até lá, vou discutindo a agenda da semana difícil que aí vem com o sr. Caraças.
se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria
29.10.17
a oliveira da Eurídice
Eurídice tinha uma oliveira com quem podia conversar sobre o que lhe apetecesse - até da vontade exótica de criar uma osga em cativeiro. invejei a ideia (não a da osga, que já tenho práqui osgas às dúzias e não preciso de mais nenhuma, nem que venha treinada) e a oliveira de Eurídice, desde o primeiro momento em que, procurando uma imagem na teia digital, as encontrei. falar sozinha, como eu faço, é coisa dos maluquinhos comuns, já a raposa mo tinha dito, mas as plantas de vaso que me adornam a secretária são flora sensível de estufa, que não conhecendo os rigores do frio de inverno, como conseguiriam acompanhar-me nos mistérios da vida? quanto muito, tagarelar deste ou daquela, que vão surgindo no ecrã. dos livros, falo sempre com quem lá mora e o assunto fica arrumado.
com desejos de imitar Eurídice, em busca da minha oliveira, dei por mim à procura de uma árvore da vida, dessas que sabem das fissuras da alma, dos líquenes foliosos e dos bichos da madeira. já tomada a oliveira por Eurídice, procurei na minha infância a nogueira gigante do avô alberto. magistral, imponente - demasiado grande, concluí, não dá para trazer para o quintal. a tília bonita da minha mãe, o cedro do meu irmão, as minhas framboeseiras, a cerejeira onde caí, mas nada me pareceu ter filosofia linguística suficiente.
Eurídice há muito que se ausentou para local incerto, tendo levado a oliveira consigo, agora nem a oliveira da Eurídice, nem uma árvore só minha. continuo em demanda.
com desejos de imitar Eurídice, em busca da minha oliveira, dei por mim à procura de uma árvore da vida, dessas que sabem das fissuras da alma, dos líquenes foliosos e dos bichos da madeira. já tomada a oliveira por Eurídice, procurei na minha infância a nogueira gigante do avô alberto. magistral, imponente - demasiado grande, concluí, não dá para trazer para o quintal. a tília bonita da minha mãe, o cedro do meu irmão, as minhas framboeseiras, a cerejeira onde caí, mas nada me pareceu ter filosofia linguística suficiente.
Eurídice há muito que se ausentou para local incerto, tendo levado a oliveira consigo, agora nem a oliveira da Eurídice, nem uma árvore só minha. continuo em demanda.
28.10.17
Si, quiero imágenes bellas pero no busco una postal y dentro de todo esto me interesa el paisaje. Además tengo mucha influencia del idealismo alemán buscando la relación que hay entre hombre y entorno. Por esto me gustan los paisajes desolados y silenciosos sin ningún estímulo externo que los contamine. La búsqueda de silencio, ese concepto que describía Kant: la contemplación. Elemento base para llegar al instante pleno, al lugar donde se expande la conciencia. (***)
|
| Carla Fernández Andrade |
22.10.17
yukiko é sempre a primeira a levantar-se para regressar, só depois de a ver percorrer alguns metros é que taeko se ergue da cama improvisada nas ervas. conheço-lhes o caminho, tenho cerca de três minutos para acabar este texto, se vierem sempre a direito. três minutos para dizer alguma coisa que valha, antes que yukiko e taeko entrem pela porta de serviço. enquanto procuro as palavras certas, - ou certeiras, dir-me-ia o Damas, se tivesse dormido comigo esta noite, mas faz tempo que não vem -, para limpar a névoa densa que se instalou no meu sorriso. a manhã está fresca, mas cá dentro, com o sol a lamber-me as pernas e o cheiro do café por beber, só a alma se mantém agasalhada. caminham lentamente, as minhas andorinhas gordas, vejo-as daqui e continuo a teclar. marlon brando, atrevido, aproveitou a porta aberta e passeia seguro pela casa inteira. sacana do gato: lá pra fora, marlon brando! podem vir cansadas, mas taeko não resistirá à infrutífera perseguição. marlon brando, na sua passada gingona, vai-se embora apenas porque quer. resta-me pouco tempo, melhor será que comece já a escrever alguma coisa do que quero dizer. não é fácil apalavrar a saudade do corpo que renasce na mão do outro. a distância corrói-nos as certezas, palavras do Damas, ámen. yukiko chegou, feliz na sua canseira, e pede-me todos os mimos a que tem direito. eram tres minutos -- sem acento, que teclo apenas com o indicador direito.
19.10.17
15.10.17
é o bafo do diabo!, grita Cirilo, antes de tapar a boca e o nariz com o lenço vermelho. avançamos naquele deserto de terra fina que o vento levanta em remoinhos bravios. o ponteiro marca 34º. devem estar bonitas as avenidas da cidade grande, murmura Petra perto de mim, ajeitando o pano do rosto, com as folhas a dançar no asfalto. continuamos a caminhar, carregando o cansaço mudo às costas. sem nos darmos conta, arrastamos os pés pelo chão castanho, pequenas dunas intermináveis, numa busca sem propósito. alguns de nós, entre as rajadas de vento, começam a soletrar nomes estranhos de doenças, enquanto os restantes encolhem os ombros, gemendo que é só cansaço. ninguém se atreve a desejar a chuva em voz alta, temendo o peso da lama nas botas. é o bafo do diabo, grita outra vez Cirilo, anunciando a trovoada que está a caminho, temos que nos despachar!
13.10.17
7.10.17
plano b:
receando a putrefacção acelerada,
com trinta e três de máxima outonal,
basta alguma varejeira estropiada aparecer;
- não quero que me fotografem apenas o osso,
isso seria a ironia de uma vida inteira -,
talvez adie isto do suicídio para outra altura,
quem sabe no dia de natal,
e hoje vá trabalhar.
receando a putrefacção acelerada,
com trinta e três de máxima outonal,
basta alguma varejeira estropiada aparecer;
- não quero que me fotografem apenas o osso,
isso seria a ironia de uma vida inteira -,
talvez adie isto do suicídio para outra altura,
quem sabe no dia de natal,
e hoje vá trabalhar.
6.10.17
5.10.17
Alimento a esperança de que um dia chegarei a casa com as mãos cheias de ventos. Para já, continua a escapar-me entre os dedos.
há duas noites que me deito com as almas de vento dançando nos canaviais. entrelaçam-se em correntes frenéticas que me assustam, bramindo como o vale lhes pertence. os cães, sentindo-lhes a presença, atiram-se de dentes afiados num ladrar continuo. o medo que se apodera das minhas pernas e do coração que dispara no peito não me impede de as procurar na escuridão da varanda. ouço-as, mas continuo sem lhes conseguir responder. o vento é a alma dos mortos.
3.10.17
se o outono fosse meu*, hoje passava a tarde na floresta - casaco de lã, botas calçadas, Taeko e Yukiko comigo -, saboreando o cheiro da resina e o verde dos fetos tacteados, ao som das ferreirinhas, e só voltava pela hora do lanche, scones mornos com manteiga e doce, chá de tília e marmelos assados, pelas mãos ternas da minha mãe.
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
*movimento outonal iniciado pela Mia, seguido pelo Impontual e pelo Talqualmenteoutro
1.10.17
com a ideia de me convencer de que vale a pena ir votar daqui a pouco - ou desenhar pilinhas falantes no boletim - num dos vários aldrabões cá do burgo, decidi manhã cedo ir lavar as latrinas do gatil. não podendo remover o estrume camarário, - espaço, garantidamente, com mais corrupção e compadrio por metro quadrado -, sempre limpo alguma merda.
29.9.17
para terminar, de uma vez por todas, com a ditadura mercantilista dos bloggers do costume, repetideiros enjoativos, plagiadores de segunda (quando não de terceira), supermamãs em fotocópia e donas de casa sem grande jeito,
nestas eleições, eu voto Palmier Encoberto 

26.9.17
quando calha não haver batatas para apanhar, a enxada fica tombada a um canto e eu dedico me a lavar vidros nas lojas de lisboa. é raro alguém dar por mim, enquanto aplico a minha arte de ensaboar e limpar. Cirilo tem uma teoria para a minha suposta invisibilidade, as pessoas têm vergonha de olhar para quem limpa, porque se lembram que são umas porcas! não sei se será mesmo assim. Jasmim também contraria e insiste que a culpa está no tique snob dos citadinos, que constroem a sua hierarquia de sucesso baseada no uso profissional dado às mãos. portanto, conclui Jasmim, não é vergonha, Cirilo, é desprezo! seja o que for, não me interessa, respondo aos dois.
mas esta manhã, quando já tinha terminado a limpeza do pequeno espaço, bem no centro da cidade, e caminhava de mãos limpas para a rua, eis que uma senhora dos seus setenta prateados se me atravessa no caminho, em difíceis manobras com a porta de vidro. gentilmente, abro-lhe a porta, e, num sorriso genuíno, ofereço-lhe um bom dia. na sua toilete cuidada, onde nem as pérolas faltavam, olhou-me de alto a baixo e seguiu caminho. ui... pois que deve ter baixado em mim a gaja do cais do sodré em meias de rede e naifa no bolso, e sem me poder conter, atiro, e obrigada, também não sabe dizer, minha senhora?! aguardo. a madame, meio de esguelha, roda o torso esguio a quarenta e cinco graus e zinguerreia, sua mal-educada!
minha gente... a baiana rodou a saia toda nas minhas calças apertadas, um raio cegou-me os côncavos dos olhos logo ali -- e a velha máxima de não dar importância a quem não a tem foi aliviar a bexiga ao um silvado longe. em tom duas casas mais alto do que o razoável, dicção esmerada, respondo-lhe, mal-educada é a senhora, que sendo mais velha, devia dar o exemplo e nem agradece, nem cumprimenta. e já mais baixo, termino, pérolas a porcos, é o que é. e com este belíssimo acto de vida, abandono o local.
acabei por dar razão a ambos os rapazes...
25.9.17
Milu, quieta no canto do costume, pede-me um poema do livro preto, aquele que Milu jura ter sido escrito pela sua prima Alexandrina, em compadrio com o grande poeta: Aracne.
Olhar dentro do espelho deu-me ideias
do que seria um animal perfeito;
já penso transformar-me, ter maneiras,
asas talvez, ou tromba vigorosa;
dizer adeus aos fios, e adquirir
o encanto popular de um percevejo
ou o hieratismo de uma louva-a-deus.
Ser outro é privilégio de quem tece
na face do destino um transparente
véu, e ao vão casulo
prefere a superfície de uma folha;
com muito estudo, poderei crescer
até figura de homem, se me der
para ser a ti mesmo semelhante.
Perder amigos e vizinhos, ver
à minha volta um assustado espanto,
posso aceitá-lo, se for esse o preço
de uma forma mais fina e elegante;
só me custa deixar, no chão da teia,
a arte de inventar que me conheço.
Melhor seria que mudasses tu; mas,
metaformoso como és, não vais
cair na esparrela de trocar
o teu corpo que sabe a mar e luz
pela velha virtude de um insecto.
Diferentes assim, não vejo como
iremos construir casa comum;
talvez me deixes habitar o tecto,
e te deixe eu morar dentro do espelho.
/António Franco Alexandre, Aracne/
Olhar dentro do espelho deu-me ideias
do que seria um animal perfeito;
já penso transformar-me, ter maneiras,
asas talvez, ou tromba vigorosa;
dizer adeus aos fios, e adquirir
o encanto popular de um percevejo
ou o hieratismo de uma louva-a-deus.
Ser outro é privilégio de quem tece
na face do destino um transparente
véu, e ao vão casulo
prefere a superfície de uma folha;
com muito estudo, poderei crescer
até figura de homem, se me der
para ser a ti mesmo semelhante.
Perder amigos e vizinhos, ver
à minha volta um assustado espanto,
posso aceitá-lo, se for esse o preço
de uma forma mais fina e elegante;
só me custa deixar, no chão da teia,
a arte de inventar que me conheço.
Melhor seria que mudasses tu; mas,
metaformoso como és, não vais
cair na esparrela de trocar
o teu corpo que sabe a mar e luz
pela velha virtude de um insecto.
Diferentes assim, não vejo como
iremos construir casa comum;
talvez me deixes habitar o tecto,
e te deixe eu morar dentro do espelho.
/António Franco Alexandre, Aracne/
ah, grande tragédia hoje a minha, de passo corrido, a cestinha a dar a dar, que o poeta não se há de demorar na bancada dos enchidos, cem gramas de fiambre são segundos a fatiar, e eu perdida nos iogurtes, tanto queijo, que perdição, e elas todas, fêmeas de almas insensíveis, encharcadas de volúpia, a dificultar-me o caminho. quando cheguei, numa das mãos a caixa das uvas sem grainha para lhe oferecer, creio que ainda o vi, perdendo-se na multidão do frango assado com molho de limão e piripiri caseiro. foi então que a cigana se me chegou, menina, diz-me quanto custa este pão, que eu não sei ler?, e eu, tomada pela cara envergonhada da mulher, deixo escapar de vista o meu doce poeta e avanço para a prateleira.
Para trás ficaram portos,
ilhas,
lembranças,
cidades,
estações do ano.
à atenção do leitor inventado:
nestes dias, semanas já, de canseira e pó da terra,
nada de mais admirável há a registar,
para além do costume na apanha da batata,
miúdas p'ra um lado, grossas p'ró outro,
pegar com gentileza para não maçar,
lembro o voo nocturno de um morcego,
[tão pequenino, o morceguinho]
que há duas noites apareceu no meu quarto.
mamíferos os dois, ele de preto, eu tão nua
rodopiámos pela casa inteira,
até que, à porta aberta, no final da dança,
ele partiu,
eu fiquei.
bem-haja, amigo leitor, mesmo que inventado,
por estar desse lado,
e ainda se encantar.
nestes dias, semanas já, de canseira e pó da terra,
nada de mais admirável há a registar,
para além do costume na apanha da batata,
miúdas p'ra um lado, grossas p'ró outro,
pegar com gentileza para não maçar,
lembro o voo nocturno de um morcego,
[tão pequenino, o morceguinho]
que há duas noites apareceu no meu quarto.
mamíferos os dois, ele de preto, eu tão nua
rodopiámos pela casa inteira,
até que, à porta aberta, no final da dança,
ele partiu,
eu fiquei.
bem-haja, amigo leitor, mesmo que inventado,
por estar desse lado,
e ainda se encantar.
17.9.17
Vivir consiste en ir perdiendo cosas:
el timón del aire en los cabellos, los amores,
los recuerdos, los remos de los días felices.
Al decirles adiós con la mano dejamos
en el aire la cáscara de la despedida,
vemos pasar sin nadie las bicicletas
camino del óxido, ardiendo sin sonido.
Otros inviernos han cegado las linternas,
apagado los prismáticos y nos hallamos más lejos.
La cerveza de jengibre la bebió el sol del ocaso
y el pastel de carne, como a la infancia,
se lo han comido las moscas.
/Última mirada a la isla de Kirrin/
el timón del aire en los cabellos, los amores,
los recuerdos, los remos de los días felices.
Al decirles adiós con la mano dejamos
en el aire la cáscara de la despedida,
vemos pasar sin nadie las bicicletas
camino del óxido, ardiendo sin sonido.
Otros inviernos han cegado las linternas,
apagado los prismáticos y nos hallamos más lejos.
La cerveza de jengibre la bebió el sol del ocaso
y el pastel de carne, como a la infancia,
se lo han comido las moscas.
/Última mirada a la isla de Kirrin/
12.9.17
o narrador abana a cabeça, desiludido. nada daquilo fazia sentido. ninguém se dignava a contar a verdade, enrolando a história em infames contradições.
talvez J. Eustáquio de Andrada ainda consiga pôr mão em tamanha embrulhada....
[não aceito notas negativas, azedumes e maus olhados, muito menos criticas construtivas, à troca de bola, passe curto, bem sei, que aqui fica. quem não gostar que venha apanhar batatas comigo!]
11.9.17
10.9.17
Toda a gente gosta dela, da Tamina. Porque sabe ouvir o que lhe contam.
Mas ouvirá realmente? Ou limita-se a olhar, tão atenta, tão silenciosa? Não sei, e não tem muita importância. O que interessa é que ela não interrompe. Sabem o que acontece quando duas pessoas conversam: uma fala e a outra corta-lhe a palavra -- É exactamente como eu, eu...
/O Livro do Riso e do Esquecimento/
/O Livro do Riso e do Esquecimento/
7.9.17
![]() |
| Gerda Taro e Robert Capa |
To photo, to record meat lumps and war,
They advance as does his chance -- very yellow white flash.
A violent wrench grips mass, rips light, tears limbs like rags,
Burst so high finally Capa lands,
Mine is a watery pit. Painless with immense distance
From medic from colleague, friend, enemy,
foe, him five yards from his leg, From you Taro.
Do not spray into eyes -- I have sprayed you into my eyes.
3:10 pm, Capa pends death, quivers, last rattles, last chokes
All colours and cares glaze to grey, shrivelled and stricken to dots,
Left hand grasps what the body grasps not -- le photographe est mort.
3.1415, alive no longer my amour, faded for home May of '54
Doors open like arms my love, Painless with a great closeness
To Capa, to Capa Capa dark after nothing,
re-united with his leg and with you, Taro.
Do not spray into eyes -- I have sprayed you into my eyes.
Hey Taro!
ainda vinha a guerrear comigo, a tentar-me convencer-me de que o gatinho junto ao portão aberto, tinha mãe e donos, que com certeza haveriam de tomar conta dele, e voltar a trás e roubar o gato não seria um salvamento, seria sim estranho -- mas o pobre tão rente à estrada... --, quando o vejo, altivo, em cima do muro, à minha espera. corto gatês, o meu querido gato cinzento, pirata intrépido das searas, doce animal. é raro o dia em que chego a casa e corto gatês não está para me cumprimentar, mesmo chegando eu tão tarde, mesmo chegando já tão poucas vezes.
invejo o homem a quem pago para vir todos os dias.
4.9.17
2.9.17
daqui a pouco farei a mala para partir novamente. vale-me a roupa comprada à pressa na superfície comercial da vila, como quem compra um pacote de leite num domingo de manhã. na sala das máquinas, pode dizer-se que o monte atingiu proporções épicas. ainda preciso de ir ao supermercado no instante comprar comida para os animais, pondero um banho de chuveiro. em cima da mesa da cozinha, jazem já os cinquenta euros para pagar os serviços de pet sitting. se morrer na estrada, este blog ficará ao abandono, se voltar, será como se nada tivesse sido e a única preocupação há de ser lavar toda aquela roupa suja.
1.9.17
27.8.17
as aves mais velhas eram mantidas num curral a duzentos metros da casa, debaixo da sobra das árvores. bastante mais dóceis do que as mais jovens, era apelidadas carinhosamente por avós. Tristan era responsável por mantê-las alimentadas, mudar-lhes as camas de palha e administrar-lhes a medicação semanal. Cirilo costumava brincar, dizendo que Tristan tratava das avós nos intervalos da sua correspondência com as netas. só quando bebia mais aguardente do que a conta, é que Tristan falava sobre o assunto. todas eram especiais, cada uma me dá algo diferente e eu dou a todas elas um pouco de mim, repetia, sorrindo. somos todos felizes e ninguém se magoa, rematava. apenas Bartolomeu franzia o sobreolho de desagrado, um dia, uma delas descobre e aparece aqui na quinta a pedir explicações, Tristan. quero ver o que fazes nessa altura. a tua vida vai transformar-se num inferno. as mulheres são ciumentas, está-lhes na condição. Tristan encolhia os ombros com indiferença, que venha, logo se verá. era um jovem intenso. nunca lhe conhecemos uma namorada, mas as cartas, envelopes perfumados de diferentes tamanhos, alguns arriscando o vermelho paixão, outros o rosa suave, a maioria o branco comum, chegavam todas as semanas à caixa de metal, colocada na extremidade do terreno, junto à estrada nacional. Petra era a que mais se emocionava com a forma diferente de amar de Tristan, e às vezes, quando o via batendo as teclas da máquina num bailado de sorrisos, suspenso no tempo sem se aperceber das horas, saía discretamente e ia ela mesma encher as manjedouras das avós. Tristan, quando dava conta do seu atraso, enfurecia-se e ripava violentamente a folha da máquina, juntando-a às restantes, presas entre as folhas rabiscadas do seu velho moleskine, que fazia de capa, e corria para o curral.
26.8.17
quando ela me contou que ele tinha procurado ajuda e falava de mim nas consultas, senti a lâmina a trespassar-me as entranhas quentes, como se do íntimo partilhado se pudesse declarar culpa a terceiros e administrar receita por via oral -- a roupa suja lava-se em casa, dizia a vovó Carmela, cheia de razão. já satisfeita do meu rosto apreensivo, visivelmente incomodada pela notícia, que me assegura a meia-voz, é confidencial, conclui o ataque num volte-face perverso, sossegando-me com palavras mansas de calhandreira, deixa lá, tudo passa...
25.8.17
no desejo da chuva porvir, ninguém do bando se espanta com a minha caneca de chá fumegante e a mão cheia de biscoitos de limão. talvez já nem se lembrem de que comi o primeiro gelado de verão ontem mesmo, depois de mais um dia no deserto caçando alacraus. a verdade é que estamos todos cansados e ansiosos pelas nuvens carregadas, que hão de vir em breve e chover toda a nossa tristeza escondida, varrendo a poeira dos dias em que nenhum de nós dormiu.
Subscrever:
Mensagens (Atom)


















