21.12.17

Esta noche,
el lobo es una sombra que está sola
y que busca a la hembra y siente frío.

...
No basta ser cruel. Eres el último.

[Los conjurados- 1985]


Philip Kanwischer

20.12.17

gritos mudos.
os pés gelados,
o tempo curto,
as mãos vazias.
não é que a idade me tenha trazido respostas, muito pelo contrário, diz-me Bartolomeu, estou em paz, mas porque já não me questiono, percebes? já não procuro por mim fora das coisas. se o que quero é comer esta maçã, pego nela e trinco-a. já não me importa saber de onde me vem a necessidade absurda de comer uma maçã amarela, sempre que as vejo. faço o mesmo com a vida.

18.12.17

e balanços, Damas?
balanços, Alicinha, só os das tuas ancas contra mim.

17.12.17

a madrinha - essa grande parceira no crime de maledicência à remelice do natal e encharcamento alcoólico medicinal - escreve-me em letras garrafais: «HEMORROIDES ma cherie, não há pomada que me valha às varizes no derriere, só me sento de lado. Conheces alguma coisa q ajude?»

vilhamina, madrinha. pomada que desinflama.
não há cu que resista à pera 
Ben's an alien passing by

16.12.17

convencida pela voz opressora da consciência social, enchi-me de coragem e roupa quente e rumei ao pior lugar do mundo num sábado à tarde, a uma semana do natal. a multidão, constituída largamente por famílias completas, inundava o espaço com rapidez e planos traçados desde cedo, já eu, raquítica pessoa que detesta este natal, saltitava entre as clareiras que se iam abrindo na selva comercial, não me livrando por vezes de ser travão humano de carrinhos a abarrotar. nos rostos, (tal como eu), aquela gente, já especialista em buscas e achamentos, trazia apreensão, a maioria um visível descontentamento. chega a ser hilariante perceber a ginástica dos remediados nas compras de natal.

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não me venha o excelso leitor com os seus iluminados moralismos, que eu, há muito, me incluo na dita classe social.
e tenho até uma quase história de natal,


«O pai de Joana tinha oitenta anos quando morreu. Deram com ele caído sobre o lar, levaram-no em braços para a enxerga. Quatro paredes, duas caixas de castanho, e junto ao catre, junto ao peito, a pedra seca, o granito. Uma mulher desata aos gritos debruçada sobre o catre:
— Vossemecê conhece-me? Vossemecê conhece-me? 
Os olhos não se lhe despegam da arca. Ao fim da vida tem de seu o alvião, a enxada e a manta no fio. A cabeça branca mirrou, a pele é como a crosta que calcamos.

Tem não sei quê de raiz, tem não sei quê de tronco, afora os cabelos brancos que o tornam humano, e o tempo revestiu-o da mesma cor dos montes. Desabituou-se de falar, e pela grandeza e pelo silêncio só o comparo à pedra. Tudo isto foi pedra. Ele e os seus, a poder de anos, moeram-na. Criou-a. Sua vida está ligada à vida da terra. À terra só falta comê-lo.

Terra, terra negra e ingrata, terra de detritos de rocha e mortos, poeira de árvores, suor de pobres, terra que tudo gastas e consomes, há muito que o fizeste teu igual. Nem sei distinguir-vos, mãos como pedras, pele como a tua pele.

A terra come e desgasta. A terra apega-se e encarde. Deforma-o. De revolver a terra criou cascão e um olhar profundo. Só o comparo a Cristo, a um Cristo que tivesse vindo até à velhice, de desilusão em desilusão e de desamparo em desamparo.»


/Húmus, Raul Brandão/
Sexuellement, c'est-à-dire avec mon âme

Boris Vian