22.7.17

Malaquias morreu entretanto, libertando a alma do sofrimento, numa última golfada de sangue. hoje, rumo sozinha para norte. no baú de Blimunda, levo o silêncio das matas queimadas, cinzas cadáveres que esperam por mim. felizmente, já estou morta, não poderei morrer outra vez.
do abraço de despedida, guardo o olhar macio oferecido no cais.

18.7.17

náusea.

17.7.17

pensei que seria poético
voltar ao sítio onde a matei,
mas alguém já lavou as manchas de sangue
da pedra da entrada
e o cão mal se levanta.

15.7.17

escreve-me o estimado leitor, quiçá no intervalo de alguma tarefa mais exigente, para me inquirir da razão de tão baixa produtividade. a flor já não tem mão para escrever com a faca no fogo? apanhada de surpresa, - serão poucos os farrapos, não nego, mas ainda assim por cá derivam -, lanço-me à lâmina de imediato, que julgo morna, tentando provar-lhe de como estava enganado. subestimei o poder do maldito ar condicionado.
um dia, menina, estiquei-me às cerejas, em cima de um caixote de madeira. o caixote, a pino, balançou e eu caí de costas, num estrondo maciço, todo o corpo um peso-morto de mim. lembro-me dos minutos que pareceram dias e no alto as folhas verdes da cerejeira, estremecendo à brisa, sob o céu claro da manhã. quis pedir ajuda e nem um fio de voz. sem ninguém que se preocupasse em saber de mim, lembro-me das lágrimas quentes escorrendo pelo canto dos olhos e da angustia de me sentir presa num corpo imóvel. a voz voltou, trémula, antes de me conseguir mexer, mas não chamei ninguém. percebi, naquele dia, que por mais dolorosa que seja a queda, - e se foi -, o melhor era aprender a levantar-me sozinha.
esta manhã, sensível à falta e contida ainda nas réstias azedas da semana que ontem devia ter terminado, escondi-me entre as almofadas e o lençol e deixei os olhos marejarem. desisti, por alguns minutos, de mim e de tudo. depois, felizmente, aquela menina apareceu.
passamos metade da vida a tentar transformar-nos em pessoas diferentes, almejando versões melhoradas, corrigindo tiques e posições, para mais tarde, os mesmos opinadores sociológicos de outrora, nos garantirem que a felicidade está - e sempre esteve, afinal - na aceitação de nós próprios, inteiros, com os nossos defeitos e feitios.

8.7.17

No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.

«A distância que havia entre ele e a luz da fogueira não era tão importante como a sua certeza de que nunca revelaria a sua presença.»

/A Vida e o Tempo de Michael K, p. 117/
onde se lê vazio, deve ler-se uma vida inteira.

6.7.17

na minha rua só havia eu,
toda a rua era dos meus pais e
eu brincava nela sozinha.
brincava triste,
mas ainda não o sabia,
inventando nomes para brincarem comigo.

hoje eu já não invento amigos,
continuo deambulando sozinha pela rua,
como quando era menina.























Há muitas solidões cruzadas - diz - em cima e em baixo

e outras no meio; diferentes e semelhantes, forçadas e impostas

ou como que escolhidas, como que livres - mas sempre cruzadas.

Mas no fundo, no centro, há apenas uma solidão - diz;

uma cidade vazia, quase esférica, sem quaisquer

anúncios luminosos multicores, sem lojas, sem motocicletas,

com uma luz branca, vazia, brumosa, interrompida

por centelhas de desconhecidos semáforos. Nesta cidade

habitam desde há anos os poetas. Caminham silenciosos de braços cruzados,

recordam factos imprecisos, esquecidos, palavras, paisagens,

estes consoladores do mundo, sempre inconsolados, perseguidos

pelos cães, pelos homens, pelos vermes, pelos ratos, pelas estrelas,

perseguidos até pelas suas próprias palavras, ditas ou não ditas.


Giánnis Ritsos (1972) | Antologia | Fora do Texto | 1993


daqui: (em)quanto vivo o nome

5.7.17

Não era um trabalho fácil, correr atrás das aves, que tinham o dobro da nossa altura, quando a manhã já ia longa e o calor começava a apertar. Petra ficava no posto da vigia, pendurada na cancela mais alta, e ia gritando instruções, à direita, Jasmim!, Cuidado, Bartolomeu!, atenção à Cotovia! Nós tentávamos seguir a sua voz, enquanto rodopiávamos como bailarinas bêbedas, dentro das botas velhas de couro, que nos ficavam largas. Cirilo, gracioso na sua habilidade de fintar os adversários, era o único que se divertia. Quando a última ave entrava na galinheiro, também ela já exausta, caímos todos, menos Cirilo, de joelhos no chão. Petra ajudava-nos a levantar e obrigava-nos a beber o chá de urtigas ainda quente. Sabe a mijo!, gozava Jasmim. Urina de alpaca, corrigia Petra, com um sorriso.
1. Espero uma chegada, um regresso, um sinal prometido. Pode ser fútil ou terrivelmente patético: em Erwartung (Espera, Schönberg), uma mulher espera o amante, de noite, na floresta; eu não espero senão um toque do telefone, mas a angustia é a mesma. Tudo é solene: não tenho o sentido das proporções.

/Fragmentos de um Discurso Amoroso/

2.7.17

I


A guerra é a mãe e a rainha de todos.
A alguns transforma em deuses, a outros em homens.
De alguns faz escravos, de outros homens livres.



   A primeira coisa que a parteira notou em Michael K, ao tirá-lo do ventre da mãe, foi que ele tinha um lábio leporino e a narina esquerda dilatada. Segurou o bebé, por instantes, abriu-lhe a boquinha e ficou aliviada ao descobrir que o céu da boca estava intacto.
   Voltando-se para a mãe, exclamou:

   —Deve sentir-se feliz! Traz sorte à  casa!

   Porém, desde o primeiro instante, Anna K não gostou daquela boquinha que não fechava e da carnação rósea que ficava à vista.


/A Vida e o Tempo de Michael K/
13 de Maio

Lá vai a Teles, e a D. Restituta — lá vai a mulher da esfrega empurrando o farrapo monstruoso que se agita na noite... A sombra e a mulher da esfrega, o espanto e a mulher da esfrega, o sonho dourado de grandes asas esfarrapadas no negrume e as mãos encortiçadas de lavar a loiça, a vida frenética e a vida humilde. Uma boca enorme de um lado, a voz da Joana do outro, sentimentos caóticos impossíveis de traduzir em palavras, o que exprime a natureza impulsiva, o que responde uma criatura agarrada à ideia do sacrifício. — Anda para diante. Estúpida! Estúpida! A bondade entranhou-se-lhe até ao âmago.

Caminha ao lado da D. Restituta, que atravessou a vida com o guarda-chuva incólume e que faz gestos desordenados no escuro:
— Acuso! Acuso! Acuso!
— Senhora D. Restituta...
A senhora D. Restituta está cheia de lama. Tem a pena do quico partida: é uma figura feita com três traços de tinta e algumas manchas de desespero. O sonho doura-a, esfarrapa-a também. A pena em frangalhos agita-se como um pendão de revolta, esgarçado e chamuscado. Todas as vontades a compeliram e a esmagaram — quer retomar a forma primitiva. Dir-se-ia que cresce na noite, e que a sua boca é uma bocarra cada vez maior, para pregar, para açular, para vomitar injúrias. Somente não emite outro som senão este: — Acuso! — a velha gasta, a velha inútil, a D. Restituta da Piedade Sardinha.
— Senhora D. Restituta...
A outra não vê, não ouve, não mexe.
— Minha senhora...
— Acuso!
— ...para o que se vive neste mundo não paga a pena ruindades.

Debalde a Joana lhe fala. Resta diante do sonho com a mandíbula despegada e o velho guarda-chuva que conserva intacto desde a sua primeira virgindade — teve duas — metido debaixo do braço. Nem uma nem outra entendem aquilo. Uma empurra, afasta de si o sonho com as mãos de lavar a loiça, a outra com as mãos pacientes, as mãos diáfanas da mentira. Tem feito sempre todas as vontades, e se a figura um momento se engrandece, amarfanha-se logo, como um trapo suspenso que se deixa cair ao chão.

 — Acuso! Acuso! Acuso! (...)

/Húmus/
sei que estou morta, quando as minhas mãos querem calar os gritos das crianças que correm perto.
não é difícil esconder-me dos outros, difícil - doloroso, às vezes - tem sido esconder-me de mim.
(...), poetry gives words to the heart.


agradeço ao (maravilhoso) arquivo de cabeceira por me recordar de Lawrence Ferlinghetti e da sua (a) poesia como arte insurgente.

1.7.17

secretamente, ansiava um vendaval para esta manhã, chuva torrencial, ventos ciclónicos, qualquer desculpa que me limpasse a vergonha de cancelar o compromisso. bem cedo, deambulei até ao jardim, onde me deixei ficar a remoer o destino. com agenda tão apertada e os pneus dianteiros carecas, dar a volta à serra não é brincadeira que me apeteça.

28.6.17

5-4-1930

O sócio capitalista aqui da firma, sempre doente em parte incerta, quis, não sei por que capricho de que intervalo de doença, ter um retrato do conjunto do pessoal do escritório. E assim, anteontem, alinhámos todos, por indicação do fotógrafo alegre, contra a barreira branca suja que divide, com madeira frágil, o escritório geral do gabinete do patrão Vasques. Ao centro o mesmo Vasques; nas duas alas, numa distribuição primeiro definida, depois indefinida, de categorias, as outras almas humanas que aqui se reúnem em corpo todos os dias para pequenos fins cujo último intuito só o segredo dos Deuses conhece.

Hoje quando cheguei ao escritório, um pouco tarde, e, em verdade, esquecido lá do acontecimento estático da Fotografia duas vezes tirada, encontrei o Moreira, inesperadamente matutino, e um dos caixeiros de praça debruçados rebuçadamente sobre umas coisas enegrecidas, que reconheci logo, em sobressalto, como as primeiras provas das fotografias. Eram, afinal, duas só de uma, daquela que ficara melhor.

Sofri a verdade ao ver-me ali, porque, como é de supor, foi a mim mesmo que primeiro busquei. Nunca tive uma ideia nobre da minha presença física, mas nunca a senti tão nula como em comparação com as outras caras, tão minhas conhecidas, naquele alinhamento de quotidianos. Pareço um jesuíta fruste. A minha cara magra e inexpressiva nem tem inteligência, nem intensidade, nem qualquer coisa, seja o que for, que a alce da maré morta das outras caras. Da maré morta, não. Há ali rostos verdadeiramente expressivos. O patrão Vasques está tal qual é — o largo rosto prazenteiro e duro, o olhar firme, o bigode rígido completando. A energia, a esperteza, do homem — afinal tão banais, e tantas vezes repetidas por tantos milhares de homens em todo o mundo — são todavia escritas naquela fotografia como num passaporte psicológico. Os dois caixeiros viajantes estão admiráveis; o caixeiro de praça está bem, mas ficou quase por trás de um ombro de Moreira. E o Moreira! O meu chefe Moreira, essência da monotonia e da continuidade, está muito mais gente do que eu! Até o moço — reparo sem poder reprimir um sentimento que busco supor que não é inveja — tem uma certeza de cara, uma expressão directa que dista sorrisos do meu apagamento nulo de esfinge de papelaria.

O que quer isto dizer? Que verdade é esta que uma película não erra? Que certeza é esta que uma lente fria documenta? Quem sou, para que seja assim? Contudo... E o insulto do conjunto?
— «Você ficou muito bem», diz de repente o Moreira. E depois, virando-se para o caixeiro de praça, «É mesmo a carinha dele, hem?» E o caixeiro de praça concordou com uma alegria amiga que escorreu para o lixo.


/livro do desassossego - tinta da china

27.6.17

if all you have is a hammer, everything looks like a nail.


26.6.17

«uns tiveram o azar de serem apanhados pelo fogo, outros morreram por inalação de fumo quando observavam o fogo.»



não sejais abutres, ou hienas, ou qualquer outro animal sem compaixão, que faz das vítimas agonizadas, outras cadáveres, o seu repasto palavroso. aplaudi a competência em tempos extremos, demonstrai a compaixão num minuto de silêncio e acima de tudo não vos enganeis,  não é deus que não é amigo, é a natureza. e bem diz Jorge Gomes, não fosse a mania voyeurista do tuga e só tinham morrido os azarados. este homem é um Senhor, um verdadeiro humanista de mão cheia a comandar uma enorme equipa da proteção civil e da investigação.

tende vergonha, vós, corja da direitalha, que é o que deveis ser todos, de dedo em riste, pior, faca afiada, catando nas cinzas, cuspindo fel, ousando pedir cabeças em bandejas! ora, ora, ora, concidadãos, que mania essa de julgardes tudo e todos, aproveitando a corrente da tragédia, é um tique boçal. se até Guerreiro já veio ensinar-vos como acontecem as coisas, nisto da biopolítica das catástrofes, por que vos deixais cair que nem pategos, exigindo explicações do que não pode ser explicado. acontece, meus filhos, é a vida. aceitai. e  para que quereis vós a demissão dos líderes? acaso Constança fez-vos algum mal? não sabeis que o verão ainda agora começou e há muita serra para arder? quem fará os relatórios depois?

parai com isso, porque insistis em fazer perguntas sobre o "negócio" do SIRESP, não sabeis ficar quietos no vosso canto, sem chafurdar na lama, como pessoas de bem? se até o bandido do Passos Coelho veio pedir que não se cacem as bruxas, não vá alguma estar no momento a conduzir a sua vassourinha laranja. sorte a dele, que já não está no governo, caso contrário ainda ouviria da boca dos que agora são mudos, qualquer coisa assim: incompetência do governo não pode encontrar justificação na meteorologia...


Viva Portugal! Viva a classe política! Vivam os tolerantes do infortúnio!




................................

Adenda à Comédia.


436.

      [PAISAGEM DE] CHUVA

      E por fim — vejo-o por memória —, por sobre a escuridão dos telhados lustrosos, a luz fria da manhã tépida raia como um suplício do Apocalipse. É outra vez a noite imensa da claridade que aumenta. É outra vez o horror de sempre o dia, a vida, a utilidade fictícia, a actividade sem remédio. É outra vez a minha personalidade física, visível, social, transmissível por palavras que não dizem nada, usável pelos gestos dos outros e pela consciência alheia. Sou eu outra vez, tal qual não sou. Com o princípio da luz de trevas que enche de dúvidas cinzentas as frinchas das portas das janelas — longe de herméticas, meu Deus! —, vou sentindo que não poderei guardar mais o meu refúgio de estar deitado, de não estar dormindo mas de o poder estar, de ir sonhando, sem saber que há verdade nem realidade, entre um calor fresco de roupas limpas e um desconhecimento, salvo de conforto, existência do meu corpo. Vou sentindo fugir-me a inconsciência feliz com que estou gozando da minha consciência, o modorrar de animal com que espreito, entre pálpebras de gato ao sol, os movimentos da lógica da minha imaginação desprendida. Vou sentindo sumirem-se-me os privilégios penumbra, e os rios lentos sob as árvores das pestanas entrevistas, e o sussurro das cascatas perdidas entre o som do sangue lento nos ouvidos e o vago perdurar de chuva. Vou-me perdendo até vivo. 


/livro do desassossego - tinta da china/

24.6.17

a inveja impele o mundo, não diz o poeta mas digo eu. 
várias frentes, vários inimigos; antes que apareça a romãzeira do Pipoco -- que, lutando pelo primeiro lugar, não terá qualquer pudor em subornar o público leitor -- fica mais uma das minhas maravilhas: abrunhos!

peleja pela hora do calor, V. Ex.ª, com certeza fazendo-se acompanhar de algum Ambrósio e um ar condicionado portátil...

mas vamos ao que interessa, onde estão as flores da sua orquídea de duas cabeças hibernadas e uma cabeça moribunda (que de tão amarela, até dá peninha)? como pensa vir a ser alvo de inveja, com esse periquito floral escarafunchado? mas afinal quem é o general que lhe coordena as tropas? (estaria o horto fechado, à hora que a sua consierge chegou?)


abstenho-me de continuar esta guerra, por caridade à sua plantinha. pode recolher os seus mortos e tratar dos seus feridos e que tenha aprendido a lição, a inveja quer-se florida!

Declaração de Guerra à Artista Palmier


Artista Palmier,

Serve a presente missiva, teclada em QWERTY debruado a branco sobre pvc azul petróleo, para convocar V. Ex.ª à peleja mais silenciosa de que haverá memória, durante todos os séculos que hão-de vir, neste mundo virtual: a Guerra da Invídia. Enquanto a Capitã do Purpurinas não terminar a época da apanha dos reumáticos, sem braços que se encarreguem dos sabres e dos canhões, teremos de nos gladiar com o mais comum dos sentimentos, mas o mais nobre entre as gentes que são maiores (não sendo baixa, já calcei as botas de salto, que tu parece que levaste adubo no berço).

Inicio eu, que tive a ideia (absolutamente original) de te atingir com o ferrão do ódio pelo possuidor e investi num fotógrafo profissional e no aluguer de um estúdio próprio para a captação de imagens tão belas e tão raras. 

Primeiro disparo (e único, suspeito), Artista Palmier: A Fartura de Violeta -- A ORQUÍDEA MAIS BELA DA BLOGOSFERA.


de frente


de costas


já faleces nesse chão de mosaicos brancos, aposto, tal foi a pontaria do disparo.


23.6.17


s/ legenda (3 de 3)

22.6.17

como te atreves, Daniel Jonas, a dizer que a poesia não é evasão?!?
Colibri

Imagem relacionada

Entre os Astecas, as almas dos guerreiros mortos voltavam à terra sob a forma de colibris ou borboletas. (...) os índios Tucanos da Colômbia acredit(a)m que o colibri ou «pássaro-mosca» copula com as flores, representando assim o pénis, a virilidade radiosa. De resto, no Brasil, também se lhe dá o nome de beija-flor.


/in Dicionário dos Símbolos, J. Chevalier e A. Gheerbrant, teorema/ 
Marlon Brando, o sedutor, enfeitiçando-me entre a luz e a sombra.

o meu arrasa-corações
Corto Gatês, o magnifico, tem passado largas temporadas em terra. suspeito que não lhe agrade o calor em mar de palha.

Corto Gatês, namorando-me

20.6.17

vidro azul, a tocar
enquanto ouço os grilos, que começam sempre depois das rãs, o teclado molhado, o copo perigosamente entre a mão e a mesinha de cabeceira, onde perto de duas dezenas de livros se amontoam, um avião que passa, um carro ao fundo, o gato que continua a miar -- penso como seria tão bom se esta noite chovesse.  
o anoitecer na varanda, duas cadelas arfando o calor, um gin de refeição, um gato que mia, outros três esperando que o gato que mia me toque ao sentimento e lhes toque a eles uma latinha, uma cama desfeita onde me aninho sozinha, um noitibó perto, o coaxar das rãs, o telemóvel que toca e nada de novo. o enxotar das pequenas traças que buscam a luz do monitor. talvez seja esta monotonia que me agrada, esta paz fictícia que me mantém.
fique, disse-me ele, quando entrei no consultório fora de horas, ambos sabendo que não.
há demasiada raiva dentro de mim, que nasci e cresci pertos dos pinheiros e das gentes do campo. acumula-se todos os anos mais um pouco deste fel. hoje, se não fosse pela réstia de bom-senso que a experiência de vida me trouxe, mandava aqueles imbecis, corruptos e incompetentes - que não agem, reagem: tarde demais - todos prá puta que os pariu. não mandando, porque de nada me vale, senão acender um rastilho nesta selva virtual, onde as pessoas de bem - especialmente aquelas que se acham com piada ou verve no teclado- vêm dar lições do politicamente correcto e agradável, resta-me, a mim e a vós, continuar a assistir de bancada à destruição e à morte  daquilo e daqueles que neste país sempre tiverem o menor valor, |os d|o interior rural.

18.6.17

ajuda, precisa-se!

Carlos Pedrosa


saiam de casa e ajudem. há voluntários perto dos hipermercados pedindo água, leite, fruta e bolachas para os bombeiros /e vítimas/ que combatem as chamas em Pedrógão. ajudem.


CONTA SOLIDÁRIA CAIXA

IBAN: PT50 0035 0001 00100000 330 42

17.6.17



Maud Le Fort by Alex Bramall 

não consegui pedir mais do que um sumo de melancia e uma daquelas taças misturadas de gelatina, fruta e iogurte natural. vais ter fome só com isso, grunhia a vozinha dentro da cabeça, sentido o cheiro da carne grelhada. impossível!, respondi-lhe com firmeza, sabendo da falta de força para mastigar. e por ali fiquei, sentada numa sala fresca do centro da cidade, à espera que o rapaz simpático me lavasse o automóvel e a livraria se movesse milagrosamente até mim.
eu, que sou basicamente uma porcelana*, sentia os raios em brasa a queimarem-me a carne e só pensava, catano, vou parecer um camionista! o senhor pereira, refugiado debaixo do ar condicionado da sala, gritava, veja se a piscina lhe agrada, menina, é à direita! e eu, por deus, homem, não me obrigue a esta aflição -- já lá vou, sr. pereira, já lá vou, arrastando-me pelo empedrado a arder, enquanto um diabinho invisível me atazanava o cérebro em papa, com que então tinhas inveja do jardineiro?...


/* argila, quartzo, caulim e feldspato, uma beleza/

16.6.17

percebi o engano, não sou vítima, mas o meu próprio carrasco. se levei tanto tempo a saber algo tão óbvio de mim, quão ingénua seria se acreditasse que conheço a profundidade de alguém.
quanto do que encontramos nos outros será fruto da nossa construção?
o homem veio na hora de maior calor, tentei demovê-lo, que o trabalho não fugia, que podíamos remarcar, mas ele insistiu, que eu já tinha alterado a vida, que ele noutra altura não podia, e assim foi, a tarde inteira a máquina roçou o mato. eu, impossibilitada de fugir à vida, invejei a língua de fogo que lambia o corpo do homem, a secura da boca, as tonturas azuis.

13.6.17

já mais tarde, juntos na cama, deitados os dois, olhámo-nos com calma. tactei-lhe a capa rija em busca de algum relevo e toquei-lhe nas primeiras páginas devagar. suspeitava da nota inútil, mas não esperava que herberto ficasse connosco tantas linhas. foi com ele que dormi nessa noite.
o Forte veio comigo, foi tudo por acaso, nenhum de nós esperava cruzar-se com o outro naquele dia. eu entrei para comprar uma revista, cheia de pressa, que alguém me tinha pedido. ele, em ângulo indefinido - acalmem-se os matemáticos, que na escrita tudo se pode -, escondido da multidão pelas agendas de lisboa, em laranja néon, com uma faca nos dentes. António!, juro que exclamei, abraçando-o com as duas mãos.


Ao nível do mar

como o nome da flor do vinho


murmurado entre relógios de carvão


escrito devagar na cal do silêncio


como o lençol de púrpura


no peito dos amantes


de costas para a morte

ao nível do mar


como um cardume de palavras cintilantes


no horizonte de cinza e de pavor


como um cavalo branco toda a noite


de estrela para estrela


ao nível do mar


como a flor que se abre na boca dos suicidas


um homem


ferido de morte


vai falar


devagar, muito devagar, tão devagar que terminei o sumo de laranja, ainda com eles no meu campo de visão. as mãos encaixavam, como duas bocas que se conhecem de outras vidas. pela mão, ela seguia o homem da sua vida. ele atrasava o passo, para esperar pelo dela. e assim seguiam juntos pelo corredor. que coisa bonita, lembro-me de ter pensado, enquanto a rapariga da caixa gritava: TOSTA MISTA!
olho as mulheres, nas suas leggings pretas a bambolear as carnes, os chinelos de meter nos dedos, as unhas em formato de garras e fico descansada por não sentir mais do que um leve repúdio. não me atrai a insolência de quem se julga superior, porque lê meia dúzia de livros.

11.6.17


em flor (2 de 3)
findo o tríptico,



Rachmaninoff plays Mozart K. 331 Rondo alla Turca

pela boca de Maximilien Que, um ex oficial das SS alemão, contando as suas memórias,






As benevolentes, de Jonathan Littell
entrevista a Jonathan Littell, no courrier de maio, a propósito do seu documentário Wrong Elements,


Qual a razão de ter escolhido música clássica para acompanhar as imagens?

Fiz o possível por não cair naquilo a que chamo o "kitsch National Geographic" - cores sumptuosas, o nascer do sol na savana com o som de tambores ao longe... queria fazer um filme que fosse exatamente o contrário dessa estética. Para mim, a música clássica tem a vantagem de marcar a distância e, de certa forma, a minha posição como observador externo. Sou um branco ocidental em África. Não tenho os mesmos referentes culturais nem a mesma história que as pessoas que filmo. A música clássica simboliza séculos de tradições, parte das quais foram importadas para Africa através do colonialismo e da religião cristã. É com esta bagagem que nós, eu, cineasta e você, espectador, olhamos África.


[...]


Sentado na esplanada de um hotel em Gulu, Jonathan Littell fuma uma cigarrilha. Ouve-se o canto metálico dos insetos enquanto a escuridão vai caindo sobre a cidade. É a hora das dúvidas. "Sabemos o que procuramos, mas não sabemos o que vamos encontrar", conclui Littell. "Afinal, o meu documentário não passa de mais um filme de brancos sobre Africa."