um domingo livre de vez em quando, foi a única exigência a si própria. hoje calhou ser esse domingo.
dormiu.
se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria
7.9.17
![]() |
| Gerda Taro e Robert Capa |
To photo, to record meat lumps and war,
They advance as does his chance -- very yellow white flash.
A violent wrench grips mass, rips light, tears limbs like rags,
Burst so high finally Capa lands,
Mine is a watery pit. Painless with immense distance
From medic from colleague, friend, enemy,
foe, him five yards from his leg, From you Taro.
Do not spray into eyes -- I have sprayed you into my eyes.
3:10 pm, Capa pends death, quivers, last rattles, last chokes
All colours and cares glaze to grey, shrivelled and stricken to dots,
Left hand grasps what the body grasps not -- le photographe est mort.
3.1415, alive no longer my amour, faded for home May of '54
Doors open like arms my love, Painless with a great closeness
To Capa, to Capa Capa dark after nothing,
re-united with his leg and with you, Taro.
Do not spray into eyes -- I have sprayed you into my eyes.
Hey Taro!
ainda vinha a guerrear comigo, a tentar-me convencer-me de que o gatinho junto ao portão aberto, tinha mãe e donos, que com certeza haveriam de tomar conta dele, e voltar a trás e roubar o gato não seria um salvamento, seria sim estranho -- mas o pobre tão rente à estrada... --, quando o vejo, altivo, em cima do muro, à minha espera. corto gatês, o meu querido gato cinzento, pirata intrépido das searas, doce animal. é raro o dia em que chego a casa e corto gatês não está para me cumprimentar, mesmo chegando eu tão tarde, mesmo chegando já tão poucas vezes.
invejo o homem a quem pago para vir todos os dias.
4.9.17
2.9.17
daqui a pouco farei a mala para partir novamente. vale-me a roupa comprada à pressa na superfície comercial da vila, como quem compra um pacote de leite num domingo de manhã. na sala das máquinas, pode dizer-se que o monte atingiu proporções épicas. ainda preciso de ir ao supermercado no instante comprar comida para os animais, pondero um banho de chuveiro. em cima da mesa da cozinha, jazem já os cinquenta euros para pagar os serviços de pet sitting. se morrer na estrada, este blog ficará ao abandono, se voltar, será como se nada tivesse sido e a única preocupação há de ser lavar toda aquela roupa suja.
1.9.17
27.8.17
as aves mais velhas eram mantidas num curral a duzentos metros da casa, debaixo da sobra das árvores. bastante mais dóceis do que as mais jovens, era apelidadas carinhosamente por avós. Tristan era responsável por mantê-las alimentadas, mudar-lhes as camas de palha e administrar-lhes a medicação semanal. Cirilo costumava brincar, dizendo que Tristan tratava das avós nos intervalos da sua correspondência com as netas. só quando bebia mais aguardente do que a conta, é que Tristan falava sobre o assunto. todas eram especiais, cada uma me dá algo diferente e eu dou a todas elas um pouco de mim, repetia, sorrindo. somos todos felizes e ninguém se magoa, rematava. apenas Bartolomeu franzia o sobreolho de desagrado, um dia, uma delas descobre e aparece aqui na quinta a pedir explicações, Tristan. quero ver o que fazes nessa altura. a tua vida vai transformar-se num inferno. as mulheres são ciumentas, está-lhes na condição. Tristan encolhia os ombros com indiferença, que venha, logo se verá. era um jovem intenso. nunca lhe conhecemos uma namorada, mas as cartas, envelopes perfumados de diferentes tamanhos, alguns arriscando o vermelho paixão, outros o rosa suave, a maioria o branco comum, chegavam todas as semanas à caixa de metal, colocada na extremidade do terreno, junto à estrada nacional. Petra era a que mais se emocionava com a forma diferente de amar de Tristan, e às vezes, quando o via batendo as teclas da máquina num bailado de sorrisos, suspenso no tempo sem se aperceber das horas, saía discretamente e ia ela mesma encher as manjedouras das avós. Tristan, quando dava conta do seu atraso, enfurecia-se e ripava violentamente a folha da máquina, juntando-a às restantes, presas entre as folhas rabiscadas do seu velho moleskine, que fazia de capa, e corria para o curral.
26.8.17
quando ela me contou que ele tinha procurado ajuda e falava de mim nas consultas, senti a lâmina a trespassar-me as entranhas quentes, como se do íntimo partilhado se pudesse declarar culpa a terceiros e administrar receita por via oral -- a roupa suja lava-se em casa, dizia a vovó Carmela, cheia de razão. já satisfeita do meu rosto apreensivo, visivelmente incomodada pela notícia, que me assegura a meia-voz, é confidencial, conclui o ataque num volte-face perverso, sossegando-me com palavras mansas de calhandreira, deixa lá, tudo passa...
25.8.17
no desejo da chuva porvir, ninguém do bando se espanta com a minha caneca de chá fumegante e a mão cheia de biscoitos de limão. talvez já nem se lembrem de que comi o primeiro gelado de verão ontem mesmo, depois de mais um dia no deserto caçando alacraus. a verdade é que estamos todos cansados e ansiosos pelas nuvens carregadas, que hão de vir em breve e chover toda a nossa tristeza escondida, varrendo a poeira dos dias em que nenhum de nós dormiu.
5.8.17
4.8.17
e pois que sim, que é agosto, e cá estamos na paz do senhor, que também deve ter ido de férias, e dos pelintras do costume. e diz que hoje a temperatura vai escaldar - excelente para torrar essas peles xóninhas de massa assalariada de escritório - e assim sendo, esta flor que aqui vos tecla aventurou-se num vestidinho de estação todo suavezinho e numas belíssimas meias brancas...
a raposa olha-me de esguelha, numa careta torcida, quando finjo que me esqueci do saco de areia, junto à porta dos fundos. amanhã bem cedo, diz-me com a sua voz de monge tibetano, a primeira coisa que deves fazer é mudar a areia da caixa do gato. não tugi, nem mugi -- olhei para o relógio: 00:59h!, e percebi que o melhor era rumar ao vale dos lençóis.
nas escassas horas que permaneci em Niflheim, o assunto voltou ao centro da mesa, onde jazia a carne grelhada. o nativo, por quem nunca tive grande apreço, detentor de uma voz pastosa de tinto caseiro, insiste na tecla. e eu, sorrindo, olha que não, olha que não. mas o nativo não dá espaço às minhas refutações, ó, atão mas eu não sei? como poderá ele saber, é algo que me intriga, estando tão longe da situação.
pela manutenção da tranquilidade caseira, e na demanda da paz regional, nada mais adiantei, rumando a conversa para o futebol. aquilo é que foi!, baba-se agora, de sorriso escancarado. e eu, segurando a peça em assunto boçal, aceno-lhe que sim e dou-lhe os parabéns.
todas as discussões valem a pena, mas nem todas as pessoas valem uma discussão. digo eu.
"Há uma época na vida em que esperamos que o mundo esteja sempre cheio de coisas novas. E depois chega o dia em que nos damos conta de que não vai ser assim. Percebemos que a vida vai ser uma coisa cheia de buracos. De ausências. De perdas. De coisas que existiram e desapareceram. E também nos apercebemos de que temos de crescer à volta e entre as lacunas, embora possamos estender a mão na direcção das coisas e sentir esse entorpecimento tenso e luminoso do espaço onde se encontram as recordações."
/A de Açor, Helen Macdonald/
3.8.17
2.8.17
recados para uma Pirata que vai ficar com Milu alguns dias em agosto.
• Milu não come mosquitos. Diz que fica enjoada. Ainda não percebi bem de onde vem isso, pensei que fosse do glúten, mas ela só come mosquitos sem glúten. Aliás, ela não come glúten. A nutricionista naturopata recomendou. Também não come ovos de melga. (nem bebe run, nem gin, nem aguardente, nem cachaça, nem whisky - apenas absinto e apenas para desmoer a digestão mais pesada.)
• Deixei um saco com comida para a Milu. Moscas sem glúten, libelinhas sem gordura, abelhas sem açúcar, larvas desidratada, nacos mirandeses na pedra e quinoa dos Andes (para ti).
• Não lhe dês bolos de pastelaria, a menos que sejam palmiers encobertos esfoliados. Nem sumos de pacote, que não tenham sido espremidos manualmente. Nem leite de vaca que não seja de origem controlada dos açores. Nem chocolates com menos de 80% de cacau, torrado em horário matinal. Nem leite com chocolate, que tem iva mais caro. (parece óbvio, mas tenho de ter em conta de que és Pirata)
• Se ela insistir muito para comer doces, dá-lhe uma peça de fruta biológica, pode estar podre. Ou deixa-a brincar com o teu órgão electrónico, piano ou lá o que é. Ou fazer tranças indianas na barba - desde que higienizada - do guedelhudo do teu cozinheiro. Ou um abraço.
• A Milu pode brincar com o iPad dela antes de ir para a cama (atenção ao acesso à pornografia! e aos vídeos sobre extraterrestres e aos sites de gastronomia chinesa). Mas não nos últimos 34 minutos antes de apagar a luz. É o que dizem os estudos mais recentes.
• Se ela ensaiar uma fita por causa disso, não a contraries. Não lhes tires o iPad das patas à força. Dialoga com ela. Convença-a. Quero que a Milu tenha capacidade de argumentação e não quero contrariá-la demasiado, para não ser castrada na construção da sua personalidade. No fim, dá-lhe um abraço. Ela precisa de três abraços por dia. Pelo menos. Por favor não te esqueças isso. E se puderes (sei que podes ou terás notícias do meu advogado), dá-lhe abraços de pele a tocar na pele. A energia positiva assim passa de forma mais eficaz, a peçonha também.
Paulo Farinha, daqui, visto por aí
• Milu não come mosquitos. Diz que fica enjoada. Ainda não percebi bem de onde vem isso, pensei que fosse do glúten, mas ela só come mosquitos sem glúten. Aliás, ela não come glúten. A nutricionista naturopata recomendou. Também não come ovos de melga. (nem bebe run, nem gin, nem aguardente, nem cachaça, nem whisky - apenas absinto e apenas para desmoer a digestão mais pesada.)
• Deixei um saco com comida para a Milu. Moscas sem glúten, libelinhas sem gordura, abelhas sem açúcar, larvas desidratada, nacos mirandeses na pedra e quinoa dos Andes (para ti).
• Não lhe dês bolos de pastelaria, a menos que sejam palmiers encobertos esfoliados. Nem sumos de pacote, que não tenham sido espremidos manualmente. Nem leite de vaca que não seja de origem controlada dos açores. Nem chocolates com menos de 80% de cacau, torrado em horário matinal. Nem leite com chocolate, que tem iva mais caro. (parece óbvio, mas tenho de ter em conta de que és Pirata)
• Se ela insistir muito para comer doces, dá-lhe uma peça de fruta biológica, pode estar podre. Ou deixa-a brincar com o teu órgão electrónico, piano ou lá o que é. Ou fazer tranças indianas na barba - desde que higienizada - do guedelhudo do teu cozinheiro. Ou um abraço.
• A Milu pode brincar com o iPad dela antes de ir para a cama (atenção ao acesso à pornografia! e aos vídeos sobre extraterrestres e aos sites de gastronomia chinesa). Mas não nos últimos 34 minutos antes de apagar a luz. É o que dizem os estudos mais recentes.
• Se ela ensaiar uma fita por causa disso, não a contraries. Não lhes tires o iPad das patas à força. Dialoga com ela. Convença-a. Quero que a Milu tenha capacidade de argumentação e não quero contrariá-la demasiado, para não ser castrada na construção da sua personalidade. No fim, dá-lhe um abraço. Ela precisa de três abraços por dia. Pelo menos. Por favor não te esqueças isso. E se puderes (sei que podes ou terás notícias do meu advogado), dá-lhe abraços de pele a tocar na pele. A energia positiva assim passa de forma mais eficaz, a peçonha também.
Paulo Farinha, daqui, visto por aí
"- O senhor, pelos vistos, está à procura de alguém - disse - mas, a propósito, parece-me que daqui a pouco o seu fato vai arder.
O desconhecido olhou para trás, afastou-se um pouco da lareira e, depois de olhar com atenção para Runévski, respondeu:
-- Não, não procuro ninguém; estou apenas surpreendido por ver neste baile tantos upires!
-- Upires - repetiu Runévski. - Como é isso, upires?
-- Upires - respondeu imperturbavelmente o desconhecido. -- Vocês, só Deus sabe porquê, chamam-lhes «vampiros», mas acredite que a sua verdadeira denominação em russo é «upir». Ora, como são de origem puramente eslava, embora se encontrem por toda a Europa e mesmo na Ásia, é infundado utilizar um nome que é uma deturpação feita por monges húngaros; estes lembraram-se de modificar tudo à moda latina, pelo que transformaram «upir» em «vampiro». Vampiro, vampiro! - repetiu com desprezo. -- É a mesma coisa que dizermos, em vez de fantasma, fantôme ou revenant!
-- Está bem... mas diga-me lá - perguntou-lhe Runévski -, como é que os vampiros, perdão, os upires, podiam vir parar aqui?
À laia de resposta, o desconhecido estendeu a mão e apontou para [...]
Runévski ouvia e não queria acreditar nos seus ouvidos.
-- Tem dúvidas? - continuou o interlocutor. Contudo, ninguém melhor do que eu pode provar que Sugróbina é upir, porque assisti ao seu funeral. Se me dessem ouvidos ter-lhe-iam espetado uma estaca de álamo no peito, por precaução; mas foi impossível! Os herdeiros não estavam presentes, ora os estranhos... querem lá saber!
/O Vampiro e a Família do Vampiro - Aleksei K. Tostói/
estamos sozinhos, eu e Aleksei. nesta brancura imaculada, serei um festim nas mãos de qualquer um dos seus upires. ele abana a cabeça, negando tal ousadia - tudo não passa de uma história, garanto-lhe! -, mas as mãos tremem-lhe, enquanto afaga a barba comprida, na antecipação do sorvo libidinoso. provoco Aleksei um pouco mais, despindo-me devagar à sua frente. seguro de si, mantém as páginas abertas, insistindo que o leve para a cama, na mais pura das intenções. pois que seja, meu caro. esta noite, serei o seu punhal.
22.7.17
Malaquias morreu entretanto, libertando a alma do sofrimento, numa última golfada de sangue. hoje, rumo sozinha para norte. no baú de Blimunda, levo o silêncio das matas queimadas, cinzas cadáveres que esperam por mim. felizmente, já estou morta, não poderei morrer outra vez.
do abraço de despedida, guardo o olhar macio oferecido no cais.
18.7.17
17.7.17
15.7.17
escreve-me o estimado leitor, quiçá no intervalo de alguma tarefa mais exigente, para me inquirir da razão de tão baixa produtividade. a flor já não tem mão para escrever com a faca no fogo? apanhada de surpresa, - serão poucos os farrapos, não nego, mas ainda assim por cá derivam -, lanço-me à lâmina de imediato, que julgo morna, tentando provar-lhe de como estava enganado. subestimei o poder do maldito ar condicionado.
um dia, menina, estiquei-me às cerejas, em cima de um caixote de madeira. o caixote, a pino, balançou e eu caí de costas, num estrondo maciço, todo o corpo um peso-morto de mim. lembro-me dos minutos que pareceram dias e no alto as folhas verdes da cerejeira, estremecendo à brisa, sob o céu claro da manhã. quis pedir ajuda e nem um fio de voz. sem ninguém que se preocupasse em saber de mim, lembro-me das lágrimas quentes escorrendo pelo canto dos olhos e da angustia de me sentir presa num corpo imóvel. a voz voltou, trémula, antes de me conseguir mexer, mas não chamei ninguém. percebi, naquele dia, que por mais dolorosa que seja a queda, - e se foi -, o melhor era aprender a levantar-me sozinha.
esta manhã, sensível à falta e contida ainda nas réstias azedas da semana que ontem devia ter terminado, escondi-me entre as almofadas e o lençol e deixei os olhos marejarem. desisti, por alguns minutos, de mim e de tudo. depois, felizmente, aquela menina apareceu.
passamos metade da vida a tentar transformar-nos em pessoas diferentes, almejando versões melhoradas, corrigindo tiques e posições, para mais tarde, os mesmos opinadores sociológicos de outrora, nos garantirem que a felicidade está - e sempre esteve, afinal - na aceitação de nós próprios, inteiros, com os nossos defeitos e feitios.
8.7.17
6.7.17
Há muitas solidões cruzadas - diz - em cima e em baixo
e outras no meio; diferentes e semelhantes, forçadas e impostas
ou como que escolhidas, como que livres - mas sempre cruzadas.
Mas no fundo, no centro, há apenas uma solidão - diz;
uma cidade vazia, quase esférica, sem quaisquer
anúncios luminosos multicores, sem lojas, sem motocicletas,
com uma luz branca, vazia, brumosa, interrompida
por centelhas de desconhecidos semáforos. Nesta cidade
habitam desde há anos os poetas. Caminham silenciosos de braços cruzados,
recordam factos imprecisos, esquecidos, palavras, paisagens,
estes consoladores do mundo, sempre inconsolados, perseguidos
pelos cães, pelos homens, pelos vermes, pelos ratos, pelas estrelas,
perseguidos até pelas suas próprias palavras, ditas ou não ditas.
Giánnis Ritsos (1972) | Antologia | Fora do Texto | 1993
daqui: (em)quanto vivo o nome
5.7.17
Não era um trabalho fácil, correr atrás das aves, que tinham o dobro da nossa altura, quando a manhã já ia longa e o calor começava a apertar. Petra ficava no posto da vigia, pendurada na cancela mais alta, e ia gritando instruções, à direita, Jasmim!, Cuidado, Bartolomeu!, atenção à Cotovia! Nós tentávamos seguir a sua voz, enquanto rodopiávamos como bailarinas bêbedas, dentro das botas velhas de couro, que nos ficavam largas. Cirilo, gracioso na sua habilidade de fintar os adversários, era o único que se divertia. Quando a última ave entrava na galinheiro, também ela já exausta, caímos todos, menos Cirilo, de joelhos no chão. Petra ajudava-nos a levantar e obrigava-nos a beber o chá de urtigas ainda quente. Sabe a mijo!, gozava Jasmim. Urina de alpaca, corrigia Petra, com um sorriso.
1. Espero uma chegada, um regresso, um sinal prometido. Pode ser fútil ou terrivelmente patético: em Erwartung (Espera, Schönberg), uma mulher espera o amante, de noite, na floresta; eu não espero senão um toque do telefone, mas a angustia é a mesma. Tudo é solene: não tenho o sentido das proporções.
/Fragmentos de um Discurso Amoroso/
2.7.17
I
A guerra é a mãe e a rainha de todos.
A alguns transforma em deuses, a outros em homens.
De alguns faz escravos, de outros homens livres.
A primeira coisa que a parteira notou em Michael K, ao tirá-lo do ventre da mãe, foi que ele tinha um lábio leporino e a narina esquerda dilatada. Segurou o bebé, por instantes, abriu-lhe a boquinha e ficou aliviada ao descobrir que o céu da boca estava intacto.
Voltando-se para a mãe, exclamou:
—Deve sentir-se feliz! Traz sorte à casa!
Porém, desde o primeiro instante, Anna K não gostou daquela boquinha que não fechava e da carnação rósea que ficava à vista.
/A Vida e o Tempo de Michael K/
Porém, desde o primeiro instante, Anna K não gostou daquela boquinha que não fechava e da carnação rósea que ficava à vista.
/A Vida e o Tempo de Michael K/
13 de Maio
Lá vai a Teles, e a D. Restituta — lá vai a mulher da esfrega empurrando o farrapo monstruoso que se agita na noite... A sombra e a mulher da esfrega, o espanto e a mulher da esfrega, o sonho dourado de grandes asas esfarrapadas no negrume e as mãos encortiçadas de lavar a loiça, a vida frenética e a vida humilde. Uma boca enorme de um lado, a voz da Joana do outro, sentimentos caóticos impossíveis de traduzir em palavras, o que exprime a natureza impulsiva, o que responde uma criatura agarrada à ideia do sacrifício. — Anda para diante. Estúpida! Estúpida! A bondade entranhou-se-lhe até ao âmago.
Caminha ao lado da D. Restituta, que atravessou a vida com o guarda-chuva incólume e que faz gestos desordenados no escuro:
— Acuso! Acuso! Acuso!
— Senhora D. Restituta...
A senhora D. Restituta está cheia de lama. Tem a pena do quico partida: é uma figura feita com três traços de tinta e algumas manchas de desespero. O sonho doura-a, esfarrapa-a também. A pena em frangalhos agita-se como um pendão de revolta, esgarçado e chamuscado. Todas as vontades a compeliram e a esmagaram — quer retomar a forma primitiva. Dir-se-ia que cresce na noite, e que a sua boca é uma bocarra cada vez maior, para pregar, para açular, para vomitar injúrias. Somente não emite outro som senão este: — Acuso! — a velha gasta, a velha inútil, a D. Restituta da Piedade Sardinha.
— Senhora D. Restituta...
A outra não vê, não ouve, não mexe.
— Minha senhora...
— Acuso!
— ...para o que se vive neste mundo não paga a pena ruindades.
Debalde a Joana lhe fala. Resta diante do sonho com a mandíbula despegada e o velho guarda-chuva que conserva intacto desde a sua primeira virgindade — teve duas — metido debaixo do braço. Nem uma nem outra entendem aquilo. Uma empurra, afasta de si o sonho com as mãos de lavar a loiça, a outra com as mãos pacientes, as mãos diáfanas da mentira. Tem feito sempre todas as vontades, e se a figura um momento se engrandece, amarfanha-se logo, como um trapo suspenso que se deixa cair ao chão.
— Acuso! Acuso! Acuso! (...)
/Húmus/
Lá vai a Teles, e a D. Restituta — lá vai a mulher da esfrega empurrando o farrapo monstruoso que se agita na noite... A sombra e a mulher da esfrega, o espanto e a mulher da esfrega, o sonho dourado de grandes asas esfarrapadas no negrume e as mãos encortiçadas de lavar a loiça, a vida frenética e a vida humilde. Uma boca enorme de um lado, a voz da Joana do outro, sentimentos caóticos impossíveis de traduzir em palavras, o que exprime a natureza impulsiva, o que responde uma criatura agarrada à ideia do sacrifício. — Anda para diante. Estúpida! Estúpida! A bondade entranhou-se-lhe até ao âmago.
Caminha ao lado da D. Restituta, que atravessou a vida com o guarda-chuva incólume e que faz gestos desordenados no escuro:
— Acuso! Acuso! Acuso!
— Senhora D. Restituta...
A senhora D. Restituta está cheia de lama. Tem a pena do quico partida: é uma figura feita com três traços de tinta e algumas manchas de desespero. O sonho doura-a, esfarrapa-a também. A pena em frangalhos agita-se como um pendão de revolta, esgarçado e chamuscado. Todas as vontades a compeliram e a esmagaram — quer retomar a forma primitiva. Dir-se-ia que cresce na noite, e que a sua boca é uma bocarra cada vez maior, para pregar, para açular, para vomitar injúrias. Somente não emite outro som senão este: — Acuso! — a velha gasta, a velha inútil, a D. Restituta da Piedade Sardinha.
— Senhora D. Restituta...
A outra não vê, não ouve, não mexe.
— Minha senhora...
— Acuso!
— ...para o que se vive neste mundo não paga a pena ruindades.
Debalde a Joana lhe fala. Resta diante do sonho com a mandíbula despegada e o velho guarda-chuva que conserva intacto desde a sua primeira virgindade — teve duas — metido debaixo do braço. Nem uma nem outra entendem aquilo. Uma empurra, afasta de si o sonho com as mãos de lavar a loiça, a outra com as mãos pacientes, as mãos diáfanas da mentira. Tem feito sempre todas as vontades, e se a figura um momento se engrandece, amarfanha-se logo, como um trapo suspenso que se deixa cair ao chão.
— Acuso! Acuso! Acuso! (...)
/Húmus/
(...), poetry gives words to the heart.
agradeço ao (maravilhoso) arquivo de cabeceira por me recordar de Lawrence Ferlinghetti e da sua (a) poesia como arte insurgente.
1.7.17
secretamente, ansiava um vendaval para esta manhã, chuva torrencial, ventos ciclónicos, qualquer desculpa que me limpasse a vergonha de cancelar o compromisso. bem cedo, deambulei até ao jardim, onde me deixei ficar a remoer o destino. com agenda tão apertada e os pneus dianteiros carecas, dar a volta à serra não é brincadeira que me apeteça.
28.6.17
5-4-1930
Hoje quando cheguei ao escritório, um pouco tarde, e, em verdade, esquecido lá do acontecimento estático da Fotografia duas vezes tirada, encontrei o Moreira, inesperadamente matutino, e um dos caixeiros de praça debruçados rebuçadamente sobre umas coisas enegrecidas, que reconheci logo, em sobressalto, como as primeiras provas das fotografias. Eram, afinal, duas só de uma, daquela que ficara melhor.
Sofri a verdade ao ver-me ali, porque, como é de supor, foi a mim mesmo que primeiro busquei. Nunca tive uma ideia nobre da minha presença física, mas nunca a senti tão nula como em comparação com as outras caras, tão minhas conhecidas, naquele alinhamento de quotidianos. Pareço um jesuíta fruste. A minha cara magra e inexpressiva nem tem inteligência, nem intensidade, nem qualquer coisa, seja o que for, que a alce da maré morta das outras caras. Da maré morta, não. Há ali rostos verdadeiramente expressivos. O patrão Vasques está tal qual é — o largo rosto prazenteiro e duro, o olhar firme, o bigode rígido completando. A energia, a esperteza, do homem — afinal tão banais, e tantas vezes repetidas por tantos milhares de homens em todo o mundo — são todavia escritas naquela fotografia como num passaporte psicológico. Os dois caixeiros viajantes estão admiráveis; o caixeiro de praça está bem, mas ficou quase por trás de um ombro de Moreira. E o Moreira! O meu chefe Moreira, essência da monotonia e da continuidade, está muito mais gente do que eu! Até o moço — reparo sem poder reprimir um sentimento que busco supor que não é inveja — tem uma certeza de cara, uma expressão directa que dista sorrisos do meu apagamento nulo de esfinge de papelaria.
O que quer isto dizer? Que verdade é esta que uma película não erra? Que certeza é esta que uma lente fria documenta? Quem sou, para que seja assim? Contudo... E o insulto do conjunto?
— «Você ficou muito bem», diz de repente o Moreira. E depois, virando-se para o caixeiro de praça, «É mesmo a carinha dele, hem?» E o caixeiro de praça concordou com uma alegria amiga que escorreu para o lixo.
O sócio capitalista aqui da firma, sempre doente em parte incerta, quis, não sei por que capricho de que intervalo de doença, ter um retrato do conjunto do pessoal do escritório. E assim, anteontem, alinhámos todos, por indicação do fotógrafo alegre, contra a barreira branca suja que divide, com madeira frágil, o escritório geral do gabinete do patrão Vasques. Ao centro o mesmo Vasques; nas duas alas, numa distribuição primeiro definida, depois indefinida, de categorias, as outras almas humanas que aqui se reúnem em corpo todos os dias para pequenos fins cujo último intuito só o segredo dos Deuses conhece.
Hoje quando cheguei ao escritório, um pouco tarde, e, em verdade, esquecido lá do acontecimento estático da Fotografia duas vezes tirada, encontrei o Moreira, inesperadamente matutino, e um dos caixeiros de praça debruçados rebuçadamente sobre umas coisas enegrecidas, que reconheci logo, em sobressalto, como as primeiras provas das fotografias. Eram, afinal, duas só de uma, daquela que ficara melhor.
Sofri a verdade ao ver-me ali, porque, como é de supor, foi a mim mesmo que primeiro busquei. Nunca tive uma ideia nobre da minha presença física, mas nunca a senti tão nula como em comparação com as outras caras, tão minhas conhecidas, naquele alinhamento de quotidianos. Pareço um jesuíta fruste. A minha cara magra e inexpressiva nem tem inteligência, nem intensidade, nem qualquer coisa, seja o que for, que a alce da maré morta das outras caras. Da maré morta, não. Há ali rostos verdadeiramente expressivos. O patrão Vasques está tal qual é — o largo rosto prazenteiro e duro, o olhar firme, o bigode rígido completando. A energia, a esperteza, do homem — afinal tão banais, e tantas vezes repetidas por tantos milhares de homens em todo o mundo — são todavia escritas naquela fotografia como num passaporte psicológico. Os dois caixeiros viajantes estão admiráveis; o caixeiro de praça está bem, mas ficou quase por trás de um ombro de Moreira. E o Moreira! O meu chefe Moreira, essência da monotonia e da continuidade, está muito mais gente do que eu! Até o moço — reparo sem poder reprimir um sentimento que busco supor que não é inveja — tem uma certeza de cara, uma expressão directa que dista sorrisos do meu apagamento nulo de esfinge de papelaria.
O que quer isto dizer? Que verdade é esta que uma película não erra? Que certeza é esta que uma lente fria documenta? Quem sou, para que seja assim? Contudo... E o insulto do conjunto?
— «Você ficou muito bem», diz de repente o Moreira. E depois, virando-se para o caixeiro de praça, «É mesmo a carinha dele, hem?» E o caixeiro de praça concordou com uma alegria amiga que escorreu para o lixo.
/livro do desassossego - tinta da china
27.6.17
26.6.17
«uns tiveram o azar de serem apanhados pelo fogo, outros morreram por inalação de fumo quando observavam o fogo.»
não sejais abutres, ou hienas, ou qualquer outro animal sem compaixão, que faz das vítimas agonizadas, outras cadáveres, o seu repasto palavroso. aplaudi a competência em tempos extremos, demonstrai a compaixão num minuto de silêncio e acima de tudo não vos enganeis, não é deus que não é amigo, é a natureza. e bem diz Jorge Gomes, não fosse a mania voyeurista do tuga e só tinham morrido os azarados. este homem é um Senhor, um verdadeiro humanista de mão cheia a comandar uma enorme equipa da proteção civil e da investigação.
tende vergonha, vós, corja da direitalha, que é o que deveis ser todos, de dedo em riste, pior, faca afiada, catando nas cinzas, cuspindo fel, ousando pedir cabeças em bandejas! ora, ora, ora, concidadãos, que mania essa de julgardes tudo e todos, aproveitando a corrente da tragédia, é um tique boçal. se até Guerreiro já veio ensinar-vos como acontecem as coisas, nisto da biopolítica das catástrofes, por que vos deixais cair que nem pategos, exigindo explicações do que não pode ser explicado. acontece, meus filhos, é a vida. aceitai. e para que quereis vós a demissão dos líderes? acaso Constança fez-vos algum mal? não sabeis que o verão ainda agora começou e há muita serra para arder? quem fará os relatórios depois?
parai com isso, porque insistis em fazer perguntas sobre o "negócio" do SIRESP, não sabeis ficar quietos no vosso canto, sem chafurdar na lama, como pessoas de bem? se até o bandido do Passos Coelho veio pedir que não se cacem as bruxas, não vá alguma estar no momento a conduzir a sua vassourinha laranja. sorte a dele, que já não está no governo, caso contrário ainda ouviria da boca dos que agora são mudos, qualquer coisa assim: incompetência do governo não pode encontrar justificação na meteorologia...
Viva Portugal! Viva a classe política! Vivam os tolerantes do infortúnio!
................................
Adenda à Comédia.
parai com isso, porque insistis em fazer perguntas sobre o "negócio" do SIRESP, não sabeis ficar quietos no vosso canto, sem chafurdar na lama, como pessoas de bem? se até o bandido do Passos Coelho veio pedir que não se cacem as bruxas, não vá alguma estar no momento a conduzir a sua vassourinha laranja. sorte a dele, que já não está no governo, caso contrário ainda ouviria da boca dos que agora são mudos, qualquer coisa assim: incompetência do governo não pode encontrar justificação na meteorologia...
Viva Portugal! Viva a classe política! Vivam os tolerantes do infortúnio!
................................
Adenda à Comédia.
436.
[PAISAGEM DE] CHUVA
[PAISAGEM DE] CHUVA
E por fim — vejo-o por memória —, por sobre a escuridão dos telhados lustrosos, a luz fria da manhã tépida raia como um suplício do Apocalipse. É outra vez a noite imensa da claridade que aumenta. É outra vez o horror de sempre o dia, a vida, a utilidade fictícia, a actividade sem remédio. É outra vez a minha personalidade física, visível, social, transmissível por palavras que não dizem nada, usável pelos gestos dos outros e pela consciência alheia. Sou eu outra vez, tal qual não sou. Com o princípio da luz de trevas que enche de dúvidas cinzentas as frinchas das portas das janelas — longe de herméticas, meu Deus! —, vou sentindo que não poderei guardar mais o meu refúgio de estar deitado, de não estar dormindo mas de o poder estar, de ir sonhando, sem saber que há verdade nem realidade, entre um calor fresco de roupas limpas e um desconhecimento, salvo de conforto, existência do meu corpo. Vou sentindo fugir-me a inconsciência feliz com que estou gozando da minha consciência, o modorrar de animal com que espreito, entre pálpebras de gato ao sol, os movimentos da lógica da minha imaginação desprendida. Vou sentindo sumirem-se-me os privilégios penumbra, e os rios lentos sob as árvores das pestanas entrevistas, e o sussurro das cascatas perdidas entre o som do sangue lento nos ouvidos e o vago perdurar de chuva. Vou-me perdendo até vivo.
/livro do desassossego - tinta da china/
Subscrever:
Mensagens (Atom)














