10.2.18




































Violeta, um clitóris florindo a boca de Whitman.


Sex contains all, bodies, souls, 
Meanings, proofs, purities, delicacies, results, promulgations,
Songs, commands, health, pride, the maternal mystery, the
   seminal milk,
All hopes, benefactions, bestowals, all the passions, loves,
   beauties, delights of the earth,
All the governments, judges, gods, follow’d persons of the
   earth,
These are contain’d in sex as parts of itself and justifications
   of itself.
já cá faltava a peça, repetindo-se tanto quanto eu com aquilo das aliterações, assonâncias também. que lhe importa a forma como escrevo, dando-se ao trabalho de digitar a reclamação, chamada de atenção, prefere chamar-lhe, esse pavão da língua portuguesa. que lhe interessa se me repito, se facilito com rimas fáceis, dessas da música pop - quase o entendo, lembrando os ais do joão pedro pais - se este é o meu espaço e tão-pouco permito nele a comunicação. mas por que diabos esta estranha criatura não se dedica a leituras mais cuidadas. sugiro as sete centúrias de curas medicinais, de Amato Lusitano, se o encontrar.
voltará amanhã para terminar a poda das árvores de fruto. só depois trará o cunhado e juntos hão-de juntar as pernadas tombadas pelo terreno, logo se verá quando se lhes pega o fogo. o sotaque a samba e bossa nova não engana, mas Ayrton diz que não é de carnavais, a poda não se pode adiar mais, os pessegueiros já estão em flor. a ver vamos, enquanto conto as notas para lhe pagar.
creio que nunca lhe mostrei um sorriso que fosse, irrita-me a pose o suficiente para fechar a cara até que se afaste, montando ora um, ora outro cavalo. da última vez, tendo alterado o percurso costumeiro junto ao rio, exibiu-se pelo caminho principal, terreno com dono em terras de frança. as cadelas, sentido o intruso, correram à rede e ladraram - olhou-as com o desdém de quem manda. fitei-o com ódio, recordo, não desviou o olhar. tivesse a espingarda do meu pai e passaria sempre debaixo de mira. imprestável traste, julgando-se por condição. 
disse-me uma vez a dona da bata às riscas, enquanto fingia limpar o pó, que o senhor engenheiro era dono por herança da colina acolá e das vacas que lá pastavam, das vinhas ao fundo e do casario junto ao chafariz. o irmão, continuou ela, é um gastador de primeira, só quer é putas e vinho verde, desculpe a expressão, menina, e então este comprou-lhe a parte dos herdos e gere tudo sozinho. não julguei na altura que tal criatura, caricatura de vilarejo do interior, viesse a ser uma das minhas das minhas /poucas/ irritações locais. 

8.2.18

a voz rouca que sai das pequena colunas de Jolly Jumper educa-me a ignorância clássica musical, afinal era Tchaikovsky o autor de tamanho orgasmo, as mãos dedilhando à exaustão as cordas de nervos equestres, eu carregando no acelerador, embalada pelo movimento frenético, as pontas dos dedos sangrando, a um instante do êxtase anunciado. no poste, junto ao portão, uma surpresa, mokambo, o mocho-galego, à minha espera. sorrio. quantos poderão gabar-se de tão exótica recepção.
a casa, escura, recebe-me sem surpresas. onde o deixei, al berto espera por mim. despi-me e entrámos juntos nas águas quentes de fevereiro. 

7.2.18

a avenida da liberdade a passo de caracol, num entardecer colorido pelo amarelo aceso das lojas e o vermelho atiçado dos semáforos. e então vi-as! num chilreio desenfreado, bailavam, eléctricas, na contraluz do fim do dia. duvidei da descoberta e desci a janela. impossível não as reconhecer. mas como?, pensei, estamos em fevereiro e nos céus de lisboa já voam as andorinhas?!

6.2.18

só al berto quebra o silêncio desta casa escura e fria.

conheci um homem que possuía uma cabeça de vidro.
víamos - pelo lado menos sombrio do pensamento - todo o sistema planetário.
víamos o tremelicar da luz nas veias e o lodo das emoções na ponta dos dedos. o latejar do tempo na humidade dos lábios.
e a insónia, com seus anéis de luas quebradas e espermas ressequidos. as estrelas mortas das cidades imaginadas.
os ossos tristes das palavras.
agora estou na beira do penhasco e não vou voar


 Iconography From The Album The Blue Notebooks



notas azuis, soltas, prendendo-me ao fundo do mar onde constelações de cavalos-marinhos e estrelas de mil cores explodem dentro de mim, na minha mente, na minha alma, líquida, no meu ser, e eu gritando como quem nasce, gritando como quem morre, o frio nos meus olhos, a mão procurando o pai, o irmão, a queda vertiginosa, o fim ali ao fundo, o estrondo, combate final, os ossos quebrando, rasgando a carne, válvulas, veias, vértices, tendões, os fios de sangue, sulcos, e então o medo dando lugar à paz da imutabilidade, e as sereias em côro depois, cântico, oráculo, tristeza, saudade, certeza de que a vida é curta como o riscar de um fósforo, a lâmina cravando-se na raiz da existência, crua, em milhões de voltas, flutuando nas ondas do corpo materno. mar, mãe, cama, ventre, vida, vento, solidão. correndo pelas ruas desertas da madrugada, numa cidade do norte do mundo, ninguém me vê, ninguém saberá de mim, as minhas mãos fervem. ácido. sou invisível porque me fiz poeira no voo de um beija-flor. nada agora, apenas o silêncio do azul no espelho da parede.

30.1.18

o óbvio aconteceu,
o que eu andava a tentar matar
morreu.