Reparei, hoje, que é mais idiossincrática a forma como damos as más notícias, do que a forma como as recebemos, quando ele me perguntou se podia passar pelo consultório mais tarde.
17.4.18
15.4.18
Jasmim, o andrógino de longos cabelos louros e olhos de avelã, está apaixonado pelo mocinho da pastelaria, um mulato lento de língua afiada. vai daí, a toda a hora me pede companhia para ir beber um café, bebida que o deixa ainda mais nervoso, um tremelique que o pobre disfarça a custo. o outro, experiente na arte do flirt social, vai fazendo charme pelo espelho, enquanto embrulha as meias-leite, tal é a vagareza. Jasmim deixa-se encantar, sente-se correspondido no desejo do que poderá acontecer. está escrito nas estrelas ficarmos juntos, segreda-me, e nos búzios também. os olhos prometem-se, as mãos fazem planos, ávidas, a timidez das palavras vai-se dissipando e Jasmim atreve-se às vezes a uma graçola desengonçada. é dos nervos, ambos sabemos, mas eu finjo que não vejo e vou continuando a beber o chá. Cirilo, jocoso, berra-lhe que aquilo é gajo de andar com todos, depois não te queixes, ó totózinho!, mas o coração de Jasmim já sofre de taquicardia sentimental, não há volta a dar.
14.4.18
ninguém sorri, depois da contabilidade apurada por Petra. o que já todos sabíamos, confirma-se, o primeiro trimestre do ano deitou-nos ao chão. Bartolomeu insiste que é preciso ter calma, qualquer gesto imprudente pode ser fatal. dos escombros de nosso desespero construímos nosso carácter, repete-nos, valendo-se do seu poeta favorito. respiro fundo e impeço Cirilo de explodir, pousando-lhe a mão sobre o ombro. vai tudo correr bem, minto. ele castiga-me a mentira, afastado-se de mim.
Começas a desaparecer quando deixas de ter curiosidade pelo mundo, quando já não perguntas, não te importa saber. Escondido no teu buraco aprazível, não queres que mais ninguém se junte à tua vida, porque te incomoda mudar de posição, te enfastiam as perguntas da praxe, dos quandos e dos porquês. Inversamente, assoberbas-te à meia dúzia de palavras inteligentes que o condutor da Uber te dirige. Inteligentes porque as podias ter lido num jornal qualquer e não te pedem participação para lá da epiderme. Quando sais do carro, já nem te lembras e é assim que agora gostas. Sem bagagem, não há peso nem coisa nenhuma. As mãos vazias tranquilizam-te. Ninguém voltará a habitar-te.
11.4.18
...
Aqui tudo é de carne apodrecida, de fúria de tiros dia afora ferido
que demora sobre o cepo sanguíneo, sob o sol estridente disparado
por facas cegas pela maldade e ferrugem que antes de cortar, mastigam
para que o sofrimento não se aplaque e permaneça aceso, esportivo
e um resto de sexo corrompido possa ainda comer, em rodízio, empalar
o corpo dominado pelo desejo predador que despedaça, e ele corresponde
preso à sua sina, disjecta membra, até o fim, espasmódica, torcida.
Aqui tudo é de carne apodrecida, de fúria de tiros dia afora ferido
que demora sobre o cepo sanguíneo, sob o sol estridente disparado
por facas cegas pela maldade e ferrugem que antes de cortar, mastigam
para que o sofrimento não se aplaque e permaneça aceso, esportivo
e um resto de sexo corrompido possa ainda comer, em rodízio, empalar
o corpo dominado pelo desejo predador que despedaça, e ele corresponde
preso à sua sina, disjecta membra, até o fim, espasmódica, torcida.
7.4.18
não vás, hoje, fica aqui comigo, dou-te banho de espuma, rapo-te os pêlos da ratinha assanhada, besunto-te com aquele creme de romã que gostas tanto, frito uns ovos e umas salsichas, vemos a chuva a cair. nem tens de dizer nada, podemos ficar calados, ou se quiseres acabamos a nova temporada, há batatas fritas de pacote e umas cervejas esquecidas no frigorífico vazio. o aquecedor sempre ligado, empresto-te a minha camisola, mas só para ires à cozinha, gosto de ver as tuas maminhas a baloiçar. não vás, alicinha, fica comigo. só hoje.
30.3.18
não foi difícil chegar ao consenso, Petra ainda estrebuchou levemente a importância da época, argumentando que era necessário dar início às limpezas da primavera, esfregar as manchas de humidade dos tectos e lavar os edredons, mas nenhum de nós se solidarizou com as tarefas. até Tristan, o nosso escritor sem obra, concorda em aproveitarmos o sol para laborar. assim sendo, manda o calendário dos empreendedores sem capitais de risco que se trabalhe nos feriados civis e religiosos. duplamente!, acrescenta Cirilo. duplamente o caraças, funga Jasmim, não sou católico, mas também não sou ateu, sigo a minha própria religião. Bartolomeu arreganha a tacha o suficiente para percebermos que deposita grandes esperanças no mês vindouro de abril - haverá sol, espera-se. ouve, miúdo, não tem nada a ver com a religião. temos de trabalhar mais nos feriados para aproveitar a vantagem à concorrência, percebes? são negócios, Jasmim. quando os outros param, nós avançamos duplamente. agora levanta esse cu de menina* da cadeira e vai buscar o Jolly Jumper. já estamos atrasados!
{*Bartolomeu num laivo de misoginia linguística irreflectida. é perdoar, caros leitores, afinal estamos na páscoa}
{*Bartolomeu num laivo de misoginia linguística irreflectida. é perdoar, caros leitores, afinal estamos na páscoa}
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