2018
que, de olhos fechados, encontre sempre o que procuro.
se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria
31.12.17
2017
foi o ano em que matei Vendredi, uma rapariga feia de bom coração, frustrada, refém, como milhares, a um sistema podre, em constantes remoinhos de esterco. a morte de Vendredi, um tiro no escuro profundo, um salto longo fora da caixa onde se deixou empacotar por amor à arte, foi - e será sempre - um dos acontecimentos maiores da minha vida. não se mata alguém sem sentir a lâmina da navalha cravada ao que foi e ao que podia ter sido, mas principalmente ao que será. carrego um cadáver ainda, que não sei esconder.
foi também o ano em que perdi Sr. Gato, o Velho, que tentei manter vivo até à exaustão das suas forças - e como era forte o meu Gato. foi ele que pediu para o deixar partir, recusando toda a boa vontade, e eu chorei e cedi. depois, arrastei-me até onde repousa Malaquias, o grande cão preto, e cavei, debaixo de chuva, a pequena cova onde entreguei o seu corpo à terra. tombei então como uma criança e solucei em total abandono.
com a morte de Vendredi e do Sr. Gato, foi-se também uma boa parte de mim. não deixei de saber andar, mas piso ainda as ervas altas e os arbustos, de onde terei de fazer novos caminhos. estranhamente, ou não, é do Sr. Gato que mais me lembro, confesso que às vezes ainda o ouço miar. jamais voltei ao local onde conheci Vendredi.
And this I dreamt, and this I dream,
And some time this I will dream again,
And all will be repeated, all be re-embodied,
You will dream everything I have seen in dream.
To one side from ourselves, to one side from the world
Wave follows wave to break on the shore,
On each wave is a star, a person, a bird,
Dreams, reality, death—on wave after wave.
No need for a date: I was, I am, and I will be,
Life is a wonder of wonders, and to wonder
I dedicate myself, on my knees, like an orphan,
Alone—among mirrors—fenced in by reflections:
Cities and seas, iridescent, intensified.
A mother in tears takes a child on her lap.
Because we don't know when we will die, we get to think of life as an unexhaustable well yet everything happens on a certain number of time, and a very small number, really.
How many more times will you remember a certain afternoon of your childhood, some afternoon that's so deeply part of your being that you can't ever consider your life without it, perhaps four or five time more, perhaps not even that ?
How many more times will you watch the full moon rises ?
Perhaps twenty, and yet it all seems limitless.
Paul Bowles, The Sheltering Sky
How many more times will you remember a certain afternoon of your childhood, some afternoon that's so deeply part of your being that you can't ever consider your life without it, perhaps four or five time more, perhaps not even that ?
How many more times will you watch the full moon rises ?
Perhaps twenty, and yet it all seems limitless.
Paul Bowles, The Sheltering Sky
29.12.17
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
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| Karla Gerard |
das páginas mais belas que li em 2017: aracne, de antónio franco alexandre [paixão minha]
a pedido de Milu, a aranha, aqui partilho o final de uma bela aventura em poesia.
Já dei a volta ao mundo, transportado
às vezes pelo vento, outras no dorso
de vigorosas aves migratórias;
atravessei desertos, vi as praias
que a vaga névoa humana delimita;
flutuando à deriva no mar alto,
fui visitar as mais secretas ilhas.
Como um herói antigo, bem podia
debruçar-me na teia do destino
e dar-lhe a consistência das histórias;
ocorrem-me aventuras, episódios,
naufrágios casuais, duros exílios,
que na arte do verso são figuras
de alguma obscura ausência primitiva.
Suspenso de uma trave, protegido
pelas paredes mestras desta casa
erguida, como um barco, sobre abismos,
com pouco esforço poderia ter
no papel branco um novo corpo de asas,
e descansar enfim, todo coberto
por um suave manto de memórias.
Mas se vou transformar-me, não aspiro
à condição de marco funerário
ou ténue monumento de mim mesmo;
nem tenho grande pressa de lembrar
a morte mal parada deste inverno,
ratos armados espalhando a peste,
outros deixados nos carris da sorte.
Bem sei que o corpo humano é frágil, imaturo,
um tanto mole, e pouco colorido;
não tem o corte puro do besouro,
nem o jeito frugal do escaravelho;
mal chega a florescer, logo envelhece,
e o pouco que constrói cedo parece,
transfigurado em sombra, não ter sido.
Assim serei também; por mais que digam
que nesta mutação me desperdiço
e arrisco até uma burlesca queda,
eu teimo em ser humano por um dia
para que possas ver-me tal qual sou:
um grão, de fina areia, que se move
no dourado rumor da tua pele,
o breve estremecer que te percorre,
a preguiçosa vida dos sentidos;
e depois, teu igual, talvez te vença
ou me deixe vencer, e te pertença
com a vaidade que me vem de ter
o sábio coração de um aranhiço.
/Aracne, António Franco Alexandre, Assírio e Alvim/
a pedido de Milu, a aranha, aqui partilho o final de uma bela aventura em poesia.
Já dei a volta ao mundo, transportado
às vezes pelo vento, outras no dorso
de vigorosas aves migratórias;
atravessei desertos, vi as praias
que a vaga névoa humana delimita;
flutuando à deriva no mar alto,
fui visitar as mais secretas ilhas.
Como um herói antigo, bem podia
debruçar-me na teia do destino
e dar-lhe a consistência das histórias;
ocorrem-me aventuras, episódios,
naufrágios casuais, duros exílios,
que na arte do verso são figuras
de alguma obscura ausência primitiva.
Suspenso de uma trave, protegido
pelas paredes mestras desta casa
erguida, como um barco, sobre abismos,
com pouco esforço poderia ter
no papel branco um novo corpo de asas,
e descansar enfim, todo coberto
por um suave manto de memórias.
Mas se vou transformar-me, não aspiro
à condição de marco funerário
ou ténue monumento de mim mesmo;
nem tenho grande pressa de lembrar
a morte mal parada deste inverno,
ratos armados espalhando a peste,
outros deixados nos carris da sorte.
Bem sei que o corpo humano é frágil, imaturo,
um tanto mole, e pouco colorido;
não tem o corte puro do besouro,
nem o jeito frugal do escaravelho;
mal chega a florescer, logo envelhece,
e o pouco que constrói cedo parece,
transfigurado em sombra, não ter sido.
Assim serei também; por mais que digam
que nesta mutação me desperdiço
e arrisco até uma burlesca queda,
eu teimo em ser humano por um dia
para que possas ver-me tal qual sou:
um grão, de fina areia, que se move
no dourado rumor da tua pele,
o breve estremecer que te percorre,
a preguiçosa vida dos sentidos;
e depois, teu igual, talvez te vença
ou me deixe vencer, e te pertença
com a vaidade que me vem de ter
o sábio coração de um aranhiço.
/Aracne, António Franco Alexandre, Assírio e Alvim/
28.12.17
tenho pelas osgas especial carinho. é verdade, não se espante o leitor se um dia destes lhe repetir, encantada, o salvamento caseiro que em tempos proporcionei a uma família tradicional e numerosa, que habitava, tranquila, um pequeno barracão de madeira abandonado, destinado ao fogo da lareira. muito antes do Sr. Palomar me contar que todas as noites ele e [a senhora Palomar acabam por afastar os cadeirões da televisão, colocando-os ao pé do escaparate; sentados no interior da sala, ficam a contemplar a silhueta esbranquiçada do réptil sobre o fundo escuro. A opção entre a televisão e a osga nem sempre é feita sem incertezas; cada um dos espectáculos fornece informações que o outro não dá: a televisão move-se pelos continentes, recolhendo impulsos luminosos que descrevem a face visível das coisas; a osga, por sua vez, representa a concentração imóvel e os aspectos escondidos, o outro lado daquilo que aparece à vista], já eu me encantava com tão rugoso réptil.
vem esta vasta nota introdutória a propósito disto, onde cheguei por causa de disto.
fica um gostinho de Eulálio, a minha próxima osga:
«Nasci nesta casa e criei-me nela. Nunca saí. Ao entardecer encosto o corpo contra o cristal das janelas e contemplo o céu. Gosto de ver as labaredas altas, as nuvens a galope, e sobre elas os anjos, legiões deles, sacudindo as fagulhas dos cabelos, agitando as largas asas em chamas. É um espectáculo sempre idêntico. Todas as tardes, porém, venho até aqui e divirto-me e comovo-me como se o visse pela primeira vez. A semana passada Félix Ventura chegou mais cedo e surpreendeu-me a rir enquanto lá fora, no azul revolto, uma nuvem enorme corria em círculos, como um cão, tentando apagar o fogo que lhe abrasava a cauda. «Ai, não posso crer! Tu ris?!»
Irritou-me o assombro da criatura. Senti medo mas não movi um músculo. O albino tirou os óculos escuros, guardou-os no bolso interior do casaco, despiu o casaco, lentamente, melancolicamente, e pendurou-o com cuidado nas costas de uma cadeira. Escolheu um disco de vinil e colocou-o no prato do velho gira-discos.»
/O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa/
{osga, lagartixa, lagarto, tanto se me dá, serve igual}
vem esta vasta nota introdutória a propósito disto, onde cheguei por causa de disto.
fica um gostinho de Eulálio, a minha próxima osga:
«Nasci nesta casa e criei-me nela. Nunca saí. Ao entardecer encosto o corpo contra o cristal das janelas e contemplo o céu. Gosto de ver as labaredas altas, as nuvens a galope, e sobre elas os anjos, legiões deles, sacudindo as fagulhas dos cabelos, agitando as largas asas em chamas. É um espectáculo sempre idêntico. Todas as tardes, porém, venho até aqui e divirto-me e comovo-me como se o visse pela primeira vez. A semana passada Félix Ventura chegou mais cedo e surpreendeu-me a rir enquanto lá fora, no azul revolto, uma nuvem enorme corria em círculos, como um cão, tentando apagar o fogo que lhe abrasava a cauda. «Ai, não posso crer! Tu ris?!»
Irritou-me o assombro da criatura. Senti medo mas não movi um músculo. O albino tirou os óculos escuros, guardou-os no bolso interior do casaco, despiu o casaco, lentamente, melancolicamente, e pendurou-o com cuidado nas costas de uma cadeira. Escolheu um disco de vinil e colocou-o no prato do velho gira-discos.»
/O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa/
{osga, lagartixa, lagarto, tanto se me dá, serve igual}
não possuo nem a loucura, nem a pena de Artaud, mas se me pedissem a descrição do estado físico, teria de começar pelo peso absurdo que todos os dias me sinto a carregar, enquanto uma mão invisível me aperta o pescoço, ora leve, ora feroz. sou uma mulher constante, aborrecida, para ser sincera no discurso, a incerteza quase total do que me aguarda torna-se visível na seborreia que me atormenta os brancos já nascidos, bem como nos múltiplos ataques borbulhosos de que tenho sido vítima. as dores nas costas, confesso que às vezes excruciantes, por conta das muitas horas de pé, outras sentada, são, ainda assim, da repelência menos exposta. dão me apenas um ar rafeiro de uma pobre coitada que se vai aguentando, igual a tantos mais.
concluo então, sem grandes melodramas, que 2017 fez de mim uma mulher mais feia. e está tudo bem.
27.12.17
nunca devia ter permitido a Boris que se deitasse na minha cama. deixei me seduzir pelo rosto sério da sua capa.
Boris aproveitou se da minha tosca figura, deixou me despir o pijama patético e ficou a olhar para mim. quando as onze formigas chegaram e se abocanharam com raiva à minha carne branca, já nada pude fazer. irónico, sem ponta de tesão, ri se do meu rosto apreensivo, da indisposição ao virar de cada página. este não é o Boris de que me lembro, sedutor, mas nem isso me dá vontade de o largar, caído na cama, antes o aqueço no baixo ventre, enquanto lambo o dedo para o enterrar nas suas folhas.
26.12.17
21.12.17
20.12.17
não é que a idade me tenha trazido respostas, muito pelo contrário, diz-me Bartolomeu, estou em paz, mas porque já não me questiono, percebes? já não procuro por mim fora das coisas. se o que quero é comer esta maçã, pego nela e trinco-a. já não me importa saber de onde me vem a necessidade absurda de comer uma maçã amarela, sempre que as vejo. faço o mesmo com a vida.
18.12.17
17.12.17
a madrinha - essa grande parceira no crime de maledicência à remelice do natal e encharcamento alcoólico medicinal - escreve-me em letras garrafais: «HEMORROIDES ma cherie, não há pomada que me valha às varizes no derriere, só me sento de lado. Conheces alguma coisa q ajude?»
vilhamina, madrinha. pomada que desinflama.
não há cu que resista à pera
16.12.17
convencida pela voz opressora da consciência social, enchi-me de coragem e roupa quente e rumei ao pior lugar do mundo num sábado à tarde, a uma semana do natal. a multidão, constituída largamente por famílias completas, inundava o espaço com rapidez e planos traçados desde cedo, já eu, raquítica pessoa que detesta este natal, saltitava entre as clareiras que se iam abrindo na selva comercial, não me livrando por vezes de ser travão humano de carrinhos a abarrotar. nos rostos, (tal como eu), aquela gente, já especialista em buscas e achamentos, trazia apreensão, a maioria um visível descontentamento. chega a ser hilariante perceber a ginástica dos remediados nas compras de natal.
---
não me venha o excelso leitor com os seus iluminados moralismos, que eu, há muito, me incluo na dita classe social.
e tenho até uma quase história de natal,
Tem não sei quê de raiz, tem não sei quê de tronco, afora os cabelos brancos que o tornam humano, e o tempo revestiu-o da mesma cor dos montes. Desabituou-se de falar, e pela grandeza e pelo silêncio só o comparo à pedra. Tudo isto foi pedra. Ele e os seus, a poder de anos, moeram-na. Criou-a. Sua vida está ligada à vida da terra. À terra só falta comê-lo.
A terra come e desgasta. A terra apega-se e encarde. Deforma-o. De revolver a terra criou cascão e um olhar profundo. Só o comparo a Cristo, a um Cristo que tivesse vindo até à velhice, de desilusão em desilusão e de desamparo em desamparo.»
«O pai de Joana tinha oitenta anos quando morreu. Deram com ele caído sobre o lar, levaram-no em braços para a enxerga. Quatro paredes, duas caixas de castanho, e junto ao catre, junto ao peito, a pedra seca, o granito. Uma mulher desata aos gritos debruçada sobre o catre:
— Vossemecê conhece-me? Vossemecê conhece-me?
Os olhos não se lhe despegam da arca. Ao fim da vida tem de seu o alvião, a enxada e a manta no fio. A cabeça branca mirrou, a pele é como a crosta que calcamos.
— Vossemecê conhece-me? Vossemecê conhece-me?
Os olhos não se lhe despegam da arca. Ao fim da vida tem de seu o alvião, a enxada e a manta no fio. A cabeça branca mirrou, a pele é como a crosta que calcamos.
Tem não sei quê de raiz, tem não sei quê de tronco, afora os cabelos brancos que o tornam humano, e o tempo revestiu-o da mesma cor dos montes. Desabituou-se de falar, e pela grandeza e pelo silêncio só o comparo à pedra. Tudo isto foi pedra. Ele e os seus, a poder de anos, moeram-na. Criou-a. Sua vida está ligada à vida da terra. À terra só falta comê-lo.
Terra, terra negra e ingrata, terra de detritos de rocha e mortos, poeira de árvores, suor de pobres, terra que tudo gastas e consomes, há muito que o fizeste teu igual. Nem sei distinguir-vos, mãos como pedras, pele como a tua pele.
A terra come e desgasta. A terra apega-se e encarde. Deforma-o. De revolver a terra criou cascão e um olhar profundo. Só o comparo a Cristo, a um Cristo que tivesse vindo até à velhice, de desilusão em desilusão e de desamparo em desamparo.»
/Húmus, Raul Brandão/
10.12.17
o vento que faz bailar os canaviais amarelos é o mesmo que baloiça, traquinas, nas orelhas de taeko e yukiko. gosto de ver as nuvens passar, maratona de baleias cinzentas, rumo ao norte. atraso o mais que posso a chegada do carnaval natalício, enquanto me enamoro pelo branco das garças ali perto, que acompanham o veio da terra acabada de rasgar.
ia só buscar umas latinhas para os gatos, quando dei por mim com ela nas mãos.
a culpa? então, a culpa é dos sapatos da Palmier.
a culpa? então, a culpa é dos sapatos da Palmier.
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| dispensaria os brilhantes de boa vontade |
8.12.17
tão cinzenta quanto o chão e o céu, quase me esquecia de grafar um pequeno apontamento, que para muitos seria motivo de suicídio social. a passos largos do espaço a limpar, balde e esfregona às costas, deparo-me com uma cara conhecida que me obriga a parar. desempregada, porque isto está tão mau e não andámos a estudar para agora aceitarmos qualquer coisa, pergunta-me se ainda estou na torre de marfim. simplifico o que não me apetece sequer começar, não, agora lavo janelas.
pudesse eu fotografar o espanto enojado daquela cara enfezada, ou descrever o trejeito da boca escancarando-se, o par de olhos de igual maneira, enquanto o nariz se encolhia sozinho. despedi-me da cara ainda em choque sem mais palavras, virando-lhe as costas. começo a perceber as vantagens imediatas de lavar janelas.
não sei se foi esta manhã, enquanto lavava sozinha os vidros daquele abrigo em pleno coração da cidade, lá fora o som da chuva entrecortado pelo rolar dos carros, vozes apressadas nos passeios; se foi já depois do almoço, aqueles grupos que abomino, gentes comendo juntas pela época, alegria contabilizada em beijos e presentes-surpresa. repito: não sei. não sei se foi no ninho forrado a sofás de veludo, camas de um branco libidinoso, bancadas de pedra-mármore onde as ondas ganhariam impulso, espelhos despindo paredes, corpos, uma vida inteira ali; se foi no barulho metálico do almoço, onde a mulher-objecto criticava em guinchos loiros o homem-basófia, ela enjoativamente mimada, ele enjoativamente ostentador, não sei, o que sei - porque o sinto no centro de mim - é que o inverno chegou-me hoje por inteiro, sob o peso frio da chuva.
pudesse eu hibernar.
4.12.17
acordei em Niflheim com a temperatura abaixo de zero, catástrofe natural da madrasta natureza. o frio faz-te bater o coração, rapariga, anda, levanta-te! -- credo, que gente é esta? estes nativos não conhecem o sistema de aquecimento central? -- do pijama polar faço a indumentária de andar por casa, atitude reprovada por todos à mesa do pequeno-almoço [enquanto espero as famosas panquecas da simpática nativa adolescente, dou por mim a comer um prato de sopa... /?!?/...]. daqui a pouco, informa-me o nativo ancião, vamos levar a azeitona. agasalhe-se bem. o quê?! exclamo citadinamente. está-se bem na cozinha, com o fogão a lenha a todo o vapor e o cheiro dos marmelos assados. vamos só ao lagar, é perto, tranquiliza-me o mesmo ancião, de quem gosto particularmente. mas vamos a pé?!!, temo pela minha vida. ri-se e acena-me que não. ólhamesta angélica, parece que nem nasceu cá!, goza o nativo com olhos iguais aos meus. congela-se-me o discernimento. nasci?! duvido.
nevou?...
não, rapariga! é geada!
...meu deus!
1.12.17
ao abrigo do artigo primeiro da próxima convenção dos desacorçoados, que se há-de realizar logo que a data seja marcada e combinado o espaço, vistoso, onde caibam a pompa e a circunstância, o mestre de cerimónias, o tocador espanhol e o cobrador do fraque, declaro-me humildemente seca de palavras para semear nesta terra.
26.11.17
25.11.17
18.11.17
a vida não é só isso, Alicinha. ouve o que te digo. as baleias cantam no fundo dos mares, há peixes que voam e aves que mergulham, há um mar vivo que está morto e há mortos que vivem em nós, há a aurora boreal e o arco-íris, os fiordes, os corais e as grutas, os beija-flores e as tartarugas. há as papoilas e as rosas mosqueta. e há o sexo, Alicinha, corpos que se entregam, enquanto recebem, almas que se desejam, o universo em suspensão. não vês tu tudo isso? estarás cega? estarás viva?
Petra decidiu outra vez que perguntar a cada um de nós qual o presente que deseja para o natal é a melhor forma de nos fazer felizes. todos, menos Petra, odiamos o natal e ouvir falar dele ainda em novembro deixa-nos irritados e carrancudos. mas Petra é a nossa mãe adoptiva e nós somos o seu filho morto. ninguém nega uma palavra a Petra. fechamos os olhos por um momento e iniciamos o rol: algodão-doce! o perfume da avó! o rádio do avô! maçãs caramelizadas! chuva! sim, chuva! um escape para a mota! um corta unhas! não, antes uma motoserra! papel prensado com urzes e rosmaninho! ou então umas luvas de lã de alpaca. ou um poema abstracto. cerveja! mel! pão! hibisco! uma máquina voadora! tomate holandês! um papagaio! uma cabeça nova! uma vida nova! esquecer! recomeçar.
16.11.17
15.11.17
12.11.17
talvez as minhas mãos sejam de fada, alguma fada desaparecida no tempo, escondida numa gruta de musgo, já muito velha, e que agora me empresta as suas mãos, envoltas em mil movimentos de magia. uma fada cuidadora, que pacifica, acalma e prepara as almas para o destino.
desta vez, pratico também os procedimentos da ciência, desobstruo cateteres, aplico dosagens no soro, meço temperaturas e tudo o mais que for surgindo. mãos de fada, confirma-me o cuidador dos corpos, e eu, de corpo e alma, agradeço à natureza.
10.11.17
coragem? coragem é mais do que isso, respondo eu. coragem é andar na montanha-russa, para quem sofre de vertigens, terminar uma relação com alguém que tem uma arma em cima da mesa, ditar o fim da linha dos que amamos. o resto não é coragem, é a vida, empurrada como se pode.
preciso urgentemente de não morrer.
preciso urgentemente de não morrer.
6.11.17
se pudesse - como se num conceito pós-moderno de férias -, ficaria durante uns tempos em Niflheim, observadora atenta e discreta, apreciando a cumplicidade e a ternura daqueles dois. faria com eles os caminhos dourados do outono, ora subindo à serra, ora rumando à vila, bebendo chá, ouvindo a poesia das suas palavras simples e comendo dos seus cachos de uvas.
preciso de aquecer o coração.
5.11.17
regresso a casa, mãos dadas com Gógol, e encontro Velho, o gato, pela primeira vez desde que nos conhecemos, recusando-se a comer, prostrado, urinando-se na cama. neste círculo natural da vida, sei que mais tarde hei-de acreditar de que lhe dei uma boa segunda vida e a melhor velhice que pude, mas por agora, que assisto à decadência do corpo magro do meu querido gato, fico à mercê desta sombra pesada que me nasce por dentro, envolta na mortalha da morte.
1.11.17
será, espero, a última carta dirigida à Dr.ª Vendredi -- os Senhores Doutores mantêm o formalismo até com os defuntos; não me admiro: ninguém muda, no que à conduta diz respeito. pedem à pobre que se manifeste, desconhecendo do poiso de onde se empoleiram que a pobre morreu sem dar cavaco a ninguém. por respeito à amizade que nos uniu durante tantos anos, repletos de sonhos, planos, enganos e desenganos à paulada, decidi hoje - dia dos mortos - entregar a alma de Vendredi à paz que a pobre merece e responder aos Senhores Doutores:
Caríssimos,
Ilustres Senhores Doutores,
Ilustres Senhores Doutores,
Incapaz de alcançar a vossa magnificência, de entender a vossa sabedoria e, sobretudo, de servir às vossas necessidades e imitar a vossa postura, a Dr.ª Vendredi suicidou-se.
29.10.17
a oliveira da Eurídice
Eurídice tinha uma oliveira com quem podia conversar sobre o que lhe apetecesse - até da vontade exótica de criar uma osga em cativeiro. invejei a ideia (não a da osga, que já tenho práqui osgas às dúzias e não preciso de mais nenhuma, nem que venha treinada) e a oliveira de Eurídice, desde o primeiro momento em que, procurando uma imagem na teia digital, as encontrei. falar sozinha, como eu faço, é coisa dos maluquinhos comuns, já a raposa mo tinha dito, mas as plantas de vaso que me adornam a secretária são flora sensível de estufa, que não conhecendo os rigores do frio de inverno, como conseguiriam acompanhar-me nos mistérios da vida? quanto muito, tagarelar deste ou daquela, que vão surgindo no ecrã. dos livros, falo sempre com quem lá mora e o assunto fica arrumado.
com desejos de imitar Eurídice, em busca da minha oliveira, dei por mim à procura de uma árvore da vida, dessas que sabem das fissuras da alma, dos líquenes foliosos e dos bichos da madeira. já tomada a oliveira por Eurídice, procurei na minha infância a nogueira gigante do avô alberto. magistral, imponente - demasiado grande, concluí, não dá para trazer para o quintal. a tília bonita da minha mãe, o cedro do meu irmão, as minhas framboeseiras, a cerejeira onde caí, mas nada me pareceu ter filosofia linguística suficiente.
Eurídice há muito que se ausentou para local incerto, tendo levado a oliveira consigo, agora nem a oliveira da Eurídice, nem uma árvore só minha. continuo em demanda.
com desejos de imitar Eurídice, em busca da minha oliveira, dei por mim à procura de uma árvore da vida, dessas que sabem das fissuras da alma, dos líquenes foliosos e dos bichos da madeira. já tomada a oliveira por Eurídice, procurei na minha infância a nogueira gigante do avô alberto. magistral, imponente - demasiado grande, concluí, não dá para trazer para o quintal. a tília bonita da minha mãe, o cedro do meu irmão, as minhas framboeseiras, a cerejeira onde caí, mas nada me pareceu ter filosofia linguística suficiente.
Eurídice há muito que se ausentou para local incerto, tendo levado a oliveira consigo, agora nem a oliveira da Eurídice, nem uma árvore só minha. continuo em demanda.
28.10.17
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