Burgessos somos nós todos
ou ainda menos.
{obrigada, Cesariny}
se as palavras tivessem facas e me cortassem os lábios, a língua, as mãos, ao tentar segurá-las na boca,
e se as facas, afiadas, ao dilacerar a carne, escondessem a dor dentro das palavras,
então eu escreveria
19.4.18
não é a primeira vez que comete o mesmo infortúnio, avisa-me o cavalheiro das barbas perfumadas, isso de se lançar sem rascunho, nem punho de revisão, na nobre arte das letras, mesmo que ao nível cérceo do diletante, prossegue, brioso das suas pilosidades monumentais, só lhe deprecia o que apresenta. não lhe bastava a inundação de aliterações dentro dos escritos, repete-se agora também nos verbos de abertura?
talvez o hirsuto cavalheiro tenha razão, mas repare que a barba non facit philosophum, nem o verbo a acção.
talvez o hirsuto cavalheiro tenha razão, mas repare que a barba non facit philosophum, nem o verbo a acção.
17.4.18
15.4.18
Jasmim, o andrógino de longos cabelos louros e olhos de avelã, está apaixonado pelo mocinho da pastelaria, um mulato lento de língua afiada. vai daí, a toda a hora me pede companhia para ir beber um café, bebida que o deixa ainda mais nervoso, um tremelique que o pobre disfarça a custo. o outro, experiente na arte do flirt social, vai fazendo charme pelo espelho, enquanto embrulha as meias-leite, tal é a vagareza. Jasmim deixa-se encantar, sente-se correspondido no desejo do que poderá acontecer. está escrito nas estrelas ficarmos juntos, segreda-me, e nos búzios também. os olhos prometem-se, as mãos fazem planos, ávidas, a timidez das palavras vai-se dissipando e Jasmim atreve-se às vezes a uma graçola desengonçada. é dos nervos, ambos sabemos, mas eu finjo que não vejo e vou continuando a beber o chá. Cirilo, jocoso, berra-lhe que aquilo é gajo de andar com todos, depois não te queixes, ó totózinho!, mas o coração de Jasmim já sofre de taquicardia sentimental, não há volta a dar.
14.4.18
ninguém sorri, depois da contabilidade apurada por Petra. o que já todos sabíamos, confirma-se, o primeiro trimestre do ano deitou-nos ao chão. Bartolomeu insiste que é preciso ter calma, qualquer gesto imprudente pode ser fatal. dos escombros de nosso desespero construímos nosso carácter, repete-nos, valendo-se do seu poeta favorito. respiro fundo e impeço Cirilo de explodir, pousando-lhe a mão sobre o ombro. vai tudo correr bem, minto. ele castiga-me a mentira, afastado-se de mim.
Começas a desaparecer quando deixas de ter curiosidade pelo mundo, quando já não perguntas, não te importa saber. Escondido no teu buraco aprazível, não queres que mais ninguém se junte à tua vida, porque te incomoda mudar de posição, te enfastiam as perguntas da praxe, dos quandos e dos porquês. Inversamente, assoberbas-te à meia dúzia de palavras inteligentes que o condutor da Uber te dirige. Inteligentes porque as podias ter lido num jornal qualquer e não te pedem participação para lá da epiderme. Quando sais do carro, já nem te lembras e é assim que agora gostas. Sem bagagem, não há peso nem coisa nenhuma. As mãos vazias tranquilizam-te. Ninguém voltará a habitar-te.
11.4.18
...
Aqui tudo é de carne apodrecida, de fúria de tiros dia afora ferido
que demora sobre o cepo sanguíneo, sob o sol estridente disparado
por facas cegas pela maldade e ferrugem que antes de cortar, mastigam
para que o sofrimento não se aplaque e permaneça aceso, esportivo
e um resto de sexo corrompido possa ainda comer, em rodízio, empalar
o corpo dominado pelo desejo predador que despedaça, e ele corresponde
preso à sua sina, disjecta membra, até o fim, espasmódica, torcida.
Aqui tudo é de carne apodrecida, de fúria de tiros dia afora ferido
que demora sobre o cepo sanguíneo, sob o sol estridente disparado
por facas cegas pela maldade e ferrugem que antes de cortar, mastigam
para que o sofrimento não se aplaque e permaneça aceso, esportivo
e um resto de sexo corrompido possa ainda comer, em rodízio, empalar
o corpo dominado pelo desejo predador que despedaça, e ele corresponde
preso à sua sina, disjecta membra, até o fim, espasmódica, torcida.
7.4.18
não vás, hoje, fica aqui comigo, dou-te banho de espuma, rapo-te os pêlos da ratinha assanhada, besunto-te com aquele creme de romã que gostas tanto, frito uns ovos e umas salsichas, vemos a chuva a cair. nem tens de dizer nada, podemos ficar calados, ou se quiseres acabamos a nova temporada, há batatas fritas de pacote e umas cervejas esquecidas no frigorífico vazio. o aquecedor sempre ligado, empresto-te a minha camisola, mas só para ires à cozinha, gosto de ver as tuas maminhas a baloiçar. não vás, alicinha, fica comigo. só hoje.
30.3.18
não foi difícil chegar ao consenso, Petra ainda estrebuchou levemente a importância da época, argumentando que era necessário dar início às limpezas da primavera, esfregar as manchas de humidade dos tectos e lavar os edredons, mas nenhum de nós se solidarizou com as tarefas. até Tristan, o nosso escritor sem obra, concorda em aproveitarmos o sol para laborar. assim sendo, manda o calendário dos empreendedores sem capitais de risco que se trabalhe nos feriados civis e religiosos. duplamente!, acrescenta Cirilo. duplamente o caraças, funga Jasmim, não sou católico, mas também não sou ateu, sigo a minha própria religião. Bartolomeu arreganha a tacha o suficiente para percebermos que deposita grandes esperanças no mês vindouro de abril - haverá sol, espera-se. ouve, miúdo, não tem nada a ver com a religião. temos de trabalhar mais nos feriados para aproveitar a vantagem à concorrência, percebes? são negócios, Jasmim. quando os outros param, nós avançamos duplamente. agora levanta esse cu de menina* da cadeira e vai buscar o Jolly Jumper. já estamos atrasados!
{*Bartolomeu num laivo de misoginia linguística irreflectida. é perdoar, caros leitores, afinal estamos na páscoa}
{*Bartolomeu num laivo de misoginia linguística irreflectida. é perdoar, caros leitores, afinal estamos na páscoa}
28.3.18
«Temos frequentemente a sensação de que será perigoso olhar, e por isso há uma tendência para desviarmos os olhos, ou mesmo para os fechar. Por causa disso, é fácil ficarmos confusos, não termos a certeza de que estamos realmente a ver a coisa que pensamos estar a ver. Pode dar-se o caso de estarmos a imaginá-la, ou a confundi-la com outra coisa qualquer, ou a lembrar-nos de qualquer coisa que vimos antes -- ou, quem sabe, que talvez tenhamos imaginado antes. (...) Não basta olharmos e dizermos para nós mesmos: «estou a olhar para aquela coisa». Porque uma coisa é dizermos isso quando o objecto que temos à nossa frente é, por exemplo, um lápis, ou um bocado de pão. Mas o que é que acontece quando damos por nós a olhar para uma criança morta, ou para uma menina que jaz toda nua no passeio, a cabeça esmagada e coberta de sangue? O que é que uma pessoa diz para si mesma num caso desses? Tenta perceber: não é assim tão simples declarar de uma forma categórica, inequívoca: «Estou a olhar para uma criança morta». A nossa mente parece negar-se a alinhar as palavras; de algum modo, não conseguimos forçar-nos a fazê-lo. Porque a coisa que temos à nossa frente não é algo que possamos separar facilmente de nós mesmos. (...)
Seria bom, suponho, ganharmos uma dureza tal que nos permitisse não sermos afectados por nada. Mas, nesse caso, ficaríamos sós, tão completamente separados de todos os outros que a vida se tornaria impossível. Há quem consiga fazer isso aqui, há quem encontre em si mesmo a força necessária para se transformar num monstro, mas garanto-te que são casos raros, raríssimos -- o que, sem dúvida, te surpreenderá. Ou, por outras palavras, todos nós nos transformámos em monstros, mas não há quase ninguém que não guarde em si mesmo um qualquer vestígio da vida que outrora se vivia.
Esse é talvez o maior de todos os problemas. A vida como nós a conhecemos acabou, e, no entanto, ninguém é capaz de entender o que é que a substituiu.»
/No país das últimas coisas, Paul Auster/
não me convencem os homens com a história da ressurreição à direita do pai, no terceiro dia. digo-lhes, renascemos nós todos, cristo também, se nos derem o corpo à terra para que de putrefacção se transforme em composto orgânico, húmus onde se gera a vida. é a única comunhão em que acredito, não me comovem outras liturgias, cantadas em nome de deus.
quando eu findar, que se erga de mim um silvado de rosas-mosqueta, ou, por que não, um zângão cobridor, numa ode a fibonacci. em vez disso, aposto, hão-de cobrir-me a sepultura com uma pedra tumular feia e estéril. renascem os cães e os gatos, mas eu não.
quando eu findar, que se erga de mim um silvado de rosas-mosqueta, ou, por que não, um zângão cobridor, numa ode a fibonacci. em vez disso, aposto, hão-de cobrir-me a sepultura com uma pedra tumular feia e estéril. renascem os cães e os gatos, mas eu não.
24.3.18
23.3.18
22.3.18
Rumámos ao sul, por entre o azul petróleo da noite e uma lua crescente. Decidimos, este ano, dar início a uma nova tradição - o enterro do inverno. Petra fez uma panela de sopa de tomate, onde alguns fatiaram ovos cozidos, outros esfarelaram queijo feta e eu abusei dos dois. Acompanhámos o banquete com pão torrado, besuntado de manteiga, e poncha caseira de maracujá. Estacionámos próximo de uma praia deserta, que Cirilo conhecia de outros tempos, e começámos por fazer a fogueira. Antes de enterrar o maldito, todos quiseram incinerá-lo, aproveitando para aquecer corpos e almas.
Passaram dois dias e o bandalho continua vivo.
Passaram dois dias e o bandalho continua vivo.
Vivo no meio de desastres,
terra que se desprende, inundações, abismos,
vento contrário que nos leva ao sítio
onde o trovão sem luz secretamente habita.
terra que se desprende, inundações, abismos,
vento contrário que nos leva ao sítio
onde o trovão sem luz secretamente habita.
Cirilo urra, grita que já não suporta tanta bandalheira, Bartolomeu, abatido, observa a janela, Petra silenciou-se também, Jasmim tem saudades da mãe e diz que nada lhe importa, é epicurista, Tristan vive enfiado no barracão, escrevendo as suas memórias de escritor falhado, Sophia foi fazer compras à primark do colombo e nunca mais voltou. somos um bando de esconjurados, maltrapilhos dos tempos modernos, adultos de sucesso nulo, todos esperando que as águas de março não venham fechar o verão.
21.3.18
no dia que se diz da Poesia,
um poema 'tosquiado' para a Be
Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos teus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as tuas mãos ficam vazias.
/Sophia de Mello Breyner Andresen/
um poema 'tosquiado' para a Be
Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos teus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as tuas mãos ficam vazias.
/Sophia de Mello Breyner Andresen/
18.3.18
16.3.18
senti-me uma Thoreau dos tempos modernos, Jolly Jumper trotando na estrada estreita, outrora caminho de cabras e ovelhas decerto, os máximos indicando o destino, quando o vejo pousado no chão: Mokambo*. guinada à esquerda, que o bicho parecia colado ao alcatrão, e eis que Jolly Jumper, com os seus cascos angelicais, quase trucida um coelho, igualmente estático, quiçá em fervoroso namoro com a ave. não será fácil também para a bicharada esta coisa do multirracial, imagino o preconceito de ambas as famílias, os Athene noctua e os Oryctolagus cuniculus, preocupadas com o bom nome de cada uma e as descendências vindouras. e então será isso, corações palpitando, os dois encontram-se naquele caminho, madrugada alta, quando todos dormem, menos esta que aqui vos tecla. imagino-lhes o susto, Mokambo, atarracado como sempre, levantou voo e rasou a fuça de Jolly Jumper, Bugs Bunny activou as molas do traseiro e desapareceu por entre o mar de erva. espero que voltem e se forniquem à exaustão dos seus pequenos corpos, porque o mundo precisa é de amor e fricção.
/*para mim, qualquer mocho-galego que apareça será sempre Mokambo/
15.3.18
Não há laranjas ou brasas ou facas iluminadas
que a vingança não afaste.
que a vingança não afaste.
preciso desesperadamente de um cigarro, ou de uma marreta que desfaça crânios casquinados à primeira. logo eu, que nunca me consegui viciar na nicotina, apesar de a ter inspirado, e aprecio sem entraves a estrutura óssea de uma mulher interessante. será dos pés frios?
14.3.18
[não é que sejamos invisíveis aos seus olhos, somos apenas, e apenas só, insignificantes, minguados de interesse que os mova até nós, ao que dizemos, ao que queremos mostrar, mais longe ainda, ao que procuramos esconder. e a vida, este continuum de dia após noite após dia, obriga-nos a mais uma lição, alguns de nós, julgando-se, nada temos de especial.]
gisele chegou hoje, mal dando tempo de mudar os lençois onde felix dormiu feroz. a verdade é que já nenhum de nós acredita que ainda seja possível salvar o mês, nem mesmo Petra, que iniciou esta manhã um jejum espiritual. talvez tudo esteja condenado desde o princípio, talvez seja apenas mais uma fase, coisas do tempo. é sempre nos cruzamentos que temos tendência a enganar-nos.
13.3.18
a chuva não traz apenas a quebra no negócio da lavagem de janelas, o pior mesmo são os índices de irritabilidade, os pagamentos em atraso e a perda de cabeças no bando. perdidas as cabeças, é cada um por si e todos pelos decibéis estronços. casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão, apetece-me dizer, mas estrafego a veia proverbial e provinciana ao silêncio, pois qualquer palavra que fique a pairar sobre as cabeças perdidas só traz novas discussões. cortámos nos croissants au beurre, agora só bolachas integrais de limão, trocámos os tinteiros vip pelos enlatados, varremos o chão e desinfectamos a sanita com as próprias mãos enluvadas, deixando no desemprego a D. Suely das limpezas. já ponderei libertar Jolly Jumper em terreno baldio e passar a deslocar-me a pé, mas Cirilo, enquanto troveja gafanhotos, garante que a ideia é estúpida. Bartolomeu concorda, desnorteado. e eu pergunto, calada, onde irei buscar o dinheiro para os fardos de palha.
Cirilo volta à carga, esmurrando a mesa ruinzinha, trazida lá dos lados de frielas e montada por mim com chave de cruz. a ideia é esmurrar da mesma forma a fuça de cada um dos que ainda não pagaram as lavagens, mas tem de ser tudo feito com muito cuidado, sob o manto escuro da noite, na calada da viela. Bartolomeu suspira, parece-me que já está por tudo, Jasmim mantém-se em silêncio, Petra pede calma e tenta empurrar a ideia de Cirilo para uma pré-reserva, enquanto ela mesma telefona aos sem-vergonha. Cirilo urra Nãos com exclamação, porque essa gente não tem carácter, diz que sim e vira as costas, Não! Não! Não! eu assisto, dói-me a cabeça, parece-me tudo tão difícil. é que nem a roupa seca com este tempo e as peças estão contadas...
Cirilo volta à carga, esmurrando a mesa ruinzinha, trazida lá dos lados de frielas e montada por mim com chave de cruz. a ideia é esmurrar da mesma forma a fuça de cada um dos que ainda não pagaram as lavagens, mas tem de ser tudo feito com muito cuidado, sob o manto escuro da noite, na calada da viela. Bartolomeu suspira, parece-me que já está por tudo, Jasmim mantém-se em silêncio, Petra pede calma e tenta empurrar a ideia de Cirilo para uma pré-reserva, enquanto ela mesma telefona aos sem-vergonha. Cirilo urra Nãos com exclamação, porque essa gente não tem carácter, diz que sim e vira as costas, Não! Não! Não! eu assisto, dói-me a cabeça, parece-me tudo tão difícil. é que nem a roupa seca com este tempo e as peças estão contadas...
8.3.18
7.3.18
3.3.18
2.3.18
1.3.18
março entrou montado no seu cavalo de vendaval e ribeiras a transbordar. trouxe a chuva felina e com ela as esperas vertiginosas por um raio de sol. chegou feroz, assobiando nas chaminés, rugindo nas dobradiças dos portões, sibilando o inverno mortal nas folhas das árvores. em breve, das cheias hão de nascer as securas que me gretam as mãos e me atacam o fígado devagarinho. triste março, este março que me afasta, rude, da boca do meu poeta azul e encerra mais um dos meus espaços de oração: a pó dos livros
27.2.18
eu montava a boneca, ele o trovoada, e subíamos à serra, atravessando o olival que agora é meu. até onde a vista alcança, dizia ele, quando chegávamos ao chão planalto de onde se via o meu mundo inteiro naquela altura. e ria-se. estávamos enganados, ele por brincadeira, eu por ingenuidade, nem tudo o que a vista alcançava era nosso, nem o meu mundo acabava ali.
25.2.18
felizmente tenho Lucky Blue para me assentar um belo par de bofetadas nas parcas bochechas e me trazer de regresso à estupidez risível dos dias. é ela que me faz subir aos décimos oitavos de madrugada, descer às catacumbas cheias de lama, baloiçar no rio gelado, solavancar nos tuk-tuks e nos buracos da estrada, aventurar-me sozinha num sem número de peripécias nunca antes tentadas. para Lucky Blue o impossível é uma questão de tempo e a garantia de um rendimento é construída todos os dias, hora após hora, sem sombras para arrependimento. alterar o caminho não a assusta e entusiasma-se à falta dele, quando se vê a braços com mais uma limpeza de mato. desbravar é ser pioneira, podia ser pior e chegar no fim, quando já tudo está varrido. sempre que pode, insiste: és uma sortuda.
Há tanto tempo que não me sentava nesta cadeira branca da cozinha, giratória de propósito, para apreciar o que está para lá do vidro que faz de parede. Há tanto tempo que não sentia o sol lambendo-me as pernas nuas, os olhos semicerrados, uma languidez de manhã de domingo. Mais uns minutos, imploro calada, mas sei que não tenho escolha. E apetece-me mandar tudo à merda, até a mim.
24.2.18
caí na cama com Albert e o homem que o acompanhava e agora se sentou num bar de marinheiros em amesterdão e não pára de falar. ainda há pouco me dizia que bastará uma única frase aos futuros historiadores para definirem o homem moderno: "fornicava e lia jornais". gosto de ouvir falar o homem, embala-me o dia carregado de sangue e de sono.
pão com manteiga e meia de leite com vista para o mar. Damas fuma uma cigarrilha, pensativo, de perna cruzada, à minha frente. sorvo a mistura ruidosamente, sabendo que aquele barulho o irrita, mas Damas não se manifesta. é só depois da última baforada que afasta os olhos do mar e se vira para mim dizendo, o homem não foi feito para a derrota, Alicinha, um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado.
talvez Damas esteja velho...
talvez Damas esteja velho...
Auster carrega-me ao colo para a cama. sabendo da raiva que me trilha os lábios, uma faca invisível nos dentes, fala-me em voz baixa,
Fechamos os olhos por um momento, viramo-nos para olhar para outra coisa qualquer, e, de súbito, aquilo que tínhamos à nossa frente desapareceu. Nada dura, compreendes, nada, nem mesmo os pensamentos dentro da nossa cabeça. E não vale a pena perdermos o nosso tempo à procura seja do que for. Quando uma coisa desaparece, é o seu fim.
/No País das Últimas Coisas, de Paul Auster/
23.2.18
20.2.18
19.2.18
«De cada vez que parava para descansar, se o vento não estivesse a soprar, ouvia um silêncio ensurdecedor.»
/Silêncio na Era do Ruído, Erling Kagge/
![]() |
| Ansel Adams, Trees and Snow, 1933 |
lembro-me de ser criança, manhã bem cedo, e caminhar por entre as árvores cobertas de neve. ouvia-o, gigante, tomando a floresta por completo, aquele silêncio ensurdecedor
18.2.18
É quando me seco no calor uterino da toalha, que as palavras se afloram: prefiro as insónias de primavera, melhores ainda, as de verão. Ergo o corpo da cama e desço a ladeira até ao rio, perdendo-me na imensidão do canto dos pássaros e no cheiro das ervas. Mas agora, a noite ainda tão escura, o frio gretando as mãos, abrindo-me fendas nos lábios, para onde caminhar?
17.2.18
espanta-se o Damas, quando lhe peço que saia de cima de mim, arrastando o corpo à beira da cama, levantando-me para ir trabalhar. mas está a chover, Alicinha! hoje não podes ir lavar janelas. rio-me, ainda não lhe contei que para além da lavagem personalizada de janelas, algo que desconhecia gostar, agora, para compor o mês, que a corda me aperta, também aplico betume em brechas, fendas, rachas e outras aberturas indesejáveis. preparo a minha própria mistura com óleo de linhaça e prometo um serviço de elevada categoria. começo a ser famosa nas redondezas pela lisura da superfície final. mas nada disto interessa a Damas, que prefere fingir-me ainda como a magricela que lê livros de companhia. se já nem eu sei quem sou, em quem me ando a transformar, adaptando a mão à vida, como poderia ele, o meu Damas de carne em fogo e falo em riste, perceber que tudo mudou?
14.2.18
peço-lhe uma única coisa, antes de sair, rosas vermelhas não, por favor!, arregala-me os olhos de espanto, que vejo reflectidos no dourado do elevador. a felicidade está sobrestimada. nós cá preferimos vender memórias de melancolia, aquelas que nunca se esquecem. ranúnculos violeta, o que me diz?
perfeito.
perfeito.
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