eu montava a boneca, ele o trovoada, e subíamos à serra, atravessando o olival que agora é meu. até onde a vista alcança, dizia ele, quando chegávamos ao chão planalto de onde se via o meu mundo inteiro naquela altura. e ria-se. estávamos enganados, ele por brincadeira, eu por ingenuidade, nem tudo o que a vista alcançava era nosso, nem o meu mundo acabava ali.
se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria
27.2.18
25.2.18
felizmente tenho Lucky Blue para me assentar um belo par de bofetadas nas parcas bochechas e me trazer de regresso à estupidez risível dos dias. é ela que me faz subir aos décimos oitavos de madrugada, descer às catacumbas cheias de lama, baloiçar no rio gelado, solavancar nos tuk-tuks e nos buracos da estrada, aventurar-me sozinha num sem número de peripécias nunca antes tentadas. para Lucky Blue o impossível é uma questão de tempo e a garantia de um rendimento é construída todos os dias, hora após hora, sem sombras para arrependimento. alterar o caminho não a assusta e entusiasma-se à falta dele, quando se vê a braços com mais uma limpeza de mato. desbravar é ser pioneira, podia ser pior e chegar no fim, quando já tudo está varrido. sempre que pode, insiste: és uma sortuda.
Há tanto tempo que não me sentava nesta cadeira branca da cozinha, giratória de propósito, para apreciar o que está para lá do vidro que faz de parede. Há tanto tempo que não sentia o sol lambendo-me as pernas nuas, os olhos semicerrados, uma languidez de manhã de domingo. Mais uns minutos, imploro calada, mas sei que não tenho escolha. E apetece-me mandar tudo à merda, até a mim.
24.2.18
caí na cama com Albert e o homem que o acompanhava e agora se sentou num bar de marinheiros em amesterdão e não pára de falar. ainda há pouco me dizia que bastará uma única frase aos futuros historiadores para definirem o homem moderno: "fornicava e lia jornais". gosto de ouvir falar o homem, embala-me o dia carregado de sangue e de sono.
pão com manteiga e meia de leite com vista para o mar. Damas fuma uma cigarrilha, pensativo, de perna cruzada, à minha frente. sorvo a mistura ruidosamente, sabendo que aquele barulho o irrita, mas Damas não se manifesta. é só depois da última baforada que afasta os olhos do mar e se vira para mim dizendo, o homem não foi feito para a derrota, Alicinha, um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado.
talvez Damas esteja velho...
talvez Damas esteja velho...
Auster carrega-me ao colo para a cama. sabendo da raiva que me trilha os lábios, uma faca invisível nos dentes, fala-me em voz baixa,
Fechamos os olhos por um momento, viramo-nos para olhar para outra coisa qualquer, e, de súbito, aquilo que tínhamos à nossa frente desapareceu. Nada dura, compreendes, nada, nem mesmo os pensamentos dentro da nossa cabeça. E não vale a pena perdermos o nosso tempo à procura seja do que for. Quando uma coisa desaparece, é o seu fim.
/No País das Últimas Coisas, de Paul Auster/
23.2.18
20.2.18
19.2.18
«De cada vez que parava para descansar, se o vento não estivesse a soprar, ouvia um silêncio ensurdecedor.»
/Silêncio na Era do Ruído, Erling Kagge/
![]() |
| Ansel Adams, Trees and Snow, 1933 |
lembro-me de ser criança, manhã bem cedo, e caminhar por entre as árvores cobertas de neve. ouvia-o, gigante, tomando a floresta por completo, aquele silêncio ensurdecedor
18.2.18
É quando me seco no calor uterino da toalha, que as palavras se afloram: prefiro as insónias de primavera, melhores ainda, as de verão. Ergo o corpo da cama e desço a ladeira até ao rio, perdendo-me na imensidão do canto dos pássaros e no cheiro das ervas. Mas agora, a noite ainda tão escura, o frio gretando as mãos, abrindo-me fendas nos lábios, para onde caminhar?
17.2.18
espanta-se o Damas, quando lhe peço que saia de cima de mim, arrastando o corpo à beira da cama, levantando-me para ir trabalhar. mas está a chover, Alicinha! hoje não podes ir lavar janelas. rio-me, ainda não lhe contei que para além da lavagem personalizada de janelas, algo que desconhecia gostar, agora, para compor o mês, que a corda me aperta, também aplico betume em brechas, fendas, rachas e outras aberturas indesejáveis. preparo a minha própria mistura com óleo de linhaça e prometo um serviço de elevada categoria. começo a ser famosa nas redondezas pela lisura da superfície final. mas nada disto interessa a Damas, que prefere fingir-me ainda como a magricela que lê livros de companhia. se já nem eu sei quem sou, em quem me ando a transformar, adaptando a mão à vida, como poderia ele, o meu Damas de carne em fogo e falo em riste, perceber que tudo mudou?
14.2.18
peço-lhe uma única coisa, antes de sair, rosas vermelhas não, por favor!, arregala-me os olhos de espanto, que vejo reflectidos no dourado do elevador. a felicidade está sobrestimada. nós cá preferimos vender memórias de melancolia, aquelas que nunca se esquecem. ranúnculos violeta, o que me diz?
perfeito.
perfeito.
12.2.18
um dia de trabalho como outro qualquer, percebi-o logo que cheguei ao pequeno parque improvisado no baldio. encolho jolly jumper num buraco afastado e corro para o interior do salon. d. paula, maternal e amorosa como sempre, apressa-se a sentar-me na sua sala. o costume, ex-turistas, trabalhadores dos óleos e dos escapes, ceo cinzentos, rapaziada dos escritórios em volta, há de tudo. e eis que os vejo, enquanto beberico o meu copo de tinto, os caçadores de espaços autênticos em vias de extinção... malditos sejam, não bastava os jornalistas e os actores de comédia, agora esta raça. daqui a algum tempo, dois ou três artigos romantizados nisso das revistas da moda, e terei de concorrer ao espaço - já - exíguo, mesa a mesa, com as massas urbanchic dos bairros centrais. raios os partam!
11.2.18
Orphée traces a path from darkness into light, inspired by the Orpheus myth. A story about death and rebirth, the elusive nature of creation and art and the ephemeral nature of memory. It's an album about change, love and art – a reflection of our relationships,
encontrado no encontrador de belezas
10.2.18
Violeta, um clitóris florindo a boca de Whitman.
Sex contains all, bodies, souls,
Meanings, proofs, purities, delicacies, results, promulgations,
Songs, commands, health, pride, the maternal mystery, the
seminal milk,
All hopes, benefactions, bestowals, all the passions, loves,
beauties, delights of the earth,
All the governments, judges, gods, follow’d persons of the
earth,
These are contain’d in sex as parts of itself and justifications
of itself.
já cá faltava a peça, repetindo-se tanto quanto eu com aquilo das aliterações, assonâncias também. que lhe importa a forma como escrevo, dando-se ao trabalho de digitar a reclamação, chamada de atenção, prefere chamar-lhe, esse pavão da língua portuguesa. que lhe interessa se me repito, se facilito com rimas fáceis, dessas da música pop - quase o entendo, lembrando os ais do joão pedro pais - se este é o meu espaço e tão-pouco permito nele a comunicação. mas por que diabos esta estranha criatura não se dedica a leituras mais cuidadas. sugiro as sete centúrias de curas medicinais, de Amato Lusitano, se o encontrar.
voltará amanhã para terminar a poda das árvores de fruto. só depois trará o cunhado e juntos hão-de juntar as pernadas tombadas pelo terreno, logo se verá quando se lhes pega o fogo. o sotaque a samba e bossa nova não engana, mas Ayrton diz que não é de carnavais, a poda não se pode adiar mais, os pessegueiros já estão em flor. a ver vamos, enquanto conto as notas para lhe pagar.
creio que nunca lhe mostrei um sorriso que fosse, irrita-me a pose o suficiente para fechar a cara até que se afaste, montando ora um, ora outro cavalo. da última vez, tendo alterado o percurso costumeiro junto ao rio, exibiu-se pelo caminho principal, terreno com dono em terras de frança. as cadelas, sentido o intruso, correram à rede e ladraram - olhou-as com o desdém de quem manda. fitei-o com ódio, recordo, não desviou o olhar. tivesse a espingarda do meu pai e passaria sempre debaixo de mira. imprestável traste, julgando-se por condição.
disse-me uma vez a dona da bata às riscas, enquanto fingia limpar o pó, que o senhor engenheiro era dono por herança da colina acolá e das vacas que lá pastavam, das vinhas ao fundo e do casario junto ao chafariz. o irmão, continuou ela, é um gastador de primeira, só quer é putas e vinho verde, desculpe a expressão, menina, e então este comprou-lhe a parte dos herdos e gere tudo sozinho. não julguei na altura que tal criatura, caricatura de vilarejo do interior, viesse a ser uma das minhas das minhas /poucas/ irritações locais.
8.2.18
a voz rouca que sai das pequena colunas de Jolly Jumper educa-me a ignorância clássica musical, afinal era Tchaikovsky o autor de tamanho orgasmo, as mãos dedilhando à exaustão as cordas de nervos equestres, eu carregando no acelerador, embalada pelo movimento frenético, as pontas dos dedos sangrando, a um instante do êxtase anunciado. no poste, junto ao portão, uma surpresa, mokambo, o mocho-galego, à minha espera. sorrio. quantos poderão gabar-se de tão exótica recepção.
a casa, escura, recebe-me sem surpresas. onde o deixei, al berto espera por mim. despi-me e entrámos juntos nas águas quentes de fevereiro.
7.2.18
a avenida da liberdade a passo de caracol, num entardecer colorido pelo amarelo aceso das lojas e o vermelho atiçado dos semáforos. e então vi-as! num chilreio desenfreado, bailavam, eléctricas, na contraluz do fim do dia. duvidei da descoberta e desci a janela. impossível não as reconhecer. mas como?, pensei, estamos em fevereiro e nos céus de lisboa já voam as andorinhas?!
6.2.18
só al berto quebra o silêncio desta casa escura e fria.
conheci um homem que possuía uma cabeça de vidro.
víamos - pelo lado menos sombrio do pensamento - todo o sistema planetário.
víamos o tremelicar da luz nas veias e o lodo das emoções na ponta dos dedos. o latejar do tempo na humidade dos lábios.
e a insónia, com seus anéis de luas quebradas e espermas ressequidos. as estrelas mortas das cidades imaginadas.
os ossos tristes das palavras.
conheci um homem que possuía uma cabeça de vidro.
víamos - pelo lado menos sombrio do pensamento - todo o sistema planetário.
víamos o tremelicar da luz nas veias e o lodo das emoções na ponta dos dedos. o latejar do tempo na humidade dos lábios.
e a insónia, com seus anéis de luas quebradas e espermas ressequidos. as estrelas mortas das cidades imaginadas.
os ossos tristes das palavras.
Iconography From The Album The Blue Notebooks
notas azuis, soltas, prendendo-me ao fundo do mar onde constelações de cavalos-marinhos e estrelas de mil cores explodem dentro de mim, na minha mente, na minha alma, líquida, no meu ser, e eu gritando como quem nasce, gritando como quem morre, o frio nos meus olhos, a mão procurando o pai, o irmão, a queda vertiginosa, o fim ali ao fundo, o estrondo, combate final, os ossos quebrando, rasgando a carne, válvulas, veias, vértices, tendões, os fios de sangue, sulcos, e então o medo dando lugar à paz da imutabilidade, e as sereias em côro depois, cântico, oráculo, tristeza, saudade, certeza de que a vida é curta como o riscar de um fósforo, a lâmina cravando-se na raiz da existência, crua, em milhões de voltas, flutuando nas ondas do corpo materno. mar, mãe, cama, ventre, vida, vento, solidão. correndo pelas ruas desertas da madrugada, numa cidade do norte do mundo, ninguém me vê, ninguém saberá de mim, as minhas mãos fervem. ácido. sou invisível porque me fiz poeira no voo de um beija-flor. nada agora, apenas o silêncio do azul no espelho da parede.
30.1.18
28.1.18
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| Hari & Deepti |
a gruta
a gruta onde decidi esconder-me do mundo não passava à primeira vista de um buraco de raposas escavado no meio das silvas. pequena, forrada pela penugem de várias famílias vulpeanas, era a toca perfeita para me ausentar por tempo indefinido da realidade estúpida do mundo. nenhum som motor, nenhuma voz humana, alimentava-me de livros e de laranjas, e de algumas sementes. os dias passaram, tal e qual um guandira, o coração abrandou os seus pequenos tambores e a escuridão tomou conta de mim. o pensamento, livre do ruído das coisas visíveis, fluía sem rumo, tomando formas difusas, medonhas às vezes. em vez de o sovar como era o meu jeito, trazia-o mansamente pela mão de volta ao leito do rio e começava outra vez. o exercício da alma é aprender a ficar sozinha. assim foi até que um grito agudo me acordou a meio de uma noite qualquer. o medo paralisou-me o tempo preciso de escutar um segundo grito, mais fino e distinto. que criatura podia gritar assim, cravando-se com garras umbráticas nos meus ouvidos adormecidos?
procurei no bolso do casaco as folhas secas de erva-cidreira e mastiguei algumas para me acalmar. os gritos, uma mistura de uivo lupino e animal marinho alienígena, continuaram por mais alguns minutos. vinham de dentro da terra, como podia ser? as pernas tolhidas pela letargia fraquejavam às tentativas de movimento, quando consegui levantar-me as carriças já cantavam lá fora. não saí, não queria cegar-me na luz branca de janeiro, procurei o coração das trevas e mordi-lhe mais um pouco da capa. estamos acostumados a contemplar a forma agrilhoada de um monstro vencido, mas ali – ali podíamos ver a monstruosidade à solta.
11.1.18
9.1.18
6.1.18
Sonho nº 5
José Buchmann sorria. Um leve sorriso de troça. Estávamos no vagão luxuoso de um velho comboio a vapor. Uma tela, pendurada numa das paredes, iluminava o ar com uma vaga luz cor de cobre. Reparei num tabuleiro de xadrez, em pau-preto e marfim, colocado numa pequena mesa, entre mim e ele. Não me recordava de ter movido as peças mas o jogo ia adiantado. O fotógrafo estava em clara vantagem.
--Finalmente -- disse. -- Há vários dias que sonhava com isto. Queria vê-lo. Queria saber como era você.
-- Acha, então, que esta conversa é real?
-- A conversa, certamente, as circunstâncias é que carecem de substância. Há verdade, ainda que não haja verosimilhança, em tudo o que um homem sonha. Uma goiabeira em flor, por exemplo, perdida algures entre as páginas de um bom romance, pode alegrar com o seu perfume fictício vários salões concretos.
Fui forçado a concordar. Às vezes, por exemplo, sonho que voo. Ora, nunca voei com tanta verdade, inclusive com tanta autoridade, quanto nos meus sonhos. Voar de avião, na época em que eu voava de avião, não me transmitia um idêntico sentimento de liberdade. Tenho chorado a morte da minha avó, em sonhos, mais e melhor do que a chorei desperto. Chorei, aliás, lágrimas mais autênticas pela morte de algumas personagens literárias do que pelo desaparecimento de muitos amigos e parentes. O que me parecia menos real ali era a tela na parede, atrás de José Buchmann, uma composição melancólica, não pelo tema, pois não era possível adivinhar qual fosse o tema, o que talvez seja a maior virtude da arte moderna, e sim pelo lume das cores.
A tarde entrava (rápida) pelas janelas. Víamos correr as praias, os coqueiros carregados de cocos, a larga cabeleira despenteada das casuarinas. Víamos ainda o mar, muito ao fundo, a arder num imenso incêndio azul-anil. O comboio abrandou numa subida. Arfava, asmático, velho monstro mecânico, quase sem fôlego. José Buchmann avançou a rainha, ameaçando-me o cavalo do rei. Ofereci-lhe um peão.
Ele olhou-o distraído:
-- A verdade é improvável. -- Sorriu num relâmpago. -- A mentira -- explicou -- está por toda a parte. A própria Natureza mente. O que é a camuflagem, por exemplo, senão uma mentira? O camaleão disfarça-se de folha para iludir a pobre borboleta. Mente-lhe, dizendo «Fica tranquila, minha querida, não vês que sou apenas uma folha muito verde ondulando ao vento?», e depois atira-lhe a língua, a uma velocidade de seiscentos e vinte e cinco centímetros por segundo, e come-a.
Comeu o peão. Fiquei em silêncio, atordoado pela revelação e pelo distante fulgor do mar. Só me lembrei de uma frase alheia:
-- «Abomino a mentira porque é uma inexatidão.»
José Buchmann reconheceu as palavras. Considerou-as por um instante, medindo-lhes a solidez e a mecânica; a eficácia:
-- Também a verdade costuma ser ambígua. Se fosse exata não seria humana. -- Ganhava animação à medida que falava: -- Você citou Ricardo Reis. Dê-me licença para citar Montaigne: «Nada parece verdadeiro que não possa parecer falso.»
(...)
(...)
/O Vendedor de Passados/
5.1.18
Amigos comuns, disse, e a voz
fez-se ainda mais suave,
tinham-lhe indicado aquele
endereço. Haviam-lhe falado num
homem que traficava memórias,
que vendia o passado,
secretamente, como outros
contrabandeiam cocaína. Félix
olhou-o desconfiado. Tudo no
estranho o irritava – os modos
doces e ao mesmo tempo
autoritários, o discurso irónico,
o bigode arcaico.
/O Vendedor de Passados/
fez-se ainda mais suave,
tinham-lhe indicado aquele
endereço. Haviam-lhe falado num
homem que traficava memórias,
que vendia o passado,
secretamente, como outros
contrabandeiam cocaína. Félix
olhou-o desconfiado. Tudo no
estranho o irritava – os modos
doces e ao mesmo tempo
autoritários, o discurso irónico,
o bigode arcaico.
/O Vendedor de Passados/
3.1.18
2017 foi o ano em que uma belíssima coruja das torres veio morrer na varanda do meu quarto...
em 2018, será a ave do ano, aqui ao lado, em espanha.
em 2018, será a ave do ano, aqui ao lado, em espanha.
2.1.18
no primeiro dia do ano novo, almocei com a mãe e com a madrinha. entre abraços, beijos e muitas gargalhadas, fui menina outra vez. antes de partir, comemos tangerinas à chuva - finíssima - e meu coração transbordava de felicidade. das complicações do dia - iguais para tantos outros em viagem - já nem me lembro. as duas mulheres da minha vida estão felizes e eu estou feliz por elas.
na segunda noite do novo ano, depois de uma longa insónia, sonhei com a guerra nuclear e o fim do mundo. a explosão gigante a cegar-me os olhos, lá ao fundo, no horizonte, eu a fugir com as cadelas, entre centenas de pessoas, por um carreiro íngreme, em precipício, nas montanhas. o medo de deixar cair os animais e a pressa de chegar a algum lugar seguro - não sei para onde caminhava - misturavam-se no meu sonho. antes de acordar, lembro apenas a onda de luz que nos cobriu a todos.
acordei sem grande alívio, taciturna, lendo no sonho uma visão - pensamento que me atormenta há dias -, se a matemática da morte se mantiver na minha vida, este será o ano em que perderei alguém muito próximo.
31.12.17
2017
foi o ano em que matei Vendredi, uma rapariga feia de bom coração, frustrada, refém, como milhares, a um sistema podre, em constantes remoinhos de esterco. a morte de Vendredi, um tiro no escuro profundo, um salto longo fora da caixa onde se deixou empacotar por amor à arte, foi - e será sempre - um dos acontecimentos maiores da minha vida. não se mata alguém sem sentir a lâmina da navalha cravada ao que foi e ao que podia ter sido, mas principalmente ao que será. carrego um cadáver ainda, que não sei esconder.
foi também o ano em que perdi Sr. Gato, o Velho, que tentei manter vivo até à exaustão das suas forças - e como era forte o meu Gato. foi ele que pediu para o deixar partir, recusando toda a boa vontade, e eu chorei e cedi. depois, arrastei-me até onde repousa Malaquias, o grande cão preto, e cavei, debaixo de chuva, a pequena cova onde entreguei o seu corpo à terra. tombei então como uma criança e solucei em total abandono.
com a morte de Vendredi e do Sr. Gato, foi-se também uma boa parte de mim. não deixei de saber andar, mas piso ainda as ervas altas e os arbustos, de onde terei de fazer novos caminhos. estranhamente, ou não, é do Sr. Gato que mais me lembro, confesso que às vezes ainda o ouço miar. jamais voltei ao local onde conheci Vendredi.
And this I dreamt, and this I dream,
And some time this I will dream again,
And all will be repeated, all be re-embodied,
You will dream everything I have seen in dream.
To one side from ourselves, to one side from the world
Wave follows wave to break on the shore,
On each wave is a star, a person, a bird,
Dreams, reality, death—on wave after wave.
No need for a date: I was, I am, and I will be,
Life is a wonder of wonders, and to wonder
I dedicate myself, on my knees, like an orphan,
Alone—among mirrors—fenced in by reflections:
Cities and seas, iridescent, intensified.
A mother in tears takes a child on her lap.
Because we don't know when we will die, we get to think of life as an unexhaustable well yet everything happens on a certain number of time, and a very small number, really.
How many more times will you remember a certain afternoon of your childhood, some afternoon that's so deeply part of your being that you can't ever consider your life without it, perhaps four or five time more, perhaps not even that ?
How many more times will you watch the full moon rises ?
Perhaps twenty, and yet it all seems limitless.
Paul Bowles, The Sheltering Sky
How many more times will you remember a certain afternoon of your childhood, some afternoon that's so deeply part of your being that you can't ever consider your life without it, perhaps four or five time more, perhaps not even that ?
How many more times will you watch the full moon rises ?
Perhaps twenty, and yet it all seems limitless.
Paul Bowles, The Sheltering Sky
29.12.17
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
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| Karla Gerard |
das páginas mais belas que li em 2017: aracne, de antónio franco alexandre [paixão minha]
a pedido de Milu, a aranha, aqui partilho o final de uma bela aventura em poesia.
Já dei a volta ao mundo, transportado
às vezes pelo vento, outras no dorso
de vigorosas aves migratórias;
atravessei desertos, vi as praias
que a vaga névoa humana delimita;
flutuando à deriva no mar alto,
fui visitar as mais secretas ilhas.
Como um herói antigo, bem podia
debruçar-me na teia do destino
e dar-lhe a consistência das histórias;
ocorrem-me aventuras, episódios,
naufrágios casuais, duros exílios,
que na arte do verso são figuras
de alguma obscura ausência primitiva.
Suspenso de uma trave, protegido
pelas paredes mestras desta casa
erguida, como um barco, sobre abismos,
com pouco esforço poderia ter
no papel branco um novo corpo de asas,
e descansar enfim, todo coberto
por um suave manto de memórias.
Mas se vou transformar-me, não aspiro
à condição de marco funerário
ou ténue monumento de mim mesmo;
nem tenho grande pressa de lembrar
a morte mal parada deste inverno,
ratos armados espalhando a peste,
outros deixados nos carris da sorte.
Bem sei que o corpo humano é frágil, imaturo,
um tanto mole, e pouco colorido;
não tem o corte puro do besouro,
nem o jeito frugal do escaravelho;
mal chega a florescer, logo envelhece,
e o pouco que constrói cedo parece,
transfigurado em sombra, não ter sido.
Assim serei também; por mais que digam
que nesta mutação me desperdiço
e arrisco até uma burlesca queda,
eu teimo em ser humano por um dia
para que possas ver-me tal qual sou:
um grão, de fina areia, que se move
no dourado rumor da tua pele,
o breve estremecer que te percorre,
a preguiçosa vida dos sentidos;
e depois, teu igual, talvez te vença
ou me deixe vencer, e te pertença
com a vaidade que me vem de ter
o sábio coração de um aranhiço.
/Aracne, António Franco Alexandre, Assírio e Alvim/
a pedido de Milu, a aranha, aqui partilho o final de uma bela aventura em poesia.
Já dei a volta ao mundo, transportado
às vezes pelo vento, outras no dorso
de vigorosas aves migratórias;
atravessei desertos, vi as praias
que a vaga névoa humana delimita;
flutuando à deriva no mar alto,
fui visitar as mais secretas ilhas.
Como um herói antigo, bem podia
debruçar-me na teia do destino
e dar-lhe a consistência das histórias;
ocorrem-me aventuras, episódios,
naufrágios casuais, duros exílios,
que na arte do verso são figuras
de alguma obscura ausência primitiva.
Suspenso de uma trave, protegido
pelas paredes mestras desta casa
erguida, como um barco, sobre abismos,
com pouco esforço poderia ter
no papel branco um novo corpo de asas,
e descansar enfim, todo coberto
por um suave manto de memórias.
Mas se vou transformar-me, não aspiro
à condição de marco funerário
ou ténue monumento de mim mesmo;
nem tenho grande pressa de lembrar
a morte mal parada deste inverno,
ratos armados espalhando a peste,
outros deixados nos carris da sorte.
Bem sei que o corpo humano é frágil, imaturo,
um tanto mole, e pouco colorido;
não tem o corte puro do besouro,
nem o jeito frugal do escaravelho;
mal chega a florescer, logo envelhece,
e o pouco que constrói cedo parece,
transfigurado em sombra, não ter sido.
Assim serei também; por mais que digam
que nesta mutação me desperdiço
e arrisco até uma burlesca queda,
eu teimo em ser humano por um dia
para que possas ver-me tal qual sou:
um grão, de fina areia, que se move
no dourado rumor da tua pele,
o breve estremecer que te percorre,
a preguiçosa vida dos sentidos;
e depois, teu igual, talvez te vença
ou me deixe vencer, e te pertença
com a vaidade que me vem de ter
o sábio coração de um aranhiço.
/Aracne, António Franco Alexandre, Assírio e Alvim/
28.12.17
tenho pelas osgas especial carinho. é verdade, não se espante o leitor se um dia destes lhe repetir, encantada, o salvamento caseiro que em tempos proporcionei a uma família tradicional e numerosa, que habitava, tranquila, um pequeno barracão de madeira abandonado, destinado ao fogo da lareira. muito antes do Sr. Palomar me contar que todas as noites ele e [a senhora Palomar acabam por afastar os cadeirões da televisão, colocando-os ao pé do escaparate; sentados no interior da sala, ficam a contemplar a silhueta esbranquiçada do réptil sobre o fundo escuro. A opção entre a televisão e a osga nem sempre é feita sem incertezas; cada um dos espectáculos fornece informações que o outro não dá: a televisão move-se pelos continentes, recolhendo impulsos luminosos que descrevem a face visível das coisas; a osga, por sua vez, representa a concentração imóvel e os aspectos escondidos, o outro lado daquilo que aparece à vista], já eu me encantava com tão rugoso réptil.
vem esta vasta nota introdutória a propósito disto, onde cheguei por causa de disto.
fica um gostinho de Eulálio, a minha próxima osga:
«Nasci nesta casa e criei-me nela. Nunca saí. Ao entardecer encosto o corpo contra o cristal das janelas e contemplo o céu. Gosto de ver as labaredas altas, as nuvens a galope, e sobre elas os anjos, legiões deles, sacudindo as fagulhas dos cabelos, agitando as largas asas em chamas. É um espectáculo sempre idêntico. Todas as tardes, porém, venho até aqui e divirto-me e comovo-me como se o visse pela primeira vez. A semana passada Félix Ventura chegou mais cedo e surpreendeu-me a rir enquanto lá fora, no azul revolto, uma nuvem enorme corria em círculos, como um cão, tentando apagar o fogo que lhe abrasava a cauda. «Ai, não posso crer! Tu ris?!»
Irritou-me o assombro da criatura. Senti medo mas não movi um músculo. O albino tirou os óculos escuros, guardou-os no bolso interior do casaco, despiu o casaco, lentamente, melancolicamente, e pendurou-o com cuidado nas costas de uma cadeira. Escolheu um disco de vinil e colocou-o no prato do velho gira-discos.»
/O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa/
{osga, lagartixa, lagarto, tanto se me dá, serve igual}
vem esta vasta nota introdutória a propósito disto, onde cheguei por causa de disto.
fica um gostinho de Eulálio, a minha próxima osga:
«Nasci nesta casa e criei-me nela. Nunca saí. Ao entardecer encosto o corpo contra o cristal das janelas e contemplo o céu. Gosto de ver as labaredas altas, as nuvens a galope, e sobre elas os anjos, legiões deles, sacudindo as fagulhas dos cabelos, agitando as largas asas em chamas. É um espectáculo sempre idêntico. Todas as tardes, porém, venho até aqui e divirto-me e comovo-me como se o visse pela primeira vez. A semana passada Félix Ventura chegou mais cedo e surpreendeu-me a rir enquanto lá fora, no azul revolto, uma nuvem enorme corria em círculos, como um cão, tentando apagar o fogo que lhe abrasava a cauda. «Ai, não posso crer! Tu ris?!»
Irritou-me o assombro da criatura. Senti medo mas não movi um músculo. O albino tirou os óculos escuros, guardou-os no bolso interior do casaco, despiu o casaco, lentamente, melancolicamente, e pendurou-o com cuidado nas costas de uma cadeira. Escolheu um disco de vinil e colocou-o no prato do velho gira-discos.»
/O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa/
{osga, lagartixa, lagarto, tanto se me dá, serve igual}
não possuo nem a loucura, nem a pena de Artaud, mas se me pedissem a descrição do estado físico, teria de começar pelo peso absurdo que todos os dias me sinto a carregar, enquanto uma mão invisível me aperta o pescoço, ora leve, ora feroz. sou uma mulher constante, aborrecida, para ser sincera no discurso, a incerteza quase total do que me aguarda torna-se visível na seborreia que me atormenta os brancos já nascidos, bem como nos múltiplos ataques borbulhosos de que tenho sido vítima. as dores nas costas, confesso que às vezes excruciantes, por conta das muitas horas de pé, outras sentada, são, ainda assim, da repelência menos exposta. dão me apenas um ar rafeiro de uma pobre coitada que se vai aguentando, igual a tantos mais.
concluo então, sem grandes melodramas, que 2017 fez de mim uma mulher mais feia. e está tudo bem.
27.12.17
nunca devia ter permitido a Boris que se deitasse na minha cama. deixei me seduzir pelo rosto sério da sua capa.
Boris aproveitou se da minha tosca figura, deixou me despir o pijama patético e ficou a olhar para mim. quando as onze formigas chegaram e se abocanharam com raiva à minha carne branca, já nada pude fazer. irónico, sem ponta de tesão, ri se do meu rosto apreensivo, da indisposição ao virar de cada página. este não é o Boris de que me lembro, sedutor, mas nem isso me dá vontade de o largar, caído na cama, antes o aqueço no baixo ventre, enquanto lambo o dedo para o enterrar nas suas folhas.
26.12.17
21.12.17
20.12.17
não é que a idade me tenha trazido respostas, muito pelo contrário, diz-me Bartolomeu, estou em paz, mas porque já não me questiono, percebes? já não procuro por mim fora das coisas. se o que quero é comer esta maçã, pego nela e trinco-a. já não me importa saber de onde me vem a necessidade absurda de comer uma maçã amarela, sempre que as vejo. faço o mesmo com a vida.
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