31.8.17




:)
Ah, o Algarve em agosto...

27.8.17

Sanda Vuckovic

as aves mais velhas eram mantidas num curral a duzentos metros da casa, debaixo da sobra das árvores. bastante mais dóceis do que as mais jovens, era apelidadas carinhosamente por avós. Tristan era responsável por mantê-las alimentadas, mudar-lhes as camas de palha e administrar-lhes a medicação semanal. Cirilo costumava brincar, dizendo que Tristan tratava das avós nos intervalos da sua correspondência com as netas. só quando bebia mais aguardente do que a conta, é que Tristan falava sobre o assunto. todas eram especiais, cada uma me dá algo diferente e eu dou a todas elas um pouco de mim, repetia, sorrindo. somos todos felizes e ninguém se magoa, rematava. apenas Bartolomeu franzia o sobreolho de desagrado, um dia, uma delas descobre e aparece aqui na quinta a pedir explicações, Tristan. quero ver o que fazes nessa altura. a tua vida vai transformar-se num inferno. as mulheres são ciumentas, está-lhes na condição. Tristan encolhia os ombros com indiferença, que venha, logo se verá. era um jovem intenso. nunca lhe conhecemos uma namorada, mas as cartas, envelopes perfumados de diferentes tamanhos, alguns arriscando o vermelho paixão, outros o rosa suave, a maioria o branco comum, chegavam todas as semanas à caixa de metal, colocada na extremidade do terreno, junto à estrada nacional. Petra era a que mais se emocionava com a forma diferente de amar de Tristan, e às vezes, quando o via batendo as teclas da máquina num bailado de sorrisos, suspenso no tempo sem se aperceber das horas, saía discretamente e ia ela mesma encher as manjedouras das avós. Tristan, quando dava conta do seu atraso, enfurecia-se e ripava violentamente a folha da máquina, juntando-a às restantes, presas entre as folhas rabiscadas do seu velho moleskine, que fazia de capa, e corria para o curral. 

25.8.17

no desejo da chuva porvir, ninguém do bando se espanta com a minha caneca de chá fumegante e a mão cheia de biscoitos de limão. talvez já nem se lembrem de que comi o primeiro gelado de verão ontem mesmo, depois de mais um dia no deserto caçando alacraus. a verdade é que estamos todos cansados e ansiosos pelas nuvens carregadas, que hão de vir em breve e chover toda a nossa tristeza escondida, varrendo a poeira dos dias em que nenhum de nós dormiu.

5.8.17

sob o signo da figueira, taeko, a bondosa, observa a manada. dezenas de antílopes voadores atrevem-se, por estes dias, a pousar nas margens do rio.


4.8.17

sexta-feira à noite
felizmente estou exausta, dorida, desorientada,
espero tombar na cama e dormir
sem sequer
me entreter
a ter pena
de mim

amanhã serei guerreira
outra vez
e pois que sim, que é agosto, e cá estamos na paz do senhor, que também deve ter ido de férias, e dos pelintras do costume. e diz que hoje a temperatura vai escaldar - excelente para torrar essas peles xóninhas de massa assalariada de escritório - e assim sendo, esta flor que aqui vos tecla aventurou-se num vestidinho de estação todo suavezinho e numas belíssimas meias brancas...
a raposa olha-me de esguelha, numa careta torcida, quando finjo que me esqueci do saco de areia, junto à porta dos fundos. amanhã bem cedo, diz-me com a sua voz de monge tibetano, a primeira coisa que deves fazer é mudar a areia da caixa do gato. não tugi, nem mugi -- olhei para o relógio: 00:59h!, e percebi que o melhor era rumar ao vale dos lençóis. 
nas escassas horas que permaneci em Niflheim, o assunto voltou ao centro da mesa, onde jazia a carne grelhada. o nativo, por quem nunca tive grande apreço, detentor de uma voz pastosa de tinto caseiro, insiste na tecla. e eu, sorrindo, olha que não, olha que não. mas o nativo não dá espaço às minhas refutações, ó, atão mas eu não sei? como poderá ele saber, é algo que me intriga, estando tão longe da situação. 
pela manutenção da tranquilidade caseira, e na demanda da paz regional, nada mais adiantei, rumando a conversa para o futebol. aquilo é que foi!, baba-se agora, de sorriso escancarado. e eu, segurando a peça em assunto boçal, aceno-lhe que sim e dou-lhe os parabéns.
todas as discussões valem a pena, mas nem todas as pessoas valem uma discussão. digo eu.