22.3.18

Rumámos ao sul, por entre o azul petróleo da noite e uma lua crescente. Decidimos, este ano, dar início a uma nova tradição - o enterro do inverno. Petra fez uma panela de sopa de tomate, onde alguns fatiaram ovos cozidos, outros esfarelaram queijo feta e eu abusei dos dois. Acompanhámos o banquete com pão torrado, besuntado de manteiga, e poncha caseira de maracujá. Estacionámos próximo de uma praia deserta, que Cirilo conhecia de outros tempos, e começámos por fazer a fogueira. Antes de enterrar o maldito, todos quiseram incinerá-lo, aproveitando para aquecer corpos e almas.
Passaram dois dias e o bandalho continua vivo.
Vivo no meio de desastres,
terra que se desprende, inundações, abismos,
vento contrário que nos leva ao sítio
onde o trovão sem luz secretamente habita.


Cirilo urra, grita que já não suporta tanta bandalheira, Bartolomeu, abatido, observa a janela, Petra silenciou-se também, Jasmim tem saudades da mãe e diz que nada lhe importa, é epicurista, Tristan vive enfiado no barracão, escrevendo as suas memórias de escritor falhado, Sophia foi fazer compras à primark do colombo e nunca mais voltou. somos um bando de esconjurados, maltrapilhos dos tempos modernos, adultos de sucesso nulo, todos esperando que as águas de março não venham fechar o verão.

21.3.18

um dos principais desafios, segundo o livro que pretende ensinar-me muitas coisas, é Gerir a canibalização, assim, preto no branco, mas sem o itálico que me sopre uma metáfora. pois muito bem, vamos lá, sem medos, que o cabo da esfregona é grande e os detergentes são substâncias corrosivas. 
no dia que se diz da Poesia,
um poema 'tosquiado' para a Be


Apesar das ruínas e da morte, 
Onde sempre acabou cada ilusão, 
A força dos teus sonhos é tão forte, 
Que de tudo renasce a exaltação 
E nunca as tuas mãos ficam vazias. 

/Sophia de Mello Breyner Andresen/

18.3.18

- E pró Feliciano não vai nada, nada, nada?
- Tudo!!


mas que bela comédia. 

16.3.18

senti-me uma Thoreau dos tempos modernos, Jolly Jumper trotando na estrada estreita, outrora caminho de cabras e ovelhas decerto, os máximos indicando o destino, quando o vejo pousado no chão: Mokambo*. guinada à esquerda, que o bicho parecia colado ao alcatrão, e eis que Jolly Jumper, com os seus cascos angelicais, quase trucida um coelho, igualmente estático, quiçá em fervoroso namoro com a ave. não será fácil também para a bicharada esta coisa do multirracial, imagino o preconceito de ambas as famílias, os Athene noctua e os Oryctolagus cuniculus, preocupadas com o bom nome de cada uma e as descendências vindouras. e então será isso, corações palpitando, os dois encontram-se naquele caminho, madrugada alta, quando todos dormem, menos esta que aqui vos tecla. imagino-lhes o susto, Mokambo, atarracado como sempre, levantou voo e rasou a fuça de Jolly Jumper, Bugs Bunny activou as molas do traseiro e desapareceu por entre o mar de erva. espero que voltem e se forniquem à exaustão dos seus pequenos corpos, porque o mundo precisa é de amor e fricção. 


 /*para mim, qualquer mocho-galego que apareça será sempre Mokambo/

15.3.18

Não há laranjas ou brasas ou facas iluminadas
que a vingança não afaste.


preciso desesperadamente de um cigarro, ou de uma marreta que desfaça crânios casquinados à primeira. logo eu, que nunca me consegui viciar na nicotina, apesar de a ter inspirado, e aprecio sem entraves a estrutura óssea de uma mulher interessante. será dos pés frios?

14.3.18

[não é que sejamos invisíveis aos seus olhos, somos apenas, e apenas só, insignificantes, minguados de interesse que os mova até nós, ao que dizemos, ao que queremos mostrar, mais longe ainda, ao que procuramos esconder. e a vida, este continuum de dia após noite após dia, obriga-nos a mais uma lição, alguns de nós, julgando-se, nada temos de especial.]
gisele chegou hoje, mal dando tempo de mudar os lençois onde felix dormiu feroz. a verdade é que já nenhum de nós acredita que ainda seja possível salvar o mês, nem mesmo Petra, que iniciou esta manhã um jejum espiritual. talvez tudo esteja condenado desde o princípio, talvez seja apenas  mais uma fase, coisas do tempo. é sempre nos cruzamentos que temos tendência a enganar-nos.

13.3.18

a chuva não traz apenas a quebra no negócio da lavagem de janelas, o pior mesmo são os índices de irritabilidade, os pagamentos em atraso e a perda de cabeças no bando. perdidas as cabeças, é cada um por si e todos pelos decibéis estronços. casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão, apetece-me dizer, mas estrafego a veia proverbial e provinciana ao silêncio, pois qualquer palavra que fique a pairar sobre as cabeças perdidas só traz novas discussões. cortámos nos croissants au beurre, agora só bolachas integrais de limão, trocámos os tinteiros vip pelos enlatados, varremos o chão e desinfectamos a sanita com as próprias mãos enluvadas, deixando no desemprego a D. Suely das limpezas. já ponderei libertar Jolly Jumper em terreno baldio e passar a deslocar-me a pé, mas Cirilo, enquanto troveja gafanhotos, garante que a ideia é estúpida. Bartolomeu concorda, desnorteado. e eu pergunto, calada, onde irei buscar o dinheiro para os fardos de palha.
Cirilo volta à carga, esmurrando a mesa ruinzinha, trazida lá dos lados de frielas e montada por mim com chave de cruz. a ideia é esmurrar da mesma forma a fuça de cada um dos que ainda não pagaram as lavagens, mas tem de ser tudo feito com muito cuidado, sob o manto escuro da noite, na calada da viela. Bartolomeu suspira, parece-me que já está por tudo, Jasmim mantém-se em silêncio, Petra pede calma e tenta empurrar a ideia de Cirilo para uma pré-reserva, enquanto ela mesma telefona aos sem-vergonha. Cirilo urra Nãos com exclamação, porque essa gente não tem carácter, diz que sim e vira as costas, Não! Não! Não! eu assisto, dói-me a cabeça, parece-me tudo tão difícil. é que nem a roupa seca com este tempo e as peças estão contadas...

8.3.18

padeço de misofonia agreste e aversão aguda a multidões.

não sei porque estou a contar isto agora, mas suponho que é sempre assim: escrevemos uma coisa para contar outra.

/O Nervo Ótico, María Gainza/

7.3.18

amo um poeta. um homem azul, infinitamente belo.

3.3.18

troveja. Jolly Jumper, ruminando num estábulo aqui perto, não ficará feliz, quando me vir chegar, ensopada até às ceroulas. e com razão, bem sei, que não se atravessam pontes, quando corre um dilúvio, nem se procura abrigo no beiral das portas fechadas.

2.3.18


Se uma gaivota viesse...

1.3.18

Basta um lápis nos olhos, uns saltos altos, o cabelo solto, algo que me devolva àquilo a que chamam de mundo feminino, e noto-os, observando-me, medindo-me o corpo, dando conta de mim. E então penso, amanhã volto a calçar as sapatilhas.
Jolly Jumper estancou a quatro rodas sobre o asfalto molhado da cidade. olha, cegueta, pareceu-me ouvi-lo relinchar. inclinei-me, debruçando-me sobre a sela e espreitei. ei-la, a lua, companheira de viagem, na solidão das noites brancas.


março entrou montado no seu cavalo de vendaval e ribeiras a transbordar. trouxe a chuva felina e com ela as esperas vertiginosas por um raio de sol. chegou feroz, assobiando nas chaminés, rugindo nas dobradiças dos portões, sibilando o inverno mortal nas folhas das árvores. em breve, das cheias hão de nascer as securas que me gretam as mãos e me atacam o fígado devagarinho. triste março, este março que me afasta, rude, da boca do meu poeta azul e encerra mais um dos meus espaços de oração: a pó dos livros 

27.2.18

eu montava a boneca, ele o trovoada, e subíamos à serra, atravessando o olival que agora é meu. até onde a vista alcança, dizia ele, quando chegávamos ao chão planalto de onde se via o meu mundo inteiro naquela altura. e ria-se. estávamos enganados, ele por brincadeira, eu por ingenuidade, nem tudo o que a vista alcançava era nosso, nem o meu mundo acabava ali. 


25.2.18

felizmente tenho Lucky Blue para me assentar um belo par de bofetadas nas parcas bochechas e me trazer de regresso à estupidez risível dos dias. é ela que me faz subir aos décimos oitavos de madrugada, descer às catacumbas cheias de lama, baloiçar no rio gelado, solavancar nos tuk-tuks e nos buracos da estrada, aventurar-me sozinha num sem número de peripécias nunca antes tentadas. para Lucky Blue o impossível é uma questão de tempo e a garantia de um rendimento é construída todos os dias, hora após hora, sem sombras para arrependimento. alterar o caminho não a assusta e entusiasma-se à falta dele, quando se vê a braços com mais uma limpeza de mato. desbravar é ser pioneira, podia ser pior e chegar no fim, quando já tudo está varrido. sempre que pode, insiste: és uma sortuda.
não posso culpar Paul por me ter levado a Anna Blume, ambas procuramos William.
Há tanto tempo que não me sentava nesta cadeira branca da cozinha, giratória de propósito, para apreciar o que está para lá do vidro que faz de parede. Há tanto tempo que não sentia o sol lambendo-me as pernas nuas, os olhos semicerrados, uma languidez de manhã de domingo. Mais uns minutos, imploro calada, mas sei que não tenho escolha.  E apetece-me mandar tudo à merda, até a mim.

24.2.18

caí na cama com Albert e o homem que o acompanhava e agora se sentou num bar de marinheiros em amesterdão e não pára de falar. ainda há pouco me dizia que bastará uma única frase aos futuros historiadores para definirem o homem moderno: "fornicava e lia jornais". gosto de ouvir falar o homem, embala-me o dia carregado de sangue e de sono. 
pão com manteiga e meia de leite com vista para o mar. Damas fuma uma cigarrilha, pensativo, de perna cruzada, à minha frente. sorvo a mistura ruidosamente, sabendo que aquele barulho o irrita, mas Damas não se manifesta. é só depois da última baforada que afasta os olhos do mar e se vira para mim dizendo, o homem não foi feito para a derrota, Alicinha, um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado. 
talvez Damas esteja velho...
Auster carrega-me ao colo para a cama. sabendo da raiva que me trilha os lábios, uma faca invisível nos dentes, fala-me em voz baixa,

Fechamos os olhos por um momento, viramo-nos para olhar para outra coisa qualquer, e, de súbito, aquilo que tínhamos à nossa frente desapareceu. Nada dura, compreendes, nada, nem mesmo os pensamentos dentro da nossa cabeça. E não vale a pena perdermos o nosso tempo à procura seja do que for. Quando uma coisa desaparece, é o seu fim.


/No País das Últimas Coisas, de Paul Auster

23.2.18

posso comparar os últimos dias à piada das mãos frias. de tão frias, gelam e geladas queimam.
Descubra novas ideias com seu gêmeo Pinador

não, Pinterest, esta não é a frase mais adequada para me enviares no assunto do email.

20.2.18

sinto-a, como uma serpente, enrolando-se em mim, deslizando pela espinha, cravando-se nos pulmões, mastigando-me os miolos. os arrepios, as dores, a fraqueza absurda. 

19.2.18

«De cada vez que parava para descansar, se o vento não estivesse a soprar, ouvia um silêncio ensurdecedor.»

/Silêncio na Era do Ruído, Erling Kagge/



Ansel Adams, Trees and Snow, 1933




lembro-me de ser criança, manhã bem cedo, e caminhar por entre as árvores cobertas de neve. ouvia-o, gigante, tomando a floresta por completo, aquele silêncio ensurdecedor

18.2.18

É quando me seco no calor uterino da toalha, que as palavras se afloram: prefiro as insónias de primavera, melhores ainda, as de verão.  Ergo o corpo da cama e desço a ladeira até ao rio, perdendo-me na imensidão do canto dos pássaros e no cheiro das ervas. Mas agora, a noite ainda tão escura, o frio gretando as mãos, abrindo-me fendas nos lábios, para onde caminhar? 

17.2.18

espanta-se o Damas, quando lhe peço que saia de cima de mim, arrastando o corpo à beira da cama, levantando-me para ir trabalhar. mas está a chover, Alicinha! hoje não podes ir lavar janelas. rio-me, ainda não lhe contei que para além da lavagem personalizada de janelas, algo que desconhecia gostar, agora, para compor o mês, que a corda me aperta, também aplico betume em brechas, fendas, rachas e outras aberturas indesejáveis. preparo a minha própria mistura com óleo de linhaça e prometo um serviço de elevada categoria. começo a ser famosa nas redondezas pela lisura da superfície final. mas nada disto interessa a Damas, que prefere fingir-me ainda como a magricela que lê livros de companhia. se já nem eu sei quem sou, em quem me ando a transformar, adaptando a mão à vida, como poderia ele, o meu Damas de carne em fogo e falo em riste, perceber que tudo mudou?

14.2.18















peço-lhe uma única coisa, antes de sair, rosas vermelhas não, por favor!, arregala-me os olhos de espanto, que vejo reflectidos no dourado do elevador. a felicidade está sobrestimada. nós cá preferimos vender memórias de melancolia, aquelas que nunca se esquecem. ranúnculos violeta, o que me diz?
perfeito.
hoje quero um beijo com língua e um verso desenhado na pele.
amanhã também.

12.2.18

um dia de trabalho como outro qualquer, percebi-o logo que cheguei ao pequeno parque improvisado no baldio. encolho jolly jumper num buraco afastado e corro para o interior do salon. d. paula, maternal e amorosa como sempre, apressa-se a sentar-me na sua sala. o costume, ex-turistas, trabalhadores dos óleos e dos escapes, ceo cinzentos, rapaziada dos escritórios em volta, há de tudo. e eis que os vejo, enquanto beberico o meu copo de tinto, os caçadores de espaços autênticos em vias de extinção... malditos sejam, não bastava os jornalistas e os actores de comédia, agora esta raça. daqui a algum tempo, dois ou três artigos romantizados nisso das revistas da moda, e terei de concorrer ao espaço - já - exíguo, mesa a mesa, com as massas urbanchic dos bairros centrais. raios os partam!

11.2.18

Orphée traces a path from darkness into light, inspired by the Orpheus myth. A story about death and rebirth, the elusive nature of creation and art and the ephemeral nature of memory. It's an album about change, love and art – a reflection of our relationships,


encontrado no encontrador de belezas

10.2.18




































Violeta, um clitóris florindo a boca de Whitman.


Sex contains all, bodies, souls, 
Meanings, proofs, purities, delicacies, results, promulgations,
Songs, commands, health, pride, the maternal mystery, the
   seminal milk,
All hopes, benefactions, bestowals, all the passions, loves,
   beauties, delights of the earth,
All the governments, judges, gods, follow’d persons of the
   earth,
These are contain’d in sex as parts of itself and justifications
   of itself.
já cá faltava a peça, repetindo-se tanto quanto eu com aquilo das aliterações, assonâncias também. que lhe importa a forma como escrevo, dando-se ao trabalho de digitar a reclamação, chamada de atenção, prefere chamar-lhe, esse pavão da língua portuguesa. que lhe interessa se me repito, se facilito com rimas fáceis, dessas da música pop - quase o entendo, lembrando os ais do joão pedro pais - se este é o meu espaço e tão-pouco permito nele a comunicação. mas por que diabos esta estranha criatura não se dedica a leituras mais cuidadas. sugiro as sete centúrias de curas medicinais, de Amato Lusitano, se o encontrar.
voltará amanhã para terminar a poda das árvores de fruto. só depois trará o cunhado e juntos hão-de juntar as pernadas tombadas pelo terreno, logo se verá quando se lhes pega o fogo. o sotaque a samba e bossa nova não engana, mas Ayrton diz que não é de carnavais, a poda não se pode adiar mais, os pessegueiros já estão em flor. a ver vamos, enquanto conto as notas para lhe pagar.
creio que nunca lhe mostrei um sorriso que fosse, irrita-me a pose o suficiente para fechar a cara até que se afaste, montando ora um, ora outro cavalo. da última vez, tendo alterado o percurso costumeiro junto ao rio, exibiu-se pelo caminho principal, terreno com dono em terras de frança. as cadelas, sentido o intruso, correram à rede e ladraram - olhou-as com o desdém de quem manda. fitei-o com ódio, recordo, não desviou o olhar. tivesse a espingarda do meu pai e passaria sempre debaixo de mira. imprestável traste, julgando-se por condição. 
disse-me uma vez a dona da bata às riscas, enquanto fingia limpar o pó, que o senhor engenheiro era dono por herança da colina acolá e das vacas que lá pastavam, das vinhas ao fundo e do casario junto ao chafariz. o irmão, continuou ela, é um gastador de primeira, só quer é putas e vinho verde, desculpe a expressão, menina, e então este comprou-lhe a parte dos herdos e gere tudo sozinho. não julguei na altura que tal criatura, caricatura de vilarejo do interior, viesse a ser uma das minhas das minhas /poucas/ irritações locais. 

8.2.18

a voz rouca que sai das pequena colunas de Jolly Jumper educa-me a ignorância clássica musical, afinal era Tchaikovsky o autor de tamanho orgasmo, as mãos dedilhando à exaustão as cordas de nervos equestres, eu carregando no acelerador, embalada pelo movimento frenético, as pontas dos dedos sangrando, a um instante do êxtase anunciado. no poste, junto ao portão, uma surpresa, mokambo, o mocho-galego, à minha espera. sorrio. quantos poderão gabar-se de tão exótica recepção.
a casa, escura, recebe-me sem surpresas. onde o deixei, al berto espera por mim. despi-me e entrámos juntos nas águas quentes de fevereiro. 

7.2.18

a avenida da liberdade a passo de caracol, num entardecer colorido pelo amarelo aceso das lojas e o vermelho atiçado dos semáforos. e então vi-as! num chilreio desenfreado, bailavam, eléctricas, na contraluz do fim do dia. duvidei da descoberta e desci a janela. impossível não as reconhecer. mas como?, pensei, estamos em fevereiro e nos céus de lisboa já voam as andorinhas?!

6.2.18

só al berto quebra o silêncio desta casa escura e fria.

conheci um homem que possuía uma cabeça de vidro.
víamos - pelo lado menos sombrio do pensamento - todo o sistema planetário.
víamos o tremelicar da luz nas veias e o lodo das emoções na ponta dos dedos. o latejar do tempo na humidade dos lábios.
e a insónia, com seus anéis de luas quebradas e espermas ressequidos. as estrelas mortas das cidades imaginadas.
os ossos tristes das palavras.
agora estou na beira do penhasco e não vou voar


 Iconography From The Album The Blue Notebooks



notas azuis, soltas, prendendo-me ao fundo do mar onde constelações de cavalos-marinhos e estrelas de mil cores explodem dentro de mim, na minha mente, na minha alma, líquida, no meu ser, e eu gritando como quem nasce, gritando como quem morre, o frio nos meus olhos, a mão procurando o pai, o irmão, a queda vertiginosa, o fim ali ao fundo, o estrondo, combate final, os ossos quebrando, rasgando a carne, válvulas, veias, vértices, tendões, os fios de sangue, sulcos, e então o medo dando lugar à paz da imutabilidade, e as sereias em côro depois, cântico, oráculo, tristeza, saudade, certeza de que a vida é curta como o riscar de um fósforo, a lâmina cravando-se na raiz da existência, crua, em milhões de voltas, flutuando nas ondas do corpo materno. mar, mãe, cama, ventre, vida, vento, solidão. correndo pelas ruas desertas da madrugada, numa cidade do norte do mundo, ninguém me vê, ninguém saberá de mim, as minhas mãos fervem. ácido. sou invisível porque me fiz poeira no voo de um beija-flor. nada agora, apenas o silêncio do azul no espelho da parede.

30.1.18

o óbvio aconteceu,
o que eu andava a tentar matar
morreu.

28.1.18

Hari & Deepti 




a gruta

a gruta onde decidi esconder-me do mundo não passava à primeira vista de um buraco de raposas escavado no meio das silvas. pequena, forrada pela penugem de várias famílias vulpeanas, era a toca perfeita para me ausentar por tempo indefinido da realidade estúpida do mundo. nenhum som motor, nenhuma voz humana, alimentava-me de livros e de laranjas, e de algumas sementes. os dias passaram, tal e qual um guandira, o coração abrandou os seus pequenos tambores e a escuridão tomou conta de mim. o pensamento, livre do ruído das coisas visíveis, fluía sem rumo, tomando formas difusas, medonhas às vezes. em vez de o sovar como era o meu jeito, trazia-o mansamente pela mão de volta ao leito do rio e começava outra vez. o exercício da alma é aprender a ficar sozinha. assim foi até que um grito agudo me acordou a meio de uma noite qualquer. o medo paralisou-me o tempo preciso de escutar um segundo grito, mais fino e distinto. que criatura podia gritar assim, cravando-se com garras umbráticas nos meus ouvidos adormecidos? 
procurei no bolso do casaco as folhas secas de erva-cidreira e mastiguei algumas para me acalmar. os gritos, uma mistura de uivo lupino e animal marinho alienígena, continuaram por mais alguns minutos. vinham de dentro da terra, como podia ser? as pernas tolhidas pela letargia fraquejavam às tentativas de movimento, quando consegui levantar-me as carriças já cantavam lá fora. não saí, não queria cegar-me na luz branca de janeiro, procurei o coração das trevas e mordi-lhe mais um pouco da capa. estamos acostumados a contemplar a forma agrilhoada de um monstro vencido, mas ali – ali podíamos ver a monstruosidade à solta.

11.1.18

em hibernação.



9.1.18

Chove. No telemóvel, a mensagem é clara, trânsito lento.  Mergulho nas águas demasiado quentes, continuo gelada. Quero hibernar. Sou um animal acossado, encurralado entre o caçador e a queda.

6.1.18

Sonho nº 5




José Buchmann sorria. Um leve sorriso de troça. Estávamos no vagão luxuoso de um velho comboio a vapor. Uma tela, pendurada numa das paredes, iluminava o ar com uma vaga luz cor de cobre. Reparei num tabuleiro de xadrez, em pau-preto e marfim, colocado numa pequena mesa, entre mim e ele. Não me recordava de ter movido as peças mas o jogo ia adiantado. O fotógrafo estava em clara vantagem.

  --Finalmente -- disse. -- Há vários dias que sonhava com isto. Queria vê-lo. Queria saber como era você.
  -- Acha, então, que esta conversa é real?
  -- A conversa, certamente, as circunstâncias é que carecem de substância. Há verdade, ainda que não haja verosimilhança, em tudo o que um homem sonha. Uma goiabeira em flor, por exemplo, perdida algures entre as páginas de um bom romance, pode alegrar com o seu perfume fictício vários salões concretos.

  Fui forçado a concordar. Às vezes, por exemplo, sonho que voo. Ora, nunca voei com tanta verdade, inclusive com tanta autoridade, quanto nos meus sonhos. Voar de avião, na época em que eu voava de avião, não me transmitia um idêntico sentimento de liberdade. Tenho chorado a morte da minha avó, em sonhos, mais e melhor do que a chorei desperto. Chorei, aliás, lágrimas mais autênticas pela morte de algumas personagens literárias do que pelo desaparecimento de muitos amigos e parentes. O que me parecia menos real ali era a tela na parede, atrás de José Buchmann, uma composição melancólica, não pelo tema, pois não era possível adivinhar qual fosse o tema, o que talvez seja a maior virtude da arte moderna, e sim pelo lume das cores.
A tarde entrava (rápida) pelas janelas. Víamos correr as praias, os coqueiros carregados de cocos, a larga cabeleira despenteada das casuarinas. Víamos ainda o mar, muito ao fundo, a arder num imenso incêndio azul-anil. O comboio abrandou numa subida. Arfava, asmático, velho monstro mecânico, quase sem fôlego. José Buchmann avançou a rainha, ameaçando-me o cavalo do rei. Ofereci-lhe um peão.

  Ele olhou-o distraído:
  -- A verdade é improvável. -- Sorriu num relâmpago. -- A mentira -- explicou -- está por toda a parte. A própria Natureza mente. O que é a camuflagem, por exemplo, senão uma mentira? O camaleão disfarça-se de folha para iludir a pobre borboleta. Mente-lhe, dizendo «Fica tranquila, minha querida, não vês que sou apenas uma folha muito verde ondulando ao vento?», e depois atira-lhe a língua, a uma velocidade de seiscentos e vinte e cinco centímetros por segundo, e come-a.

  Comeu o peão. Fiquei em silêncio, atordoado pela revelação e pelo distante fulgor do mar. Só me lembrei de uma frase alheia:
  -- «Abomino a mentira porque é uma inexatidão.»
  José Buchmann reconheceu as palavras. Considerou-as por um instante, medindo-lhes a solidez e a mecânica; a eficácia:
  -- Também a verdade costuma ser ambígua. Se fosse exata não seria humana. -- Ganhava animação à medida que falava: -- Você citou Ricardo Reis. Dê-me licença para citar Montaigne: «Nada parece verdadeiro que não possa parecer falso.»

(...)

/O Vendedor de Passados/

5.1.18

Amigos comuns, disse, e a voz
fez-se ainda mais suave,
tinham-lhe indicado aquele
endereço. Haviam-lhe falado num
homem que traficava memórias,
que vendia o passado,
secretamente, como outros
contrabandeiam cocaína. Félix
olhou-o desconfiado. Tudo no
estranho o irritava – os modos
doces e ao mesmo tempo
autoritários, o discurso irónico,
o bigode arcaico.

/O Vendedor de Passados/

3.1.18

2017 foi o ano em que uma belíssima coruja das torres veio morrer na varanda do meu quarto...

em 2018, será a ave do ano, aqui ao lado, em espanha.