de volta a Lisboa, ignoro a rota passada e procuro a estrada azul. do que aumenta em quilómetros, dará conta o acelerador. no momento em que lhe escrevo, amigo leitor, já a manhã me parece um dia qualquer de um passado longínquo. poderia entretanto falar-lhe da apresentadora da tvi ou do jornalista da rtp, vistos em locais tão distintos e feições a condizer, dos preparos para a feira do livro, evento a que me recuso há mais de uma década, nem sei explicar bem o porquê, ou do telefone que me massacra com o mesmo número, gritando-me por uma resposta. mas não o aborrecerei com futilidades barrocas. o que importa salientar, estimado leitor, é a belíssima posta de atum, mal passado, em cama de legumes, e o verde da casa, que agora me pedem a sesta.
se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria
31.5.17
escolheu a tua casa para morrer, agoira a velha em voz baixa, toda vestida de preto, enquanto embrulho a coruja das torres numa toalha branca. de madrugada, a ave, um exemplar adulto magnífico, de penugem suave, embateu violentamente numa das portas de vidro do quarto. estava condenada, penso -- quero acreditar. taeko ter-lhe-á dado, talvez, o golpe final, mas não vejo sangue. abro mais os olhos, o pequeno diabo aloja-se nas pálpebras, aproveitando a cadência lenta da estrada secundária, que parece nunca mais ter fim. coruja, agora eu, se embater, quem me recolherá o corpo à mortalha?
30.5.17
28.5.17
26.5.17
o vento enrola-se nas ervas altas que ainda não foram cortadas e galopa o vale inteiro, exibindo-se. sinto o frio acariciar-me a pele suada e recolho-me ao quarto para me cobrir. respiro o silêncio da cama vazia, a brancura espessa das paredes, o metal rente ao chão. seria perfeito, se esta noite chovesse.
25.5.17
enquanto espero que o tanque do submarino se encha a três quartos, partilho consigo (está aí alguém, certo?) um blog da minha colecção de favoritos: EXTRAMUROS - A CHINA ALÉM DA CHINA
ainda sem um café que me valha, o telemóvel começa a tremelicar notificações -- dez tarefas em atraso! dez?! mas as cabras reproduzem-se de noite, esfregam-se umas nas outras? e o resto? como equilibrar os atrasos com o resto? adianto as atrasadas e atraso as demais? e o que tenho andando a esconder debaixo do tapete, enganando a assistente virtual? finjo que não está lá? porra, porra, porra!
/momento de pausa para respirar fundo, que ainda nem a remela lavei dos olhos/
23.5.17
Sei que chorou mas não a ouvi chorar. Ninguém a ouviu, ninguém deu por ela. Passou como uma sombra. Habituou-se. As lágrimas sumiu-as, meteu-as para dentro. A dor aprendeu a contê-la. Habituou-se a queixar-se à grande nódoa de humidade da parede. Entre mim e ela interpôs-se o sonho.
/Húmus, Raul Brandão/
22.5.17
21.5.17
perder todo o tempo de que disponho.
penso praia, é suficiente para que o mar se esboce. penso cinza e surge um rosto de lume. penso vento e o sangue lateja. penso coração e voo com os pássaros. penso em ti e a noite é uma treva onde não me encontro. penso que não estou aqui e tenho-te até à exaustão dos sentidos.
/al berto, o medo/
da varanda chegam-me os pios das aves nocturnas.
20.5.17
do meu irmão morto, nunca mais tive notícias. não voltei ao subterrâneo das almas penadas, onde as mais tristes, deambulantes em claustros aquosos, me convenciam de que ele tinha desaparecido para sempre. eu enterrava os pés na lama fria, a palha cheia de merda, aqui e além, a fingir-se melhor caminho, e continuava a gritar pelo seu nome, enquanto elas corriam assustadas, tropeçando umas nas outras. por fim, fui expulsa do purgatório e devolvida à elipse terrena. perdi-o para sempre, quando ensurdeci.
as asas das borboletas, o irmão e as
andorinhas
e é a minha vez de falar”
18.5.17
os astros todos alinhados, como dizem os entendidos da vida, eu ali, um quarteirão inteiro de tempo pela frente e um arrepio que julguei ser febre, do sol na cabeça. os deuses, possivelmente ofendidos com a minha falta de oferendas, arrastando os pés nus pela casa vazia, cuspiram-me na cara a vulnerabilidade de que sou feita. estava tudo ali, mas nada aconteceu.
17.5.17
14.5.17
...
na velhice é que se sabe o nome daquilo
aquilo nervoso que toda jovem meio que quase sabe e quer saber inteiro
aquilo que todo mundo quer saber o nome nervoso
nervoso invisível indiscutível molhado e como que de veludo acelerado
Carla Diacov
(in enfermaria 6)
na velhice é que se sabe o nome daquilo
aquilo nervoso que toda jovem meio que quase sabe e quer saber inteiro
aquilo que todo mundo quer saber o nome nervoso
nervoso invisível indiscutível molhado e como que de veludo acelerado
Carla Diacov
(in enfermaria 6)
13.5.17
parece-me entorpecida, esta blogosfera, arrastando os chinelos para o esquecimento -- morte de qualquer rede social. a blogosfera foi a sala de convívio dos que nasceram no século passado, ansiosos por falar, analisar, discutir, escrever. agora as conversas são outras, visuais e de poucas palavras. há bonecada que transmite mensagens como sinais de fumo, vidas inteiras contadas em álbuns, textos escassos. já ninguém lê.
a lapiseira morreu, viva a lapiseira.
já o poeta o tinha dito,
só morremos de nós mesmos.
Boris, o provocador, espera-me na cama. Boris não sabe ainda, mas não me deitarei com ele esta noite, não depois de ouvir de Zimmer. também não deitarei com Canetti, que me espera, amarelo, mesmo ao lado de Boris, tão-pouco me deitarei com a time out ou a courrier internacional. nem a Neruda, nem a Borges, nem a Ungaretti permitirei o meu leito.
esta noite, pela mão de Zimmer, deitar-me-ei, menina outra vez, com os meus demónios.
12.5.17
4.5.17
30.4.17
dando seguimento à corrente artística iniciada por Palmy Rego e Mirocassa.
chama-se a esta nova corrente, o imperfeccionismo...
estamos as três junto da janela grande do escritório. taeko marfando no pote - gulosa como só ela -, yukiko de vigia, perscrutando o verde do vale, em busca de algum movimento, e eu, confesso que surpreendida pela sintonia da chuva obliqua que teima, com a minha disposição. talvez o café me limpe o amargo da boca. engolir a verdade, quando não estamos sequer dispostos a ouvi-la, é coisa para nos roubar muito mais do que o sol de domingo. felizmente, o gato mia, berra-me que lhe acuda com comida. tudo o resto pode esperar.
29.4.17
A solidão é uma doença de pele
[...]
Tornamo-nos impermeáveis na solidão:
dentro da pele não viaja ninguém;
fora da pele ninguém nos vê passar.
Jesús Jiménez Domínguez
daqui
[...]
Tornamo-nos impermeáveis na solidão:
dentro da pele não viaja ninguém;
fora da pele ninguém nos vê passar.
Jesús Jiménez Domínguez
daqui
É amargo o coração do poema.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalha, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.
A mão esquerda em cima desencadeia uma estrela,
em baixo a outra mão
mexe num charco branco. Feridas que abrem,
reabrem, cose-as a noite, recose-as
com linha incandescente. Amargo. O sangue nunca pára
de mão a mão salgada, entre os olhos,
nos alvéolos da boca.
O sangue que se move nas vozes magnificando
o escuro atrás das coisas,
os halos nas imagens de limalha, os espaços ásperos
que escreves
entre os meteoros. Cose-te: brilhas
nas cicatrizes. Só essa mão que mexes
ao alto e a outra mão que brancamente
trabalha
nas superfícies centrífugas. Amargo, amargo. Em sangue e exercício
de elegância bárbara. Até que sentado ao meio
negro da obra morras
de luz compacta.
Numa radiação de hélio rebentes pela sombria
violência
dos núcleos loucos da alma.
/in Ofício Cantante/
28.4.17
27.4.17
25.4.17
desconheço as regras de etiqueta, no que a orquídeas diz respeito, mas acredito que os puristas da coisa não irão gostar da minha Violeta actual. pensem nela como uma flor que engordou, uma flor de verdade.
para ti, Palmier Maria, patrôínha do meu coração.
![]() |
| (de costas :) |
24.4.17
23.4.17
era um homenzinho horrendo, atarraxado dentro das camisas suadas, que se lhe abriam na curva balofa do umbigo. tinha um pequeno minimercado, perto da zona dos comboios, onde a mulher, mirrada dentro da bata, passava os dias presa à caixa registadora, e alugava quartos a raparigas na parte velha da cidade. o apartamento, um quinto esquerdo, cinzento sujo do tempo e da falta de quem o esfregasse, era o seu harém. armado do molho de cópias de cada chave, depois de estudados os horários, deleitava-se a entrar em cada quarto, procurando segredos e roupa interior, que acariciava com a fome de vários anos sem tocar numa mulher. quando tinha a sorte de encontrar algumas cuecas usadas, cheirava-as o mais que podia, em delírio, e lambia-lhes o sumo ressequido, enquanto se masturbava com cuidado para um lenço de papel, que trazia sempre no bolso.
nunca trocava a botija do gás, que levava do minimercado, antes de terceira reclamação. costumava dar grandes sermões sobre os desperdícios e gostava de lembrar às raparigas que a casa devia estar asseada. a ironia sempre foi puta fina, já que o sr. Silva preferia esfregar o caralhito de merda, como mais tarde se lhe referiu uma das raparigas, nas cuecas mais sujas que encontrava.
«Espera, deixa-me ver-te devagar. Dás uns passos, bates uma palmada no chão e sobes alto e lá no ar dás uma volta sobre ti, mas antes de caíres de pé, imóvel, fico a ver-te parada no ar. Corpo elástico, esguio, fico a ver-te. Flutuas imponderável, a Terra não tem razão sobre ti. Vejo-te no espaço, todo o corpo elástico numa curva dos pés até ao extremo das mãos, ou talvez não, recomeça o salto para ver melhor. Talvez o corpo não em prancha ao alto mas enrolado sobre si e giras no ar em rodízio até te desenrolares e caíres depois em pé firme. Queria dizer-te como isso me maravilhou, o teu corpo poderoso, desprendido das coisas, liberto da sua condição bruta, feito de um esplendor imaterial. Terei dito bem? Imaterial. Quanta coisa havia nele, os teus ossos, as tuas vísceras, mas tudo existia leve e eu só lhe via a sua forma perfeita de voo. Há uma órbita da exactidão como se diz dos astros e tu seguia-la, um rigor matemático com que o universo existe.»
/em nome da terra/
22.4.17
deixei o espaço onde homens - e escassas mulheres - mediam o tamanho do ego pelo valor do símbolo e rumei à livraria*. no terreiro, dois miúdos faziam corridas velozes nas suas bicicletas com rodinhas, rindo à gargalhada.
/*saudades, tantas, dos meus alfarrabistas e do silêncio da procura. nas livrarias, mulheres iguais, urbanas, cultas**, irritantes, falam alto, sem pudor, dos livros dos escaparates e de alguns dos seus autores***, com uma arrogância-ignorância que me dá vontade de as mandar calar. não saberão que ali, no meio dos livros, estamos em permanente oração?/
/**aquele tipo de mulher que faz do vestuário aborrecido, sapatos ortopédicos, cabelos nunca pintados ou arranjados - nem olhos, lábios ou unhas -, o seu manifesto à primazia intelectual***./
/***diz uma delas: Ando há tanto tempo para ler este escritor, mas depois compro sempre outros livros, não sei porquê. Já leram? Tem aqui tantos livros. --- este escritor era Saramago... --- não são mais cultas, alguém que lho diga com jeito, são apenas mais sem graça./
a senhora da bata às riscas diz-me que a banheira, meu pouso divino, lhe faz lembrar um caixão. deus a livre de tomar banho deitada! sorrio-lhe e asseguro-lhe que aquilo é do melhor que há. vira costas, de vassoura na mão, dizendo que nem pensar.
o formato será o de um caixão, não nego a evidência, mas aquele retângulo branco sempre se me assemelhou à barriga de uma boa mãe; outras vezes, o submarino onde navego. faltando-me no tecto a saudosa Milu, opto agora por me concentrar nos veios do mármore em frente, procurando novas geografias cartografadas, mundos onde as vontades possuam existência.
ouço o aspirador e lembro-me de que tenho de ir. também para mim hoje é dia de jorna.
17.4.17
«Os meus pés já não se deslocavam. A caverna já não era uma estrada sem fim a abrir-se na minha frente. Era um berço de madeira, forrado de peles, a baloiçar. Quando deixei de dar passadas firmes, de contar os passos, quando deixei de apalpar os muros à minha volta com dedos torcidos como raízes, de procurar alimento, o passeio labiríntico alargou-se, o silêncio tornou-se aéreo, as peles desintegraram-se, e entrei numa cidade branca.»
Anais Nin, Debaixo de uma Redoma
16.4.17
«Caminhava presa com um alfinete a uma teia de aranha de fantasias fiadas durante a noite, obstinadamente seguidas durante o dia. Essa teia de aranha foi rompida por uma buzina do nevoeiro e pelo carrilhão das horas. Dei comigo a atravessar pontes levadiças, fossos, pranchas, se bem que ainda presa ao cabo pesado de um navio pronto a largar. Estava suspensa entre a terra e o mar, entre a terra e os planetas. A atravessá-los à pressa, angustiada por causa da sombra que ficava atrás, a marca dos passos, o eco. Todas as cordas facilmente desatadas, mas uma a prender-me àquilo que amava.
Mergulhei num labirinto de silêncio. Os meus pés cobertos de peles, a minha mão coberta de ouro, as minhas pernas embrulhadas em algodão plissado, atadas com chicotes de seda. Pele de rena no meu peito. Sem voz. Sabia que, tal como a rena, se nesse momento me enterrassem a faca, nem sequer suspirava.
Fragmentos dos sonhos explodiam aquando da minha passagem, através dos fossos, caíam como pedaços de planetas mortos, sem romperem as peles e o algodão desse silêncio. Os muros de carne e de pele respiravam e gotas de sangue branco tombavam com o som das pulsações.
Não queria avançar no silêncio, sentindo que podia perder para sempre a voz.»
Anais Nin, Debaixo de uma Redoma
14.4.17
13.4.17
é nela que penso, quando me sento na esplanada frente aos baixios com cheiro a mar e peço uma meia de leite e uma sandes de queijo e manteiga, ouvindo homens que falam de lebres e no tipo de cartuxos, namorados que partilham telemóveis e copos de água, mulheres gordas em licras justas fumando marlboros, gente que fala alto demais. na bebida.
quando me viu, envergonhou-se. ofereceu-me um sorriso de pirata cansado. na mão direita, o copo largo, dourado; na outra, a garrafa. pouco passava das dez, trazia nos olhos a noite longa de uma semana cheia de gente na rua. tivesse tido a coragem de trocar a oferta do café pela bebida e eu tê-la-ia aceitado.
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