28.6.17

5-4-1930

O sócio capitalista aqui da firma, sempre doente em parte incerta, quis, não sei por que capricho de que intervalo de doença, ter um retrato do conjunto do pessoal do escritório. E assim, anteontem, alinhámos todos, por indicação do fotógrafo alegre, contra a barreira branca suja que divide, com madeira frágil, o escritório geral do gabinete do patrão Vasques. Ao centro o mesmo Vasques; nas duas alas, numa distribuição primeiro definida, depois indefinida, de categorias, as outras almas humanas que aqui se reúnem em corpo todos os dias para pequenos fins cujo último intuito só o segredo dos Deuses conhece.

Hoje quando cheguei ao escritório, um pouco tarde, e, em verdade, esquecido lá do acontecimento estático da Fotografia duas vezes tirada, encontrei o Moreira, inesperadamente matutino, e um dos caixeiros de praça debruçados rebuçadamente sobre umas coisas enegrecidas, que reconheci logo, em sobressalto, como as primeiras provas das fotografias. Eram, afinal, duas só de uma, daquela que ficara melhor.

Sofri a verdade ao ver-me ali, porque, como é de supor, foi a mim mesmo que primeiro busquei. Nunca tive uma ideia nobre da minha presença física, mas nunca a senti tão nula como em comparação com as outras caras, tão minhas conhecidas, naquele alinhamento de quotidianos. Pareço um jesuíta fruste. A minha cara magra e inexpressiva nem tem inteligência, nem intensidade, nem qualquer coisa, seja o que for, que a alce da maré morta das outras caras. Da maré morta, não. Há ali rostos verdadeiramente expressivos. O patrão Vasques está tal qual é — o largo rosto prazenteiro e duro, o olhar firme, o bigode rígido completando. A energia, a esperteza, do homem — afinal tão banais, e tantas vezes repetidas por tantos milhares de homens em todo o mundo — são todavia escritas naquela fotografia como num passaporte psicológico. Os dois caixeiros viajantes estão admiráveis; o caixeiro de praça está bem, mas ficou quase por trás de um ombro de Moreira. E o Moreira! O meu chefe Moreira, essência da monotonia e da continuidade, está muito mais gente do que eu! Até o moço — reparo sem poder reprimir um sentimento que busco supor que não é inveja — tem uma certeza de cara, uma expressão directa que dista sorrisos do meu apagamento nulo de esfinge de papelaria.

O que quer isto dizer? Que verdade é esta que uma película não erra? Que certeza é esta que uma lente fria documenta? Quem sou, para que seja assim? Contudo... E o insulto do conjunto?
— «Você ficou muito bem», diz de repente o Moreira. E depois, virando-se para o caixeiro de praça, «É mesmo a carinha dele, hem?» E o caixeiro de praça concordou com uma alegria amiga que escorreu para o lixo.


/livro do desassossego - tinta da china

27.6.17

if all you have is a hammer, everything looks like a nail.


26.6.17

436.

      [PAISAGEM DE] CHUVA

      E por fim — vejo-o por memória —, por sobre a escuridão dos telhados lustrosos, a luz fria da manhã tépida raia como um suplício do Apocalipse. É outra vez a noite imensa da claridade que aumenta. É outra vez o horror de sempre o dia, a vida, a utilidade fictícia, a actividade sem remédio. É outra vez a minha personalidade física, visível, social, transmissível por palavras que não dizem nada, usável pelos gestos dos outros e pela consciência alheia. Sou eu outra vez, tal qual não sou. Com o princípio da luz de trevas que enche de dúvidas cinzentas as frinchas das portas das janelas — longe de herméticas, meu Deus! —, vou sentindo que não poderei guardar mais o meu refúgio de estar deitado, de não estar dormindo mas de o poder estar, de ir sonhando, sem saber que há verdade nem realidade, entre um calor fresco de roupas limpas e um desconhecimento, salvo de conforto, existência do meu corpo. Vou sentindo fugir-me a inconsciência feliz com que estou gozando da minha consciência, o modorrar de animal com que espreito, entre pálpebras de gato ao sol, os movimentos da lógica da minha imaginação desprendida. Vou sentindo sumirem-se-me os privilégios penumbra, e os rios lentos sob as árvores das pestanas entrevistas, e o sussurro das cascatas perdidas entre o som do sangue lento nos ouvidos e o vago perdurar de chuva. Vou-me perdendo até vivo. 


/livro do desassossego - tinta da china/

24.6.17

a inveja impele o mundo, não diz o poeta mas digo eu. 
várias frentes, vários inimigos; antes que apareça a romãzeira do Pipoco -- que, lutando pelo primeiro lugar, não terá qualquer pudor em subornar o público leitor -- fica mais uma das minhas maravilhas: abrunhos!

Flor

peleja pela hora do calor, V. Ex.ª, com certeza fazendo-se acompanhar de algum Ambrósio e um ar condicionado portátil...

mas vamos ao que interessa, onde estão as flores da sua orquídea de duas cabeças hibernadas e uma cabeça moribunda (que de tão amarela, até dá peninha)? como pensa vir a ser alvo de inveja, com esse periquito floral escarafunchado? mas afinal quem é o general que lhe coordena as tropas? (estaria o horto fechado, à hora que a sua consierge chegou?)


abstenho-me de continuar esta guerra, por caridade à sua plantinha. pode recolher os seus mortos e tratar dos seus feridos e que tenha aprendido a lição, a inveja quer-se florida!

Declaração de Guerra à Artista Palmier


Artista Palmier,

Serve a presente missiva, teclada em QWERTY debruado a branco sobre pvc azul petróleo, para convocar V. Ex.ª à peleja mais silenciosa de que haverá memória, durante todos os séculos que hão-de vir, neste mundo virtual: a Guerra da Invídia. Enquanto a Capitã do Purpurinas não terminar a época da apanha dos reumáticos, sem braços que se encarreguem dos sabres e dos canhões, teremos de nos gladiar com o mais comum dos sentimentos, mas o mais nobre entre as gentes que são maiores (não sendo baixa, já calcei as botas de salto, que tu parece que levaste adubo no berço).

Inicio eu, que tive a ideia (absolutamente original) de te atingir com o ferrão do ódio pelo possuidor e investi num fotógrafo profissional e no aluguer de um estúdio próprio para a captação de imagens tão belas e tão raras. 

Primeiro disparo (e único, suspeito), Artista Palmier: A Fartura de Violeta -- A ORQUÍDEA MAIS BELA DA BLOGOSFERA.


de frente


de costas


já faleces nesse chão de mosaicos brancos, aposto, tal foi a pontaria do disparo.


23.6.17


s/ legenda (3 de 3)

22.6.17

como te atreves, Daniel Jonas, a dizer que a poesia não é evasão?!?
Colibri

Imagem relacionada

Entre os Astecas, as almas dos guerreiros mortos voltavam à terra sob a forma de colibris ou borboletas. (...) os índios Tucanos da Colômbia acredit(a)m que o colibri ou «pássaro-mosca» copula com as flores, representando assim o pénis, a virilidade radiosa. De resto, no Brasil, também se lhe dá o nome de beija-flor.


/in Dicionário dos Símbolos, J. Chevalier e A. Gheerbrant, teorema/ 

20.6.17