2.8.17


"- O senhor, pelos vistos, está à procura de alguém - disse - mas, a propósito, parece-me que daqui a pouco o seu fato vai arder.
O desconhecido olhou para trás, afastou-se um pouco da lareira e, depois de olhar com atenção para Runévski, respondeu:
-- Não, não procuro ninguém; estou apenas surpreendido por ver neste baile tantos upires!
-- Upires - repetiu Runévski. - Como é isso, upires?
-- Upires - respondeu imperturbavelmente o desconhecido. -- Vocês, só Deus sabe porquê, chamam-lhes «vampiros», mas acredite que a sua verdadeira denominação em russo é «upir». Ora, como são de origem puramente eslava, embora se encontrem por toda a Europa e mesmo na Ásia, é infundado utilizar um nome que é uma deturpação feita por monges húngaros; estes lembraram-se de modificar tudo à moda latina, pelo que transformaram «upir» em «vampiro». Vampiro, vampiro! - repetiu com desprezo. -- É a mesma coisa que dizermos, em vez de fantasma, fantôme ou revenant!
-- Está bem... mas diga-me lá - perguntou-lhe Runévski -, como é que os vampiros, perdão, os upires, podiam vir parar aqui?
À laia de resposta, o desconhecido estendeu a mão e apontou para [...]
Runévski ouvia e não queria acreditar nos seus ouvidos.
-- Tem dúvidas? - continuou o interlocutor. Contudo, ninguém melhor do que eu pode provar que Sugróbina é upir, porque assisti ao seu funeral. Se me dessem ouvidos ter-lhe-iam espetado uma estaca de álamo no peito, por precaução; mas foi impossível! Os herdeiros não estavam presentes, ora os estranhos... querem lá saber!

/O Vampiro e a Família do Vampiro - Aleksei K. Tostói/



estamos sozinhos, eu e Aleksei. nesta brancura imaculada, serei um festim nas mãos de qualquer um dos seus upires. ele abana a cabeça, negando tal ousadia - tudo não passa de uma história, garanto-lhe! -, mas as mãos tremem-lhe, enquanto afaga a barba comprida, na antecipação do sorvo libidinoso. provoco Aleksei um pouco mais, despindo-me devagar à sua frente. seguro de si, mantém as páginas abertas, insistindo que o leve para a cama, na mais pura das intenções. pois que seja, meu caro. esta noite, serei o seu punhal.

29.7.17

sem filtros

22.7.17

Malaquias morreu entretanto, libertando a alma do sofrimento, numa última golfada de sangue. hoje, rumo sozinha para norte. no baú de Blimunda, levo o silêncio das matas queimadas, cinzas cadáveres que esperam por mim. felizmente, já estou morta, não poderei morrer outra vez.
do abraço de despedida, guardo o olhar macio oferecido no cais.

17.7.17

pensei que seria poético
voltar ao sítio onde a matei,
mas alguém já lavou as manchas de sangue
da pedra da entrada
e o cão mal se levanta.

15.7.17

escreve-me o estimado leitor, quiçá no intervalo de alguma tarefa mais exigente, para me inquirir da razão de tão baixa produtividade. a flor já não tem mão para escrever com a faca no fogo? apanhada de surpresa, - serão poucos os farrapos, não nego, mas ainda assim por cá derivam -, lanço-me à lâmina de imediato, que julgo morna, tentando provar-lhe de como estava enganado. subestimei o poder do maldito ar condicionado.
um dia, menina, estiquei-me às cerejas, em cima de um caixote de madeira. o caixote, a pino, balançou e eu caí de costas, num estrondo maciço, todo o corpo um peso-morto de mim. lembro-me dos minutos que pareceram dias e no alto as folhas verdes da cerejeira, estremecendo à brisa, sob o céu claro da manhã. quis pedir ajuda e nem um fio de voz. sem ninguém que se preocupasse em saber de mim, lembro-me das lágrimas quentes escorrendo pelo canto dos olhos e da angustia de me sentir presa num corpo imóvel. a voz voltou, trémula, antes de me conseguir mexer, mas não chamei ninguém. percebi, naquele dia, que por mais dolorosa que seja a queda, - e se foi -, o melhor era aprender a levantar-me sozinha.
esta manhã, sensível à falta e contida ainda nas réstias azedas da semana que ontem devia ter terminado, escondi-me entre as almofadas e o lençol e deixei os olhos marejarem. desisti, por alguns minutos, de mim e de tudo. depois, felizmente, aquela menina apareceu.
passamos metade da vida a tentar transformar-nos em pessoas diferentes, almejando versões melhoradas, corrigindo tiques e posições, para mais tarde, os mesmos opinadores sociológicos de outrora, nos garantirem que a felicidade está - e sempre esteve, afinal - na aceitação de nós próprios, inteiros, com os nossos defeitos e feitios.

8.7.17

No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.

«A distância que havia entre ele e a luz da fogueira não era tão importante como a sua certeza de que nunca revelaria a sua presença.»

/A Vida e o Tempo de Michael K, p. 117/
onde se lê vazio, deve ler-se uma vida inteira.