4.12.17

acordei em Niflheim com a temperatura abaixo de zero, catástrofe natural da madrasta natureza. o frio faz-te bater o coração, rapariga, anda, levanta-te! -- credo, que gente é esta? estes nativos não conhecem o sistema de aquecimento central? -- do pijama polar faço a indumentária de andar por casa, atitude reprovada por todos à mesa do pequeno-almoço [enquanto espero as famosas panquecas da simpática nativa adolescente, dou por mim a comer um prato de sopa... /?!?/...]. daqui a pouco, informa-me o nativo ancião, vamos levar a azeitona. agasalhe-se bem. o quê?! exclamo citadinamente. está-se bem na cozinha, com o fogão a lenha a todo o vapor e o cheiro dos marmelos assados. vamos só ao lagar, é perto, tranquiliza-me o mesmo ancião, de quem gosto particularmente. mas vamos a pé?!!, temo pela minha vida. ri-se e acena-me que não. ólhamesta angélica, parece que nem nasceu cá!, goza o nativo com olhos iguais aos meus. congela-se-me o discernimento. nasci?! duvido.

nevou?...
não, rapariga! é geada!
...meu deus!

1.12.17

ao abrigo do artigo primeiro da próxima convenção dos desacorçoados, que se há-de realizar logo que a data seja marcada e combinado o espaço, vistoso, onde caibam a pompa e a circunstância, o mestre de cerimónias, o tocador espanhol e o cobrador do fraque, declaro-me humildemente seca de palavras para semear nesta terra.

26.11.17

"julgo-me oculta no lugar mais obscuro e escondido desta cozinha, e gozo o esplendor da luz do fogão que é o espelho humano de uma estrela: -- que posso eu dizer-vos que não quebre a incomunicabilidade das palavras de amor?"


/Um Beijo dado mais tarde, de Maria Gabriela Llansol/
Há noites em que ainda acordo com o som da madeira do armário a crepitar, a roupa em labaredas, os livros da biblioteca. Estou dentro de um mar de chamas, enfeitiçada, o fogo circundando-me, e não consigo gritar. 

25.11.17

Quando finalmente deixou o corpo afundar-se na água quente, os braços já não lhe doíam do peso da terra cavada à força.

18.11.17

como nos homens,
encontra-se às vezes nos gatos velhos
uma infância luminosa, 
guardada no brilho
do olhar
e no recolher de cada garra.
a vida não é só isso, Alicinha. ouve o que te digo. as baleias cantam no fundo dos mares, há peixes que voam e aves que mergulham, há um mar vivo que está morto e há mortos que vivem em nós, há a aurora boreal e o arco-íris, os fiordes, os corais e as grutas, os beija-flores e as tartarugas. há as papoilas e as rosas mosqueta. e há o sexo, Alicinha, corpos que se entregam, enquanto recebem, almas que se desejam, o universo em suspensão. não vês tu tudo isso? estarás cega? estarás viva?
Petra decidiu outra vez que perguntar a cada um de nós qual o presente que deseja para o natal é a melhor forma de nos fazer felizes. todos, menos Petra, odiamos o natal e ouvir falar dele ainda em novembro deixa-nos irritados e carrancudos. mas Petra é a nossa mãe adoptiva e nós somos o seu filho morto. ninguém nega uma palavra a Petra. fechamos os olhos por um momento e iniciamos o rol: algodão-doce! o perfume da avó! o rádio do avô! maçãs caramelizadas! chuva! sim, chuva! um escape para a mota! um corta unhas! não, antes uma motoserra! papel prensado com urzes e rosmaninho! ou então umas luvas de lã de alpaca. ou um poema abstracto. cerveja! mel! pão! hibisco! uma máquina voadora! tomate holandês! um papagaio! uma cabeça nova! uma vida nova! esquecer! recomeçar.

16.11.17

Lucky Blue, moi-même, estacionou Jolly Jumper no parque adjacente, afagou o pelo eriçado de Milu, sempre atenta, e prepara-se agora para cavalgar as ondas marinhas deste novembro aquecido.

não trago Deus em mim mas no mundo o procuro

Milu, a intrépida, na orelha de Jolly Jumper.

a aranha do meu destino