se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria
7.3.17
5.3.17
[...]
Uno de los hábitos de la mente es la invención de imaginaciones horribles.
Ha inventado el Infierno, ha inventado la predestinación al Infierno, ha imaginado las ideas platónicas, la quimera, la esfinge, los anormales números transfinitos (donde la parte no es menos copiosa que el todo), las máscaras, los espejos, las óperas, la teratológica Trinidad: el Padre, el Hijo y el Espectro insoluble, articulados en un solo organismo… Yo he procurado rescatar del olvido un horror subalterno: la vasta Biblioteca contradictoria, cuyos desiertos verticales de libros corren el incesante albur de cambiarse en otros y que todo lo afirman, lo niegan y lo confunden como una divinidad que delira.
/La biblioteca total, JLB/
4.3.17
republico o post de Vital Moreira pela mensagem, sempre urgente, mas também pela imagem que a tantos parece dar prazer. não é a morte* que aqui me incomoda. um dia, creio, também nós fomos presas de um caçador maior, -- hoje, à falta desse elemento agregador da espécie, matamo-nos uns aos outros --, o que me incomoda, o que verdadeiramente me entristece, é saber que há seres humanos que nos seus momentos de lazer - pais e filhos - vão assistir a este espetáculo de sofrimento e crueldade, chamando ao que é bárbaro, a nobre arte de tourear. em casa dão festas ao tareco, nas bancadas da praça aplaudem a tortura aos touros.
habituada à hipocrisia de um país de aparências, ainda assim, não entendo o porquê de tamanha contradição. à falta da desculpa das políticas da direita, o que falta à esquerda para fazer agora o que já devia ter sido feito? valerá assim tanto o PCP?
*aceito a discussão sobre a forma, também bárbara, de como criamos e matamos os animais para comer, mas tendo essa morte propósitos diferentes, não creio que se deva confundir os assuntos.
3.3.17
a frase, como muitas outras, apareceu-me sem avisar: todos os dias tristes, são dias de chuva; mas não, hoje não vi nenhum caixão descer à terra escura, sete palmos abaixo, onde, antes do pó, somos larvas gordas e brancas rapando a carne dos próprios ossos. hoje vejo apenas um lugar vazio, mas ninguém morreu.
2.3.17
1.3.17
26.2.17
num domingo ventoso e frio do terrível mês de janeiro, os três anjos, aborrecidos, fartos de atirar pedrinhas no charco, desafiaram-se entre si a saltar o muro do paraíso. dados como desaparecidos, passadas as quarenta e oito horas da praxe, nunca mais ninguém os viu, tão-pouco há relatos de que alguma vez tentassem regressar. no céu, os companheiros invejaram-lhes a audácia, mas, amolecidos pelos copinhos de leite quente e as bastas fatias de pão com mel, deixaram-se ficar.
os três anjos foram avistados hoje, um quase dia de primavera, por esta que aqui vos tecla. andavam todos, cada um à sua moda, disfarçados de diabo.
votos de um entrudo feliz.
os três anjos foram avistados hoje, um quase dia de primavera, por esta que aqui vos tecla. andavam todos, cada um à sua moda, disfarçados de diabo.
votos de um entrudo feliz.
percebo, com o passar do tempo em mim, que, àqueles que nunca conseguiram caminhar simplesmente a direito, não faz sentido procurar o sentido da vida. a estrada larga, que os mais velhos nos aconselharam a procurar, é a estrada da manada, onde a natureza mantém os fluxos migratórios intactos e a vida corre simples, na segurança dos costumes e da tradição. para nós os outros, párias, inadaptados, diferentes porque não nascemos com cascos de alcatrão, sobram os trilhos pelo meio do mato, entre pedras e giestas, onde a liberdade da escolha, tantas vezes somente definida pelo cheiro da urze ou pelo assobio do vento, traz vinculada a possibilidade constante de queda iminente.
tenho consciência de que nunca chegarei ao bem-aventurado pasto celestial, onde repousam os que acreditam, felizes, na plenitude de um destino alcançado.
tenho consciência de que nunca chegarei ao bem-aventurado pasto celestial, onde repousam os que acreditam, felizes, na plenitude de um destino alcançado.
25.2.17
22.2.17
19.2.17
18.2.17
ela bate palmas, entusiasmada, dizendo-me que adora trabalhar com o Excel e eu penso na garça-boieira que esta manhã, sozinha, pousou perto do laranjal. quando se despede, sumariando as tarefas concluídas, numa alegria sincera, ainda eu caminho por entre os pessegueiros em flor, bebendo o verde da erva macia, taeko e yukiko perto, as três subindo a ladeira.
15.2.17
recordo o desconforto, as bocas demasiado próximas, a respiração quente no meu rosto, enquanto, com a máquina, me penetrava a íris da alma. a consulta mais invasiva de que me lembro, não foi com o homem que me tocou no interior do sexo, tão-pouco com o que me escancarou a boca procurando um siso, ou com o que me observou o ânus com larga atenção. estranhamente, ou talvez não, a pior, foi uma simples consulta de oftalmologia.
as janelas do sexto andar não abrem. quem vier para se suicidar, é favor fazê-lo de outra forma: a saber, repete-se, que nunca é demais lembrar, a forma escolhida não pode interferir com o fluxo diário habitual daqueles que nos rodeiam. se deseja matar-se, faça-o no sossego da sua casa, em hora mais solitária. as janelas do sexto andar não abrem, repete-se, as janelas do sexto andar não abrem. a fila agita-se, desfaz-se e o caos instala-se no acesso à porta de serviço. alguém se lembrou do poço das escadas. os gritos, entrecortados pelos embates secos, não demoraram a chegar. a consagração da libertação.
o homem da camisa azul baixou os braços, escondendo as manchas de suor e voltou à mesa de trabalho.
14.2.17
a costureira triste já não costura, foi sol de pouca dura, mas tem por lá coisas bonitas e outras assim-assim.
/e fico muito feliz quando dou conta que ainda por lá passa alguém/
12.2.17
Emílio tem de morrer. Cassandra deixa cair a cavaca das mãos e repete baixo o pensamento: Emílio tem de morrer e tem de ser antes de santa rosa de viterbo. Apanha a cavaca do chão e encaixa-a na cova do braço, onde irá levar uma braçada inteira. No fim, agarra algumas pinhas da saca velha de sarapilheira e enfia-as nos bolsos largos do casaco. Emílio tem de morrer, mas por agora Cassandra precisa de acender o lume e fazer o jantar. Tranca a porta do cabanal, enquanto enxota o gato, e encaminha-se para casa.
os campos estão alagados, não precisava de ter calçado as botas de borracha, manhã cedo, e percorrido o pântano verde, para constatar o que tão facilmente se vê da janela. o laranjal, pérola constante do meu horizonte onírico, parece suspenso num lago de lama. no cume do vale, o nevoeiro compõe a manhã de domingo.
este é o meu dia santo, negociado há várias semanas com o mercador do destino. hoje todas as horas serão minhas e delas farei o ócio mais prazeroso que conseguir. tomado o pequeno-almoço, um luxo comprado na loja de conveniência, onde normalmente só me lembro dos gatos, há-de seguir-se o mergulho no tanque, várias horas de contemplação da chuva e a nobre arte da ornitologia.
havia os que escolhiam esmagar os dedos, inutilizando-os em bolas de carne escura. gozavam a dor em urros lancinantes. eu sempre preferi cortar a carne em finos golpes de lâmina afiada, numa dosagem silenciosa. não lhe chamaria arte, mas havia um jeito próprio, um traçado meticuloso na forma de talhar o golpe.
com o tempo, os drogados começaram a invejar-me a intimidade com as agulhas e os pirómanos tremiam, excitados, vendo as labaredas lamber-me as palmas das mãos.
conduzia em círculos apertados até vomitar o álcool da manhã. julguei que morria, olhando-me cadáver ao espelho.
nunca fui tão forte, como naqueles dias.
com o tempo, os drogados começaram a invejar-me a intimidade com as agulhas e os pirómanos tremiam, excitados, vendo as labaredas lamber-me as palmas das mãos.
conduzia em círculos apertados até vomitar o álcool da manhã. julguei que morria, olhando-me cadáver ao espelho.
nunca fui tão forte, como naqueles dias.
11.2.17
10.2.17
5.2.17
4.2.17
3.2.17
para a Rita bonita.
/Sylvia Plath - A Campânula de Vidro - Assírio&Alvim/
«Nova Iorque estava horrível nessa altura. Às nove da manhã, a frescura aparente que de algum modo invadia a cidade durante a noite, desvanecia-se como o fim de um sonho agradável. As ruas serpenteavam ao sol como miragens cinzentas no fundo dos desfiladeiros graníticos, os tejadilhos dos automóveis brilhavam e estalavam, e o pó seco como cinza invadia-me os olhos e a garganta.
A toda a hora ouvia falar dos Rosenberg. Era na rádio, era no escritório. Cheguei a um ponto em que já não os conseguia tirar do pensamento. Tal como a primeira vez que vi um cadáver. Durante semanas consecutivas, ao pequeno-almoço, a cabeça do cadáver, ou o que dela restava, flutuava por cima dos meus ovos com bacon, e também por trás da cara de Buddy Willard que fora, aliás, responsável por eu o ter visto. Em breve me senti como se arrastasse comigo a cabeça do cadáver presa por um cordel como um balão negro e sem nariz, lançando um cheiro nauseabundo a vinagre.»/Sylvia Plath - A Campânula de Vidro - Assírio&Alvim/
querem mais fotografia, daquela que tem poesia dentro?
à esquina da tecla
- e a luisa também escreve bonito -
à esquina da tecla
- e a luisa também escreve bonito -
2.2.17
tenho a Sylvia, numa das suas capas escuras, edição esgotada, pedindo para ser lida, mas estou demasiado cansada e temo quebrar o vidro da campânula, quando, daqui a pouco, regressar a casa.
«Foi um Verão estranho e sufocante, aquele em que electrocutaram os Rosenberg. Estava então em Nova Iorque sem saber ao certo porquê. As execuções incomodam-me. A ideia de se ser electrocutado dá-me volta ao estômago, e os jornais não falavam de outra coisa: cabeçalhos atrás de cabeçalhos olhando-me esbugalhados em todas as esquinas e entradas de metro tresandando a amendoim. Embora nada daquilo tivesse a ver comigo, não conseguia deixar de imaginar como seria ser queimado vivo até à mais ínfima parcela do nosso corpo.
Deve ser a pior coisa do mundo.»
e não passei daqui.
1.2.17
[sim, por agora e até ver, /ou colapso total da autora/, este blog sobreviverá de más fotografias, uma ou outra vez, acompanhadas por versos de poetas que estão para a poesia como, nos anos oitenta do século passado, o Vasco Granja esteve para os desenhos animados...]
30.1.17
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