se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria
11.2.17
10.2.17
5.2.17
4.2.17
3.2.17
para a Rita bonita.
/Sylvia Plath - A Campânula de Vidro - Assírio&Alvim/
«Nova Iorque estava horrível nessa altura. Às nove da manhã, a frescura aparente que de algum modo invadia a cidade durante a noite, desvanecia-se como o fim de um sonho agradável. As ruas serpenteavam ao sol como miragens cinzentas no fundo dos desfiladeiros graníticos, os tejadilhos dos automóveis brilhavam e estalavam, e o pó seco como cinza invadia-me os olhos e a garganta.
A toda a hora ouvia falar dos Rosenberg. Era na rádio, era no escritório. Cheguei a um ponto em que já não os conseguia tirar do pensamento. Tal como a primeira vez que vi um cadáver. Durante semanas consecutivas, ao pequeno-almoço, a cabeça do cadáver, ou o que dela restava, flutuava por cima dos meus ovos com bacon, e também por trás da cara de Buddy Willard que fora, aliás, responsável por eu o ter visto. Em breve me senti como se arrastasse comigo a cabeça do cadáver presa por um cordel como um balão negro e sem nariz, lançando um cheiro nauseabundo a vinagre.»/Sylvia Plath - A Campânula de Vidro - Assírio&Alvim/
querem mais fotografia, daquela que tem poesia dentro?
à esquina da tecla
- e a luisa também escreve bonito -
à esquina da tecla
- e a luisa também escreve bonito -
2.2.17
tenho a Sylvia, numa das suas capas escuras, edição esgotada, pedindo para ser lida, mas estou demasiado cansada e temo quebrar o vidro da campânula, quando, daqui a pouco, regressar a casa.
«Foi um Verão estranho e sufocante, aquele em que electrocutaram os Rosenberg. Estava então em Nova Iorque sem saber ao certo porquê. As execuções incomodam-me. A ideia de se ser electrocutado dá-me volta ao estômago, e os jornais não falavam de outra coisa: cabeçalhos atrás de cabeçalhos olhando-me esbugalhados em todas as esquinas e entradas de metro tresandando a amendoim. Embora nada daquilo tivesse a ver comigo, não conseguia deixar de imaginar como seria ser queimado vivo até à mais ínfima parcela do nosso corpo.
Deve ser a pior coisa do mundo.»
e não passei daqui.
1.2.17
[sim, por agora e até ver, /ou colapso total da autora/, este blog sobreviverá de más fotografias, uma ou outra vez, acompanhadas por versos de poetas que estão para a poesia como, nos anos oitenta do século passado, o Vasco Granja esteve para os desenhos animados...]
30.1.17
não a reconheci, agachada em frente à maquina do tabaco, mostrando o inicio de umas cuecas generosas, ponteadas de largas estrelas. quando mais tarde abandonei o espaço, a cabeça ainda longe, pensando no muro de pedra, prenhe, que esta manhã gritava a sua iminência de ruir, vi-a, entregando um cigarro ao sem-abrigo das muletas. cumprimentei os dois e segui o meu caminho. não pude deixar de sorrir, sempre engracei com aquela rapariga.
29.1.17
entrou na drogaria, escondida pelo casaco grosso de fazenda, cor de caramelo. duzentos gramas de amor concentrado, pediu. o homem da bata branca tossicou duas vezes para o lado, ajeitou as lunetas de aros finos e pediu licença, dirigindo-se aos aposentos traseiros. a mulher esperou alguns minutos quieta, até que a impaciência lhe saltou da écharpe de musseline para a boquinha crispada e bufou ruidosamente. ao terceiro assopro, voltou o homem da bata com uma pipeta de cristal, três quartos de líquido púrpura, translúcido; chamou-lhe a alquimia do coração. tenha cuidado, recomendou em voz baixa, deve tomar em doses muito reduzidas, diluídas em vários copos de água ao longo da vida. o excesso de amor vicia. ela anuiu e ele continuou. pior, pode estrangular-lhe as artérias principais, roubar-lhe a razão, asfixiá-la, deixá-la desfalecer em êxtase místico, do qual não mais se recupera. a mulher guardou o invólucro em silêncio, pagou e saiu. nunca mais ninguém a viu.
hoje já ninguém acredita, substituiu-se a poesia pelo placebo, morrer de amor, convenhamos, é coisa esquisita.
22.1.17
Em torno da pequena mesa, onde as canecas de café fumegavam, cada um deles tinha de contar um dos seus furtos mais estóicos. Jasmim, o andrógino de longos cabelos louros e olhos de avelã, jurava a pés juntos, olhar escancarado e braços abertos, que uma vez tinha roubado um cavalo mágico, má-gi-co, repete, num circo em Lyon. No momento em que montou o cavalo, sentiu uma corrente eléctrica, que o colou ao dorso do animal, exclama, excitado. Alguns metros a galope depois, o cavalo descolou os cascos do chão e ambos voaram em direcção às nuvens cinzentas do sul. Acordou numa sarjeta em Sainte-Croix-en-Jarez, dois dias mais tarde, o corpo todo maçado de nódoas, não se lembra de mais nada. O Bando entra em algazarra, alguns riem-se, chama-lhe bêbado, outros dizem que não acreditam, nem pensar, que parvoíce, impossível. Petra fica calada. Jasmim continua a jurar, que sim senhor, que já roubou um cavalo-alado, todo branco, lembra-se bem, os outros têm é inveja, cambada de míseros ladrões de galinhas. e ri-se.
Do outro lado da sala, Bartolomeu pede a palavra.
Do outro lado da sala, Bartolomeu pede a palavra.
16.1.17
14.1.17
12.1.17
os dias têm sido curtos, talvez as horas tenham decidido brincar comigo, correndo, velozes, no velhinho swatch com mostrador azul de prata. nada do que tenho feito me satisfaz o palato da alma, mas a vida leva-se caminhando. aproveitei há pouco, enquanto o computador me pedia uma reinicialização, para levar os olhos ao Fernando. na verdade, hoje não me apetecia o Fernando, nem o Bernardo, tão-pouco o Raul, cujo húmus sustenta o livro do desassossego. hoje apetecia-me trincar poemas repletos de líquidos doces, abraçar um coração de caxemira e ficar sem palavras.
10.1.17
Niflheim acordou melancolicamente primaveril. nos campos, o verde inteiro, pássaros de asas longas junto ao rio, gente caminhando. as nuvens, cinzentas como eu, passam velozes. vejo agora que algumas laranjas estão tombadas na terra lavrada, não há, como sempre, quem as apanhe.
com o tanque do submarino a mais de três quartos, ócio meu, este de me parar à janela, vendo o mundo da passar, tenho de ir. é urgente.
8.1.17
7.1.17
fez-me chegar a breve nota em missiva electrónica, bona fide evidente, "não se melindre a cara amiga". pois então, diz o leitor, parente próximo na certa de Napoleão Mendes de Almeida, que me repito nas conjunções em início de frase, praticadas em simultâneo com o exercício patusco de minusculização da letra que se quer grande. também abuso das mesmas em corpo interno, intoxicando o texto com as constantes paragens, conduzindo-o à pequenez da simplificação. o que se quer é o substantivo moderno, limpo de apêndices e floreados, desconstruindo a relação, prendendo a atenção.
meu "caro amigo", eis-me nada melindrada com obséquias observações. continuarei a repetir, repisar, reiterar, reforçar a gramática e a grafia da minha redundante arte caseira, como se quer de quem tem na teimosia a sua força maior. e quanto à ideia do seu parente, o carrancudo obstrutor, de que saber escrever a própria língua devia fazer parte dos deveres cívicos de cada um ou coisa assim, eu opto por Pessoa, o poeta multiplicador, e respondo-lhe que eu não escrevo em português, eu escrevo eu mesma, ganjenta de mim.
enquanto avanço e recuo nas páginas repletas de vestidos, malas e sapatos, experimento uma sensação absoluta de tranquilidade (ia escrever paz, mas não quero parecer exagerada). se a ignorância é meio caminho andado para alcançar este pequeno nirvana matinal, a futilidade encarrega-se de me fazer alcançar a meta. quase tenho vontade de prosseguir com um sonoro foda-se a vida dos outros, mas tal é o zen na ponta dos dedos, que mantenho firme a linguagem polida. em vez do jovem casal de grunhos que ontem apanhei no metro, ela com voz de carroceira, ele zumbindo como uma abelha, empanturrando o bebé de alcofa com pedaços de kit kat... /sim, deus que me perdoe, mas tive vontade de lhes agarrar nas cabeças sebosas e de lhes dar com elas na porta do metro, felizmente, sou apenas uma justiceira mental, ou estaria agora na esquadra a prestar declarações, sujeita a queixa-crime/; recuo: em vez do casal de grunhos de ontem, prefiro apascentar as vistas naquele grupo de homens, que desde cedo semeia a terra em frente. ou nos outros, perto, que continuam curvados, podando as videiras. isto, obviamente, enquanto vou namorando vestidos cintados, lingerie sem almofadas - abraçando o meu tamanho small -, e sapatos daqueles que não servem para os passeios de lisboa.
6.1.17
vejo-os, desde ontem, curvados, podando as vides e lembrei-me do meu avô. mas a memória foi cruel e trouxe-me não o homem soberbo, mas o velho magro, sofrendo durante semanas na cama do hospital. fecunda nessa imagem, veio a do meu pai, em igual sofrimento, morrendo num outro hospital. e finalmente, como que num trio divino, a dúvida quanto ao sofrimento do meu irmão. terá sofrido? terá tido tempo para ter medo? e eu, terei medo da minha morte, se a vir a chegar?
Atropelamento e Fuga
Era preciso mais do que silêncio,
era preciso pelo menos uma grande gritaria,
uma crise de nervos, um incêndio,
portas a bater, correrias.
Mas ficaste calada,
apetecia-te chorar mas primeiro tinhas que arranjar o cabelo,
perguntaste-me as horas, eram 3 da tarde,
já não me lembro de que dia, talvez de um dia
em que era eu quem morria,
um dia que começara mal, tinha deixado
as chaves na fechadura do lado de dentro da porta,
e agora ali estavas tu, morta (morta como se
estivesses morta!), olhando-me em silêncio estendida no asfalto,
e ninguém perguntava nada e ninguém falava alto!
Era preciso mais do que silêncio,
era preciso pelo menos uma grande gritaria,
uma crise de nervos, um incêndio,
portas a bater, correrias.
Mas ficaste calada,
apetecia-te chorar mas primeiro tinhas que arranjar o cabelo,
perguntaste-me as horas, eram 3 da tarde,
já não me lembro de que dia, talvez de um dia
em que era eu quem morria,
um dia que começara mal, tinha deixado
as chaves na fechadura do lado de dentro da porta,
e agora ali estavas tu, morta (morta como se
estivesses morta!), olhando-me em silêncio estendida no asfalto,
e ninguém perguntava nada e ninguém falava alto!
4.1.17
Melissa Honey, esse vegetal amarelo, gravita à minha volta, lembrando-me de todas as tarefas em atraso. urgente! urgente! repete em voz enjoada. Melissa, querida, estou a trabalhar há* doze horas seguidas, pelo amor à santa dos azulejos, cala-te um bocadinho. Melissa não se azeda nos meus azeites, oferece-me um caramelo. mando-a sentar, sossegar a passarinha. doem-me as costas, dói-me a cabeça, em breve há de soltar-se um espirro. estendo a mão ao Fernando e peço-lhe ajuda: poeta, ou absinto ou poesia.
Um dia, no fim do conhecimento das coisas, abrir-se-á a porta do fundo, e tudo o que fomos — lixo de estrelas e de almas — será varrido para fora da casa, para que o que há recomece, responde baixinho.
*obrigada, Blue
Um dia, no fim do conhecimento das coisas, abrir-se-á a porta do fundo, e tudo o que fomos — lixo de estrelas e de almas — será varrido para fora da casa, para que o que há recomece, responde baixinho.
*obrigada, Blue
Amália, a menina que me espreita pela sebe, sempre abraçada ao seu chorão, perguntou-me há dias se podia ficar com o gatinho às cores. ri-me à ideia. Ramirez, o espanhol, contrabandista encartado, esquivo por natureza, o melhor caçador do vale, ronronando às mãos de uma menina, como dama de companhia. posso? insistiu ela.
3.1.17
There was a boy
A very strange enchanted boy
They say he wandered very far, very far
Over land and sea
A little shy and sad of eye
But very wise was he
And then one day
A lucky day he passed my way
Then we spoke of many things
Fools and kings
Then he said to me
"The greatest thing you'll ever learn
is to love and be loved in return"
2.1.17
1.1.17
31.12.16
do homem, nem sinal. é novamente outro homem, num tractor maior, que lavra o terreno junto ao laranjal. as garças-boieiras, talvez outras também, continuam a picar a terra revolvida, indiferentes ao roncar da máquina.
30.12.16
respiro os gases azuis dos combustíveis, sempre que vagueio pelas ruas estreitas do meu labirinto. nas sarjetas, misturam-se os dejectos dos cães citadinos com as águas pluviais, recolhidas na estação próxima dos comboios de velocidade veloz. aprendo a caminhar nestes passeios periféricos que nunca foram os meus, despindo o casaco arrogante, comprado nas avenidas. aos poucos, golpeando apenas as polpas dos dedos, que lambo, febril, vou mapeando o virar das esquinas, as vielas mais frias, os descampados onde nascem as lixeiras, as vias-rápidas onde atravesso pontes com vozes suicidas.
não haverá lugar para balanços, neste ano bissexto que por agora finda. não creio em festejos pré-definidos e massivamente copiados, tão-pouco conheço o calendário dos planetas telúricos. repito os desejos do ano passado, - intemporais -, alguns cada vez mais distantes das minhas mãos:
para vós, o que quiserdes.
para mim, manter-me silenciosamente em saudável hikikomori. não sentir por dentro o sofrimento alheio. que o corpo não adoeça e o coração não pare numa hora má. que o acaso me ofereça os lapsos temporais que puder. que, de olhos fechados, encontre sempre o que procuro. que não me falte a possibilidade para me manter [livros incluídos] e manter a bicharada que vive sob o mesmo tecto. não ver nenhum animal na estrada, vivo ou morto. que a minha mãe continue feliz.
28.12.16
26.12.16
insondáveis são os caminhos da vida, mistérios da natureza, minha mãe, doce vizinha, novinha, belas carnes, ó José, tinha a moça do café, não me incomode agora, senhor, tenho a sopa a ferver, a morcela é da boa, corte rente, por favor, nunca fui muito de beber, mau vinho, má ocasião, Deus ma deu, Deus ma levou, minha querida Alzira, mãe de cinco, costureira de profissão, esconde, esconde, um, dois, três, corre, malandro, que te apanho, corre, que te deito a mão, senhor, uma esmolinha, por favor, tenho fome, quero comer, a meu ver, senhor engenheiro, temos aqui confusão, veja este vazamento, nunca se viu coisa assim, maquinaria avariada, é chamar-se o homem, e que traga o irmão, o do camião. cão? cão, meu grande cão, canídeo amarelo, mijador profissional, castrado pelo ti, Jaquim, em tarde de bebedeira, bate, bate, o pão na eira, canta a dona Chitas, carpideira, adufe ao alto, Maria, vamos à feira, chamava o regedor, ai minha mãe, ai minha mãe, gritava a Laurinda na hora de parir, Paris aqui vou eu, que fujo da guarda, alcoviteira que se bufou, certamente, não nasce aqui nada, não plante, senhor Clemente, assuma que foi você, que me disse que lhe deitava o dente, jeitosa, a viúva, ai se não, corro para apanhar o vinte e oito, braço em riste, carteira no bolso interior, boas tardes, menina, boas tardes, senhor Prior, sabes se os cucos já partiram este ano?, venha cá, meu mandrião, deixe que a mamã lhe componha a camisa, no Tamisa é que era, eu e tu, num barquinho, a vogar, os cucos não partem, avó, vieram para ficar, lagartas verdes nas couves, minha mãe, não as consigo matar, o coveiro já lá está, a terra está dura, não há ninguém que a vá lavrar, Maria, olhà blusa, filha, que hoje não te podes sujar, chega o teu pai, vem da guerra do ultramar, minha mãe, meu pai morreu e eu vou me casar.
25.12.16
24.12.16
/ajudando a Cuca a procurar o espírito natalício, que fugiu de casa da Palmier, onde se encontrava em cativeiro há vários anos, num sótão escuro, partido em várias caixas de papelão. (apenas porque a Própria dará alvíssaras e eu, esse doce, nunca provei/
VLADIMIR
Também deves estar contente, lá no fundo, se ao menos soubesses.
ESTRAGON
Contente com quê?
VLADIMIR
Por estares outra vez comigo.
ESTRAGON
Achas que estou?
VLADIMIR
Diz que estás, mesmo que não seja verdade.
ESTRAGON
O que é que eu digo?
VLADIMIR
Diz, Eu estou contente.
ESTRAGON
Eu estou contente.
VLADIMIR
Também eu.
ESTRAGON
Também eu.
VLADIMIR
Nós estamos contentes.
ESTRAGON
Nós estamos contentes. (Silêncio.) O que é que fazemos agora, agora que estamos contentes?
VLADIMIR
Esperamos pelo Godot.
ESTRAGON
Ah, pois é.
Silêncio.
VLADIMIR
As coisas mudaram desde ontem.
ESTRAGON
E se ele não vier?
VLADIMIR (após uma pausa de incompreensão) Logo se vê. (Pausa.) Eu disse que aqui as coisas mudaram desde ontem.
ESTRAGON
Tudo escorre.
VLADIMIR
Repara na árvore.
ESTRAGON
Nunca nos banhamos duas vezes no mesmo pus.
VLADIMIR
Na árvore, repara na árvore.
Estragon olha para a árvore.
ESTRAGON
Não estava ali ontem?
VLADIMIR
Estava, claro que estava. Não te lembras? Quase nos enforcávamos nela. Mas tu não
quiseste. Não te lembras?
ESTRAGON
Sonhaste.
VLADIMIR
Será possível que já te tenhas esquecido?
ESTRAGON
Eu sou assim. Ou me esqueço logo ou então nunca mais me esqueço.
/ed. Cotovia/
Adenda: Onde se Lê: GODOT, Leia-se: espírito de natal em fuga.
Subscrever:
Mensagens (Atom)













