2.1.18

na segunda noite do novo ano, depois de uma longa insónia, sonhei com a guerra nuclear e o fim do mundo. a explosão gigante a cegar-me os olhos, lá ao fundo, no horizonte, eu a fugir com as cadelas, entre centenas de pessoas, por um carreiro íngreme, em precipício, nas montanhas. o medo de deixar cair os animais e a pressa de chegar a algum lugar seguro - não sei para onde caminhava - misturavam-se no meu sonho. antes de acordar, lembro apenas a onda de luz que nos cobriu a todos.
acordei sem grande alívio, taciturna, lendo no sonho uma visão - pensamento que me atormenta há dias -, se a matemática da morte se mantiver na minha vida, este será o ano em que perderei alguém muito próximo.

31.12.17

2018

que, de olhos fechados, encontre sempre o que procuro.
2017

foi o ano em que matei Vendredi, uma rapariga feia de bom coração, frustrada, refém, como milhares, a um sistema podre, em constantes remoinhos de esterco. a morte de Vendredi, um tiro no escuro profundo, um salto longo fora da caixa onde se deixou empacotar por amor à arte, foi - e será sempre - um dos acontecimentos maiores da minha vida. não se mata alguém sem sentir a lâmina da navalha cravada ao que foi e ao que podia ter sido, mas principalmente ao que será. carrego um cadáver ainda, que não sei esconder.

foi também o ano em que perdi Sr. Gato, o Velho, que tentei manter vivo até à exaustão das suas forças - e como era forte o meu Gato. foi ele que pediu para o deixar partir, recusando toda a boa vontade, e eu chorei e cedi. depois, arrastei-me até onde repousa Malaquias, o grande cão preto, e cavei, debaixo de chuva, a pequena cova onde entreguei o seu corpo à terra. tombei então como uma criança e solucei em total abandono.

com a morte de Vendredi e do Sr. Gato, foi-se também uma boa parte de mim. não deixei de saber andar, mas piso ainda as ervas altas e os arbustos, de onde terei de fazer novos caminhos. estranhamente, ou não, é do Sr. Gato que mais me lembro, confesso que às vezes ainda o ouço miar. jamais voltei ao local onde conheci Vendredi. 
Because we don't know when we will die, we get to think of life as an unexhaustable well yet everything happens on a certain number of time, and a very small number, really. 

How many more times will you remember a certain afternoon of your childhood, some afternoon that's so deeply part of your being that you can't ever consider your life without it, perhaps four or five time more, perhaps not even that ? 

How many more times will you watch the full moon rises ? 

Perhaps twenty, and yet it all seems limitless.

Paul Bowles, The Sheltering Sky


29.12.17

Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.


É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.


Karla Gerard

das páginas mais belas que li em 2017: aracne, de antónio franco alexandre [paixão minha]

a pedido de Milu, a aranha, aqui partilho o final de uma bela aventura em poesia.


Já dei a volta ao mundo, transportado
às vezes pelo vento, outras no dorso
de vigorosas aves migratórias;
atravessei desertos, vi as praias
que a vaga névoa humana delimita;
flutuando à deriva no mar alto,
fui visitar as mais secretas ilhas.

Como um herói antigo, bem podia
debruçar-me na teia do destino
e dar-lhe a consistência das histórias;
ocorrem-me aventuras, episódios,
naufrágios casuais, duros exílios,
que na arte do verso são figuras
de alguma obscura ausência primitiva.

Suspenso de uma trave, protegido
pelas paredes mestras desta casa
erguida, como um barco, sobre abismos,
com pouco esforço poderia ter
no papel branco um novo corpo de asas,
e descansar enfim, todo coberto
por um suave manto de memórias.

Mas se vou transformar-me, não aspiro
à condição de marco funerário
ou ténue monumento de mim mesmo;
nem tenho grande pressa de lembrar
a morte mal parada deste inverno,
ratos armados espalhando a peste,
outros deixados nos carris da sorte.

Bem sei que o corpo humano é frágil, imaturo,
um tanto mole, e pouco colorido;
não tem o corte puro do besouro,
nem o jeito frugal do escaravelho;
mal chega a florescer, logo envelhece,
e o pouco que constrói cedo parece,
transfigurado em sombra, não ter sido.

Assim serei também; por mais que digam
que nesta mutação me desperdiço
e arrisco até uma burlesca queda,
eu teimo em ser humano por um dia
para que possas ver-me tal qual sou:
um grão, de fina areia, que se move
no dourado rumor da tua pele,
o breve estremecer que te percorre,
a preguiçosa vida dos sentidos;
e depois, teu igual, talvez te vença
ou me deixe vencer, e te pertença
com a vaidade que me vem de ter
o sábio coração de um aranhiço.



/Aracne, António Franco Alexandre, Assírio e Alvim/

28.12.17

tenho pelas osgas especial carinho. é verdade, não se espante o leitor se um dia destes lhe repetir, encantada, o salvamento caseiro que em tempos proporcionei a uma família tradicional e numerosa, que habitava, tranquila, um pequeno barracão de madeira abandonado, destinado ao fogo da lareira. muito antes do Sr. Palomar me contar que todas as noites ele e [a senhora Palomar acabam por afastar os cadeirões da televisão, colocando-os ao pé do escaparate; sentados no interior da sala, ficam a contemplar a silhueta esbranquiçada do réptil sobre o fundo escuro. A opção entre a televisão e a osga nem sempre é feita sem incertezas; cada um dos espectáculos fornece informações que o outro não dá: a televisão move-se pelos continentes, recolhendo impulsos luminosos que descrevem a face visível das coisas; a osga, por sua vez, representa a concentração imóvel e os aspectos escondidos, o outro lado daquilo que aparece à vista], já eu me encantava com tão rugoso réptil.
vem esta vasta nota introdutória a propósito disto, onde cheguei por causa de disto.


fica um gostinho de Eulálio, a minha próxima osga:

«Nasci nesta casa e criei-me nela. Nunca saí. Ao entardecer encosto o corpo contra o cristal das janelas e contemplo o céu. Gosto de ver as labaredas altas, as nuvens a galope, e sobre elas os anjos, legiões deles, sacudindo as fagulhas dos cabelos, agitando as largas asas em chamas. É um espectáculo sempre idêntico. Todas as tardes, porém, venho até aqui e divirto-me e comovo-me como se o visse pela primeira vez. A semana passada Félix Ventura chegou mais cedo e surpreendeu-me a rir enquanto lá fora, no azul revolto, uma nuvem enorme corria em círculos, como um cão, tentando apagar o fogo que lhe abrasava a cauda. «Ai, não posso crer! Tu ris?!»
Irritou-me o assombro da criatura. Senti medo mas não movi um músculo. O albino tirou os óculos escuros, guardou-os no bolso interior do casaco, despiu o casaco, lentamente, melancolicamente, e pendurou-o com cuidado nas costas de uma cadeira. Escolheu um disco de vinil e colocou-o no prato do velho gira-discos.»


/O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa/


{osga, lagartixa, lagarto, tanto se me dá, serve igual}
não possuo nem a loucura, nem a pena de Artaud, mas se me pedissem a descrição do estado físico, teria de começar pelo peso absurdo que todos os dias me sinto a carregar, enquanto uma mão invisível me aperta o pescoço, ora leve, ora feroz. sou uma mulher constante, aborrecida, para ser sincera no discurso, a incerteza quase total do que me aguarda torna-se visível na seborreia que me atormenta os brancos já nascidos, bem como nos múltiplos ataques borbulhosos de que tenho sido vítima. as dores nas costas, confesso que às vezes excruciantes, por conta das muitas horas de pé, outras sentada, são, ainda assim, da repelência menos exposta. dão me apenas um ar rafeiro de uma pobre coitada que se vai aguentando, igual a tantos mais.
concluo então, sem grandes melodramas, que 2017 fez de mim uma mulher mais feia. e está tudo bem.

27.12.17

nunca devia ter permitido a Boris que se deitasse na minha cama. deixei me seduzir pelo rosto sério da sua capa.
Boris aproveitou se da minha tosca figura, deixou me despir o pijama patético e ficou a olhar para mim. quando as onze formigas chegaram e se abocanharam com raiva à minha carne branca, já nada pude fazer. irónico, sem ponta de tesão, ri se do meu rosto apreensivo, da indisposição ao virar de cada página.  este não é o Boris de que me lembro, sedutor, mas nem isso me dá vontade de o largar, caído na cama, antes o aqueço no baixo ventre, enquanto lambo o dedo para o enterrar nas suas folhas.

26.12.17

Los pájaros nacidos en jaula creen que volar es una enfermedad