23.2.18

posso comparar os últimos dias à piada das mãos frias. de tão frias, gelam e geladas queimam.

20.2.18

sinto-a, como uma serpente, enrolando-se em mim, deslizando pela espinha, cravando-se nos pulmões, mastigando-me os miolos. os arrepios, as dores, a fraqueza absurda. 

19.2.18

«De cada vez que parava para descansar, se o vento não estivesse a soprar, ouvia um silêncio ensurdecedor.»

/Silêncio na Era do Ruído, Erling Kagge/



Ansel Adams, Trees and Snow, 1933




lembro-me de ser criança, manhã bem cedo, e caminhar por entre as árvores cobertas de neve. ouvia-o, gigante, tomando a floresta por completo, aquele silêncio ensurdecedor

18.2.18

É quando me seco no calor uterino da toalha, que as palavras se afloram: prefiro as insónias de primavera, melhores ainda, as de verão.  Ergo o corpo da cama e desço a ladeira até ao rio, perdendo-me na imensidão do canto dos pássaros e no cheiro das ervas. Mas agora, a noite ainda tão escura, o frio gretando as mãos, abrindo-me fendas nos lábios, para onde caminhar? 

17.2.18

espanta-se o Damas, quando lhe peço que saia de cima de mim, arrastando o corpo à beira da cama, levantando-me para ir trabalhar. mas está a chover, Alicinha! hoje não podes ir lavar janelas. rio-me, ainda não lhe contei que para além da lavagem personalizada de janelas, algo que desconhecia gostar, agora, para compor o mês, que a corda me aperta, também aplico betume em brechas, fendas, rachas e outras aberturas indesejáveis. preparo a minha própria mistura com óleo de linhaça e prometo um serviço de elevada categoria. começo a ser famosa nas redondezas pela lisura da superfície final. mas nada disto interessa a Damas, que prefere fingir-me ainda como a magricela que lê livros de companhia. se já nem eu sei quem sou, em quem me ando a transformar, adaptando a mão à vida, como poderia ele, o meu Damas de carne em fogo e falo em riste, perceber que tudo mudou?

14.2.18















peço-lhe uma única coisa, antes de sair, rosas vermelhas não, por favor!, arregala-me os olhos de espanto, que vejo reflectidos no dourado do elevador. a felicidade está sobrestimada. nós cá preferimos vender memórias de melancolia, aquelas que nunca se esquecem. ranúnculos violeta, o que me diz?
perfeito.
hoje quero um beijo com língua e um verso desenhado na pele.
amanhã também.

12.2.18

um dia de trabalho como outro qualquer, percebi-o logo que cheguei ao pequeno parque improvisado no baldio. encolho jolly jumper num buraco afastado e corro para o interior do salon. d. paula, maternal e amorosa como sempre, apressa-se a sentar-me na sua sala. o costume, ex-turistas, trabalhadores dos óleos e dos escapes, ceo cinzentos, rapaziada dos escritórios em volta, há de tudo. e eis que os vejo, enquanto beberico o meu copo de tinto, os caçadores de espaços autênticos em vias de extinção... malditos sejam, não bastava os jornalistas e os actores de comédia, agora esta raça. daqui a algum tempo, dois ou três artigos romantizados nisso das revistas da moda, e terei de concorrer ao espaço - já - exíguo, mesa a mesa, com as massas urbanchic dos bairros centrais. raios os partam!

11.2.18

Orphée traces a path from darkness into light, inspired by the Orpheus myth. A story about death and rebirth, the elusive nature of creation and art and the ephemeral nature of memory. It's an album about change, love and art – a reflection of our relationships,


encontrado no encontrador de belezas

10.2.18




































Violeta, um clitóris florindo a boca de Whitman.


Sex contains all, bodies, souls, 
Meanings, proofs, purities, delicacies, results, promulgations,
Songs, commands, health, pride, the maternal mystery, the
   seminal milk,
All hopes, benefactions, bestowals, all the passions, loves,
   beauties, delights of the earth,
All the governments, judges, gods, follow’d persons of the
   earth,
These are contain’d in sex as parts of itself and justifications
   of itself.