18.5.18

falta-me, mais do que caminhar, um chão de terra onde possa cair e ficar quieta, até que outra alma tome conta de mim. e um vento suão, desalinhando-me os caracóis.
Os zés-ninguém

Sonham as pulgas comprar um cão e sonham os zés-ninguém sair da pobreza, que num dia mágico chova a sorte de repente, chova a sorte a cântaros; mas a sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem em chuvinha cai a sorte do céu, por mais que os zés-ninguém a chamem, ou que lhes comiche a mão esquerda, ou que se levantem com o pé direito, ou comecem o ano trocando de vassoura.
Os zés-ninguém, os filhos de ninguém, os dono de nada.
Os zés-ninguém, os nenhuns, os ignorados, apertando o cinto, morrendo a vida, fodidos, fodidíssimos.
Que não são, embora sejam.
Que não falam línguas, mas dialectos.
Que não professam religiões, mas superstições.
Que não fazem arte, mas artesanato.
Que não praticam cultura, mas folclore.
Que não são seres humanos, mas recursos humanos.
Que não têm cara, mas braços.
Que não têm nome, mas número.
Que não figuram na história universal, mas nos casos do dia da imprensa local.
Os zés-ninguém, que custam menos do que a bala que os mata.


/Eduardo Galeano, O livro dos Abraços/


Cai
Cai eternamente
Cai no fundo do infinito
Cai no fundo de ti mesmo
Cai o mais baixo que se possa cair

Vicente Huidobro 
mais

15.5.18

foi quando decidi não levar mais trabalho para casa que passei a viver no escritório.

14.5.18

A alma adora nadar. Para nadar, há que deitar-se de barriga. A alma despega-se e parte. Parte a nadar. (...) Fala-se muito em voar. Não é isso. O que ela faz é nadar. E nada como as serpentes e as enguias, nunca de outro modo. (...) Quando a alma deixa o corpo pelo ventre para nadar, produz-se uma tal libertação de sei lá o quê, é um abandono, um gozo, uma descontracção tão íntima.

/Antologia/
Underwater Choreography Performed in the World’s Deepest Pool by Julie Gautier

Daqui  Colossal

9.5.18

não posso ir convosco, tenho o coração obliterado, gemeu Sophia. não será partido? brincaram os outros, carnes velhas e rudes, mas Sophia nunca teve um coração de vidro, o buraco que esconde debaixo do casaco não engana, por ali furou o metal a sua carne de jovem fêmea. ficarás, então, permitiu Bartolomeu, sem nada mais acrescentar. talvez pudesse ter aproveitado o momento para ensinar a Sophia uma das maiores lições de vida de um excomungado - endurecer o coração como um osso e esquecê-lo numa rua qualquer, no momento em que um feixe de luz nos cegue e o semicerrar das pálpebras seja o último beijo das nossas vidas.

8.5.18

ficou decidido, redigido em acta abstracta, logo depois de Cirilo ter partido alguns dentes a Sicrano e a Beltrano, que o bom nome das nossas limpezas corria risco na praça e era urgente seguir para longe, deixar a poeira assentar, talvez conquistar o velho oeste. escorraçados por nós mesmos, partiremos em breve, pela calada da noite, escondidos dos burocratas e das forças policiais. 
voltaremos, como volta qualquer fora da lei ao local do crime, se deus quiser, carregando pepitas de ouro e arco-íris florescentes.

6.5.18

haverá um filho dentro de todas as mulheres?
Souvent je ne parle que pour toi, afin que la terre m’oublie.