível.

15.11.16

morrendo, numa prateleira de qualidade ikea

13.11.16

a maior dúvida era saber se a placa - da belíssima cozinha que é a minha - ainda funcionava. trouxe a pasta fresca de uma loja/restaurante perto de entrecampos, cortei dois portobellos para dentro da frigideira, reguei com vinagre balsâmico e pouco mais. há uma garrafa de vinho tinto à espera do saca-rolhas.
ah, senhor... para quando um outro domingo assim?

o maior luxo dos últimos meses, foi este domingo de sol que roubei na agenda azul dos afazeres urgentes. para terminar esta doçura de dia, outono cor de mel e de vinho, veio a lua, prenhe de luz, fazer-me companhia na varanda. eu, envolta no casaco de lã, sorvendo o chá de tília, ela somente vestida de prata.

12.11.16

quão difícil é a nudez, quando um papel regurgitado pelo preço de cinquenta cêntimos nos mostra um número que nos magoa. sou uma magra triste. pouco mais do que uma pequena carcaça.

Davide Padovan

I'm ready, my Lord




É esta condenação, lava ardente, suco, sémen, semente, esta inconstância só minha. Sonho uma morte violenta, a quente, bala na têmpora, carro despistado, cara desfeita, em contra-mão. Sonho com o vidro que me há-de perfurar a pele macia, quente, fêmea pronta em cio, cadela em ladeira esquecida, macho alfa de alcateia, sonho-me liberta de mim.

|repetem-se, em elipse|

11.11.16

dois anos de cultivo.

Nicholas Alan Cope

ninguém é impossível: suicidas por felicidade, assassinos por benevolência, pessoas que se adoram ao ponto de se separarem para sempre, denunciantes por fervor ou por humildade… Essa liberdade completa acaba por equivaler à completa desordem.

Jorge Luis Borges in Prologo, A Invenção de Morel 

10.11.16

fui roubá-lo ao Bitaites. (obrigada, Marco!)

magnífico...

9.11.16

já não me recordava de como um par de sapatos de salto alto e um bom vestido faziam tanta diferença em mim. não fosse a cara de quem dormiu pouco mais de cinco horas...

6.11.16

Reparaste como o Outono este ano veio por outro lado,
como se fosse pelo lado de dentro?


perguntou-me, quando o encontrei na wook, onde lhe fizeram aparato, e não resisti a pedir-lhe um abraço. amo o Pina desde garota, era um pai que gostava de ter.
não sei se mo disse, se o imaginei na altura, A poesia vai acabar, os poetas vão ser colocados em lugares mais úteis. Por exemplo, observadores de pássaros (enquanto os pássaros não acabarem). e eu, aflita, Que não, Poeta, que não! A poesia é o pássaro que canta, que canta onde lhe apeteça.

aguardava na fila no multibanco, onde uma senhora de cabelo lilás verificava todas as suas contas, e possivelmente as do seu agregado familiar inteiro, introduzindo e retirando vários cartões, guardando os extractos. perto, uma mãe ajudava o seu rebento pequeno a subir para o cavalinho, apenas com uma mão. na outra, já pronto a filmar, o smartphone. segura-te, pá! ainda deixo cair o telefone! o miúdo choraminga, mas lá se empina no dorso da maquineta. vá, agora sorri! sorri para aqui, Martim! 'tou a filmar! a música começa e o Martim sorri.
e se eu morrer de medo?, pergunta-lhe ela, de olhos arregalados. morres nada, minha gatinha, eu vou contigo, é a resposta pronta que chega do rapaz, enquanto a aninha junto ao peito e lhe dá um beijo na testa. ela sorri.

/e eu sorrio também, mas para dentro, fingindo nada ter ouvido. ah, fosse tudo tão belo como estar ancorada num par de braços. miau... /

5.11.16

“Como não tive filhos, o que de mais importante me aconteceu na vida foram os meus mortos, e com isto refiro-me à morte dos meus entes queridos.”

Rosa Montero, A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te





|fico aqui, sentada nesta puta desta cadeira, dura e feia, relendo as palavras que nunca escrevi, mas sinto como minhas. às vezes, acontece-nos assim.|

{sonhos de abóbora para o Manel}

na brincadeira, sem revelar a fonte da ideia, pergunto à Lucinha se já tem sonhos à venda. parece que não, sonhos, diz a Lucinha, ao contrário das decorações natalícias, só em dezembro. portanto, Manel Pero Vaz de Caminha, escrivão-mor do galeão Cuca Melissa Pamela, nada feito, mais vale comeres as farófias.

as duas mulheres do salão que frequento de quinze em quinze dias não se dão. a agressividade com que se tratam, coberta de sorrisos de ácido sulfúrico, mantém as clientes em alerta permanente, não podendo as dos cabelos trocar novidades com as da manicure e vice-versa. as conversas, esse elemento valioso dos negócios de salão, são tão curtas por aquelas bandas, que bastas vezes se consegue ouvir o ponteiro dos segundos numa volta completa. podia ser desagradável - e será, para quem espera pela ocasião para limpar a alma, que traz cinzenta de casa -, mas para mim, aquele silêncio de arame farpado vale ouro.

3.11.16

ah, a beleza da perspectiva...

1.11.16

rezei pelos meus mortos no velho pomar, trincando uma maçã amarela. no final, atirei o caroço à terra e guardei novamente as memórias.
quase sinto pena e tenho vontade de lhe dizer, o problema não é a tua opinião, tens tanto direito a ela, como os outros à sua. o problema reside no palanque em que te colocas para evangelizar o mundo com as tuas certezas. porque insistes tu, sempre, em querer ganhar a taça da gaja mais inteligente e despachada? que anjo te soprou ao ouvido que tu eras a escolhida? que homem te tão humilhou para que julgues agora que tens de ser o centro de cada universo por onde passas?

mas depois observo-lhe melhor a petulância com que disfarça o medo de ficar sozinha e a teimosia de quem se esconde nas frases que decora das muitas folhas que apregoa ler - estranhamente, a maioria delas figura sempre nas lombadas, sinopses e artigos da especialidade -, e nada digo. sinceramente, não vale a pena.

das várias razões existentes para engordar, a que me ocorreu esta manhã, deitada no submarino, é a de como, faltando a carne, fico sem almofada para o osso sacro. é incómodo, tendencialmente doloroso, e, já tendo sido eu, em tempos juvenis, dona de um traseiro de referência, nada disto faz sentido. ocorreu-me a constatação, enquanto admirava as decorações alusivas ao dia, que milu, com a ajuda preciosa da dona da bata às riscas, me deixou, do candeeiro ao tecto.
quando as noites me magoam, rosno-lhes, incapaz de mais. as noites, brutas, julgando-se donas de mim, atacam-me impiedosamente os flancos destapados. eu riposto com gritos metálicos, mas logo que posso, tento o refúgio na rigidez dos dentes cerrados, esperando que o silêncio me livre das agressões. quando os deuses são generosos, o sono pega-me ao colo e leva-me para o outro mundo.
estas são as noites com sabor ao lodo do fundo de um poço. o castelo desmoronado.

31.10.16

{um poema para a Miss Smile}


Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas – podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia – e essa é a verdade – cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão

Daniel Faria


excerto de A Gorda, de Isabela Figueiredo

difícil é não comprar o livro.
obrigada, Isabela.

porque há bloggers assim, capazes de tudo, até de tentar envenenar as orquídeas das outras...


a prova

30.10.16

da odisseia que se iniciou em julho do corrente ano e de como flor de espinheiro, a própria, tem sabido, com a sua total inexperiência, manter Violeta, a imperatriz tropical, em tamanha beleza.

[roam-se, bloggers famosas!]


Violeta, a trinta de outubro de dois mil e dezasseis

/é impressão minha ou as flores de Violeta, a orquídea, parecem monstros do espaço?... abelhas-mamutes?.../

encontrar uma teia de aranha, ainda que pequena - a teia, que de Miluzinha, nem sinais - no lava-loiças, há-de ter algum significado, mas prefiro não reflectir sobre coisas profundas tão cedo. aproveito estes sessenta minutos, oferecidos pela boa-vontade do mesmo alguém que daqui a seis meses os rapinará sem piedade, para pôr as pernas ao sol, observando taeko e yukiko na felicidade da escavação, em companhia da última bolacha e do último pacote de leite, morno, com duas colheres de mokambo. também não quero reflectir sobre isso agora. por arrumar vejo ainda o saco dos felinos e a caixa das gordinhas. está tudo bem, nada nos falta.

/o próximo animal que me vier parar às mãos, há-de chamar-se mokambo/a. caracóis e primas lesmas não contam. nem bichos de prata. perdoa-me, senhor./   

29.10.16

é sábado, sente-se sozinha, ouço-a dizer. de olhar caído no chão, continua a mendigar algum carinho, numa voz de queixume, enjoativa, repetindo-se em súplicas. a conversa pouco mais dura. mal desliga o telemóvel, dirige-se, apressada, à casa de banho. dá-me pena.
devia ser proibido implorar o amor.
o meu poeta azul tem o olhar mais belo que já beijei.
confesso: quis embebedar-me, ontem à noite. quis embebedar-me como há muito não me lembrava. avancei no jinzu, como quem avança nos sumos de pacote. queria, à força, suprimir aquela necessidade imediata de pensar nas coisas. pois que sim, o dia foi longo, ainda tinha de voltar ao escritório (ah-ah-ah!), nem é tarde, nem é cedo, é a hora certa para me embebedar. não uma dessas bebedeiras de secundário, em que vamos agarradas pela melhor amiga até à casa de banho, não, nada disso, era uma bebedeira mais contida, mais madura, onde havia apenas olhares inebriados, gargalhadas soltas no ar e sexo selvagem na arrecadação do restaurante. uma bebedeira com estilo, quase um teledisco ou publicidade de perfume. pois então que venha esse jinzu, vício que ninguém me entende e ainda me acusa de nem ser gin de verdade. gin de verdade ou não, a meio do segundo, fiz contas ao preço, lembrei-me do saldo da conta, e decidi que me embebedava noutra altura, quem sabe no natal, com uma caixa tamanho familiar de mon cheri. da desejada bebedeira, passei à ingrata depressão. raios partam o jinzu!
entraram as duas, três pisos depois, não as observei, entretida que ia na minha azáfama, até que decidiram iniciar conversa, debatendo a problemática do acrílico. eu, patega acabada de chegar ao gelinho, deixei-me ficar, até ao rés-do-chão, a aprender a ser uma mulher moderna.

/sempre me ficou o gozo de ver a unha de garra - acrílico violeta escuro - em tentativas vãs de calcar no botão do elevador./

28.10.16

e quem não queria uma língua dentro da própria língua?
eu sim queria,
jogando linho com dedos, conjugando
onde os verbos não conjugam,

...

que húmida língua, que muda, miúda, relativa, absoluta,
e que pouca, incrível, muita,
e la poésie, c’est quand le quotidien devient extraordinaire, e que música,
que despropósito, que língua língua,
é do Maurice Lefèvre, e como rebenta com a boca!
queria-a toda


Herberto Helder, A Faca Não Corta o Fogo

26.10.16

quando entrei na pequena livraria da rua passos manuel, movida por um desejo insano de encontrar godot, ainda não sabia que traria al berto lunário embrulhado num saco de papel. escolhi-o pelo sexo, confesso, depois de ter lido um artigo antigo do público, opinião de alguns, que era um bom livro para ler corpos resfolgados, ainda com sabor a mar.

24.10.16

descer ao rio de lanterna na mão, as botas de borracha calcando o tapete ensopado, Taeko e Yukiko - quais vacas anãs - pastando na erva mais tenra: eis o ponto alto do dia, que, na verdade, já é noite cerrada.

/isto depois de descobrir que o vizinho trata o cão pela terceira pessoa.../

23.10.16

Rebecca Leveille Guay - Flowers

o passeio de barco prometido, como já se temia, ficou cancelado na sexta-feira à tarde, por receio do temporal. depois de terem acesso à curta mensagem, os deuses domingueiros tomaram para si a cínica tarefa de não mandar um pingo de chuva durante toda a manhã. velhacos.
almocei cedo, numa orgia de cores e paladares, - pimentos assados, tagliatelle com alperce (sim), peixe panga bem simples, puré de maçã, crepe de goiabada e queijo de cabra, cogumelos salteados, meio copo de vinho - um verdadeiro festim. do café, bebi dois golinhos, cada vez me custa mais forçar-me ao gosto queimado, e pus-me a caminho da livraria. o rapaz, por simpatia ou genuíno reconhecimento, ofereceu-me um sonoro cumprimento. o gesto quebrou o silêncio religioso entre os presentes - sempre todos tão iguais - que o rubor se me aflorou à face. ridícula, fugi apressadamente para a poesia. já em segurança, encostada às prateleiras do costume, dei início à busca, procurando algum arrebatamento dominical.
saí de mãos vazias.

/que saudades dos meus alfarrabistas./
prometi que era assunto morto, mas confesso que ainda lhe sinto o pulsar das veias, mesmo junto à garganta, onde cravei a navalha curta. não estando morto, continua a ferrar-me na boca do estômago. há-de jorrar fel.
PANTONE 316 CP

num abraço entre o verde denso da serra a pique e o azul profundo do mar, nasceu a cor que me acaricia a alma.

22.10.16

Durante quinze, vinte, mais minutos, esqueço o que vejo. Concentro-me só no quadro onde vão sendo anotados números, o giz a raspar a ardósia e a manchar-se de vermelho. Altura: 1.64m. Peso: 80 Kg. Cérebro: 1250 gramas. Coração: 400. Pulmão esquerdo: 730. Pulmão direito: 650. Fígado: 500. Pâncreas: 100. Baço: 140.

Penso só que nunca saberei quais são os meus valores. Que não vou querer que ninguém os conheça por mim. Vou ser cremado. Melhor, incinerado. Isto, se não morrer de morte violenta e não me trouxerem à força para uma sala destas. À força. Sorrio. Antes de o assistente fazer uma incisão na parte de trás da cabeça, de orelha a orelha, e de levantar a pele como uma máscara e de a poisar sobre ele, o rosto deste homem era a imagem da impassibilidade. Parecia morto não de há dois dias, mas há anos, há séculos, desde sempre. Parecia já ter nascido assim: morto.

(...)


Até pegar a sério no bisturi, vivi durante um ano a exaltação da carne. Construi teses sobre a macroscopia da alma e a microscopia da textura dos tecidos. Passei a comer bifes mal passados. Comprei um coelho no mercado só para o dissecar no lavatório da casa de banho e depois me habituar ao cheiro da sua decomposição. Colei na parte interior das portas do guarda-fatos as imagens mais macabras dos manuais de Tanatologia. Passeei com as namoradas no cemitério e fui discursando sobre a paz dos mortos. Fui um perfeito idiota aterrorizado com a chegada do meu confronto com a morte.

Com o tempo, deixei-me disso. A carne tornou-se banal. A minha e a dos corpos. E nessa banalidade habituei-me a distinguir com as pinças da ciência as marcas do desvio, da anormalidade, da falha. Hoje, olho para os meus mortos como mortos. É só. E olho o meu corpo como um caminho que se estreita até eles. Cada vez mais. Devagarinho. Ao ritmo do relógio que, em cima da cama, me embala os sonhos. Tic. Tac. Tic. Tac. Tic. Tac. A vida a esvair-se em compassos binários.

Se me disserem que um dos meus mortos já teve uma vida antes, eu respondo que só me interessa aquela que ainda encontro quando o abro. Uma vida que não dura mais de três horas de cortes e sangue. Com poucas personagens e desfecho rápido. Morreu. Mataram-no.

É verdade que com cada corpo que me passa pelas mãos tenho uma conversa diferente. Não há duas histórias iguais. Tal como não existem duas ramificações sanguíneas semelhantes. Ou dois cérebros. Ou dois corações. Ou dois sexos. Mas a uni-los descubro sempre a fina membrana que separa a fragilidade dos corpos da brutalidade dos sentimentos. Morremos todos de excesso ou de falta de amor. E morremos sozinhos, de regresso à nossa odiosa singularidade.

Morremos todos do coração, acreditem.


/Este é o meu corpo, Filipa Melo/
As coisas delicadas tratam-se com cuidado

 Desossaste-me
 cuidadosamente
 inscrevendo-me
 no teu universo
 como uma ferida
 uma prótese perfeita
 conduziste todas as minhas veias
 para que desaguassem
 nas tuas
 sem remédio
 meio pulmão respira em ti
 e outro, que me lembre
 mal existe

 Hoje levantei-me cedo
 pintei de tacula e água fria
 o corpo acesso
 não bato a manteiga
 não ponho o cinto
 VOU
 para o sul saltar o cercado


daqui: modo de usar & co


/não sei porque deixei de ler escritores africanos, especialmente elas, que tanta falta me fazem e tão próximas me são./
Odin, deus da criação, deu o leite ao homem para alimentar a mulher e à mulher para alimentar o mundo.
de Raul e Herberto, aprendi a lei da metamorfose, teoria geral da vida, das coisas e da imaginação. é no poder da transformação que nasce a tristeza crónica inveterada. no dia em que tudo for plano e o voo do condor ficar preso na linha do horizonte, a realização da condição absoluta acontecerá e explodiremos num grão de plenitude extasiada. no dia em que a mudança for impossível, as características imutáveis,  as variações imobilizadas, conheceremos, nos breves instantes precedentes à aniquilação, - feixes de luz cegando-nos -, no seu estado mais puro, a felicidade consubstancial.


numa teimosia suicida de não querer ser infeliz, morre, aquele que não se adapta.

a este propósito, dizem as mulheres das estepes, descendentes das mais bravas sármatas, não te aflijas pelo filho que chora, mas antes pelo que permanece imóvel. 

21.10.16

às vezes vejo-os, caras conhecidas, vozes familiares, um ex-colega a subir as escadas do chiado, uma antiga cliente a atravessar a rua no Marquês, um professor de inglês esquecido no Carmo. de todos fujo, nada tenho para lhes dizer e o silêncio não faz conversa.
hoje acendi uma vela na igreja da encarnação.