1.5.18

nunca procuro uma encruzilhada deliberadamente - não há em mim qualquer tesão de adrenalina, gosto da tranquilidade aborrecida de pisar o meu carreiro -, mas se o acaso, filho da puta que o pariu, me obrigar a escolher, ou melhor, se eu baixar a guarda e permitir que seja o acaso a tentar o laço na minha garganta, então que fique escrito que, embora possa escolher o lado errado do cruzamento, nunca olho para trás. perder não me imobiliza, tão-pouco me arrecua. o que não admito é que me encostem à parede como um animal encurralado. abdiquei de muito, mas não abdicarei da minha livre vontade.

e assim escreveu a mulher, que espera, mais do que tudo, estar enganada.

29.4.18

"Sempre que me perguntavam o que eu queria, o meu primeiro impulso era responder «nada». O pensamento de que não faria diferença alguma, de que nada me iria fazer feliz, passava-me pela cabeça."

/Não-Humano, Osamu Dazai/


quando chegou a minha vez de pedir, eu que sempre respondo nada, enumerei: meia dúzia de lápis nº 2, um  bloco de papel fino, 90 g/m², cor de marfim, suave, sem ácido, uma cesta de fruta madura, queijo e vinho, uma estufa de vidro do tamanho do pátio, um balão de ar quente, um telescópio, um rebanho de cabras. e parei, esperando que a minha lista fosse suficiente para calar os que dizem que estou doente porque nunca peço nada. 

28.4.18

Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Frank Horvat, Couple in a café, Warsaw, 1963

27.4.18

Yo no sé de pájaros
no conozco la historia del fuego. 
Pero creo que mi soledad debería tener alas.



toda a manhã, o pequeno pássaro trinou no alto do grande pavilhão. o homem, que passou por engano, assustou-se com o gorjear estridente e apressou-se a sair, para meu contentamento. e então ficamos só os dois, eu e o pássaro, durante muito tempo, cada um com a sua música. as máquinas, serpenteando como cobras, deslizavam rápidas, distribuindo paletes pelos corredores de A a F. quando passavam mais perto, ambos nos quedávamos em silêncio, sem medo - o pássaro porque era livre e eu porque fui pássaro toda a manhã.

Buscar no es un verbo, sino un vértigo.

24.4.18

se eu vos pedisse, amigos leitores, sugestões de leitura, o que me responderiam?

22.4.18

"All COLORS, no genres. COLORS is a unique aesthetic music platform showcasing diverse and exceptional talent from all around the globe."


21.4.18

Deixei-me ficar aninhada na cama, obrigando o dia a esperar. Da mesma forma misteriosa que as insónias me castigam às vezes, outras sou eu a mandar o corpo apagar, e ele apaga. A fuga atrasou-me o trabalho, mas nem assim abdico de vir à banheira, onde há uns olhos de cão azul à minha espera. Somos velhos conhecidos, não há constrangimento, nem pudor. Entrego o corpo à água, levo o dedo à boca, molhando-o, e toco-lhe devagar.

19.4.18

Burgessos somos nós todos
ou ainda menos.

{obrigada, Cesariny}
não é a primeira vez que comete o mesmo infortúnio, avisa-me o cavalheiro das barbas perfumadas, isso de se lançar sem rascunho, nem punho de revisão, na nobre arte das letras, mesmo que ao nível cérceo do diletante, prossegue, brioso das suas pilosidades monumentais, só lhe deprecia o que apresenta. não lhe bastava a inundação de aliterações dentro dos escritos, repete-se agora também nos verbos de abertura?
talvez o hirsuto cavalheiro tenha razão, mas repare que a barba non facit philosophum, nem o verbo a acção.