são difíceis as manhãs de domingo, vazias de gestos na cama. os fardos, deixados ao acaso pelo restolho, lembram-me um rebanho de ovelhas amarelas, imóveis na candura do fim de maio. nada me interessa verdadeiramente, vou matando o tempo ao acaso, até que tu chegues e me venhas dar a mão.
28.5.17
26.5.17
o vento enrola-se nas ervas altas que ainda não foram cortadas e galopa o vale inteiro, exibindo-se. sinto o frio acariciar-me a pele suada e recolho-me ao quarto para me cobrir. respiro o silêncio da cama vazia, a brancura espessa das paredes, o metal rente ao chão. seria perfeito, se esta noite chovesse.
25.5.17
enquanto espero que o tanque do submarino se encha a três quartos, partilho consigo (está aí alguém, certo?) um blog da minha colecção de favoritos: EXTRAMUROS - A CHINA ALÉM DA CHINA
ainda sem um café que me valha, o telemóvel começa a tremelicar notificações -- dez tarefas em atraso! dez?! mas as cabras reproduzem-se de noite, esfregam-se umas nas outras? e o resto? como equilibrar os atrasos com o resto? adianto as atrasadas e atraso as demais? e o que tenho andando a esconder debaixo do tapete, enganando a assistente virtual? finjo que não está lá? porra, porra, porra!
/momento de pausa para respirar fundo, que ainda nem a remela lavei dos olhos/
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'da-se!
23.5.17
Sei que chorou mas não a ouvi chorar. Ninguém a ouviu, ninguém deu por ela. Passou como uma sombra. Habituou-se. As lágrimas sumiu-as, meteu-as para dentro. A dor aprendeu a contê-la. Habituou-se a queixar-se à grande nódoa de humidade da parede. Entre mim e ela interpôs-se o sonho.
/Húmus, Raul Brandão/
22.5.17
21.5.17
perder todo o tempo de que disponho.
penso praia, é suficiente para que o mar se esboce. penso cinza e surge um rosto de lume. penso vento e o sangue lateja. penso coração e voo com os pássaros. penso em ti e a noite é uma treva onde não me encontro. penso que não estou aqui e tenho-te até à exaustão dos sentidos.
/al berto, o medo/
da varanda chegam-me os pios das aves nocturnas.
20.5.17
do meu irmão morto, nunca mais tive notícias. não voltei ao subterrâneo das almas penadas, onde as mais tristes, deambulantes em claustros aquosos, me convenciam de que ele tinha desaparecido para sempre. eu enterrava os pés na lama fria, a palha cheia de merda, aqui e além, a fingir-se melhor caminho, e continuava a gritar pelo seu nome, enquanto elas corriam assustadas, tropeçando umas nas outras. por fim, fui expulsa do purgatório e devolvida à elipse terrena. perdi-o para sempre, quando ensurdeci.
as asas das borboletas, o irmão e as
andorinhas
e é a minha vez de falar”
18.5.17
os astros todos alinhados, como dizem os entendidos da vida, eu ali, um quarteirão inteiro de tempo pela frente e um arrepio que julguei ser febre, do sol na cabeça. os deuses, possivelmente ofendidos com a minha falta de oferendas, arrastando os pés nus pela casa vazia, cuspiram-me na cara a vulnerabilidade de que sou feita. estava tudo ali, mas nada aconteceu.
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