20.6.17

o anoitecer na varanda, duas cadelas arfando o calor, um gin de refeição, um gato que mia, outros três esperando que o gato que mia me toque ao sentimento e lhes toque a eles uma latinha, uma cama desfeita onde me aninho sozinha, um noitibó perto, o coaxar das rãs, o telemóvel que toca e nada de novo. o enxotar das pequenas traças que buscam a luz do monitor. talvez seja esta monotonia que me agrada, esta paz fictícia que me mantém.
fique, disse-me ele, quando entrei no consultório fora de horas, ambos sabendo que não.
há demasiada raiva dentro de mim, que nasci e cresci pertos dos pinheiros e das gentes do campo. acumula-se todos os anos mais um pouco deste fel. hoje, se não fosse pela réstia de bom-senso que a experiência de vida me trouxe, mandava aqueles imbecis, corruptos e incompetentes - que não agem, reagem: tarde demais - todos prá puta que os pariu. não mandando, porque de nada me vale, senão acender um rastilho nesta selva virtual, onde as pessoas de bem - especialmente aquelas que se acham com piada ou verve no teclado- vêm dar lições do politicamente correcto e agradável, resta-me, a mim e a vós, continuar a assistir de bancada à destruição e à morte  daquilo e daqueles que neste país sempre tiverem o menor valor, |os d|o interior rural.

18.6.17

ajuda, precisa-se!

Carlos Pedrosa


saiam de casa e ajudem. há voluntários perto dos hipermercados pedindo água, leite, fruta e bolachas para os bombeiros /e vítimas/ que combatem as chamas em Pedrógão. ajudem.


CONTA SOLIDÁRIA CAIXA

IBAN: PT50 0035 0001 00100000 330 42

17.6.17



Maud Le Fort by Alex Bramall 

não consegui pedir mais do que um sumo de melancia e uma daquelas taças misturadas de gelatina, fruta e iogurte natural. vais ter fome só com isso, grunhia a vozinha dentro da cabeça, sentido o cheiro da carne grelhada. impossível!, respondi-lhe com firmeza, sabendo da falta de força para mastigar. e por ali fiquei, sentada numa sala fresca do centro da cidade, à espera que o rapaz simpático me lavasse o automóvel e a livraria se movesse milagrosamente até mim.
eu, que sou basicamente uma porcelana*, sentia os raios em brasa a queimarem-me a carne e só pensava, catano, vou parecer um camionista! o senhor pereira, refugiado debaixo do ar condicionado da sala, gritava, veja se a piscina lhe agrada, menina, é à direita! e eu, por deus, homem, não me obrigue a esta aflição -- já lá vou, sr. pereira, já lá vou, arrastando-me pelo empedrado a arder, enquanto um diabinho invisível me atazanava o cérebro em papa, com que então tinhas inveja do jardineiro?...


/* argila, quartzo, caulim e feldspato, uma beleza/

16.6.17

percebi o engano, não sou vítima, mas o meu próprio carrasco. se levei tanto tempo a saber algo tão óbvio de mim, quão ingénua seria se acreditasse que conheço a profundidade de alguém.
quanto do que encontramos nos outros será fruto da nossa construção?
o homem veio na hora de maior calor, tentei demovê-lo, que o trabalho não fugia, que podíamos remarcar, mas ele insistiu, que eu já tinha alterado a vida, que ele noutra altura não podia, e assim foi, a tarde inteira a máquina roçou o mato. eu, impossibilitada de fugir à vida, invejei a língua de fogo que lambia o corpo do homem, a secura da boca, as tonturas azuis.

13.6.17

já mais tarde, juntos na cama, deitados os dois, olhámo-nos com calma. tactei-lhe a capa rija em busca de algum relevo e toquei-lhe nas primeiras páginas devagar. suspeitava da nota inútil, mas não esperava que herberto ficasse connosco tantas linhas. foi com ele que dormi nessa noite.
o Forte veio comigo, foi tudo por acaso, nenhum de nós esperava cruzar-se com o outro naquele dia. eu entrei para comprar uma revista, cheia de pressa, que alguém me tinha pedido. ele, em ângulo indefinido - acalmem-se os matemáticos, que na escrita tudo se pode -, escondido da multidão pelas agendas de lisboa, em laranja néon, com uma faca nos dentes. António!, juro que exclamei, abraçando-o com as duas mãos.


Ao nível do mar

como o nome da flor do vinho


murmurado entre relógios de carvão


escrito devagar na cal do silêncio


como o lençol de púrpura


no peito dos amantes


de costas para a morte

ao nível do mar


como um cardume de palavras cintilantes


no horizonte de cinza e de pavor


como um cavalo branco toda a noite


de estrela para estrela


ao nível do mar


como a flor que se abre na boca dos suicidas


um homem


ferido de morte


vai falar


devagar, muito devagar, tão devagar que terminei o sumo de laranja, ainda com eles no meu campo de visão. as mãos encaixavam, como duas bocas que se conhecem de outras vidas. pela mão, ela seguia o homem da sua vida. ele atrasava o passo, para esperar pelo dela. e assim seguiam juntos pelo corredor. que coisa bonita, lembro-me de ter pensado, enquanto a rapariga da caixa gritava: TOSTA MISTA!
olho as mulheres, nas suas leggings pretas a bambolear as carnes, os chinelos de meter nos dedos, as unhas em formato de garras e fico descansada por não sentir mais do que um leve repúdio. não me atrai a insolência de quem se julga superior, porque lê meia dúzia de livros.

11.6.17


em flor (2 de 3)
findo o tríptico,



Rachmaninoff plays Mozart K. 331 Rondo alla Turca

pela boca de Maximilien Que, um ex oficial das SS alemão, contando as suas memórias,






As benevolentes, de Jonathan Littell
entrevista a Jonathan Littell, no courrier de maio, a propósito do seu documentário Wrong Elements,


Qual a razão de ter escolhido música clássica para acompanhar as imagens?

Fiz o possível por não cair naquilo a que chamo o "kitsch National Geographic" - cores sumptuosas, o nascer do sol na savana com o som de tambores ao longe... queria fazer um filme que fosse exatamente o contrário dessa estética. Para mim, a música clássica tem a vantagem de marcar a distância e, de certa forma, a minha posição como observador externo. Sou um branco ocidental em África. Não tenho os mesmos referentes culturais nem a mesma história que as pessoas que filmo. A música clássica simboliza séculos de tradições, parte das quais foram importadas para Africa através do colonialismo e da religião cristã. É com esta bagagem que nós, eu, cineasta e você, espectador, olhamos África.


[...]


Sentado na esplanada de um hotel em Gulu, Jonathan Littell fuma uma cigarrilha. Ouve-se o canto metálico dos insetos enquanto a escuridão vai caindo sobre a cidade. É a hora das dúvidas. "Sabemos o que procuramos, mas não sabemos o que vamos encontrar", conclui Littell. "Afinal, o meu documentário não passa de mais um filme de brancos sobre Africa."

10.6.17

trago a alma em cinzas
um punhado de mim em pó

quando foi que morri?
finalmente dei-me ao trabalho e fui comprar a água tónica. da melhor, pedi ao bartender invisível. voltei com quatro garrafinhas, quinino natural.
agora, de copo na mão, o dia despido a um canto e o poeta azul aninhado nos lençóis lavados, esperando o meu corpo macio, namoro a lua e deixo-me ir. procuro o lugar mágico onde o tempo congela e a incógnita do amanhã vazio dista de igual maneira das ausências que o ontem me deixou. a cada gole, uma tentativa.

9.6.17

todas as tardes de sexta-feira são iguais, mas a felicidade instantânea dos que têm uma vida para além desta vida deixou de me incomodar. agora observo o bêbado apoiado nas muletas velhas, tentando gestos de arrumador, as raparigas do salão, rindo, de cara cansada, e as do café, quase sempre amuadas, o velho das chaves, que raramente se encontra, a rapariga que rói as unhas e ao fim de semana reveza o tio na sapataria, a senhora da farmácia, tão simpática e perfumada, o rapaz manco que trabalha na loja do chinês e baixa a cara sempre que o cumprimento, como fazem os rapazes tímidos da aldeia, e percebo quão pequeno era o meu mundo antigo, nas distantes avenidas.

7.6.17

a boa aranha à casa torna e Milu é o exemplo. dona de uma obstinação muito peculiar, é vê-la repousar suave entre as pétalas da Violeta, quem sabe, recordando os altos mares de outrora.



6.6.17

leite e mel, de Rupi Kaur, parece feito de vidro prensado. mal começamos a mastigar as palavras e o sangue escorre pelos cantos da boca. fere. rasga. crava.



ele devia ter sido
o primeiro amor da tua vida
continuas à procura dele
por todo o lado

- pai



***


o primeiro rapaz que me deu um beijo
empurrou os meus ombros para baixo
segurando-os como se fossem o guiador
da primeira bicicleta em que andou
eu tinha cinco anos

os lábios dele traziam o cheiro
da fome que herdou do pai
quando se satisfazia em cima da mãe às 4 da manhã

ele foi o primeiro a mostrar-me que o meu corpo era
para servir aqueles que queriam
que eu me sentisse
tudo menos inteira

e meu deus
não me senti eu tão vazia
como a mãe dele às 4h25 da manhã


***


pai. quando telefonas não tens nada de especial para dizer. perguntas o que estou a fazer e onde estou e quando o silêncio se alonga como se houvesse uma vida inteira de distância entre nós eu trato de arranjar coisas para te perguntar. o que eu gostava de te dizer é isto. percebo que este mundo tenha arrasado contigo. não tem sido nada fácil para ti. não te culpo por não saberes ser carinhoso comigo. às vezes fico a pensar em todos os sítios onde te dói e que nunca contarás. eu venho do mesmo sangue dorido. do mesmo corpo tão desesperado por atenção que perco as forças. sou tua filha. sei que a conversa de circunstância é a única maneira que tens de me dizer que me amas. porque é a única maneira que tenho de te dizer.


***

os nossos joelhos
afastados à força
por primos
e tios
e homens
o nosso corpo tocado
por todas as pessoas erradas
que até numa cama segura
temos medo

5.6.17

grandes leoas!

mais tempo de antena para o futebol feminino, sff!

4.6.17

nada, nem uma erva cortada, nem uma máquina de roupa, nem qualquer arrumação em lado nenhum. nesta poucas horas que às vezes roubo ao trabalho, vegeto, ao sabor da brisa - que sopra forte, fazendo com que as searas baldias me soem à ondulação do mar.



das minhas combinações


[tivesse eu vida e fazia do tasco um Pinterest]

3.6.17

Os dois, ali, expectantes, transparentes, nus,
na natureza de sempre.



[confesso, cheguei tarde demais a Armando Silva Carvalho]
você é uma mulher do inverno, não é? apanhada a meio do meu segundo cochilo, fico sem saber o que responder. talvez a mulher pergunte porque me vê de casaco de malha escuro. anda toda a gente de manga curta no salão. acha?, respondo finalmente. ai é, é. escolhe sempre as mesmas cores escuras, ou é sangue ou é cereja. gracejo, então mas as cerejas não são de agora?, enquanto fito as minhas mãos. que sou uma mulher do inverno já o sabia, o que me surpreendeu foi ver-me despida pela unhas.


Daniel Martin - in Zupi

2.6.17

então vamos lá a isso do 'selinho'.

graças à minha amiga Be (sim, Dr.ª Palmier, esta alfinetada é para si!), o meu espaço cinzento amarelado e enjoativamente depressivo foi acarinhado (é o termo) com um 'selinho' de Blog em Bom, seja lá o que isso for. sei que se cortar a corrente (coisa que normalmente aprecio sobremaneira), um panda bebé será morto pelo Pipoco Mais Salgado. assim sendo, e por respeito à Be, que é linda (és mesmo), e aos milhares de leitores que por aqui passam diariamente (só ontem tive 169 visualizações!), ainda que com imenso desagrado e arrogância de pessoa que lê imprensa internacional e não perde tempo com brincadeiritas domésticas, darei seguimento à estrelícia do selinho.


Se o meu blog fosse um blog em bom, seria O mundo da G, (mas apenas) pelos mundos incríveis (vossos) que por lá reúne e que fazem parte do meu quotidiano.


-- e um abraço especial aos comentadores sem blog, anónimos, onónimos, alguns, soberbos --




[a Be diz que não leu as instruções de participação até ao fim. é provável que o prémio acabe por ser impugnado pelas vilãs do costume e eu tenha de voltar ao palco entregar o oscar à concorrência...]




31.5.17

de volta a Lisboa, ignoro a rota passada e procuro a estrada azul. do que aumenta em quilómetros, dará conta o acelerador. no momento em que lhe escrevo, amigo leitor, já a manhã me parece um dia qualquer de um passado longínquo. poderia entretanto falar-lhe da apresentadora da tvi ou do jornalista da rtp, vistos em locais tão distintos e feições a condizer, dos preparos para a feira do livro, evento a que me recuso há mais de uma década, nem sei explicar bem o porquê, ou do telefone que me massacra com o mesmo número, gritando-me por uma resposta. mas não o aborrecerei com futilidades barrocas. o que importa salientar, estimado leitor, é a belíssima posta de atum, mal passado, em cama de legumes, e o verde da casa, que agora me pedem a sesta. 
escolheu a tua casa para morrer, agoira a velha em voz baixa, toda vestida de preto, enquanto embrulho a coruja das torres numa toalha branca. de madrugada, a ave, um exemplar adulto magnífico, de penugem suave, embateu violentamente numa das portas de vidro do quarto. estava condenada, penso -- quero acreditar. taeko ter-lhe-á dado, talvez, o golpe final, mas não vejo sangue. abro mais os olhos, o pequeno diabo aloja-se nas pálpebras, aproveitando a cadência lenta da estrada secundária, que parece nunca mais ter fim. coruja, agora eu, se embater, quem me recolherá o corpo à mortalha?

30.5.17

anda comigo ver as baleias, disseste-me tu, sabendo da minha paixão pelos cetáceos. e eu fui, descalça, sentada no pequeno barquinho a remos que roubamos no cais. nunca te cheguei a dizer que nem sabia nadar.

28.5.17

é quando se avolumam  os nós gomilosos na garganta, que a raposa me recorda de que é preciso varrer o chão da coelheira. é remédio santo, não há recolha de dejecto animal que não me alivie o pensamento. 
são difíceis as manhãs de domingo, vazias de gestos na cama. os fardos, deixados ao acaso pelo restolho, lembram-me um rebanho de ovelhas amarelas, imóveis na candura do fim de maio. nada me interessa verdadeiramente, vou matando o tempo ao acaso, até que tu chegues e me venhas dar a mão.

26.5.17

o vento enrola-se nas ervas altas que ainda não foram cortadas e galopa o vale inteiro, exibindo-se. sinto o frio acariciar-me a pele suada e recolho-me ao quarto para me cobrir. respiro o silêncio da cama vazia, a brancura espessa das paredes, o metal rente ao chão. seria perfeito, se esta noite chovesse.

25.5.17

enquanto espero que o tanque do submarino se encha a três quartos, partilho consigo (está aí alguém, certo?) um blog da minha colecção de favoritos: EXTRAMUROS - A CHINA ALÉM DA CHINA
ainda sem um café que me valha, o telemóvel começa a tremelicar notificações -- dez tarefas em atraso! dez?! mas as cabras reproduzem-se de noite, esfregam-se umas nas outras? e o resto? como equilibrar os atrasos com o resto? adianto as atrasadas e atraso as demais? e o que tenho andando a esconder debaixo do tapete, enganando a assistente virtual? finjo que não está lá? porra, porra, porra!

/momento de pausa para respirar fundo, que ainda nem a remela lavei dos olhos/

23.5.17

em contemplação

Sei que chorou mas não a ouvi chorar. Ninguém a ouviu, ninguém deu por ela. Passou como uma sombra. Habituou-se. As lágrimas sumiu-as, meteu-as para dentro. A dor aprendeu a contê-la. Habituou-se a queixar-se à grande nódoa de humidade da parede. Entre mim e ela interpôs-se o sonho.

/Húmus, Raul Brandão/

22.5.17

houvesse alguma coragem em mim
Truque Inoxidável

faca

repito faca

escrevo faca pelo corpo, desenho faca no peito da noite

desembaraço-me do sumo inoxidável doutra faca

faca

sorrio faca no escuro dum beco

- Hoje não matarás!


/al berto/

21.5.17

perder todo o tempo de que disponho.
penso praia, é suficiente para que o mar se esboce. penso cinza e surge um rosto de lume. penso vento e o sangue lateja. penso coração e voo com os pássaros. penso em ti e a noite é uma treva onde não me encontro. penso que não estou aqui e tenho-te até à exaustão dos sentidos.

/al berto, o medo/


da varanda chegam-me os pios das aves nocturnas.

20.5.17

do meu irmão morto, nunca mais tive notícias. não voltei ao subterrâneo das almas penadas, onde as mais tristes, deambulantes em claustros aquosos, me convenciam de que ele tinha desaparecido para sempre. eu enterrava os pés na lama fria, a palha cheia de merda, aqui e além, a fingir-se melhor caminho, e continuava a gritar pelo seu nome, enquanto elas corriam assustadas, tropeçando umas nas outras. por fim, fui expulsa do purgatório e devolvida à elipse terrena. perdi-o para sempre, quando ensurdeci.

“porque no fim se calam
as asas das borboletas, o irmão e as
          andorinhas
e é a minha vez de falar”


18.5.17

os astros todos alinhados, como dizem os entendidos da vida, eu ali, um quarteirão inteiro de tempo pela frente e um arrepio que julguei ser febre, do sol na cabeça. os deuses, possivelmente ofendidos com a minha falta de oferendas, arrastando os pés nus pela casa vazia, cuspiram-me na cara a vulnerabilidade de que sou feita. estava tudo ali, mas nada aconteceu. 
acordo de uma noite demasiado curta, cansada, quase perdida de mim. nem o café me resgata. o corpo mole desliza devagar, para que o desespero não se agite em demasia.
é a poesia que me salva.

sós,
sem ninguém à escuta,
nem a nossa própria voz.

17.5.17

Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos,
estávamos sós e essa solidão éramos nós;


e era indiferente sabê-lo ou não,
ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia:
o grito era a própria indiferença.



/o grito de MAP roubado daqui/

coisas simples, como tocar-te no braço, enquanto bebemos um café na esplanada.

14.5.17

...
na velhice é que se sabe o nome daquilo
aquilo nervoso que toda jovem meio que quase sabe e quer saber inteiro
aquilo que todo mundo quer saber o nome nervoso
nervoso invisível indiscutível molhado e como que de veludo acelerado


Carla Diacov
(in enfermaria 6)

13.5.17

parece-me entorpecida, esta blogosfera, arrastando os chinelos para o esquecimento -- morte de qualquer rede social. a blogosfera foi a sala de convívio dos que nasceram no século passado, ansiosos por falar, analisar, discutir, escrever. agora as conversas são outras, visuais e de poucas palavras. há bonecada que transmite mensagens como sinais de fumo, vidas inteiras contadas em álbuns, textos escassos. já ninguém lê.
a lapiseira morreu, viva a lapiseira.

já o poeta o tinha dito,
só morremos de nós mesmos.
Boris, o provocador, espera-me na cama. Boris não sabe ainda, mas não me deitarei com ele esta noite, não depois de ouvir de Zimmer. também não deitarei com Canetti, que me espera, amarelo, mesmo ao lado de Boris, tão-pouco me deitarei com a time out ou a courrier internacional. nem a Neruda, nem a Borges, nem a Ungaretti permitirei o meu leito.
esta noite, pela mão de Zimmer, deitar-me-ei, menina outra vez, com os meus demónios.

12.5.17

o
nosso
tempo
perdido


Afiar uma faca
é simples, tenho mais medo da memória.



/roubei a poeta, não o verso, aqui/