23.4.17

era um homenzinho horrendo, atarraxado dentro das camisas suadas, que se lhe abriam na curva balofa do umbigo. tinha um pequeno minimercado, perto da zona dos comboios, onde a mulher, mirrada dentro da bata, passava os dias presa à caixa registadora, e alugava quartos a raparigas na parte velha da cidade. o apartamento, um quinto esquerdo, cinzento sujo do tempo e da falta de quem o esfregasse, era o seu harém. armado do molho de cópias de cada chave, depois de estudados os horários, deleitava-se a entrar em cada quarto, procurando segredos e roupa interior, que acariciava com a fome de vários anos sem tocar numa mulher. quando tinha a sorte de encontrar algumas cuecas usadas, cheirava-as o mais que podia, em delírio, e lambia-lhes o sumo ressequido, enquanto se masturbava com cuidado para um lenço de papel, que trazia sempre no bolso. 
nunca trocava a botija do gás, que levava do minimercado, antes de terceira reclamação. costumava dar grandes sermões sobre os desperdícios e gostava de lembrar às raparigas que a casa devia estar asseada. a ironia sempre foi puta fina, já que o sr. Silva preferia esfregar o caralhito de merda, como mais tarde se lhe referiu uma das raparigas, nas cuecas mais sujas que encontrava.
com uma aspereza de que não gostei, perguntou-me como conseguia eu ser tão fria, não ter gosto pelas coisas, não me interessar por nada. quis explicar-lhe que não comungo do materialismo, mas a voz ficou-me presa nos subterrâneos da alma.
Under the water we can't breathe, we can't breathe
Under the water we die
Under the water there is no one watching
Under the water we are alone

Then why do we jump in?
Why do we jump in?




«Espera, deixa-me ver-te devagar. Dás uns passos, bates uma palmada no chão e sobes alto e lá no ar dás uma volta sobre ti, mas antes de caíres de pé, imóvel, fico a ver-te parada no ar. Corpo elástico, esguio, fico a ver-te. Flutuas imponderável, a Terra não tem razão sobre ti. Vejo-te no espaço, todo o corpo elástico numa curva dos pés até ao extremo das mãos, ou talvez não, recomeça o salto para ver melhor. Talvez o corpo não em prancha ao alto mas enrolado sobre si e giras no ar em rodízio até te desenrolares e caíres depois em pé firme. Queria dizer-te como isso me maravilhou, o teu corpo poderoso, desprendido das coisas, liberto da sua condição bruta, feito de um esplendor imaterial. Terei dito bem? Imaterial. Quanta coisa havia nele, os teus ossos, as tuas vísceras, mas tudo existia leve e eu só lhe via a sua forma perfeita de voo. Há uma órbita da exactidão como se diz dos astros e tu seguia-la, um rigor matemático com que o universo existe.»

/em nome da terra/
Ellen Auerbach, Robert Mann Gallery

22.4.17

deixei o espaço onde homens - e escassas mulheres - mediam o tamanho do ego pelo valor do símbolo e rumei à livraria*. no terreiro, dois miúdos faziam corridas velozes nas suas bicicletas com rodinhas, rindo à gargalhada. 


/*saudades, tantas, dos meus alfarrabistas e do silêncio da procura. nas livrarias, mulheres iguais, urbanas, cultas**, irritantes, falam alto, sem pudor, dos livros dos escaparates e de alguns dos seus autores***, com uma arrogância-ignorância que me dá vontade de as mandar calar. não saberão que ali, no meio dos livros, estamos em permanente oração?/


/**aquele tipo de mulher que faz do vestuário aborrecido, sapatos ortopédicos, cabelos nunca pintados ou arranjados  - nem olhos, lábios ou unhas -, o seu manifesto à primazia intelectual***./



/***diz uma delas: Ando há tanto tempo para ler este escritor, mas depois compro sempre outros livros, não sei porquê. Já leram? Tem aqui tantos livros. --- este escritor era Saramago...  --- não são mais cultas, alguém que lho diga com jeito, são apenas mais sem graça./


a senhora da bata às riscas diz-me que a banheira, meu pouso divino, lhe faz lembrar um caixão. deus a livre de tomar banho deitada! sorrio-lhe e asseguro-lhe que aquilo é do melhor que há. vira costas, de vassoura na mão, dizendo que nem pensar.
o formato será o de um caixão, não nego a evidência, mas aquele retângulo branco sempre se me assemelhou à barriga de uma boa mãe; outras vezes, o submarino onde navego. faltando-me no tecto a saudosa Milu, opto agora por me concentrar nos veios do mármore em frente, procurando novas geografias cartografadas, mundos onde as vontades possuam existência.
ouço o aspirador e lembro-me de que tenho de ir. também para mim hoje é dia de jorna.

17.4.17

«Os meus pés já não se deslocavam. A caverna já não era uma estrada sem fim a abrir-se na minha frente. Era um berço de madeira, forrado de peles, a baloiçar. Quando deixei de dar passadas firmes, de contar os passos, quando deixei de apalpar os muros à minha volta com dedos torcidos como raízes, de procurar alimento, o passeio labiríntico alargou-se, o silêncio tornou-se aéreo, as peles desintegraram-se, e entrei numa cidade branca.» 


Anais Nin, Debaixo de uma Redoma

16.4.17

«Caminhava presa com um alfinete a uma teia de aranha de fantasias fiadas durante a noite, obstinadamente seguidas durante o dia. Essa teia de aranha foi rompida por uma buzina do nevoeiro e pelo carrilhão das horas. Dei comigo a atravessar pontes levadiças, fossos, pranchas, se bem que ainda presa ao cabo pesado de um navio pronto a largar. Estava suspensa entre a terra e o mar, entre a terra e os planetas. A atravessá-los à pressa, angustiada por causa da sombra que ficava atrás, a marca dos passos, o eco. Todas as cordas facilmente desatadas, mas uma a prender-me àquilo que amava.

Mergulhei num labirinto de silêncio. Os meus pés cobertos de peles, a minha mão coberta de ouro, as minhas pernas embrulhadas em algodão plissado, atadas com chicotes de seda. Pele de rena no meu peito. Sem voz. Sabia que, tal como a rena, se nesse momento me enterrassem a faca, nem sequer suspirava.

Fragmentos dos sonhos explodiam aquando da minha passagem, através dos fossos, caíam como pedaços de planetas mortos, sem romperem as peles e o algodão desse silêncio. Os muros de carne e de pele respiravam e gotas de sangue branco tombavam com o som das pulsações.

Não queria avançar no silêncio, sentindo que podia perder para sempre a voz.»


Anais Nin, Debaixo de uma Redoma

14.4.17

se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria