6.7.17
Há muitas solidões cruzadas - diz - em cima e em baixo
e outras no meio; diferentes e semelhantes, forçadas e impostas
ou como que escolhidas, como que livres - mas sempre cruzadas.
Mas no fundo, no centro, há apenas uma solidão - diz;
uma cidade vazia, quase esférica, sem quaisquer
anúncios luminosos multicores, sem lojas, sem motocicletas,
com uma luz branca, vazia, brumosa, interrompida
por centelhas de desconhecidos semáforos. Nesta cidade
habitam desde há anos os poetas. Caminham silenciosos de braços cruzados,
recordam factos imprecisos, esquecidos, palavras, paisagens,
estes consoladores do mundo, sempre inconsolados, perseguidos
pelos cães, pelos homens, pelos vermes, pelos ratos, pelas estrelas,
perseguidos até pelas suas próprias palavras, ditas ou não ditas.
Giánnis Ritsos (1972) | Antologia | Fora do Texto | 1993
daqui: (em)quanto vivo o nome
5.7.17
Não era um trabalho fácil, correr atrás das aves, que tinham o dobro da nossa altura, quando a manhã já ia longa e o calor começava a apertar. Petra ficava no posto da vigia, pendurada na cancela mais alta, e ia gritando instruções, à direita, Jasmim!, Cuidado, Bartolomeu!, atenção à Cotovia! Nós tentávamos seguir a sua voz, enquanto rodopiávamos como bailarinas bêbedas, dentro das botas velhas de couro, que nos ficavam largas. Cirilo, gracioso na sua habilidade de fintar os adversários, era o único que se divertia. Quando a última ave entrava na galinheiro, também ela já exausta, caímos todos, menos Cirilo, de joelhos no chão. Petra ajudava-nos a levantar e obrigava-nos a beber o chá de urtigas ainda quente. Sabe a mijo!, gozava Jasmim. Urina de alpaca, corrigia Petra, com um sorriso.
1. Espero uma chegada, um regresso, um sinal prometido. Pode ser fútil ou terrivelmente patético: em Erwartung (Espera, Schönberg), uma mulher espera o amante, de noite, na floresta; eu não espero senão um toque do telefone, mas a angustia é a mesma. Tudo é solene: não tenho o sentido das proporções.
/Fragmentos de um Discurso Amoroso/
2.7.17
I
A guerra é a mãe e a rainha de todos.
A alguns transforma em deuses, a outros em homens.
De alguns faz escravos, de outros homens livres.
A primeira coisa que a parteira notou em Michael K, ao tirá-lo do ventre da mãe, foi que ele tinha um lábio leporino e a narina esquerda dilatada. Segurou o bebé, por instantes, abriu-lhe a boquinha e ficou aliviada ao descobrir que o céu da boca estava intacto.
Voltando-se para a mãe, exclamou:
—Deve sentir-se feliz! Traz sorte à casa!
Porém, desde o primeiro instante, Anna K não gostou daquela boquinha que não fechava e da carnação rósea que ficava à vista.
/A Vida e o Tempo de Michael K/
Porém, desde o primeiro instante, Anna K não gostou daquela boquinha que não fechava e da carnação rósea que ficava à vista.
/A Vida e o Tempo de Michael K/
13 de Maio
Lá vai a Teles, e a D. Restituta — lá vai a mulher da esfrega empurrando o farrapo monstruoso que se agita na noite... A sombra e a mulher da esfrega, o espanto e a mulher da esfrega, o sonho dourado de grandes asas esfarrapadas no negrume e as mãos encortiçadas de lavar a loiça, a vida frenética e a vida humilde. Uma boca enorme de um lado, a voz da Joana do outro, sentimentos caóticos impossíveis de traduzir em palavras, o que exprime a natureza impulsiva, o que responde uma criatura agarrada à ideia do sacrifício. — Anda para diante. Estúpida! Estúpida! A bondade entranhou-se-lhe até ao âmago.
Caminha ao lado da D. Restituta, que atravessou a vida com o guarda-chuva incólume e que faz gestos desordenados no escuro:
— Acuso! Acuso! Acuso!
— Senhora D. Restituta...
A senhora D. Restituta está cheia de lama. Tem a pena do quico partida: é uma figura feita com três traços de tinta e algumas manchas de desespero. O sonho doura-a, esfarrapa-a também. A pena em frangalhos agita-se como um pendão de revolta, esgarçado e chamuscado. Todas as vontades a compeliram e a esmagaram — quer retomar a forma primitiva. Dir-se-ia que cresce na noite, e que a sua boca é uma bocarra cada vez maior, para pregar, para açular, para vomitar injúrias. Somente não emite outro som senão este: — Acuso! — a velha gasta, a velha inútil, a D. Restituta da Piedade Sardinha.
— Senhora D. Restituta...
A outra não vê, não ouve, não mexe.
— Minha senhora...
— Acuso!
— ...para o que se vive neste mundo não paga a pena ruindades.
Debalde a Joana lhe fala. Resta diante do sonho com a mandíbula despegada e o velho guarda-chuva que conserva intacto desde a sua primeira virgindade — teve duas — metido debaixo do braço. Nem uma nem outra entendem aquilo. Uma empurra, afasta de si o sonho com as mãos de lavar a loiça, a outra com as mãos pacientes, as mãos diáfanas da mentira. Tem feito sempre todas as vontades, e se a figura um momento se engrandece, amarfanha-se logo, como um trapo suspenso que se deixa cair ao chão.
— Acuso! Acuso! Acuso! (...)
/Húmus/
Lá vai a Teles, e a D. Restituta — lá vai a mulher da esfrega empurrando o farrapo monstruoso que se agita na noite... A sombra e a mulher da esfrega, o espanto e a mulher da esfrega, o sonho dourado de grandes asas esfarrapadas no negrume e as mãos encortiçadas de lavar a loiça, a vida frenética e a vida humilde. Uma boca enorme de um lado, a voz da Joana do outro, sentimentos caóticos impossíveis de traduzir em palavras, o que exprime a natureza impulsiva, o que responde uma criatura agarrada à ideia do sacrifício. — Anda para diante. Estúpida! Estúpida! A bondade entranhou-se-lhe até ao âmago.
Caminha ao lado da D. Restituta, que atravessou a vida com o guarda-chuva incólume e que faz gestos desordenados no escuro:
— Acuso! Acuso! Acuso!
— Senhora D. Restituta...
A senhora D. Restituta está cheia de lama. Tem a pena do quico partida: é uma figura feita com três traços de tinta e algumas manchas de desespero. O sonho doura-a, esfarrapa-a também. A pena em frangalhos agita-se como um pendão de revolta, esgarçado e chamuscado. Todas as vontades a compeliram e a esmagaram — quer retomar a forma primitiva. Dir-se-ia que cresce na noite, e que a sua boca é uma bocarra cada vez maior, para pregar, para açular, para vomitar injúrias. Somente não emite outro som senão este: — Acuso! — a velha gasta, a velha inútil, a D. Restituta da Piedade Sardinha.
— Senhora D. Restituta...
A outra não vê, não ouve, não mexe.
— Minha senhora...
— Acuso!
— ...para o que se vive neste mundo não paga a pena ruindades.
Debalde a Joana lhe fala. Resta diante do sonho com a mandíbula despegada e o velho guarda-chuva que conserva intacto desde a sua primeira virgindade — teve duas — metido debaixo do braço. Nem uma nem outra entendem aquilo. Uma empurra, afasta de si o sonho com as mãos de lavar a loiça, a outra com as mãos pacientes, as mãos diáfanas da mentira. Tem feito sempre todas as vontades, e se a figura um momento se engrandece, amarfanha-se logo, como um trapo suspenso que se deixa cair ao chão.
— Acuso! Acuso! Acuso! (...)
/Húmus/
(...), poetry gives words to the heart.
agradeço ao (maravilhoso) arquivo de cabeceira por me recordar de Lawrence Ferlinghetti e da sua (a) poesia como arte insurgente.
1.7.17
secretamente, ansiava um vendaval para esta manhã, chuva torrencial, ventos ciclónicos, qualquer desculpa que me limpasse a vergonha de cancelar o compromisso. bem cedo, deambulei até ao jardim, onde me deixei ficar a remoer o destino. com agenda tão apertada e os pneus dianteiros carecas, dar a volta à serra não é brincadeira que me apeteça.
28.6.17
5-4-1930
Hoje quando cheguei ao escritório, um pouco tarde, e, em verdade, esquecido lá do acontecimento estático da Fotografia duas vezes tirada, encontrei o Moreira, inesperadamente matutino, e um dos caixeiros de praça debruçados rebuçadamente sobre umas coisas enegrecidas, que reconheci logo, em sobressalto, como as primeiras provas das fotografias. Eram, afinal, duas só de uma, daquela que ficara melhor.
Sofri a verdade ao ver-me ali, porque, como é de supor, foi a mim mesmo que primeiro busquei. Nunca tive uma ideia nobre da minha presença física, mas nunca a senti tão nula como em comparação com as outras caras, tão minhas conhecidas, naquele alinhamento de quotidianos. Pareço um jesuíta fruste. A minha cara magra e inexpressiva nem tem inteligência, nem intensidade, nem qualquer coisa, seja o que for, que a alce da maré morta das outras caras. Da maré morta, não. Há ali rostos verdadeiramente expressivos. O patrão Vasques está tal qual é — o largo rosto prazenteiro e duro, o olhar firme, o bigode rígido completando. A energia, a esperteza, do homem — afinal tão banais, e tantas vezes repetidas por tantos milhares de homens em todo o mundo — são todavia escritas naquela fotografia como num passaporte psicológico. Os dois caixeiros viajantes estão admiráveis; o caixeiro de praça está bem, mas ficou quase por trás de um ombro de Moreira. E o Moreira! O meu chefe Moreira, essência da monotonia e da continuidade, está muito mais gente do que eu! Até o moço — reparo sem poder reprimir um sentimento que busco supor que não é inveja — tem uma certeza de cara, uma expressão directa que dista sorrisos do meu apagamento nulo de esfinge de papelaria.
O que quer isto dizer? Que verdade é esta que uma película não erra? Que certeza é esta que uma lente fria documenta? Quem sou, para que seja assim? Contudo... E o insulto do conjunto?
— «Você ficou muito bem», diz de repente o Moreira. E depois, virando-se para o caixeiro de praça, «É mesmo a carinha dele, hem?» E o caixeiro de praça concordou com uma alegria amiga que escorreu para o lixo.
O sócio capitalista aqui da firma, sempre doente em parte incerta, quis, não sei por que capricho de que intervalo de doença, ter um retrato do conjunto do pessoal do escritório. E assim, anteontem, alinhámos todos, por indicação do fotógrafo alegre, contra a barreira branca suja que divide, com madeira frágil, o escritório geral do gabinete do patrão Vasques. Ao centro o mesmo Vasques; nas duas alas, numa distribuição primeiro definida, depois indefinida, de categorias, as outras almas humanas que aqui se reúnem em corpo todos os dias para pequenos fins cujo último intuito só o segredo dos Deuses conhece.
Hoje quando cheguei ao escritório, um pouco tarde, e, em verdade, esquecido lá do acontecimento estático da Fotografia duas vezes tirada, encontrei o Moreira, inesperadamente matutino, e um dos caixeiros de praça debruçados rebuçadamente sobre umas coisas enegrecidas, que reconheci logo, em sobressalto, como as primeiras provas das fotografias. Eram, afinal, duas só de uma, daquela que ficara melhor.
Sofri a verdade ao ver-me ali, porque, como é de supor, foi a mim mesmo que primeiro busquei. Nunca tive uma ideia nobre da minha presença física, mas nunca a senti tão nula como em comparação com as outras caras, tão minhas conhecidas, naquele alinhamento de quotidianos. Pareço um jesuíta fruste. A minha cara magra e inexpressiva nem tem inteligência, nem intensidade, nem qualquer coisa, seja o que for, que a alce da maré morta das outras caras. Da maré morta, não. Há ali rostos verdadeiramente expressivos. O patrão Vasques está tal qual é — o largo rosto prazenteiro e duro, o olhar firme, o bigode rígido completando. A energia, a esperteza, do homem — afinal tão banais, e tantas vezes repetidas por tantos milhares de homens em todo o mundo — são todavia escritas naquela fotografia como num passaporte psicológico. Os dois caixeiros viajantes estão admiráveis; o caixeiro de praça está bem, mas ficou quase por trás de um ombro de Moreira. E o Moreira! O meu chefe Moreira, essência da monotonia e da continuidade, está muito mais gente do que eu! Até o moço — reparo sem poder reprimir um sentimento que busco supor que não é inveja — tem uma certeza de cara, uma expressão directa que dista sorrisos do meu apagamento nulo de esfinge de papelaria.
O que quer isto dizer? Que verdade é esta que uma película não erra? Que certeza é esta que uma lente fria documenta? Quem sou, para que seja assim? Contudo... E o insulto do conjunto?
— «Você ficou muito bem», diz de repente o Moreira. E depois, virando-se para o caixeiro de praça, «É mesmo a carinha dele, hem?» E o caixeiro de praça concordou com uma alegria amiga que escorreu para o lixo.
/livro do desassossego - tinta da china
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