17.6.17

não consegui pedir mais do que um sumo de melancia e uma daquelas taças misturadas de gelatina, fruta e iogurte natural. vais ter fome só com isso, grunhia a vozinha dentro da cabeça, sentido o cheiro da carne grelhada. impossível!, respondi-lhe com firmeza, sabendo da falta de força para mastigar. e por ali fiquei, sentada numa sala fresca do centro da cidade, à espera que o rapaz simpático me lavasse o automóvel e a livraria se movesse milagrosamente até mim.
eu, que sou basicamente uma porcelana*, sentia os raios em brasa a queimarem-me a carne e só pensava, catano, vou parecer um camionista! o senhor pereira, refugiado debaixo do ar condicionado da sala, gritava, veja se a piscina lhe agrada, menina, é à direita! e eu, por deus, homem, não me obrigue a esta aflição -- já lá vou, sr. pereira, já lá vou, arrastando-me pelo empedrado a arder, enquanto um diabinho invisível me atazanava o cérebro em papa, com que então tinhas inveja do jardineiro?...


/* argila, quartzo, caulim e feldspato, uma beleza/

16.6.17

percebi o engano, não sou vítima, mas o meu próprio carrasco. se levei tanto tempo a saber algo tão óbvio de mim, quão ingénua seria se acreditasse que conheço a profundidade de alguém.
quanto do que encontramos nos outros será fruto da nossa construção?
o homem veio na hora de maior calor, tentei demovê-lo, que o trabalho não fugia, que podíamos remarcar, mas ele insistiu, que eu já tinha alterado a vida, que ele noutra altura não podia, e assim foi, a tarde inteira a máquina roçou o mato. eu, impossibilitada de fugir à vida, invejei a língua de fogo que lambia o corpo do homem, a secura da boca, as tonturas azuis.

13.6.17

já mais tarde, juntos na cama, deitados os dois, olhámo-nos com calma. tactei-lhe a capa rija em busca de algum relevo e toquei-lhe nas primeiras páginas devagar. suspeitava da nota inútil, mas não esperava que herberto ficasse connosco tantas linhas. foi com ele que dormi nessa noite.
o Forte veio comigo, foi tudo por acaso, nenhum de nós esperava cruzar-se com o outro naquele dia. eu entrei para comprar uma revista, cheia de pressa, que alguém me tinha pedido. ele, em ângulo indefinido - acalmem-se os matemáticos, que na escrita tudo se pode -, escondido da multidão pelas agendas de lisboa, em laranja néon, com uma faca nos dentes. António!, juro que exclamei, abraçando-o com as duas mãos.


Ao nível do mar

como o nome da flor do vinho


murmurado entre relógios de carvão


escrito devagar na cal do silêncio


como o lençol de púrpura


no peito dos amantes


de costas para a morte

ao nível do mar


como um cardume de palavras cintilantes


no horizonte de cinza e de pavor


como um cavalo branco toda a noite


de estrela para estrela


ao nível do mar


como a flor que se abre na boca dos suicidas


um homem


ferido de morte


vai falar


devagar, muito devagar, tão devagar que terminei o sumo de laranja, ainda com eles no meu campo de visão. as mãos encaixavam, como duas bocas que se conhecem de outras vidas. pela mão, ela seguia o homem da sua vida. ele atrasava o passo, para esperar pelo dela. e assim seguiam juntos pelo corredor. que coisa bonita, lembro-me de ter pensado, enquanto a rapariga da caixa gritava: TOSTA MISTA!
olho as mulheres, nas suas leggings pretas a bambolear as carnes, os chinelos de meter nos dedos, as unhas em formato de garras e fico descansada por não sentir mais do que um leve repúdio. não me atrai a insolência de quem se julga superior, porque lê meia dúzia de livros.

11.6.17


em flor (2 de 3)
findo o tríptico,



Rachmaninoff plays Mozart K. 331 Rondo alla Turca