30.3.18

não foi difícil chegar ao consenso, Petra ainda estrebuchou levemente a importância da época, argumentando que era necessário dar início às limpezas da primavera, esfregar as manchas de humidade dos tectos e lavar os edredons, mas nenhum de nós se solidarizou com as tarefas. até Tristan, o nosso escritor sem obra, concorda em aproveitarmos o sol para laborar. assim sendo, manda o calendário dos empreendedores sem capitais de risco que se trabalhe nos feriados civis e religiosos. duplamente!, acrescenta Cirilo. duplamente o caraças, funga Jasmim, não sou católico, mas também não sou ateu, sigo a minha própria religião. Bartolomeu arreganha a tacha o suficiente para percebermos que deposita grandes esperanças no mês vindouro de abril - haverá sol, espera-se. ouve, miúdo, não tem nada a ver com a religião. temos de trabalhar mais nos feriados para aproveitar a vantagem à concorrência, percebes? são negócios, Jasmim. quando os outros param, nós avançamos duplamente. agora levanta esse cu de menina* da cadeira e vai buscar o Jolly Jumper. já estamos atrasados!


{*Bartolomeu num laivo de misoginia linguística irreflectida. é perdoar, caros leitores, afinal estamos na páscoa} 

28.3.18

dor

l'amour la mort

petite pute deitada toda nua sobre a cama à espera,
e inexplicavelmente eu entro nela de  corpo  inteiro
                                                        e idade inteira



«Temos frequentemente a sensação de que será perigoso olhar, e por isso há uma tendência para desviarmos os olhos, ou mesmo para os fechar. Por causa disso, é fácil ficarmos confusos, não termos a certeza de que estamos realmente a ver a coisa que pensamos estar a ver. Pode dar-se o caso de estarmos a imaginá-la, ou a confundi-la com outra coisa qualquer, ou a lembrar-nos de qualquer coisa que vimos antes -- ou, quem sabe, que talvez tenhamos imaginado antes. (...) Não basta olharmos e dizermos para nós mesmos: «estou a olhar para aquela coisa». Porque uma coisa é dizermos isso quando o objecto que temos à nossa frente é, por exemplo, um lápis, ou um bocado de pão. Mas o que é que acontece quando damos por nós a olhar para uma criança morta, ou para uma menina que jaz toda nua no passeio, a cabeça esmagada e coberta de sangue? O que é que uma pessoa diz para si mesma num caso desses? Tenta perceber: não é assim tão simples declarar de uma forma categórica, inequívoca: «Estou a olhar para uma criança morta». A nossa mente parece negar-se a alinhar as palavras; de algum modo, não conseguimos forçar-nos a fazê-lo. Porque a coisa que temos à nossa frente não é algo que possamos separar facilmente de nós mesmos. (...)
Seria bom, suponho, ganharmos uma dureza tal que nos permitisse não sermos afectados por nada. Mas, nesse caso, ficaríamos sós, tão completamente separados de todos os outros que a vida se tornaria impossível. Há quem consiga fazer isso aqui, há quem encontre em si mesmo a força necessária para se transformar num monstro, mas garanto-te que são casos raros, raríssimos -- o que, sem dúvida, te surpreenderá. Ou, por outras palavras, todos nós nos transformámos em monstros, mas não há quase ninguém que não guarde em si mesmo um qualquer vestígio da vida que outrora se vivia.
Esse é talvez o maior de todos os problemas. A vida como nós a conhecemos acabou, e, no entanto, ninguém é capaz de entender o que é que a substituiu.»


/No país das últimas coisas, Paul Auster/
não me convencem os homens com a história da ressurreição à direita do pai, no terceiro dia. digo-lhes, renascemos nós todos, cristo também, se nos derem o corpo à terra para que, de putrefacção, se transforme em composto orgânico, húmus onde se gera a vida. é a única comunhão em que acredito, não me comovem outras liturgias.
quando eu findar, que se erga de mim um silvado de rosas-mosqueta, ou, por que não, um zângão cobridor, numa ode a fibonacci. em vez disso, aposto, hão-de cobrir-me a sepultura com uma pedra tumular feia e estéril. renascem os cães e os gatos, mas eu não.


24.3.18

O lábio ardendo 
entre tremor e temor, 



Conrad Roset

23.3.18

That’s a long way to go just to eat.

evito os evangelizadores, os bajuladores, os ególatras e os medíocres.

22.3.18

Rumámos ao sul, por entre o azul petróleo da noite e uma lua crescente. Decidimos, este ano, dar início a uma nova tradição - o enterro do inverno. Petra fez uma panela de sopa de tomate, onde alguns fatiaram ovos cozidos, outros esfarelaram queijo feta e eu abusei dos dois. Acompanhámos o banquete com pão torrado, besuntado de manteiga, e poncha caseira de maracujá. Estacionámos próximo de uma praia deserta, que Cirilo conhecia de outros tempos, e começámos por fazer a fogueira. Antes de enterrar o maldito, todos quiseram incinerá-lo, aproveitando para aquecer corpos e almas.
Passaram dois dias e o bandalho continua vivo.
Vivo no meio de desastres,
terra que se desprende, inundações, abismos,
vento contrário que nos leva ao sítio
onde o trovão sem luz secretamente habita.


Cirilo urra, grita que já não suporta tanta bandalheira, Bartolomeu, abatido, observa a janela, Petra silenciou-se também, Jasmim tem saudades da mãe e diz que nada lhe importa, é epicurista, Tristan vive enfiado no barracão, escrevendo as suas memórias de escritor falhado, Sophia foi fazer compras à primark do colombo e nunca mais voltou. somos um bando de esconjurados, maltrapilhos dos tempos modernos, adultos de sucesso nulo, todos esperando que as águas de março não venham fechar o verão.

21.3.18

um dos principais desafios, segundo o livro que pretende ensinar-me muitas coisas, é Gerir a canibalização, assim, preto no branco, mas sem o itálico que me sopre uma metáfora. pois muito bem, vamos lá, sem medos, que o cabo da esfregona é grande e os detergentes são substâncias corrosivas. 
no dia que se diz da Poesia,
um poema 'tosquiado' para a Be


Apesar das ruínas e da morte, 
Onde sempre acabou cada ilusão, 
A força dos teus sonhos é tão forte, 
Que de tudo renasce a exaltação 
E nunca as tuas mãos ficam vazias. 

/Sophia de Mello Breyner Andresen/