28.3.18

não me convencem os homens com a história da ressurreição à direita do pai, no terceiro dia. digo-lhes, renascemos nós todos, cristo também, se nos derem o corpo à terra para que, de putrefacção, se transforme em composto orgânico, húmus onde se gera a vida. é a única comunhão em que acredito, não me comovem outras liturgias.
quando eu findar, que se erga de mim um silvado de rosas-mosqueta, ou, por que não, um zângão cobridor, numa ode a fibonacci. em vez disso, aposto, hão-de cobrir-me a sepultura com uma pedra tumular feia e estéril. renascem os cães e os gatos, mas eu não.


24.3.18

O lábio ardendo 
entre tremor e temor, 



Conrad Roset

23.3.18

That’s a long way to go just to eat.

evito os evangelizadores, os bajuladores, os ególatras e os medíocres.

22.3.18

Rumámos ao sul, por entre o azul petróleo da noite e uma lua crescente. Decidimos, este ano, dar início a uma nova tradição - o enterro do inverno. Petra fez uma panela de sopa de tomate, onde alguns fatiaram ovos cozidos, outros esfarelaram queijo feta e eu abusei dos dois. Acompanhámos o banquete com pão torrado, besuntado de manteiga, e poncha caseira de maracujá. Estacionámos próximo de uma praia deserta, que Cirilo conhecia de outros tempos, e começámos por fazer a fogueira. Antes de enterrar o maldito, todos quiseram incinerá-lo, aproveitando para aquecer corpos e almas.
Passaram dois dias e o bandalho continua vivo.
Vivo no meio de desastres,
terra que se desprende, inundações, abismos,
vento contrário que nos leva ao sítio
onde o trovão sem luz secretamente habita.


Cirilo urra, grita que já não suporta tanta bandalheira, Bartolomeu, abatido, observa a janela, Petra silenciou-se também, Jasmim tem saudades da mãe e diz que nada lhe importa, é epicurista, Tristan vive enfiado no barracão, escrevendo as suas memórias de escritor falhado, Sophia foi fazer compras à primark do colombo e nunca mais voltou. somos um bando de esconjurados, maltrapilhos dos tempos modernos, adultos de sucesso nulo, todos esperando que as águas de março não venham fechar o verão.

21.3.18

um dos principais desafios, segundo o livro que pretende ensinar-me muitas coisas, é Gerir a canibalização, assim, preto no branco, mas sem o itálico que me sopre uma metáfora. pois muito bem, vamos lá, sem medos, que o cabo da esfregona é grande e os detergentes são substâncias corrosivas. 
no dia que se diz da Poesia,
um poema 'tosquiado' para a Be


Apesar das ruínas e da morte, 
Onde sempre acabou cada ilusão, 
A força dos teus sonhos é tão forte, 
Que de tudo renasce a exaltação 
E nunca as tuas mãos ficam vazias. 

/Sophia de Mello Breyner Andresen/

18.3.18

- E pró Feliciano não vai nada, nada, nada?
- Tudo!!


mas que bela comédia. 

16.3.18

senti-me uma Thoreau dos tempos modernos, Jolly Jumper trotando na estrada estreita, outrora caminho de cabras e ovelhas decerto, os máximos indicando o destino, quando o vejo pousado no chão: Mokambo*. guinada à esquerda, que o bicho parecia colado ao alcatrão, e eis que Jolly Jumper, com os seus cascos angelicais, quase trucida um coelho, igualmente estático, quiçá em fervoroso namoro com a ave. não será fácil também para a bicharada esta coisa do multirracial, imagino o preconceito de ambas as famílias, os Athene noctua e os Oryctolagus cuniculus, preocupadas com o bom nome de cada uma e as descendências vindouras. e então será isso, corações palpitando, os dois encontram-se naquele caminho, madrugada alta, quando todos dormem, menos esta que aqui vos tecla. imagino-lhes o susto, Mokambo, atarracado como sempre, levantou voo e rasou a fuça de Jolly Jumper, Bugs Bunny activou as molas do traseiro e desapareceu por entre o mar de erva. espero que voltem e se forniquem à exaustão dos seus pequenos corpos, porque o mundo precisa é de amor e fricção. 


 /*para mim, qualquer mocho-galego que apareça será sempre Mokambo/

15.3.18

Não há laranjas ou brasas ou facas iluminadas
que a vingança não afaste.


preciso desesperadamente de um cigarro, ou de uma marreta que desfaça crânios casquinados à primeira. logo eu, que nunca me consegui viciar na nicotina, apesar de a ter inspirado, e aprecio sem entraves a estrutura óssea de uma mulher interessante. será dos pés frios?