28.10.17

Carla Fernández Andrade

Si, quiero imágenes bellas pero no busco una postal y dentro de todo esto me interesa el paisaje. Además tengo mucha influencia del idealismo alemán buscando la relación que hay entre hombre y entorno. Por esto me gustan los paisajes desolados y silenciosos sin ningún estímulo externo que los contamine. La búsqueda de silencio, ese concepto que describía Kant: la contemplación. Elemento base para llegar al instante pleno, al lugar donde se expande la conciencia. (***)

Carla Fernández Andrade


22.10.17

yukiko é sempre a primeira a levantar-se para regressar, só depois de a ver percorrer alguns metros é que taeko se ergue da cama improvisada nas ervas. conheço-lhes o caminho, tenho cerca de três minutos para acabar este texto, se vierem sempre a direito. três minutos para dizer alguma coisa que valha, antes que yukiko e taeko entrem pela porta de serviço. enquanto procuro as palavras certas, - ou certeiras, dir-me-ia o Damas, se tivesse dormido comigo esta noite, mas faz tempo que não vem -, para limpar a névoa densa que se instalou no meu sorriso. a manhã está fresca, mas cá dentro, com o sol a lamber-me as pernas e o cheiro do café por beber, só a alma se mantém agasalhada. caminham lentamente, as minhas andorinhas gordas, vejo-as daqui e continuo a teclar. marlon brando, atrevido, aproveitou a porta aberta e passeia seguro pela casa inteira. sacana do gato: lá pra fora, marlon brando! podem vir cansadas, mas taeko não resistirá à infrutífera perseguição. marlon brando, na sua passada gingona, vai-se embora apenas porque quer. resta-me pouco tempo, melhor será que comece já a escrever alguma coisa do que quero dizer. não é fácil apalavrar a saudade do corpo que renasce na mão do outro. a distância corrói-nos as certezas, palavras do Damas, ámen. yukiko chegou, feliz na sua canseira, e pede-me todos os mimos a que tem direito. eram tres minutos -- sem acento, que teclo apenas com o indicador direito.

19.10.17

não chores em frente ao teu pai, minha filha.

lembrei-me delas hoje, quando vi a rapariga lavada em lágrimas, sozinha no corredor, tentando esconder-se entre o branco das paredes e o cinzento do chão. a dor de uma morte anunciada.

15.10.17

reconheço o voo de um morcego, no sopro quente da noite, enquanto taeko e yukiko descem a ladeira. chia, agitando atabalhoadamente as pequenas membranas. talvez depois da caça - e a noite promete - se junte a mim outra vez. que belo par de dança faríamos os dois.
é o bafo do diabo!, grita Cirilo, antes de tapar a boca e o nariz com o lenço vermelho. avançamos naquele deserto de terra fina que o vento levanta em remoinhos bravios. o ponteiro marca 34º. devem estar bonitas as avenidas da cidade grande, murmura Petra perto de mim, ajeitando o pano do rosto, com as folhas a dançar no asfalto. continuamos a caminhar, carregando o cansaço mudo às costas. sem nos darmos conta, arrastamos os pés pelo chão castanho, pequenas dunas intermináveis, numa busca sem propósito. alguns de nós, entre as rajadas de vento, começam a soletrar nomes estranhos de doenças, enquanto os restantes encolhem os ombros, gemendo que é só cansaço. ninguém se atreve a desejar a chuva em voz alta, temendo o peso da lama nas botas. é o bafo do diabo, grita outra vez Cirilo, anunciando a trovoada que está a caminho, temos que nos despachar!
é feroz o cansaço que me cavalga, depois de uma noite inteira deambulando pelos corredores deste labirinto sem fim.

13.10.17

Flor





...
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa

...

cereja, Beta, hoje é cereja! e um flute de champagne, se faz favor!
e a Beta ri-se, [e eu gosto de fazer rir a Beta, que é uma moça simpática,] e manda-me sentar na cadeira almofadada.
dizem-me que tenha calma, que cheguei cedo demais, que tenho de ensinar as pessoas -- logo eu, que chego sempre no final da festa. aceno ligeiramente a cabeça, para desviar o rumo da conversa, enquanto tacteio a garganta, tentando adivinhar quão perto estará a corda do nó.