Ainda bem
que não morri de todas as vezes
que quis morrer – que não saltei da ponte,
nem enchi os pulsos de sangue, nem
me deitei à linha, lá longe. Ainda bem
que não atei a corda à viga do tecto, nem
comprei na farmácia, com receita fingida,
uma dose de sono eterno. Ainda bem
que tive medo: das facas, das alturas, mas
sobretudo de não morrer completamente
e ficar para aí – ainda mais perdida do que
antes – a olhar sem ver. Ainda bem
que o tecto foi sempre demasiado alto e
eu ridiculamente pequena para a morte.
Se tivesse morrido de uma dessas vezes,
não ouviria agora a tua voz a chamar-me,
enquanto escrevo este poema, que pode
não parecer – mas é – um poema de amor.
Maria do Rosário Pedreira
roubado na Rua das Pretas
se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria
8.12.16
6.12.16
e já que abri as portas ao queixume, aproveito para recordar o quanto detesto o natal, os centros comerciais e as multidões em geral.
telefonei à madrinha, que bem melhor do que eu finge tão completamente, que chega a fingir que é boa-disposição, o azedume que deveras sente, e perguntei-lhe, esperançada, 'tão, madrinha... e este natal, bebemos as pêras ou não?! não demorou nem dois segundos a responder, mais oui, bien sûr, ma jolie fille, já comprei a garrafa! não bebo sozinha!!
ah, a falta que me faz a madrinha nos outros 364 dias do ano...
ah, a falta que me faz a madrinha nos outros 364 dias do ano...
servir-me-á de metáfora para tanta coisa na vida, esta ideia de que, para aquecer os pés (sempre) gelados, o melhor é calçar meias mais grossas, quando na verdade, - experiência já comprovada -, a única forma possível é descalçar meias e sapatos e submergir a carne na água quente.
é nesta ideia feliz - o submarino em silêncio, a meio tanque de água quente - que me refugio deste dia amargo, que teima em se alargar.
é nesta ideia feliz - o submarino em silêncio, a meio tanque de água quente - que me refugio deste dia amargo, que teima em se alargar.
4.12.16
o sol que vi nascer foi abalroado por um grupo de nuvens escuras que agora se vazam nas minhas janelas. haverá beleza na chuva forte que cai, pois ela existe em todas as coisas, mas a felicidade que me deram aqueles raios amarelos, antecipando um bom dia para secar a roupa e pôr o gato ao sol, abalroou-se também.
el deber de todas las cosas es ser una felicidad, diz Borges, o profícuo, si no son una felicidad son inútiles o perjudiciales.
ora pois muito bem, alguém vá dizer a Nanã que já chega.
perto de Niflheim, há uma pequena aldeia onde habitam não mais do que seis almas vivas, conhecida pela mudez das mesmas. contam as gentes de Niflheim, quando as longas noites de inverno, perto do lume, cabem dentro de uma garrafa de aguardente, que tudo aconteceu muito antes de Niflheim existir, sendo o vale naquela altura um refúgio de lobos e feiticeiras. no tempo em que as prímulas começavam a florir, recolhiam ali, em tocas forradas a musgo de turfeira, para longos períodos de retiro espiritual e orgias zoomórficas, invocando almas do outro mundo. as gentes das aldeias vizinhas não se atreviam a incomodá-las, temendo os feitiços que as transformariam em sapos-parteiros ou coisa pior, mas às vezes, embalados pela esperança de ver aquelas mulheres libidinosas banhando-se no rio, alguns homens escondiam-se durante dias nos canaviais. diziam os mais velhos que a nudez de uma feiticeira se colava aos olhos de tal forma, que não mais havia mulher no mundo capaz de cavalgar aquele homem. a sua carne não voltaria a enrijar-se, senão para rasgar as bocas da feiticeira.
tinham medo as mães, que recolhiam os petizes, nas noites de inverno, julgando castrar-lhes a iniciação; rezavam as mulheres casadas, temerosas, quando os homens saíam à noite para a taberna; choravam as raparigas solteiras, enquanto espreitavam as ruas desertas das janelas dos seus quartos, todas as noites julgando ter visto o seu a passar.
«...felizes descobertas precoces (as carícias na pequena concavidade que ela tinha na base da espinha, a exploração dele com a ponta da língua dos bordos das narinas dela, o seu lento sugar dos olhos fechados dela, a cabeça do seu pénis pressionando o umbigo dela, o seu dedo desenhando o períneo dela, as pernas dela à volta do pescoço dele, as nádegas dela esfregando-se contra o sexo dele, a sua boca generosa, e sobretudo a descoberta que ela fez da extrema sensibilidade, rara num homem, dos mamilos dele...»
os detalhes da desfloração de Vina Apsara por Ormus Cama, in O Chão que Ela Pisa, de Salman Rushdie
3.12.16
2.12.16
esta semana, quis o destino que me calhasse desalojar (uma) Milu, da porta do carro velho. insensível às suas longas pernas trémulas, larguei a pobre junto à zona dos aspiradores do elefante azul. nunca faria tal coisa a um mamífero |se até o rato transportei para a segurança do mato cerrado|, tão-pouco o fiz com a Carlota, por que diabos cometi tal infâmia com o pequeno aranhiço, tantas vezes sinédoque do meu pensar?
27.11.16
tive direito a quase tudo, a luz lilás do entardecer, taeko e yukiko escavando debaixo da figueira, misturando o cheiro da terra escura ao doce putrificado das maçãs, cogumelos mansos nascendo entre o verde da erva; perto, uma motosserra abrindo a madeira, os gansos do outro lado do vale, a silhueta a tinta da china de mokambo, pousado na árvore morta onde descobri o rosto de herberto, pássaros que não conheço trinando perto de mim; alto, um avião em direção às nuvens cor de pêssego.
não fosse eu esquecer-me de que hoje é segunda-feira, logo pelas seis da manhã, a mãe deusa das regras fulminou-me a zona dos rins com vários arpões em aço inoxidável, enquanto me arrebanhava as tripas, apertando-as em remoinho. arrastei-me à casa de banho e ali mesmo, deitada no tapete vermelho, olhando fixamente o velho candeeiro redondo, forcei a cura. quinze minutos depois, levantei-me a sorrir.
ultrapassados vários ciclistas e papa-reformas a caminho sabe-se lá do quê, pé no acelerador na estrada larga, eis-me numa pastelaria com nome francês: pain au chocolat et café au lait, s'il vous plaît, merci. perto, uma turba oriental em volta da senhora das raspadinhas. contam o dinheiro com um sorriso que lhes desconhecia. possivelmente tão sincero quanto o meu, quando já me besuntava no pequeno brownie de chocolate com nozes pecã (senhores!!!).
caminho finalmente para o destino. à minha espera, um bigode, sorridente, que me lembrou dos que deixei em casa - se me despachar, penso, ainda consigo a tarde de domingo!
caminho finalmente para o destino. à minha espera, um bigode, sorridente, que me lembrou dos que deixei em casa - se me despachar, penso, ainda consigo a tarde de domingo!
26.11.16
bolachas de chocolate que fazem parelha com cerveja verde, podiam ditar-me grávida, não estivesse menstruada, marcando mais um mês no calendário. calças de ganga e botas das obras, como gosto de chamar às amarelinhas, podiam passear comigo na rua, quem sabe ir até aos jardins da Gulbenkian, guarda-chuva preto dos corações, em vez disso, amarram-me a esta velha e magra cadeira, onde outras palavras esperam para serem escritas, enquanto os meus olhos imploram a ilusão.
tão bom, quando o mundo dentro da minha casca de noz me traz coisas assim. e logo a mim, que ainda guardo as memórias da biblioteca, trabalhando os jesuítas, e de Urbano no conserto do mundo.
do cinema, pela mão de Scorsese, chega o trailer de Silence, adaptado do livro de Shusaku Endo. do livro, disse Urbano: "Fica-se quase doente ao ler Silêncio, mas rendemos-nos à verdade e força dos estados de alma e das confissões das personagens. As descrições da natureza são magníficas: as estações do ano, as árvores, as cigarras, o concerto dos pequenos animais da floresta." (daqui)
25.11.16
até quando encontrar
seus fios de cabelo
no meio dos meus livros?
*
agora
imagine
uma
caixa
torácica
de
bom
tamanho
acústica
saudável
onde
pulsasse
bem-
acondicionado
do
lado
esquerdo
do
peito
um
baço.
*
outro dia mesmo, vadiando as gavetas,
topei com uma de suas costelas.
o que um dia foi pra mim
lua crescente, pente,
bumerangue de marfim
(e – ainda – quantas vezes
arco para violinos genoveses?),
hoje é apenas um souvenir
de timbuktu.
*
talvez depois sorrissem, se um deles
perguntasse, patético, aturdido,
na noite exumada:
o único osso
que restou de nosso
amor decomposto
é a lua,
essa mesma lua
linda lá no alto?
*
(não que fosse aquela nudez
o primeiro alumbramento.)
você lembra?
ali parados, o coração batendo,
surrados
por uma corja de borboletas.
*
não é o tempo, necessariamente.
não é da alçada dos relógios.
o vento
é que comove as árvores, despenteia
o móbile das lembranças.
rodrigo madeira
seus fios de cabelo
no meio dos meus livros?
*
agora
imagine
uma
caixa
torácica
de
bom
tamanho
acústica
saudável
onde
pulsasse
bem-
acondicionado
do
lado
esquerdo
do
peito
um
baço.
*
outro dia mesmo, vadiando as gavetas,
topei com uma de suas costelas.
o que um dia foi pra mim
lua crescente, pente,
bumerangue de marfim
(e – ainda – quantas vezes
arco para violinos genoveses?),
hoje é apenas um souvenir
de timbuktu.
*
talvez depois sorrissem, se um deles
perguntasse, patético, aturdido,
na noite exumada:
o único osso
que restou de nosso
amor decomposto
é a lua,
essa mesma lua
linda lá no alto?
*
(não que fosse aquela nudez
o primeiro alumbramento.)
você lembra?
ali parados, o coração batendo,
surrados
por uma corja de borboletas.
*
não é o tempo, necessariamente.
não é da alçada dos relógios.
o vento
é que comove as árvores, despenteia
o móbile das lembranças.
rodrigo madeira
oriundo do pequeno país do continente e famoso contador de estórias, júlio - e o seu bestiário mágico - tem viajado comigo, nestes que têm sido os tempos das descobertas azul profundo do mar. Alyyah, ora peixe, ora pássaro, é massa espessa que me navega as veias e à noite se deita ao meu lado. tal como o rei que reinava sem nunca ter visto o mundo, também eu me atrevi a abandonar o palácio e a procurar o meu deserto. júlio diz-me que todos temos um tempo à nossa espera, enquanto improvisa algumas notas no velho trompete. se algum dia encontrares o rei de quem fala Tagik, o berbere, repete-me, quero apenas que lhe ofereças estas palavras:
Allá al fondo está la muerte, pero no tenga miedo. Sujete el reloj con una mano, tome con dos dedos la llave de la cuerda, remóntela suavemente. Ahora se abre otro plazo, los árboles despliegan sus hojas, las barcas corren regatas, el tiempo como un abanico se va llenando de sí mismo y de él brotan el aire, las brisas de la tierra, la sombra de una mujer, el perfume del pan.
/Instrucciones para dar cuerda al reloj: traduzido aqui/
Allá al fondo está la muerte, pero no tenga miedo. Sujete el reloj con una mano, tome con dos dedos la llave de la cuerda, remóntela suavemente. Ahora se abre otro plazo, los árboles despliegan sus hojas, las barcas corren regatas, el tiempo como un abanico se va llenando de sí mismo y de él brotan el aire, las brisas de la tierra, la sombra de una mujer, el perfume del pan.
/Instrucciones para dar cuerda al reloj: traduzido aqui/
23.11.16
20.11.16
...
"Às vezes estou tão excitada que basta tocarem-me nas mãos, apertar-mas com força, e tenho um orgasmo quase instantâneo!"
"A sério? Só de te apertar as mãos?"
"Estavas desatento!"
Fez-se um silêncio risonho.
"De facto, da forma como falas com o corpo, não pode ser surpresa!"
Corando e apontando o olhar para o chão, respondeu com o tom de uma menina pequena:
"Não dá mesmo para enganar, pois não?"
"Falas como se isso fosse mau..."
"É que assim sinto-me sempre nua!"
"Só os semelhantes se reconhecem entre si."
...
/a mulher dos aforismos - enfermaria 6/
"Às vezes estou tão excitada que basta tocarem-me nas mãos, apertar-mas com força, e tenho um orgasmo quase instantâneo!"
"A sério? Só de te apertar as mãos?"
"Estavas desatento!"
Fez-se um silêncio risonho.
"De facto, da forma como falas com o corpo, não pode ser surpresa!"
Corando e apontando o olhar para o chão, respondeu com o tom de uma menina pequena:
"Não dá mesmo para enganar, pois não?"
"Falas como se isso fosse mau..."
"É que assim sinto-me sempre nua!"
"Só os semelhantes se reconhecem entre si."
...
/a mulher dos aforismos - enfermaria 6/
Há pessoas que conseguem morrer em órbita e outras que se esmagam no fim da queda. E outras (às quais pertenço) conservam sempre em si como que uma tímida nostalgia da dança em roda perdida, porque somos todos habitantes de um universo em que todas as coisas giram em círculo.
/O Livro do Riso e do Esquecimento/
/O Livro do Riso e do Esquecimento/
há baleias voadoras urinando chuva miudinha, por estes lados. já não sorrio à sua passagem, pois sei que em breve chegará mais uma leva de caracóis e lesmas gigantes e a minha agonia nunca terá fim.
Sr. Gato convalesce na despensa aquecida, com ala própria, preparada para o efeito: wc privativo e cozinha equipada com tigelas de água e comida. não havendo ainda resultados das análises, é dar mimo, comida e calor. no deita levanta que foi a noite, Taeko e Yukiko, ursas ciumentas, passaram de minhas sombras a carraças das minhas pernas. culpa minha, que trago as bichas mais mimadas que bloggers famosas em dias de inaugurações. milu, a minha querida milu, que ainda ontem - em versão gigante - enxotei com a vassoura, aguarda por mim no canto do costume, no tecto do submarino. assim sendo, resta-me ir buscar a caneca do café, quem sabe fazer umas torradinhas - que o pão está duro e preciso de desenjoar das papas - e submergir-me no dia santo, que se avizinha curto. se a edp não me falhar e o Sr. Gato melhorar mais um bocadinho, diria que será um bom domingo.
/atlas/
A unos trescientos o cuatrocientos metros de la Pirámide me incliné, tomé un puñado de arena, lo dejé caer silenciosamente un poco más lejos y dije en voz baja: Estoy modificando el Sahara. El hecho era mínimo, pero las no ingeniosas palabras eran exactas y pensé que había sido necesaria toda mi vida para que yo pudiera decirlas.
Jorge Luis Borges
19.11.16
18.11.16
no seu voo atarracado, Mokambo, o mocho-galego, alcançou o pilar de madeira, enquanto eu observava Marlon Brando, escondido no meio de um tufo de erva verde-belo. Taeko encontrava-se a pouco mais de dez metros, mas deixou-se ficar deitada. suspiro de alívio, de tigela nas mãos - dieta de papas com cheiro a maçã, em busca dos quilos perdidos -, e pondero o banho no submarino. talvez - finalmente - tenha aprendido que os felinos são senhorios destas terras, de igual modo como suas majestades, as duas gordas. Mokambo, por quem me apaixonei faz tanto tempo, abre-me ainda mais os olhos |como são bonitos| e deixa-se ficar no seu poiso. felizmente, para bicho de estimação, não me exige (ainda) tigela cheia, nem manta polar.
o vale, vestido de outono, enche-me a vista. perto, uma vizinha, em posição de lótus, procura o seu nirvana. estranhamente, de olhos fechados.
13.11.16
a maior dúvida era saber se a placa - da belíssima cozinha que é a minha - ainda funcionava. trouxe a pasta fresca de uma loja/restaurante perto de entrecampos, cortei dois portobellos para dentro da frigideira, reguei com vinagre balsâmico e pouco mais. há uma garrafa de vinho tinto à espera do saca-rolhas.
ah, senhor... para quando um outro domingo assim?
o maior luxo dos últimos meses, foi este domingo de sol que roubei na agenda azul dos afazeres urgentes. para terminar esta doçura de dia, outono cor de mel e de vinho, veio a lua, prenhe de luz, fazer-me companhia na varanda. eu, envolta no casaco de lã, sorvendo o chá de tília, ela somente vestida de prata.
12.11.16
É esta condenação, lava ardente, suco, sémen, semente, esta inconstância só minha. Sonho uma morte violenta, a quente, bala na têmpora, carro despistado, cara desfeita, em contra-mão. Sonho com o vidro que me há-de perfurar a pele macia, quente, fêmea pronta em cio, cadela em ladeira esquecida, macho alfa de alcateia, sonho-me liberta de mim.
|repetem-se, em elipse|
11.11.16
10.11.16
9.11.16
6.11.16
Reparaste como o Outono este ano veio por outro lado,
como se fosse pelo lado de dentro?
como se fosse pelo lado de dentro?
perguntou-me, quando o encontrei na wook, onde lhe fizeram aparato, e não resisti a pedir-lhe um abraço. amo o Pina desde garota, era um pai que gostava de ter.
não sei se mo disse, se o imaginei na altura, A poesia vai acabar, os poetas vão ser colocados em lugares mais úteis. Por exemplo, observadores de pássaros (enquanto os pássaros não acabarem). e eu, aflita, Que não, Poeta, que não! A poesia é o pássaro que canta, que canta onde lhe apeteça.
aguardava na fila no multibanco, onde uma senhora de cabelo lilás verificava todas as suas contas, e possivelmente as do seu agregado familiar inteiro, introduzindo e retirando vários cartões, guardando os extractos. perto, uma mãe ajudava o seu rebento pequeno a subir para o cavalinho, apenas com uma mão. na outra, já pronto a filmar, o smartphone. segura-te, pá! ainda deixo cair o telefone! o miúdo choraminga, mas lá se empina no dorso da maquineta. vá, agora sorri! sorri para aqui, Martim! 'tou a filmar! a música começa e o Martim sorri.
e se eu morrer de medo?, pergunta-lhe ela, de olhos arregalados. morres nada, minha gatinha, eu vou contigo, é a resposta pronta que chega do rapaz, enquanto a aninha junto ao peito e lhe dá um beijo na testa. ela sorri.
/e eu sorrio também, mas para dentro, fingindo nada ter ouvido. ah, fosse tudo tão belo como estar ancorada num par de braços. miau... /
5.11.16
“Como não tive filhos, o que de mais importante me aconteceu na vida foram os meus mortos, e com isto refiro-me à morte dos meus entes queridos.”
Rosa Montero, A Ridícula Ideia de Não Voltar a Ver-te
|fico aqui, sentada nesta puta desta cadeira, dura e feia, relendo as palavras que nunca escrevi, mas sinto como minhas. às vezes, acontece-nos assim.|
{sonhos de abóbora para o Manel}
na brincadeira, sem revelar a fonte da ideia, pergunto à Lucinha se já tem sonhos à venda. parece que não, sonhos, diz a Lucinha, ao contrário das decorações natalícias, só em dezembro. portanto, Manel Pero Vaz de Caminha, escrivão-mor do galeão Cuca Melissa Pamela, nada feito, mais vale comeres as farófias.
as duas mulheres do salão que frequento de quinze em quinze dias não se dão. a agressividade com que se tratam, coberta de sorrisos de ácido sulfúrico, mantém as clientes em alerta permanente, não podendo as dos cabelos trocar novidades com as da manicure e vice-versa. as conversas, esse elemento valioso dos negócios de salão, são tão curtas por aquelas bandas, que bastas vezes se consegue ouvir o ponteiro dos segundos numa volta completa. podia ser desagradável - e será, para quem espera pela ocasião para limpar a alma, que traz cinzenta de casa -, mas para mim, aquele silêncio de arame farpado vale ouro.
3.11.16
1.11.16
quase sinto pena e tenho vontade de lhe dizer, o problema não é a tua opinião, tens tanto direito a ela, como os outros à sua. o problema reside no palanque em que te colocas para evangelizar o mundo com as tuas certezas. porque insistes tu, sempre, em querer ganhar a taça da gaja mais inteligente e despachada? que anjo te soprou ao ouvido que tu eras a escolhida? que homem te tão humilhou para que julgues agora que tens de ser o centro de cada universo por onde passas?
mas depois observo-lhe melhor a petulância com que disfarça o medo de ficar sozinha e a teimosia de quem se esconde nas frases que decora das muitas folhas que apregoa ler - estranhamente, a maioria delas figura sempre nas lombadas, sinopses e artigos da especialidade -, e nada digo. sinceramente, não vale a pena.
das várias razões existentes para engordar, a que me ocorreu esta manhã, deitada no submarino, é a de como, faltando a carne, fico sem almofada para o osso sacro. é incómodo, tendencialmente doloroso, e, já tendo sido eu, em tempos juvenis, dona de um traseiro de referência, nada disto faz sentido. ocorreu-me a constatação, enquanto admirava as decorações alusivas ao dia, que milu, com a ajuda preciosa da dona da bata às riscas, me deixou, do candeeiro ao tecto.
quando as noites me magoam, rosno-lhes, incapaz de mais. as noites, brutas, julgando-se donas de mim, atacam-me impiedosamente os flancos destapados. eu riposto com gritos metálicos, mas logo que posso, tento o refúgio na rigidez dos dentes cerrados, esperando que o silêncio me livre das agressões. quando os deuses são generosos, o sono pega-me ao colo e leva-me para o outro mundo.
estas são as noites com sabor ao lodo do fundo de um poço. o castelo desmoronado.
31.10.16
{um poema para a Miss Smile}
Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas – podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia – e essa é a verdade – cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.
A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão
Daniel Faria
Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas – podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia – e essa é a verdade – cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.
A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão
Daniel Faria
Subscrever:
Mensagens (Atom)







